MENTE CAPTO

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

170 - EU FUI À ROSETE...............................................




Não era ainda inverno mas a vontade de estrear o casaco novo fora superior a mim. Cinzento, em espiga, escondia a magreza que já então me habitava e dava-me um ar lavado, domingueiro, e melhor apessoado. Por isso, quando o despi, olhei cuidadosamente em volta procurando onde colocá-lo enquanto pelo canto do olho a mirava, sentada na beira da cama, primeiro uma perna, depois a outra, despindo as meias num langor ulteriormente tantas vezes por mim visto encenado nos cinemas

O quarto estava desguarnecido do mais básico mobiliário, a colcha era sóbria e a cama larga. Tudo exalava sobriedade e higiene, numa das paredes laterais um espelho enorme ocupava-a totalmente, no tecto outro, menor. Fora incluído no preço e nem distava do bar onde nos tínhamos concertado, pelo que dobrei cuidadosamente o casaco, desviei a moldura com a imagem de Nossa Senhora dos Mártires e coloquei-o lentamente em cima da cómoda

- A casa de banho é ali, 
  vai lavar-te antes sim querido ?

- Fui

O cheiro a desinfectante no sabonete fez-me lembrar que não devia ter embarcado na ideia da malta, mas lavar-me fui, afinal cada um de nós só queria levar que recordar quando regressasse à terra, era tarde para voltar atrás, mais a mais a empreitada estava paga, agora era não deitar dinheiro à rua. A imagem dos espelhos iria porém acompanhar-me vida fora e ensombrar-me.

Tirara as sortes na freguesia natal, mas da borga que antes delas cometera ainda os excessos se faziam sentir e, antes mesmo que mo explicassem apus, impante, a cruzinha no quadrado respectivo e que, nuns impressos, me indagava sobre a minha preferência por tropas especiais. O meio da tarde só os relógios o garantiam, porque naquele bar, mergulhado numa escuridão opiácea ali à Almirante Reis, as sombras eram as mesmas vinte e quatro horas por dia e somente o nosso exagerado optimismo, mais desafio que bom senso, nos levou a apostar no excesso dos excessos e comprar uma branca para cada um

À distância de tantos anos não recordo todos os pormenores, lembro termos ficado apurados para a tropa de elite, e que a minha escolha recaiu sobre uma ruiva, apenas porque as estroboscópicas luzes negras a fizeram sobressair no mar de gente àquela hora acotovelando-se na pressa de afogar mágoas ou celebrar alegrias naquele bar de mau nome

Após as meias despiu a peruca e, surpresa das surpresas saiu-me uma morena, bonita, de cabelo curto, e já agora feições roliças, não muito alta, bem bronzeada e melhor servida de peitos que bem me lembro de assim a ter pensado. Chamava-se Rosete e tapava-se com o lençol de molde a ficar meio destapada, não sei se me faço entender, afinal para o preço a carne até não me tinha saído cara, e já agora que falamos em carne, juro que jamais o tinha antes confessado a alguém mas no que me competia estava a ficar atrapalhado, ao contrário do habitual a tentação da carne não estava a ter qualquer resultado em mim e, pior que isso, parecia mesmo estar a produzir o efeito contrário ao que seria normal naquela situação

Abordei a cama com inusitada calma escondendo o receio e entabulando uma qualquer conversa parva para ganhar tempo, enquanto aflito ia pensando na Juliana, nas suas coxas carnudas e quentes, no encaracolado que a animava e que ela aparava com tanto desvelo, nos seios túrgidos que com risadas soltas me instava a titilar, e, em segundos, ou escassos minutos, horas desfiaram na minha mente sem que Pavlov me acudisse na tentativa de esconder o meu receio, que quanto mais tentava disfarçar mais afundava a esperança de recuperar alguma tesão que me pusesse em paz comigo próprio

Na realidade debatia-me com o inusitado e caricato simultâneo da coisa, da situação

Aflorara-me ao espírito quando me estendi sobre os lençóis lavados impregnados de forte odor a naftalina a ternura da avó Genoveva, que lá no monte quando eu criança abria o baú onde religiosamente guardava o seu vestido de noiva e dele retirava os alvos lençóis com que, para mim e com desvelo, completava a velha enxerga de pano riscado e palha de milho. À noite aconchegava-me a roupa, orava, e depositava no meu ouvido em sussurro uma ladainha, beijava-me, encomendava-me a Deus, abandonando-me vogando nos vapores de naftalina dos lençóis e dos sonhos por viver

Rosete, ruiva e morena, o odor a naftalina e as gratas recordações da avó Genoveva entrechocavam-se no meu cérebro coarctando-me a virilidade que o momento exigia, e, da atrapalhação volveu a salvar-me Juliana, agora subindo para a cama envergando o vaporoso véu que desde a primeira comunhão guardava e o vestido em tule que só maculara no noivado falhado. Orava solenemente antes de cada reboliço, recomendava-nos a Nossa Senhora, de quem era devota, e mergulhávamos pedrados sob efeito da fragrância a naftalina das suas vestes, nos desaforos da juventude que vivemos

A calma voltou a mim, devagar o receio dissipava-se, e à medida que Rosete me solicitava, acudi, vogando, ao seu chamamento de sereia como se a mão de Juliana me convocasse a descobrir os mistérios escondidos entre as suas vestes de filó e de vestal. Rosete resgatou-me do abismo. A falsa ruiva, afagando-me os cabelos do peito, os quadris, os ombros, conduziu-me, uma mão no pescoço outra tacteando-me as coxas e as virilhas, ao lugar de Adão, qual Eva guardando-se para mim. De pernas entrelaçadas fez que eu escorregasse lentamente para a cova do seu abraço e devagar, devagarinho, senti voltar a mim a confiança perdida. Senti-me marionete nas mãos dela que recordo calmas, macias, quentes, atrevidas e me transportaram à sua carne sensual e lúbrica, todo eu gelatina toda ela gelatina, cada um fundindo-se no outro numa lascívia diluída em sonhos, vontades e desejos,

 aproveitando a brecha no tempo mas ainda confundido se ela se a Juliana, mas agora travando-me e contendo-me porque se havia coisa que não queria era acabar antes de ter começado, invoquei ao pensamento os comboios em andamento, a estação de camionetas da minha terra na hora de ponta, a avó Genoveva degolando uma galinha, tudo servindo para conter o fim anunciado e travar o desejo louco e desenfreado que finalmente me cavalgava e dominava, isto quando num estertor final em que a luxúria me atirava de mergulho no abismo e ela

- Não, na boca não, 
  esta boca só o meu homem beija

E foi assim mesmo, e momentaneamente eu todo nulo outra vez, mas eis que então no pensamento já nem Juliana nem comboios mas muito além de tudo isso, o corpo mergulhando, estremecendo e vibrando numa vontade superior a mim e que já nem consegui conter e então, numa ultima pose de macho digno, abandonei-a, abandonei-me, pernas e braços abertos ocupando quase toda a cama, no descanso do guerreiro, olhando o tecto, ela oferecendo-me um cigarro

- Obrigado não fumo

Mas fumava, nem sei porque o neguei, não me digam nada agora, nem um cigarro, deixem-me só cinco minutos pelo menos, e nem cinco minutos porque logo ela

- Anda, anda daí vamos, o quarto não pode ser ocupado por demasiado tempo e o meu homem conta cada minuto que aqui passo

E lá se foi o encanto, durante mais de trinta anos calei isto porque de nada me orgulho inda que o mal esteja feito, o mal ou o bem, então, já nada sabia…

Todos saímos com mulheres naquele dia, todos mandámos abaixo a nossa grade de cervejas e uma garrafa de uísque manhoso. Do mais novo ao mais velho nenhum de nós teve mais juízo, eu tive sorte, dos seis que naquele dia armámos em homens o Baleisão ficou na Lunda, o Tóino Almeida na Guiné com o Abel, o Sarmento em Díli, eu apanho uma tosga de quando em vez ou lá bem de vez em quando, e tudo esqueço, ou faço por esquecer tudo …



https://www.youtube.com/watch?v=PsA6Gy1jZtc

                 " A queda de um anjo "
                     Canção dos Táxi



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Letra

Era novo a noite estava fria
E ninguém sabia o que fazer
Ir p'ra casa com alguns amigos
Ou exp'rimentar prazer
Tudo foi muito bem pensado
Até tomámos uma decisão
Ir tentar a casa da rosete
É o tira e mete que boa diversão
É o melhor p'ra quebrar a tensão
É o melhor p'ra quebrar a tensão
Eu vou exp'rimentar, eu vou exp'rimentar
Eu vou à rosete
Eu vou à rosete
Eu vou à rosete
É uma tentação, mas que tentação
O transporte era o mais difícil
Mas com sorte consegui resolver
O manel, o quim e eu à frente
E os outros foram lá ter
Deparámos com uma casa antiga
Mas ninguém queria ir bater
Ao todo éramos uns sete
Foi a rosete que veio receber
A malta toda estava a tremer
A malta toda estava a tremer
Mas eu vou entrar
Mas eu vou entrar
Eu vou à rosete
Eu vou à rosete
Eu vou à rosete
É uma tentação, mas que tentação
Depois disso já por muito passei
O que lembro não me interessa contar
Só sei que foi tudo tão bom
Eu hei-de lá voltar
Dessa noite não me esqueço mais
Só que disso não podemos falar
Foi na casa da dona rosete
O tira e mete é de chorar por mais
O mete e tira e outras coisas que tais
O mete e tira e outras coisas que tais
Eu hei-de lá voltar, eu hei-de lá voltar
Eu fui à rosete
Eu fui à rosete
Eu fui à rosete
Eu hei-de lá voltar, hei-de lá voltar
Eu fui à rosete
Eu fui à rosete
Eu fui à rosete
Eu hei-de lá voltar, eu vou exp'rimentar
Eu fui à rosete
Eu fui à rosete
Eu fui à rosete é uma tentação, mas que curtição
Eu fui à rosete
Eu fui à rosete
Eu fui à rosete
Eu vou lá voltar !!!!!!





Humberto Baião at 20:51
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