O
comboio bufara todo o santo caminho, mas falhara a ligação e, quando cheguei
era tarde, tardíssimo, encontrar um lugar onde almoçar àquela hora seria
milagre, e o milagre aconteceu, muito, muito antes de sabermos onde seria o
almoço.
Era tarde
e a calorina queimava-nos as faces, vi-a mal pus um pé fora da estação, passado
tanto tempo ainda me esperava, afogueada, certamente tão cheia de fome quanto
eu e, quase corremos um para o outro, quase, quase…
Foi o
maior o mais longo e saboroso abraço da minha vida, nem sei qual dos dois
tremia, se eu, se ela, se o mundo a meus pés, não sei não…
De caminho
divisámos muitos restaurantes exibindo orgulhosamente a tabuleta de fechados, mas,
passando ao fundo da avenida sentimos um aroma pairando no ar, uma pizzaria
aberta, talvez ainda em limpezas. Desculpei-me com o atraso no comboio e apresentei-me
como cliente mistério, cliente surpresa, cliente espião, e não tivemos
problemas em sermos recebidos e servidos.
Almoço
à hora do lanche, tão tardio que nem lembro que pizza ou pizzas escolhemos,
lembro, apesar de tudo, do atraso, da fome, da boa disposição dela, do sorriso
dela, da alegria dela, dos olhos vivos dela, eu no céu contemplando a beleza, já
sem fome alguma ainda antes das pizzas comidas.
Brincámos
todo o almoço e brincámos com o pessoal, quando nos retirámos ficou tudo em
pratos limpos, e a mentira do cliente mistério pairando no ar sem ameaças. Com
graça até.
Eu já
estava apaixonado há muito tempo, essa paixão nunca haveria de deixar-me, e não
deixou, não me deixou, mas cegou-me. Então, tudo o que via era meu, tudo que desejava
me era satisfeito, senti-me um rei, com todos os direitos e mordomias, fiz-me egoísta,
passei a exigir, ou era como eu queria ou não era, foi quando começou a crescer
entre nós um pequeno muro, depois mais alto e mais alto, coberto de hera, alimentada
com o meu egoísmo, soberba, arrogância e presunção.
Enquanto
e em simultâneo me enganava a mim mesmo sendo altruísta, simpático, empático
para com a minha rainha, precedendo-lhe os passos, estendendo-lhe á frente a
passadeira quando ela caminhava, correndo pra cuidar do mínimo que ela
alvitrasse, cuidando que nada lhe faltasse e…
foi assim que a matei …

Foi assim que sem dar por isso e de tão ocupado com as minhas ambições e gostos ou preferências que comecei a faltar-lhe. Eu, de tão preocupado em fazer o bem que ia deixando atrás um rasto malcuidado, eu sempre lembrando o óbvio, mas não vendo o obtuso, lembrando o acessório e esquecendo o essencial, eu de tanto que quis proteger acabei ferindo o meu bem mais precioso.
Sempre presente para todos faltei a quem mais precisava de mim, sou culpado, sei que sou culpado, não serei o único, mas sou, não procuro desculpas e somente agora tento compreender como pude chegar onde cheguei, tão longe na senda da estupidez.
Pontapeio durante o caminho e enrraivecido vários monticulos de folhas que os varredores juntaram meticulosamente talvez com o fito de mais tarde as virem ensacar. Não sou mal-intencionado, nunca o fui, mas culpado sim, pelo menos meio culpado. Tão irresponsável
quão indiferente, nem soube cuidar de
quem amava, quis fazer o bem acabei fazendo o mal, estava atento, mas não ao essencial pois conhecia
factos aos quais não compreendi ou acudi
a tempo. O significado, o alcance e o reflexo das minhas atitudes não eram visíveis
a mim mesmo, eu não via o que devia fazer e em muitas atitudes ou procedimentos
falhava no que mais importava.
Verdade
que exigia muito de mim, mas não percebia o que ela reclamava nem tão pouco se era
justo com todos. Afinal acabei sendo injusto com alguém em relação a quem me
julgava perdulário, dava aos outros enquanto faltava a quem mais precisava de
mim, queria poder ter acertado mas errei precisamente onde ou com quem tal não
podia nem devia ter acontecido.
Desculpas? Não procuro desculpas para a minha culpa; procuro entender o meu erro. Volvo e revolvo esta minha confissão, esta reflexão inútil por tardia, este confronto comigo próprio, eu via, só não via aquilo que mais precisava ser visto porque o amor cega, e a soberba sobrepõe-se à ganância já que ao olhar tão intensa e somente para o que nos interessa deixamos de reparar noutras facetas dessa tão candente questão, paulatinamente volvida problema.
E, no entretanto,
cegos, vamos andando correndo, destruindo aquilo que seria essencial preservar,
não me estou defendendo estou a descobrir exatamente como e quando a matei…
É provável
que, distraído, não lhe tenha dado aquilo que, para ela, seria o principal e
fiquei vivendo com a consciência de a ter destruído, carregando um peso na
consciência e a certeza de que muitas vezes não é a falta de amor que destrói
uma relação, é a incapacidade de cuidar do amor que nela devia existir e
florescer… Cuidado que cabe a ambas as partes, reciprocidade se chama essa
responsabilidade…
Matei
o amor que vivíamos, mas não matei o amor que sinto. Perdi-a, mas não perdi o
meu amor por ela. Continuar a viver com os dois factos ao mesmo tempo, o que
vive e o que morreu, e isso, que era algo propriedade e responsabilidade dos
dois, resume-se agora àquilo que ficou vivo ficou dentro de mim.
Não
estou tentando transformar o crime em heroísmo. Enquanto criminoso reconheço o
crime, porém o romântico em mim continua a amar aquilo que perdeu. O alvo
desse amor desapareceu da minha vida, o amor permanecerá dentro de mim.
E daqui nasce uma personagem muito mais
interessante: culpado, mas não cínico; arrependido, mas não à procura de
absolvição; justo comigo próprio, mesmo quando a sentença é dura; e ainda
apaixonado por aquela que perdeu.
Trata-se de poetizar a minha dor, a dor do
culpado, uma dor sem remissão. Ela perdeu-me; eu perdi-a; mas o meu amor por
ela não morreu.
Talvez seja precisamente esta a minha “pena” o amor
continuar vivo depois de ter destruído aquilo que o sustentava. Cabe-me agora descobrir
onde está a verdade mais forte, na saudade ou no esquecimento.
A ver vamos.



