domingo, 10 de maio de 2026

849 - PRIMEIRO PASSOU ELA , DEPOIS ELE ...

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                       


Primeiro passou ela em passadas pequenas, uma criança à ilharga, ténis baratos dum rosa velho bonito. Depois, talvez meia hora depois passaram eles, isto é, ela de novo, igualmente com a mesma criança á ilharga e, num esforço para a acompanhar ele, aos passinhos, mais aos pulinhos ou saltinhos que aos passinhos, nem andando nem correndo, somente perseguindo-a, não querendo perdê-la e, na falta duma passada maior, saltitando para compensar. De mochila às costas, talvez saído da pré-primária ou do jardim-escola e, como eu, ávido do lanche, eram horas dele, disso.

 

É em fogachos destes, cenas destas, lembranças de situações assim que tento lembrar os meus vinte e muito poucos anos, o meu petiz, os momentos mais marcantes com ele, com a mãe, nós três ali, acoli, acolá, e é um vazio trágico que me assola, que se instala em mim, que corrói, que desestabiliza, que tira o sono e dói.


 Curiosamente desses momentos felizes é raro haver ou nunca há uma foto, apenas uma lembrança na memória, algo que não se apaga, antes volve inutilidade já que lembrar é viver, e vida é precisamente o que me falta para suportar tais pensamentos, tais momentos, tormentos, mágoas, pesadelos, sofrimentos. 


Foram 50 anos deitados ao lixo, é somente o que me ocorre, um desperdício de cinco décadas, irrecuperáveis, inda que eu de novo na meta disposto a recomeçar, de novo só, de novo sem nada mais que cinquenta anos em cima do antigo começo e, menos vigor agora, menos motivação, menos vontade, vontade nenhuma de iniciar o que quer que seja, vontade de nada, contrariando o poeta e desdizendo-o pois não acho mesmo que o nada seja tudo além do mito, da lenda, da recordação prenhe de sentido mas vazia de conteúdo, ainda que cheia de uma saudosa realidade porém neste momento não mais que simbólica.

 


Natural e felizmente, para não entrar em desespero e porventura correr o risco de chocar alguma depressão, tenho amigos e amigas, alguns (as) fora de Évora, nas cercanias direi, e quer esses e essas quer os e as muitas eborenses que me apoiam emocional e psicologicamente, ainda me acham um homem relativamente novo e sobretudo um viúvo interessante e a não perder. Quase constantemente me vejo surpreendido (prova de que nem são capazes de me conhecer a fundo), gente com quem convivo bastante, e exemplares ou espécimes que do ponto de vista curricular vão desde o ensino médio a licenciaturas, mestrados e doutoramentos.

 

Graças a isso ou precisamente por isso ensinaram-me (eu nem imaginava que, quase a fazer 73 anos ainda seria uma máquina na cama), ensinaram-me dizia eu, a melhorar e diversificar as minhas potencialidades no que concerne a prestações de alcova, de tal modo que, correndo o risco de parecer mal agradecido mas para ser sincero, apesar de tanto tempo e lições despendidas nada mais aprendi com elas, tendo constatado mesmo imensas lacunas que me levaram um ror de vezes a concluir que nem sobre a matéria que supostamente deveriam dominar são capazes de manter uma boa prestação ou agradável conversação.

 

 A ignorância grassa entre uma catrefa delas (e entre muitos deles) como fogo em pasto seco e eu, que por mor da idade e do passado tenho uma vasta experiência e jogo com a fasquia alta, não aceito passar de cavalo para burro. Pasmo a ouvi-las (como pasmo de os ouvir a eles), vulgarmente esquerdistas e convictas, ignorantes natas, portadoras duma cegueira de tal modo abissal que nem são capazes de somar 2 + 2 ou tirar a mais simples ilação do que quer que seja mesmo que salte à vista... Mude eu de meridiano, de trópico ou não, desde que não saia desta cidade esbarro com a mesmíssima coisa em toda a parte… Vou ter mesmo que me mudar para o Porto …….

 


No meu estado de viúvo "descomprometido" tenho-me apercebido de coisas inacreditáveis, as quais, se as não tivesse vivido custaria a crer nelas... Por um lado lá em cima o céu ou o tiro liro liro, e cá em baixo o inferno, ou o tiro liro ló…

 

TIRO LIRO

Lá em cima está o tiro-liro-liro,

Cá em baixo está o tiro-liro-ló !

Lá em cima está o tiro-liro-liro,

Cá em baixo está o tiro-liro-ló !

Juntaram-se os dois à esquina

A tocar a concertina, a dançar do solidó !

Juntaram-se os dois à esquina

A tocar a concertina, a dançar do solidó !

 

Comadre, minha comadre,

Ai eu gosto da sua pequena !

Comadre, minha comadre,

Ai eu gosto da sua pequena !

É bonita, apresenta-se bem,

Parece que tem a face morena !

É bonita, apresenta-se bem,

Parece que tem a face morena !

 

Lá em cima está o tiro-liro-liro,

Cá em baixo está o tiro-liro-ló !

Lá em cima está o tiro-liro-liro,

Cá em baixo está o tiro-liro-ló !

Juntaram-se os dois à esquina,

A tocar a concertina, a dançar do solidó !

Juntaram-se os dois à esquina,

A tocar a concertina, a dançar do solidó !

 

Comadre, ai minha comadre,

Ai eu gosto da sua afilhada !

Comadre, ai minha comadre,

Ai eu gosto da sua afilhada!

É bonita, apresenta-se bem,

Parece que tem a face rosada !

É bonita, apresenta-se bem,

Parece que tem a face rosada !

 

Lá em cima está o tiro-liro-liro,

Cá em baixo está o tiro-liro-ló !

Lá em cima está o tiro-liro-liro,

Cá em baixo está o tiro-liro-ló !

Juntaram-se os dois à esquina,

A tocar a concertina, a dançar do solidó !

Juntaram-se os dois à esquina,

A tocar a concertina, a dançar do solidó !

 

By “7 Saias” -  (cantiga popular tradicional)

 


Ante tal situação vou ou vamos namorando, namoriscando, embora já não tenha idade para isso, contudo na minha diáspora pessoal, na minha busca, ainda não encontrei mulher que considere reunir as qualidades que reputo essenciais a fim de me garantirem uma vivência em paz comigo já que não sou fácil de aturar antes bastante selectivo e exigente... Não vos esqueceis que vivo rodeado de mágoas, e inda que haja muitas formas de as minorar, há quem se drogue, quem se entregue aos fáceis devaneios e delírios do álcool, quem insista e invista no desporto, daí as minhas idas ao ginásio, e quem se entregue nos braços de musas e ninfas para esquecer as agruras desta vida, foi a opção que entendi ser a mais correcta e a menos prejudicial à minha saúde, o sexo como remédio e refúgio, para além de nunca ter visto ou ouvido noticia de quem se tivesse afogado em sexo bem pelo contrário, não me canso de ouvir clamar que o sexo é seguro, então se é seguro por quê hesitar ou ter dúvidas ?

 

Almocei um destes dias umas enguias nos subúrbios de Sesimbra na urbanização da Zezinha, no restaurante dum alentejano de Serpa que para ali se mudou há uns anos. A Zezinha é uma Engª de "logística" (nem ela sabe bem o que isso é nem o que devia fazer ou faz mas preenche necessidades legais no quadro de pessoal) da CM do Montijo que não me larga e que eu poderia ter escolhido se ela não tivesse 2 filhos problemáticos (e eu um).

 

Fala muito, fala pelos cotovelos, quer ela quer as amigas, e quer essas sesimbrenses quer as muitas eborenses e alentejanas com quem me é dado conviver posicionam-se em polos opostos, ou não dizem nada e o pouco que dizem nunca é nada de jeito ou falam demais e quem muito fala pouco acerta… Na realidade não sei se evitam contactos e conversas por serem púdicas ou tímidas, o que na minha idade, e delas, é uma idiotice, ou se se calam por de boca fechada não sair asneira e assim conseguem acreditar que nunca viremos a conhecê-las, esquecendo que calar-se é também uma atitude e como tal passível de ser avaliada e mensurável… (a)



Lamentavelmente a vulgaridade tomou mesmo conta da urbe, do país e do mundo, sorte a minha que já não durarei muitos anos e me verei livre do que de ordinário (no sentido de vulgar, normal, o contrário de extraordinário) o planeta tem para nos oferecer. Que saudades duma mulher inteligente... (b)


 

(a)  -  https://mentcapto.blogspot.com/2018/02/487-dificil-arte-de-ver-e-de-olhar.html

 

(b) - https://mentcapto.blogspot.com/2018/07/519-mulheres-inteligentes-apanha-las.html




sábado, 9 de maio de 2026

848 - “TRIVIUM” “LOGOS” “PHATOS” E “ETHOS”

 



Agora, passados mais de 7 anos sobre a sua morte é que a memória me insta me convida me convoca a recordá-la como nunca o fizera antes.

 

 Não sendo desagradável não deixa porém de ser estranho, parecendo mesmo que o destino me contraria propositadamente, através da névoa com que carrega a sua imagem e lhe vai toldando as feições lindas de que teimo não me desapegar.

 

Foram muitos anos, é muito ano, é muito tempo, são contudo muito poucos os dias de que não me lembro mas, tivessem esses dias sido maculados e mesmo esses lembrá-los-ia todavia como algo de que por certo alguém nunca se arrependeria.

 


No outro lado da moeda os dias felizes dos quais de vez em quando me vem um deles à memória e então, todo o dia o lembro, te lembro, nos lembro, e lembro como por esses anos a felicidade era norma e normalidade, quando agora essa mesmíssima constância mais não sustenta que a saudade.

 

 Como ao tripé de uma máquina fotográfica que fixamos bem no chão, a fim de que a foto não saia tremida, também a saudade assentou arraiais e não manifesta intenção de abandonar o local nos tempos mais próximos pois quando parecia libertar-me do que em ti me prendia a atenção, o intento, vago, sumiu-se como a água que nos foge entre os dedos e não conseguimos segurar.

 

Culpa minha que não previ essa eventualidade, habituado que estou ao analógico e ao digital, jamais lembrando as lendárias e misteriosas ampulhetas, ou as clepsidras, onde a areia ou a água se escoavam como se escoou esta oportunidade que deixei fugir como um tolo a quem tudo chama a atenção e fustiga a curiosidade menos a sua tolice. Por isso chorei mais tarde sobre o leite derramado como se tal me pudesse consolar, tanto ou quanto nos conforta a chuva no molhado.


Tolice e excesso de confiança podem perder-nos, cegar-nos, mais a mais se lidamos com reagentes básicos que nem necessitam duma solução química complexa para entrarem em ebulição. Assim são, assim reagem os hominídeos, os primatas, são reacções, atitudes e comportamentos inatos, são reflexos automáticos, primários, geralmente com resultados que mais tarde viram arrependimento, quantas vezes sem solução.

 


 Atitudes impulsivas e irreflectidas normalmente só nos ajudam em casos de perigo iminente, fora isso comportamentos impensados tornam-se mais destrutivos e prejudiciais do que podemos imaginar. Ele há gente que à mínima faz a trouxa p’ra zarpar.

 

 A prática do diálogo, em especial o cultivo nobre da retórica são os argumentos ou as armas que devemos utilizar numa qualquer conversação, pois alimentam uma troca de impressões sadia, elevada, e sobretudo baseada na racionalidade que a todos nós, e sempre, deve animar.

 

Constatei ao longo dos anos, ao longo do tempo que sobre a retórica cai um estigma injusto, fruto da ignorância de muitos, do preconceito errado de outros tantos, em especial de quem não usa a cabeça, de quem não está habituado a cultivar pensamentos e juízos de valor bem questionados antes de volverem palavra de ordem.

 




Disparar a primeira ideia que nos vem à cabeça pode ser um tiro nos pés, ou um tiro que acaba saindo pela culatra, de qualquer maneira será sempre o precipitado atirador a sofrer as mais pesadas penas pela sua atribulada e impulsiva atitude.

 

Bem sei que é meu costume esticar a corda, demasiadas vezes até partir, no entanto nunca permito que caia no esquecimento o espaço livre para o diálogo e para a retórica, retórica que mais não é que a arte de bem falar, ou a capacidade de persuadir o interlocutor, e persuadir ou convencer não significa enganar, manipular ou ludibriar.

 

A retórica é a prática de um discurso claro, bem estruturado, convincente, já que pretende sobretudo convencer, influenciar, mas dentro do espírito grego clássico que somente entendia a retórica ligada à “logos” ou lógica (verdade e simplicidade) ao “phatos” ou ligação à emoção, ao discursar emotivo, vivo, e ao “ethos”, que ligava ou comprometia o orador, o falante, ligando-se ao seu carácter, à sua personalidade, que dessa forma beneficiava ou não de autoridade moral, á qual “pintava” de ou com características que o creditavam, que à “priori” lhe atribuíam credibilidade. O contrário que vulgo encontramos num fala-barato.

 

“O gesto é tudo” não anda desligado da oratória, da retórica, pois se falarmos com clareza e objectividade, a nossa postura, a linguagem gestual, não devem nem podem contradizer tudo quanto afirmamos. 


P’lo menos foi de um modo coerente que antes de se ir ela espalhou por toda a casa flores, dezenas de flores se podem ver adossadas às paredes em vasos pendentes e sobre a mesa da varanda, alegres e alegradas com a Primavera, com os dias de sol, a calmaria e paz, como numa tela.

 

Passados anos, encontraremos sobre idêntica mesa, esquecidos ou descansando, os pincéis dela, as cores, as alegrias e os motivos, uns exuberantes, outros esquivos, uns ditando o rumo, outros traçando o destino e, agora que chega a hora, a hora do sol no vértice, sucumbiriam de tristeza essas flores alegres que alimento célere antes que percam o viço, a alegria, o sorriso, como eu perdi o meu num Outono velho, triste, que desejava esquecer e não esqueço.

 

Como nunca esqueço o pequeno regador na varanda, sempre cheio, sempre presto a não deixar morrer as flores, para que floresçam, e vivam e alegrem a vida dos passantes, dos caminhantes e visitantes ou meros observadores que com tanto desvelo as mimam para que vivam, para que ditem um futuro vivaço como a cor das suas pétalas, rosadas, esbranquiçadas, esverdeadas, para que se ergam em pé, erectas sobre os caules e confiantes caminhem no presente e no futuro, radiosas, quais anjos celestes e preste preste ordenem de novo o mundo, o futuro, o presente, o dia, o devir, esse devir em que, lembrando o mestre, o nada é tudo e tudo se transforma numa mudança contínua, na transmutação dos seres, na passagem da sua imanente inconstância para a transformação e afirmação continuas das suas existências.

 


Havemos e devíamos plantar mais flores e regar mais vezes esses vasos que nunca esqueço e acabei agora mesmo de regar e, já que estou com as mãos na massa, vou guardar numa caixa os pincéis, as cores, as telas dispersas antes que este sol matreiro a tudo roube a cor como o destino me roubou a esperança.

 








sexta-feira, 1 de maio de 2026

847 - O VIZINHO BOM, OS VIZINHOS BONS .....

 


  

Quando calha, vulgo inesperadamente, nem sempre mas de vez em quando, quando me aproximo duma janela ou de avental ando a cirandar pela cozinha, vejo-os, gosto de os ver, não que se escondam, ou que se furtem às vistas. Não, nada disso, simplesmente partem ou chegam, ou procuram o abrigo de uma sombra para o carro, uma oportunidade ou espaço vago junto ao passeio, um modo de ficarem mais próximos da entrada e pouparem o bebé a esta calorina.

 

Ela, jovem, alheia aos compridos cabelos que a toldam de sereia, sorri, sorri sempre, nunca dei por ela que não sorrindo, de olhos brilhantes e vivos, boca ingénua de quem ainda sonha, ou mais não tem ainda que sonhos, e linda.


  Ele igualmente jovem, de ar limpo, cabelo aparado, cabeleira poética, porte atlético, humano, sério, brioso, confiante, um homem já, riso comedido, sorriso franco, alto qb, um Adónis em potência, a coisa promete.

 

Pelo menos comigo e a minha Luisinha prometeu, Prometeu abençoou-nos, promessa que durou anos e anos, décadas. Desde imberbe e quando eu na minha mota azul, cabelo p’los ombros, barba despontando, sério e brioso, confiante, quase homem, me entreguei num compromisso para a vida confiante, ainda sonhando, e com muitos, muitos sonhos nesse momento alinhavados, quase quase todos cumpridos.

 

Ele acciona o start do carro brilhante de novo (brilhando como os sonhos?), ela sorri cúmplice e, colocado o bebé no lugar, entra ligeira e álacre rumo a uma qualquer “Lagoa Azul”.

 

Eu fico, vendo-os partir, e volto a sonhar com o teu rir Luisinha, com o teu gargalhar feliz, com o brilho dos teus olhos, tu ágil como uma sereia, sim enquanto viva foste sempre uma sereia, e um sonho lindo.

 

Gosto de os ver sim, porque neles me revejo, e com eles rememoro, e me iludo de um tempo que não volta mais e jaz na minha mente como se 1 de Novembro todos os dias e eu, depositando flores numa lápide imaginária, imagino o passado remoto como estando presente e tendo ainda futuro, pois muitas vezes o melhor que conseguimos da vida são os enganos e ilusões a que nos entregamos, que prolongamos e revivemos, como se não houvesse hoje nem amanhã, apenas um passado que ao mínimo pretexto nos convoca, provoca, trai e ludibria, sabendo ser precisamente isso que dele esperamos e nada mais que isso.

 

Desembaraçada, ela apeia-se com elegância, sacode por vezes os cabelos com um gesto airoso, estudado,

 

tal qual tu, estudante ainda, dona de casa cedo e por obrigação, leviana nos tempos livres como acto de libertação e independência da mulher democrática que já eras, que sempre foras e continuaste sendo.

 



 

Foram tempos engraçados, o bambúrrio da revolução, a libertação dos tabus, a afirmação do ser, do sermos, o princípio do fim. Tempos lindos, tempos de liberdade vera, com os quais passados pouco mais de quarenta anos conseguiríamos rebentar, por facilitismo e laxismo. Ainda bem que partiste e não viste, não vês, não presencias o suicídio desta democracia pela qual tanto lutámos, lutaste.

 

 Ele, com um toque desinteressado atira com a porta do carro, não atira, fecha-a. Certamente acredita que haverá um tempo para ele, para eles, oportunidades para eles, para todos, engana-se mas não sabe, como eu me enganei sem o saber e só acordei passados tantos anos e, quando era ineludível que não avançávamos, mas recuávamos dois passos por cada um dado em frente.

 

Era jovem e acreditei, como não acreditarão eles que vivem um sonho que eu próprio já vivi ? Que talvez calcorreiem os mesmos caminhos e as mesmas ruas que já percorremos ? Juntos contra o mundo acreditam ter forças para tudo enfrentar, como nós enfrentámos, portanto deixai-os sonhar como eu sonhei, como nós sonhámos, não sabíamos nada, não sabem nada, será melhor assim…

 

 Ainda hoje não sei nada, e saberei cada vez menos. Sei, lembro-me bem, que ela me tirava o sono, me tirava o sono e me tirava do sério, a terra parecendo o céu, os minutos horas, o presente algodão doce e o futuro cor-de-rosa, lilás, fúcsia, polvilhado de estrelas e promessas, num imenso tapete alcatifado que se sumiu repentinamente debaixo dos deixando-me sem chão quando menos dei por isso.

 

Piso com cautela o caminho que percorro agora, olhando criteriosamente para onde ponho os pés por não ter onde me agarrar, me segurar, tu eras o meu porto.

 

Avanço tacteando, apalpando, tal qual um cego, vivendo de lembranças e memórias inda vívidas em mim, contudo cada dia mais difusas, apagando-se aos poucos.  

 

Por isso gosto de vos ver, de vos ver vir, de vos ver ir, de vos ver chegar, de vos ver partir.

 

 Lembram-me eu, lembram-me ela, lembram-me nós. São um espelho cujos reflexos recebo como um negativo que na tina os cristais, óxidos, soluções alcalinas, metol, hidroquinona e haletos revelam, libertando sonhos e recordações, fecho os olhos, respiro fundo e então visões.

 

Absorvo essas emanações e tantas outras, de tiossulfato de sódio, de ácido acético glacial, d’ácido cítrico e de sulfito de sódio, não mais que eflúvios capazes de projectar na minha mente um diáfano holograma, monocromático ou colorido do melhor que em mim fixei.

 


Embora os jornais pintem os dias futuros de um escuro indizível, a esperança sobrepõe-se á mais ténue crença e, dois passos em frente um passo atrás, avançamos tão confiantes quanto o equilibrista no arame que os astros seguram e o destino estica, dando tensão á vida e ao viver que com alegres cores pintamos na tela do futuro, alheados da firmeza, ou falta dela, em que o cavalete assenta os pés na terra.


                                            “ CARPE DIEM ”



 A LAGOA AZUL

https://www.youtube.com/watch?v=eq7M89rpSCA


MELODY 

https://www.youtube.com/watch?v=1B8a99J0bMU


VERÃO 42

https://www.youtube.com/watch?v=oYu6HtUxRJs