terça-feira, 8 de março de 2022

760 - A SOLIDARIEDADE COMEÇA EM CASA ...


Há anos que as Finanças e a banca portuguesas penhoram as casas aos casais que têm o azar de cair no desemprego ficando incapazes de as pagar, sendo postos na rua quase a pontapé... (por trás de cada penhora esconde-se uma tragédia).

  Nunca vi na AR uma denúncia desses dramas por deputado nenhum, nem vi alerta ou solidariedade por parte dum só português que lhes acudisse...

 E são gente da nossa, são os nossos...

 “Emigrem se quiserem”, “não se acomodem a situações de conforto” , “nem vivam acima das vossas possibilidades” é isto que lhes dizem, e se não emigrarem que vão pedir esmola e arranjem um barraco onde dormir, ou debaixo duma ponte...

 É assim que tratamos os nossos. Não vou agora receber os de fora de braços abertos, não me peçam isso...

 Claro, que sou solidário com todos os refugiados de todas as guerras, mas se pudesse tb apertaria o pescoço a quem esquece os nossos, começando pelos PMs e PRs que temos tido .....  Ou esses tb não têm culpa ? ...

 A caridade, já dizia a minha avó,  deve começar em casa...

 Abraço apertadinho e solidário :/




 

terça-feira, 1 de março de 2022

759 - MINHA CASA, ESTA MULHER ... * (1942)

                                            Chagal - "Aniversário"


MINHA CASA, ESTA MULHER

POEMA DE SANTIAGO KOVADLOFF  *

  

"Minha casa é esta mulher que agora dorme ao meu lado. Como ela, com ela, tudo ao meu redor descansa.

 

Quando ela acordar, as coisas também. As portas se abrirão novamente, a água voltará a correr, passos animarão a velha escada, a luz voltará a cair sobre as plantas.

  

Voltarei à minha mesa, às palavras, e a sua voz, como uma auréola, rodeará meu dia.

  

Quando ela for trabalhar, levantarei os olhos da página, e uma tapeçaria, um cravo, um amuleto inesperado na cozinha da casa repetirá o nome desta mulher que povoou tudo com sua presença e o sucesso de suas mãos.

  

Ela é a minha casa, a porta principal de acesso ao significado desses cómodos. Se o egoísmo ou a indiferença interrompem nosso encontro, a casa escurece.

 

Como uma dura denúncia de uma solidão irremediável, as paredes estarão carregadas de presságios, a cor de cada coisa retrocederá, a casa esvaziar-se-á, e morar nela será expor-me aos elementos.

  

Minha casa é esta mulher que agora dorme ao meu lado. Quando ela está longe, tudo está longe na casa; sem ela as coisas em meu redor andam aos montes, e estar aqui torna-se uma tortura; assedia todos os lugares, cada passo dói, cantos e objectos tornam-se inúteis.

 

E a casa lembra, num sussurro triste, que um dia soubemos ser melhores. Se a alegria renasce, a casa renasce.

 

Quando a lucidez ou o desejo nos une novamente, a casa se ilumina novamente: meus papéis fazem sentido, cada cómodo é a evidência de um projecto. A casa toda é uma festa e o sopro suave e denso da vida desce novamente a velha escada".

  

* Santiago Kovadloff (Buenos Aires, 14 de diciembre de 1942)



                                         Pintura de RAMON CASAS  

sábado, 19 de fevereiro de 2022

758 - MARGARIT, AVENTURA DOMÉSTICA *


AVENTURA DOMÉSTICA *

 

Sozinho em casa procuro nos armários.

 

Encontro antigos mapas de estradas,

contratos que venceram, esferográficas

que não escreverão mais cartas, velhas calculadoras

sem pilhas, relógios que o tempo derrotou.

 

O passado aninha-se no fundo das gavetas

como um rato triste.

 

Vazios, os vestidos pendem

como velhas personagens que nos interpretaram.

 

Mas de súbito encontro a tua lingerie,

da cor da noite, da areia; fina, com pequenos bordados.

 

Cuecas, soutiens e meias que desdobro

e que me fazem regressar ao brilhante, embora misterioso,

fundo de amor e sexo:

 

é ele que, de facto, dá vida às casas, como os faróis e as luzes

de barcos e cafés a um porto ignorado…

 

        *Joan Margarit – 2018 - AVENTURA DOMÉSTICA








segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

757 - " É SIMPLES " https://www.facebook.com/nini1976

 


É SIMPLES  *

É simples

Junta-me a ti e

Deixa-nos estar assim

Um bocadinho

Depois

Começa a passar o indicador esquerdo,

Devagar,

Sobre o meu ombro direito.


Respira.


Respira mais uma vez e

Tantas, junto ao meu ouvido,

Enquanto vais passando,

Devagar,

O indicador sobre o meu ombro.


Agora

Afasta-te um pouco

Procura-me o olhar

Abandona-te nele.


Deixa-te ir,

Não tenhas medo.


Nesta altura já sou eu que respiro

Junto a ti.


Não sei se há palavras

Se precisamos delas.

Temo-nos.


Passaremos assim pelo tempo.


Um dia

O meu ombro já não será tão liso

E o teu indicador tremerá.


Mas, se fores mesmo tu,

Ainda nos abandonaremos

Um no outro.



*  Cristina Gameiro

https://www.facebook.com/nini1976


https://www.facebook.com/photo/?fbid=10226252820536028&set=a.10206741043433795



sábado, 12 de fevereiro de 2022

756 - ROMANCE DE AMOR EM MATALASCAÑAS.



E assim a saudade o desejo e a tua ausência em simultâneo evoluem num sonho lindo que alimento, mais acordado que dormindo, estendido a teu lado em Matalascañas, recordações que me trazem encantado há tanto tempo, esquecido de tudo e de todos, e de mim, que me não penso, já que somente nesse sonho vertido em esperanças inverosímeis me é possível acalentar-te e ter-te.


 Tu na janela olhando o mar, a lua, empinando, eu por trás de ti, abraço-te, desvairado com o calor do momento, o odor do momento, tu entreabrindo as coxas, eu aspirando sôfrego a fragrância que trouxeste do banho, colando-me a ti, sentindo-te o desejo sem que consiga segurar o meu, colo-me mais, abraço-te e tomo nas mãos o teu peito, o coração batendo-te descompassadamente, os mamilos endurecendo, o peito inchando, separando os pés, as pulseiras tinindo, abres as carnes, o mesmo cheiro de novo, inebriando-me, puxando de mim a força do romance, tomo-te de assalto, suspiras, gemes, a lua parece maior e mais brilhante, sou teu e tu minha, estou em ti, todo, não já colados mas pegados umbilicalmente, contrais-te e relaxas enquanto eu pulso dentro de ti, o teu calor queima-me, espremes-me a vontade, deliras, mais, mais, mais, eu empurrando-te contra o parapeito da janela procurando ir cada vez mais fundo.

 

 Aspiro o ar do mar, afogo-me em ti, sinto o fluir das ondas, a espuma delas escorrendo-te coxas abaixo e tu, não pares não pares agora e eu não paro, antes aperto o abraço empurrando-me p’ra dentro de ti, todo dentro de ti, pulsando e golfando, jorrando amor enquanto cravas as unhas nas minhas coxas e me puxas mais e mais, enquanto fecho os olhos, cego e sussurro minha querida não pares aperta tudo,

  

agoraaaaaaaa,

 

agoraaaaaaaaaaaaaa,

 

vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv,

 

e assim ficámos, abraçados e tão inverosímeis quanto o futuro que nos aguarda, quais castelos de nuvens engalanados de boas intenções e suspiros, e ais, e tu, e eu, em posições tais que o melhor é esquecer, não lembrar mas esquecer simplesmente que não podemos sequer augurar, sorrir, sorrir desta ironia que nos juntou sem juntar e contudo durante tanto tempo logrou enganar estas mentes ávidas, carentes, iludidas, sofridas, alienadas de si por vontade própria, agora cônscias de que contudo, todavia, valeu a pena esta impossibilidade tornada agora uma realidade eterna, inesquecível, perene…

 

tornada uma paixão, um amor eterno, uma promessa.