terça-feira, 26 de novembro de 2024

823 - A VIDA É UM PALCO ... by Maria Luísa Baião, inédito, escrito em 02-09-2002 e nunca publicado.


Passadas foram as férias, e com gosto regresso a velhas  amigas e amigos, até porque já me fizeram sentir estar a faltar às minhas obrigações.

  Entre eles um que há muito conheço e por quem tenho grande apreço, a quem os deuses por razões que ninguém sabe deram o castigo de Tântalo, vê a vida escapar-se-lhe entre grades que o não cercam, mas que vorazes lhe tolhem os passos do desejo, do sonho, da liberdade que a alma em chama clama, surda, muda e moribunda, cega ao passar das horas, dos dias, da vida.

 Outro, que conheço menos bem e nem me lembra desde quando nem porquê, não mais felizardo que o primeiro, padece do tormento de Sísifo, tendo penado toda uma vida, carregando pesado fardo, numa gruta em que passou a vida desfiando uma roca a que os fios do destino nunca permitiram compor mais obra que a um artesão, ainda que suas mãos sejam capazes de milagres sem os quais a técnica que tantas vezes nos deslumbra, pararia.

  Boas almas a quem a vida enganou sempre, engana ainda e enganará mais, mesmo que o não creiam, enredados em coisas tais como um dedal de linhas amarelas ou num engenho capaz de tornear as peças mais singelas.

 Não sou diferente, quem me dera, também eu carrego a minha cruz. Quantas crónicas não compus eu já, que por pudor não coloquei nesta janela semanal, tão só para que não me julguem mal.

  Tântalo reparou na máscara que eu levava afivelada nesse dia, é verdade, não era realmente eu mas era eu só, a quem os deuses forçam a tantos papéis desempenhar que me vejo grega para os desembrulhar.

  Sou mulher, sou filha, esposa, mãe, terapeuta, voluntária, autarca, cronista e... É tão vasta a lista... Que de assistente social a psicóloga, não há maleita que me não bata à porta. 



Não são máscaras que empunho no dia-a-dia, são diferentes papéis a que o teatro da vida obriga, e vos garanto que entre o riso e o pranto, busco metodicamente que a comédia o drama e o trágico que em mim vivem não vos arrastem no momento ou no lamento que calada sofro.

  A vida é um palco, procuro dar o meu melhor mas por vezes interrogo-me se valerá a pena, se conseguirei, mas nunca se me esforço. Sempre dei o melhor de mim, será que serei mais feliz assim ? serei mais feliz no fim ?

  A Personalidade é tão de cada um de nós como uma impressão digital, é fruto de contactos e experiências pessoais, é feita também de desilusões e ais, de frustrações, traumatismos e algumas doses de contentamento por vezes tão banais que, melhor seria dar outro rumo à vida, sair do palco, de cena, buscar noutras paragens suspiros e futuros que aqui de reais têm somente difusos estigmas virtuais.

  

 Nem só os amanhãs que cantam se ouvirão jamais, a dignidade, a solidariedade, a igualdade, a competência, o mérito, o esforço, a recompensa, onde param ? Quem os viu passar ? Onde ? Quando ? Não foi para ver assim este país e dez milhões de almas que chorei de alegria em 74 

  Que pensaram nesse dia Tântalo e Sísifo ? Que pensam hoje, agora ? Valeu a pena ? Por que não se encerraram as portas do Teatro ? Por que se arrasta a peça ? Por que há cada vez mais quem peça ? Quem nesta peça corre tão depressa que ultrapassa os demais sem que repare no seu atraso ? Quem cava as distâncias ? 

 

 As páginas da nossa vida teimam não correr mas simplesmente passar… Não no palco mas nos bastidores, melífluos deuses nos cortam cerce legitimas ambições, quantas vezes manobrando com arte o silêncio, vendendo cara a esperança...

  Cada vez mais a natureza humana me decepciona.

 Como marionetes nas mãos de redutores maniqueístas nos sentimos, alvo de crueldades, intolerâncias, complexos, provincianismos, à mercê dos quais nos sentimos pequeninos, sentimos não ser nada, não valer nada. Valerá a pena a vida assim? 

  

Acho que não, vão por mim...

‎* By Maria Luísa Baião,‎ escrito Segunda-feira, ‎2‎ de ‎Setembro‎ de ‎2002 pelas ‏‎19:46 horas e provavelmente publicado no Diário do Sul, rubrica "KOTA DE MULHER" nos dias seguintes. 

Nota: foi apurado posteriormente tratar-se de um texto inédito, escrito em 02-09-2002 e afinal nunca publicado. As minhas desculpas.


segunda-feira, 25 de novembro de 2024

822 - CAMÕES, O ADAMASTOR, CANTO V *



Promessas, promessas era o que me vinha atirando acima há algum tempo sem que eu acreditasse minimamente no que quer que ela dissesse. Era uma questão de confiança e eu não conseguia crer numa única palavra por ela proferida.

 

Tudo me cheirava a esturro, a falso, a fingido, daí que me controlasse e não proferisse sob nenhum pretexto, rasteira, tentação ou descuido a promessa que ela por certo teimava arrancar-me.

 

E, enquanto ela vomitava promessa atrás de promessa sabendo eu que nunca se preocuparia em cumpri-las, sustinha-me, aguentava quanto possível cedendo parcimoniosamente a tanta tentação que me rodeava porém jamais no essencial. Desistir ou fraquejar não é a minha onda nem tão pouco a minha praia.

 

A questão não era despicienda, e já se colocara a Shakespeare em “Ser Ou Não Ser” ** pois é mesmo duma questão de caracter que se trata, de formação, de educação, de personalidade, de honra.

 

A minha solidão é a minha liberdade. É verdade que a nossa civilização parece ter desbaratado ou perdido, todos os seus valores, mas ainda não comecei a penhorar os meus, nem penso vir a fazê-lo, talvez por isso por vezes pasme com o que vejo.

 

Quando acabou soergueu-se, limpou os cantos da boca com os dedos, esboçou um sorriso e sussurrou-me:

 

- Tão bom !!!!!!!

 

Depois acertou o pijama que lhe caía dos ombros, ajeitou a toalha descambada no suporte, colocou a escova dos dentes no copo e ficou minutos como que hipnotizada olhando a bisnaga ainda apertada na mão, quiçá imaginando a promessa que dela espremera e inscrita a dourado sob a marca, velha de décadas…

 

A realidade é hoje fantasiosa, irreal, virtual, desvirtuada, por isso metade do meu tempo é ocupado a interpretá-la, a descodificá-la, a traduzi-la, a desmontá-la. E é isso que faço, se a monto também, a desmonto, observo-a e reconstruo-a, com base não no que vi mas no que pensei e penso quando vi, ouvi, vejo ou oiço.

 

As coisas não são portanto como são, são como eu as vejo, as ouço ou penso, são como eu sou e, nesse item a tosca subtileza por ela usada comigo não pegou, perdeu, já que a lia, a despia, desvendando-lhe as intenções e segredos, considerando-me cada vez mais intérprete da sua manha, teia, malicia, perfídia, naturalmente defendo-me, fazendo-me de mouquinho umas vezes e de parvinho outras. Ninguém sequer imagina quão poderemos ganhar fingindo-nos de parvos, ou de moucos…  

 

Mas até a parvoíce tem limites, ela fartou-se de me aturar e, num repente, passou das promessas a torto e a direito, minuto a minuto para, numa reviravolta surpreendente dar o dito e feito por não dito, nem feito, e mandar-me à fava, cortar todas as ligações esquecendo ser nas atitudes ou actos, mais que nas palavras que encontramos a virtude e a verdade verdadeira, real.

 

Rejubilei claro, sofrera mas nunca lhe prometera guarida, os meus trabalhos tinham chegado ao fim sem descrédito ou desprestígio p'ra mim e, fosse eu Camões e teria mesmo cantado;

 

          *  Da mágoa e da desonra ali passada,

              A buscar outro mundo, onde não visse

             Quem de meu pranto e de meu mal se risse.

 

 *  "Da mágoa e da desonra ali passada, / A buscar outro mundo, onde não visse/ Quem de meu pranto e de meu mal se risse." (c. V, est.57,vv.6-8)

 

              **  Hamlet, príncipe da Dinamarca, de William Shakespeare, Acto III, Cena I


segunda-feira, 28 de outubro de 2024

821 – PODERÁ DAR-SE SENTIDO AO MUNDO ?

 


                                          A CONDESCENDÊNCIA NO AMOR …

 

Tenho sido paciente contigo, porque o amor deve ser paciente, bondoso, porque não deve constituir inveja ou ambição, arrogância ou soberba. Não busco os meus próprios interesses, não me irrito, não guardo ressentimento pelo mal sofrido, não me alegro com a injustiça.

 

Mas regozijo-me com a verdade, tudo desculpo, em tudo creio, tudo espero, tudo suporto. Assim tenho procedido, e julgo que bem, apesar de não sentir da tua parte a mínima correspondência ou conformidade. Prezo a tua amizade, mais prezaria que o teu amor, que já conheci e senti, fosse tão verdadeiro como então o entendi e no qual acreditei mas do qual agora duvido.

 

Hoje interrogo-me, ter-me-ás amado de verdade ? Ou fui para ti um capricho que serviu e atenuou outras dores que então viveste ? Nada, nada me convence que o teu amor por mim, tão exuberante quanto desinteressado não fosse verdadeiro. Na verdade nele acreditei e ainda hoje sou capaz de o jurar. Nunca terias ido tão longe se esse amor não tivesse correspondido à verdade e a um desejo e vontade própria. Porquê agora a recusa ou contradição, melhor seria dizer oposição deste mesmo amor que te dedico e que, ao contrário do que possa parecer, em nada diminuiu, mas em muito se fortaleceu e aumentou, porquê ? Por que me contradizes há três anos de modo sistemático ? Que raiva é essa ?

 

Teimas, já por várias vezes o deste a entender e assim o percebi, em testemunhar a amizade que me tens, não somente agradeço essa amizade, como a retribuo e muito prezo. Todavia, esse tão nobre sentimento que agora acentuas e queres tornar exclusivo da nossa relação, foi, se me não engano, o primeiro a manifestar-se mal nos conhecemos, e recíproco. É sem dúvida alguma um sentimento nobre, que também me esforço por alimentar para que não percamos, e tão velho quanto o nosso conhecimento. Mas, se colocares algum empenho na memória, recordarás que em muito e há muito o ultrapassámos, fomos mesmo muito longe, tão longe quanto o amor entre nós o permitiu.

 


Esse sentimento original, a amizade, pelo menos assim o creio hoje, transformou-se, no que me diz respeito, num amor exacerbado que te dediquei e ainda dedico, o mesmo não penso já no que a ti respeita, daí a confusão de que te dou conta, daí a incompreensão que te exponho e para a qual não encontro razão de ser ou explicação.

 

E, porque eu sou aquele que conheceu uma Mulher, e a amou, e ama, exorto-te a que me compreendas e, de forma lógica, me expliques as razões do teu afastamento, do teu alheamento, da tua oposição, da tua negação à reciprocidade.

 

O amor tem razões que a razão desconhece, nem eu sei por que me apaixonei assim por ti, de forma tão arrebatadora, tão penosa e hoje incompreendida. Amo-te, e isso basta-me para me preencher os dias, agora de um modo tão doloroso, senão cruel, e que tanto me magoa.

 

Penso em ti, do levantar ao deitar não faço nem farei outra coisa senão pensar em ti, é um tormento inconcebível para quem esteja por fora da questão, e uma questão que não posso partilhar com quem quer que seja, com ninguém.

 

Prezo imenso a tua amizade por mim acredita-me, não é porém, a amizade que procuro porque essa já há muito a demos como certa. A minha amizade por ti será, no mínimo, tão grande e preciosa quanto a tua, até aqui nenhum de nós tem dúvidas ou ilusões. Que me negues um amor que vivemos, (não só eu vivi) sem que para tal me tires as penosas dúvidas que acalento é que não suporto, e mais uma vez pergunto, porquê ? E porquê a tua tão forte e tão acirrada oposição ou negação à reciprocidade ? Porquê ?

 


Perceberás assim o enorme vazio em que a minha vida se tornou, sem ti, sem esperança, sem amor e sem carinho, resta-me arrastar os dias como se outro fito não tivesse que ver passar o tempo, coisa que vai sendo para mim, e devia ser igualmente para ti, algo que nos começasse a preocupar, na medida em que, repito, se o que não vivermos, agora, talvez não vivamos nunca.

 

Sei nada mais ter para te dar neste momento que amor, carinho, felicidade e promessas, as promessas que atrás citei e penso ter, repito de novo, esperança e oportunidade de um dia, não muito tarde, cumprir, porque assim o desejo, porque sou homem de palavra, mas sobretudo porque te amo e é contigo que o quero fazer, repartir os nossos últimos dias. Não me tires a esperança, não me tires o sonho de te ter de novo nos meus braços, te abraçar, inalar o teu perfume, mimar e beijar. Preciso que me alimentes este amor e esta paixão, sem isso tudo deixa de ter significado para mim, tudo, o presente e o futuro, e tu serás decerto o meu futuro, terás que ser o nosso futuro.

 

Esta vacuidade que teimas não preencher arrasa-me, destrói-me a cada dia que passa, não aguento mais esta incerteza, não suporto mais este vazio que me sufoca, antes nada que este sofrimento atroz que me dilacera a todo o momento, com o nada, pelo menos sei com que contar.

 

Por isto, por tudo isto, sê sincera, diz-me que reciprocidade é para dividir e cumprir, diz-me que poderei contar contigo, que poderei sonhar contigo, que poderei conduzir a minha vida em direcção a ti, diz-me que temos futuro, que esse futuro é possível, porque neste momento, mais que tudo, preciso ter alguém e algo em que acreditar.

 

A esperança adquire-se, ou alimenta-se. Chega-se à esperança através da verdade, pagando o preço de repetidos esforços e de longas penitência e paciência, por vezes de uma longa espera. Para encontrar a esperança é necessário ir além do desespero. Quando chegarmos ao fim da noite, encontraremos a aurora e a felicidade.

 


A esperança não é um sonho, mas uma maneira de traduzir os sonhos em realidade. Nunca se dá tanto como quando se dão esperanças. Os desejos da nossa forma de vida formam uma cadeia cujos elos são a esperança. A esperança é um empréstimo que se pede à felicidade. Quem tem algo por que viver é capaz de suportar qualquer forma de vida, quem tem uma promessa em que acreditar, e a promessa de reciprocidade é das mais importantes, pode, com relativa felicidade, esperar.

 

Todavia sem reciprocidade, ou sem esperança, nada se concretiza, nada se acalenta, morremos, estiolamos como uma flor sem água. É o que se passa comigo. Debalde o amor que te tenho, vejo a esperança fugir a cada dia que passa, e nada, nada, nenhum sinal que a alimente.

 

Que se passa na realidade contigo ? Quantas vezes me pergunto o que se passará contigo, e porque me afastas de ti quanto mais de ti preciso. Por que temes o amor, e mais precisamente o meu amor ? Que tem ele para te merecer tanto receio, tanto medo, tanta repulsa, tanto nojo ?

Tens nada, quando poderias contar com tudo, com o meu eterno e incondicional amor. Que fiz eu ? Que fiz eu que não prometer-te que sempre te amarei mesmo que o não queiras nem desejes? Por que matas em ti, e em mim, um amor que foi lindo, que para mim se tornou inolvidável ?

 

       E porquê ? Jamais compreenderei esse porquê.

 

Morre comigo, aos poucos, uma esperança terna e risonha que acalento há tantos anos, sinto-me sem forças para dar corpo a este ensejo que aos poucos tens vindo a matar em mim, sem que saiba o que fazer, sem nada poder fazer ?

 

Compreendo perfeitamente que amor e desejo são coisas diferentes. Nem tudo o que se ama se deseja e nem tudo o que se deseja se ama. Amar não é apoderar-se do outro para completar-se, mas dar-se ao outro para completá-lo. Não ser amado é uma simples desventura, a verdadeira desgraça é não saber amar.

 


       Tenho-te por uma mulher adulta, segura de ti, de carácter forte, uma personalidade muito vincada e, embora compreenda que passaste por uma experiência medonha, marcante e negativamente avassaladora, traumatizante mesmo, a qual aceitei e compreendi, não percebo porque, passado mais de três anos, forças (ou finges) uma não recuperação que somente te prejudica e em nada te beneficia.

 

Também sofri com isso, recuperarei, faço por recuperar, só não recuperei a tua confiança. Porquê não sei. Se pretendes que me afaste de ti di-lo de vez, afastar-me-ei, para sempre se assim o quiseres, mas não me peças que me afaste quando cada vez te quero mais e mais, nem me peças que aceite ser colocado numa prateleira, a par de um outro homem que conheceste.

 

Vivo da esperança, e, neste contexto, como pensas que aceitei ouvir-te dizer que ainda tremes ao veres quem tanto te vilipendiou ? Que ainda tens dúvidas quanto ao facto de ser capaz de amar ou não, parecendo que sim, que o amor em ti ainda perdura. Creio que sim porque o senti, porque senti que amas, senti que tal é possível.

 

Sei muito bem quanto a vida tem sido para ti, em simultâneo, parada e turbulenta, ou sem uma razão para a viveres ou no alto de inenarráveis preocupações e privações medonhas que te destroem, e lamento sinceramente tais factos. Todavia, se pensares bem, não será difícil encontrar a quem atribuir as culpas. Com um sentido de oportunidade que não posso deixar de considerar infeliz, é precisamente quando mais alimento esperanças e sonho com o futuro a teu lado, com o facto de poder um dia passear contigo de mãos enlaçadas ou de braço dado, na tua terra, apresentar-te aos amigos e conhecidos como namorada, noiva, ou chamar-te perante todos minha esposa, ser precisamente nesse momento que me atiras à cara com os mais desoladores miminhos, a indiferença e o alheamento. Só tu, simplesmente tu. Arrogante, altiva, insolente e presumida…

 


Não há palavras no mundo que expressem a dor deste amor desfeito, o momento de ruptura, o tamanho da dor vazia e surda que me rasga a alma e paralisa a vida. O chão cai. Um buraco negro sem fim e fedorento engole-me. A dor anímica é lancinante. E choro. No travesseiro, solitário, no chão, no banho. Parece não ter fim na nossa mente, nãpo se sumir dela a pessoa culpada deste amor desfeito, não há o menor vislumbre de uma luz no fim do túnel. Não há túnel. Só escuridão. E na escuridão não há caminhos, só estagnação.

 

O amor desfeito não leva somente o corpo que me dava alegria. Leva a alma que passeava de mãos dadas com a minha  durante os pensamentos, os planos futuros. Leva um pedaço da história da vida que parece não ter modo de voltar. Leva o olhar cúmplice que dividia comigo os sentidos do mundo. Estou órfão de amor. Estou com um amor desalmado, pedaços meus estão ficando para trás e não posso fazer nada.

 

Estou impossibilitado de dar sentido ao mundo, mundo completamente sem sentido e dispensável. O amor desfeito olha para mim e diz: “Pronto, fiz a minha parte na tua vida, dei o meu contributo”, e lembra-me que percorreu a parte da sua estrada no meu caminho. Por isso não posso odiar o amor desfeito. O amor desfeito deve ser amado pelo mundo que me mostrou, pelos espaços que me abriu, pelos sonhos que desenhámos juntos. Este amor desfeito tem os seus feitos registados no livro universal do amor. As coisas ruins, bom...essas esquece ! As boas, essas devem ser vividas e lembradas com carinho. Aquela pizza, aquele dia, aquele perfume, aquele beijo, aqueles momentos... Como era perfeito o amor desfeito.

 

Terminando e deixando as pieguices, o essencial é que te mantenhas sempre uma pessoa digna, em relação a ti, em relação à tua família, e, desejo-o ardentemente, em relação a mim, porque te conheço, porque te amo, porque quero alimentar os projectos que em relação ao futuro nunca porei de parte inda que já nem acredite neles.

 

Tudo isto porque quero acreditar que me amaste como eu te amei, e tanto te amei, e amo, que compreendi e perdoei uma acção na qual não intervi, para a qual não colaborei e acerca da qual, dada a brutalidade do corte que então impuseste, nem tempo tive para te pôr de sobreaviso.

 

Humanamente discorrendo, há coisas que só aprendemos depois de por elas termos passado, a experiência é a soma dos nossos erros. Jamais desesperes, mesmo perante as mais sombrias aflições da vida, pois das nuvens mais negras poderá cair água límpida e fecunda.

 

Nunca serás uma mulher acossada pela indiferença, em primeiro lugar porque, quer queiras quer não, estará aqui sempre um homem que te ama, em segundo lugar porque a beleza que te anima nunca deixará ninguém indiferente à tua presença.

 

Deus sabe quão grato Lhe estou por ter-te conhecido e amado.

 



sábado, 21 de setembro de 2024

820 - OS SÃOS BENEFÍCIOS DAS CAMINHADAS...


         OS SÃOS BENEFÍCIOS DAS CAMINHADAS

 Sou um acérrimo defensor dos benefícios e praticante de caminhadas. Por razões que se prendem com a idade e com a manutenção física que tal exige encontrei nas caminhadas não só o exercício físico ideal como um óptimo processo de manutenção em boa forma evitando a ferrugem precoce e a prisão das dobradiças.   


Estava eu há minutos cuscando a página do grupo de caminheiros a que me orgulho de pertencer quando deparo com estas pérolas:

“Estes são alguns dos benefícios das caminhadas, chegares aos 77 anos com esta agilidade”.

“Parabéns a todos os caminheiros deste grupo onde alguns já ultrapassaram a fasquia dos 70”.

Não que as afirmações proferidas não sejam verdadeiras atenção, são-no e bem ! Todos os que andam enfronhados nesta prática sabem perfeitamente que a mesma mantém a saúde e nos protege essencialmente de doenças cardiovasculares ao ajudar a controlar a pressão sanguínea. Caminhar é um factor de protecção contra derrames cerebrais e enfarte. Os vasos sanguíneos ficam mais elásticos e mais propícios a dilatar quando ocorra alguma obstrução.


São variadas e manifestas as vantagens para quem faz caminhadas, vou listar algumas delas sem me alongar, depois cada um de vós poderá ir ao Google e inteirar-se melhor acerca de cada, ou de todas.

1.Melhora a circulação e o desempenho sexual.

2.Deixa o pulmão mais eficiente, aumenta a caixa torácica

3. Combate a osteoporose e enrija ossos e mentes.

4. Afasta a depressão e o mau-olhado.

5. Aumenta a sensação de bem-estar e o prazer…

6. Deixa o cérebro mais saudável e inteligente

7. Diminui a sonolência e os bocejos

8. Mantém o peso em equilíbrio e emagrece

9. Controla a vontade de comer, o pecado da gula...

10. Protege contra derrames e infartos

11. Ajuda a evitar, a combater e a controlar a diabetes

Estes são os benefícios mais correntes e visíveis, e até os que em pesquisas apuradas mais vezes nos surgem, porque há outros, menos visíveis, menos falados, mas há.  




Falo por mim visto tratar-se de benefícios extra que nem toda a gente colherá ou necessitará, de qualquer modo julgo pertinente deixar-vos aqui a informação, o saber nunca ocupa lugar e quem saberá, quiçá, se alguns de vós não partilharão em segredo a revelação que agora vos vou deixar.


É que cedo comecei a aperceber-me dos benefícios das caminhadas, em especial dos que serão muito pouco falados, compreende-se, são assuntos domésticos, causas e coisas que ninguém gosta de abordar em público, são aspectos que eu colocaria ao nível ou em paralelo com os designados segredos de alcova. 



Mas já chega de paleio, devem estar todas e todos mortinhos por saber quais os benefícios e em que condições eu tiro deles partido, o que não será difícil de adivinhar atendendo a que todos conhecemos o saudável cansaço com que no fim da caminhada recolhemos a casa. 



A minha Carolina sabe de antemão que durante os dois ou três dias seguintes nem precisará de se esconder, sabe de antemão que não estarei em condições de a procurar e a gaiatagem tira folga. Tenho que admitir, chego saudavelmente cansado mas bem-disposto e, confesso, desde que há meia dúzia de anos comecei com as caminhadas nunca mais necessitei tirar o cinto nem de mandar umas lamparinas bem dadas a quem estivesse a precisar delas. 



Portanto acrescentem aí na listagem de benefícios os psicológicos, a caminhada preenche e ocupa o cérebro, dá uma sensação de bem-estar que aumenta os níveis de tolerância e diminui a irritabilidade e tendências para formas de expressão violentas, por outras palavras, traz paz a casa e a mim a confortavel certeza de que chegarei a velho com todos os dentes na boca.



Portanto amigas e amigos, caminhem, caminhem, andando andando, metam-se a andar antes que me passe a paciência que ha mais de três meses que não faço uma marchinha e estou pelos cabelos…. Desviem-se, saiam da minha frente e nem pensem em contrariar-me !!!!!!   




Desviem-se, saiam da frente !! Nem pensem contrariar-me !!   










 

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

819 - A GRUTA OU CAVERNA DE ALI-BABÁ ...

                                                                                     


Toda a gente a conhece, de ouvir falar, das histórias de encantar, das fábulas de Mil e Uma Noites, mas poucos saberão onde se situa, se ainda existe ou se é possível visitá-la.

 

Visitei-a há pouco pela quarta, quinta ou décima vez e, como sempre valeu a pena. Valeu a pena por vários motivos, é uma gruta mágica onde sempre entrei e me senti como num lugar de encantar e, inda que nunca me tenha demorado, o lugar é propenso a impressionar-nos solenemente sob várias ou múltiplas perspectivas, a extasiar-nos e, comigo sucede frequentemente, proporcionar-me um clímax inexplicável e que outras situações, idênticas ou muito parecidas, incompreensivelmente não me fazem sentir, atingir ou viver.

 

Gosto de entrar com calma, nada de impetuosidade, é lugar para se estar, para apreciar, não para viver ou ver de passagem ou de corrida, se bem que, mal me aproxime da entrada fique tenso, hirto.

 

Não só essa gruta me provoca esse efeito, ficar tenso, hirto, como o mesmo se torna quasi condição obrigatória para entrar. Nada de brincadeiras, a coisa é séria e se a queremos relembrar mais tarde será bom que assim seja levada, a sério e com intensidade, com o deslumbramento e o gozo que a situação oferece e permite.

 


Perante tal encanto ou fascinação a minha sedução é sempre total, e fico boquiaberto cada vez que, ao contrário de Ali-Babá e do “Abre-te Sésamo”, me bastar sorrir p'ra que não uma pedra, um rochedo, uma rocha, mas duas, se abram de par em par para que, contemplativo e agradecido aos deuses acorde da mítica visão digna das Mil e Uma Noites para uma realidade cujo sonho não consigo suportar.

 

Abre-se docemente em duas essa gruta e eu, timidamente mas com galhardia penetro-a, de olhos fechados sendo como melhor nos orientamos na escuridão, sentidos alerta, a sensibilidade afinada tanto quanto a sensualidade e, como num arame, num trapézio ou na crista de uma onda, tentamos aguentar-nos o máximo possível para que o cume da felicidade seja atingido.

 

É uma experiência inolvidável a entrada nesta gruta, sobretudo quando não tivemos que dar um passo para a descobrir, antes nos foi oferecida, portanto descoberta e fruída por convite pessoal.

 


Amigos, não procurem nos folhetos nem em agências de viagens, como eu vos disse, a esta gruta só se acede por convite e a cada um de vós que tal convite for feito, não façais como Ali-Babá, e não conteis a ninguém o segredo dessa gruta sob pena de passardes pelas vicissitudes trabalhos e dores que Ali-Babá passou e, porventura dificilmente conseguir após muitos trabalhos sair deles com a mesma sorte de Ali, esse personagem mítico das Mil e Uma Noites.

 

A caverna de Ali-Babá é assunto para fruir e calar, ou como nós por cá dizemos, para comer e calar. Nunca vos esqueceis que boca calada é o melhor, prove, deguste, aprecie, vá até ao fundo da bilha, digo da garrafa, seja feliz e repita sempre que possa, não há limite nem lugar mais aprazível, mais macio, não há lugar onde o mito, a fruição do tabu derribado e a sensação de posse total, de tudo, da felicidade, o deixe mais agradado e em paz consigo mesmo.

 


                   Creia-me, ganhará anos de vida !!




                      Há sempre gente do contra ... 😧😧😧😧