terça-feira, 15 de julho de 2025

835 - ABRE-TE SÉSAMO !!! ABRACADABRA !!!!

 


Não era a fé que me movia, nunca a tive, aliás, peço desculpa, uma vez houve em que me vi tão atrapalhado que supliquei perdão por todas as minhas faltas e roguei pela minha salvação daquele inferno, tudo prometi e todo esse empenho ficou por cumprir. Sou portanto devedor, devedor de mim mesmo, que me obriguei num momento de aflição para depois aligeirar o fardo, quando sobre as costas me não pesavam já os receios, os medos, os terrores.

 No fue la fe lo que me movió, nunca la tuve. De hecho, me disculpo, pero hubo un momento en que me sentí tan confundido que pedí perdón por todos mis pecados y recé por mi salvación de ese infierno. Lo prometí todo, y todo ese compromiso quedó incumplido. Por lo tanto, soy un deudor, un deudor conmigo mismo, quien en un momento de angustia me obligó a aligerar la carga después, cuando los miedos, temores y terrores ya no pesaban sobre mis hombros.


Não era o caso agora, agora tratava-se de cumprir um mandamento tão velho quanto o mundo, tratava-se de dobrar-me sob o jugo de uma força maior que eu, de soçobrar perante o instinto inato que protege as espécies e lhes garante sobreviverem e multiplicarem-se.

 Ahora no era así, ahora se trataba de cumplir un mandamiento tan antiguo como el mundo, se trataba de doblegarme bajo el yugo de una fuerza superior a mí, de sucumbir al instinto innato que protege a las especies y asegura su supervivencia y multiplicación.


Nesse momento mágico, como um crente ante sacra imagem, entrei em transe e, mais que a vergasta com que o desejo soe golpear-me nesse recolhimento, o corpo se me verga sob o truísmo encantado da minha devoção, digo-to para que saibas desta fé em mim e me ofereças o linimento das águas desse cálice que sedento busco, sequioso, na mira de abafar as tormentosas chamas que me queimam e me não trazem nunca a quietude que desejo e só alcanço quando em ti me dessedento.

 En ese instante mágico, como un creyente ante una imagen sagrada, entré en trance y, más que el látigo con que el deseo suele golpearme en este recogimiento, mi cuerpo se dobla bajo la verdad encantada de mi devoción, te lo digo para que sepas de esta fe en mí y me ofrezcas el linimento de las aguas de ese cáliz que busco sediento, sediento, con el fin de sofocar las llamas tormentosas que me queman y nunca me traen la quietud que deseo y sólo logro cuando tengo sed de ti.


Compreende então que não suportando a angústia me ajoelhei ante ti numa penitência de mártir, te abracei como um náufrago suspenso do salvador, arrastando-o na espiral da morte, na vertigem dos abismos em que a redenção não é o meio mas o fim último da submissão, do gesto e da catarse.

Entiende entonces que, incapaz de soportar la angustia, me arrodillé ante ti en penitencia de mártir, te abracé como un náufrago suspendido del salvador, arrastrándolo a la espiral de la muerte, al vértigo del abismo en el que la redención no es el medio sino el fin último de la sumisión, del gesto y de la catarsis. 


Por isso te abri como a um sacrário, ávido de maravilhar-me no teu santo graal, como quem sucumbe ao encanto duma odalisca, ao aroma adocicado das amêndoas, ao sabor agridoce de travo suave dos pêssegos rosa, por isso me quedei como se ante um cibório, não antevendo mas vivendo os prazeres do êxtase, vogando no paraíso prometido por todos os profetas em todos os sonhos e em todas as vidas.

 Por eso te abrí como a un tabernáculo, deseoso de maravillarme ante tu santo grial, como quien sucumbe al encanto de una odalisca, al dulce aroma de las almendras, al sabor agridulce del suave regusto de los duraznos rosados, por eso permanecí como ante un copón, no previendo sino viviendo los placeres del éxtasis, navegando en el paraíso prometido por todos los profetas en todos los sueños y en todas las vidas.


E feliz sucumbo à minha voracidade, por ser aí que finalmente me perco e me encontro, porque então, sim, só então sublimo a tentação que me arrastara, sôfrego, ao âmago de ti, por em ti encontrar o carrasco e a salvação dos tormentos em que me deleito e suplício, qual cilício e cura desta paixão que me consome.

 Y yo sucumbo felizmente a mi voracidad, pues es allí donde por fin me pierdo y me encuentro, porque entonces, sí, sólo entonces sublimo la tentación que me había arrastrado, ávidamente, hasta el núcleo de ti, pues en ti encuentro al verdugo y la salvación de los tormentos en que me deleito y torturo, como cilicio y remedio para esta pasión que me consume.


Somente isso explica a profusão de beijos com que, enlouquecido, numa fúria aparente, cubro o objecto da minha fé, da minha devoção, da minha entrega, ciente de ser este paroxismo avassalador que simultaneamente me subjuga e liberta da sensação, em mim somatizada,* que me guia e me cega enquanto se não cumpre o destino, a sina, o fado, e os lábios te tocam, a língua te procura, porque a sede é tortura consumindo-me as entranhas.

 Sólo esto explica la profusión de besos con que, enloquecido, en una aparente furia, cubro el objeto de mi fe, de mi devoción, de mi entrega, consciente de que es este paroxismo abrumador el que a la vez me subyuga y me libera de la sensación, somatizada dentro de mí,* que me guía y me ciega mientras el destino, la suerte, el sino no se cumplen, y mis labios te tocan, mi lengua te busca, porque la sed es una tortura que consume mis entrañas.


Apazigua-me esta dor o néctar dos deuses, ou d’uma flor, é vibrando que o procuro, e então, num estremecimento, guloso, sorvo-o num estertor, alarvemente, esquecido do tempo e do lugar, esquecido de mim precisamente quando eu um outro, quando e se ousas derramar sobre mim essa taça, ou me obrigas, também tu já toldada, já possuída da mesma fé, da mesma devoção, a beber do cálice a cicuta da vida, por sentires e saberes que só a ressurreição nos limpa do pecado se por amor nele mergulhámos.

 El néctar de los dioses, o de una flor, me alivia este dolor, es vibrando que lo busco, y entonces, en un escalofrío, ávido, lo sorbo en un estertor de muerte, tontamente, olvidando el tiempo y el lugar, olvidándome de mí mismo precisamente cuando otro, cuando y si te atreves a derramar esa copa sobre mí, o a obligarme, tú también ya cegado, ya poseedor de la misma fe, de la misma devoción, a beber del cáliz la cicuta de la vida, porque sientes y sabes que sólo la resurrección nos limpia del pecado si nos sumergimos en ella por el amor.


Cegamo-nos, cegamo-nos, e só o turbilhão da nossa mente nos acompanha, não nos guia, mas acompanha-nos, enquanto a nossa língua tacteia o caminho, o cruzamento, enquanto a nossa boca clama, vorazmente, por veneno e paz, por tudo e por nada…

Nos cegamos, nos cegamos, y sólo la mente en torbellino nos acompaña, no guía, acompaña, mientras la lengua tantea el camino, la intersección, mientras la boca clama, voraz, por veneno y paz, por todo y nada...


E antes que tudo termine caio a teus pés, prostrado, numa pausa redentora, porque agora sim, estamos prontos, pois a tarde é nossa e chegada a hora de nos cumprirmos,

           Y antes de que todo termine caigo a tus pies, postrado, en una pausa redentora, porque ahora sí estamos listos, porque la tarde es nuestra y ha llegado el momento de realizarnos,     


                   seja...

                   así sea

* NOTA: Em psicologia, "somatizar" significa manifestar problemas emocionais ou psicológicos através de sintomas físicos. É o processo em que a angústia ou dor psíquica é expressa através de sensações e dores corporais, muitas vezes sem a pessoa ter consciência disso.

A somatização, então, ocorre quando a mente, incapaz de lidar com o sofrimento emocional, o transforma em sintomas físicos. Isso pode acontecer em casos de transtornos mentais, dependência química, traumas, ou quando a pessoa está tentando ignorar ou evitar a dor emocional.




quarta-feira, 2 de julho de 2025

834 - A PSICOLOGIA DO ESQUERDISMO ...

               


     

PSICOLOGIA DO ESQUERDISMO

 

Um dos mais notáveis e certeiros diagnósticos do esquerdismo como fenómeno psicológico com que me deparei, em abono da verdade através do meu amigo Rodrigo Penedo já que sem a sua contribuição eu só conheceria metade da história.

E desconheceriaa história toda, pois a metade que foi muito badalada na altura pelos mídia não era precisamente a mais importante mas a que venderia mais jornais... Académico exemplar, Ted Kaczynski, que mais tarde viria a cair em desgraça, soube contudo diagnosticar, demonstrar e descrever a famigerada doença do esquerdismo. Passemos então a ele....

.  

          Sim Rodrigo, concordo ser indiscutivelmente o Manifesto do Ted Kaczynski a mostrar-nos a faceta multifacetada do esquerdista, o qual por natureza dissimulado é afinal e essencialmente um perturbado mental afectado por duas grandes tendências psicológicas: “sentimentos de inferioridade e afectação negativa durante o processo de socialização”.  


       Vejamos o brilhantismo analítico de alguns excertos da obra de Kaczynski onde o autor analisa a forma como a tara da inferioridade se manifesta no esquerdista:

  «Por “sentimentos de inferioridade” entendemos não só os sentimentos de inferioridade em sentido estrito, mas todo um espectro de características inter-relacionadas: baixa auto-estima, sentimentos de impotência, tendências depressivas, derrotismo, culpa, ódio a si próprio, etc. Defende o autor que os esquerdistas modernos tendem a ter alguns destes sentimentos (possivelmente mais ou menos reprimidos) e que os mesmos são decisivos para determinar a direcção do esquerdismo moderno. (…)

            Muitos esquerdistas, a grande maioria deles, identificam-se intensamente com os problemas de grupo que carregam a imagem de fraqueza (mulheres), derrotados (índios americanos), repelentes (homossexuais) ou inferiores. Os próprios esquerdistas sentem que esses grupos são inferiores. Nunca admitirão para si próprios terem tais sentimentos, mas é precisamente porque vêem esses grupos como inferiores que se identificam com os seus problemas, logo com eles.

          Atenção, não se está a sugerir que as mulheres, os índios, etc., sejam inferiores; está apenas a fazer-se uma observação sobre a psicologia esquerdista). (…)

Os esquerdistas tendem a odiar tudo o que tenha agarrado ou identificado com uma imagem forte, bom e bem-sucedido. Odeiam a América, odeiam a civilização ocidental, odeiam os homens brancos, odeiam a racionalidade. As razões que os esquerdistas dão para odiar o Ocidente e o resto não correspondem claramente aos seus verdadeiros motivos.

    Eles DIZEM que odeiam o Ocidente porque é belicoso, imperialista, sexista, etnocêntrico, etc., mas onde ou quando esses mesmos defeitos aparecem em países socialistas ou em culturas primitivas, o esquerdista encontra desculpas para eles, ou, na melhor das hipóteses, admite RESSENTIDO que eles existem; minimiza-os tanto quanto os ENFATIZA, muitas vezes exagerando imenso esses defeitos quando os mesmos aparecem na civilização ocidental.

        Assim, torna-se claro que esses defeitos não são o verdadeiro motivo do esquerdista para odiar a América e o Ocidente. Ele odeia a América e o Ocidente porque são fortes e bem-sucedidos.

    Palavras tão simples como “auto-estima”, “autoconfiança”, “auto-suficiência”, “iniciativa”, “empreendedorismo”, “optimismo”, etc., têm pouca relevância no vocabulário de esquerda. O esquerdista é anti-individualista e pró-colectivista. Quer que a sociedade resolva os problemas de cada um, que satisfaça as necessidades de todos, que cuide deles. O esquerdista não é o tipo de pessoa que tenha um sentimento interior de confiança na sua capacidade de resolver os seus próprios problemas e satisfazer as suas próprias necessidades. Ele é antagónico em relação ao conceito de competição porque, no fundo, se sente um falhado, um perdedor

       As formas de arte que apelam aos intelectuais de esquerda modernos tendem a ser subjectivas, ambíguas, a centrar-se na sordidez, na derrota e no desespero, ou então assumem um tom orgiástico, descartando o controlo racional, como se não houvesse esperança de conseguir nada através do cálculo racional e tudo de válido que nos restasse fosse mergulhar nas sensações do momento..

   Os modernos filósofos de esquerda tendem a rejeitar a razão, a ciência, a realidade objectiva e a insistir que tudo é culturalmente relativo. (…) O esquerdista odeia a ciência e a racionalidade porque estas classificam certas crenças como verdadeiras (ou seja, bem sucedidas, superiores) e outras crenças como falsas (ou seja, falhadas, inferiores). Os sentimentos de inferioridade do esquerdista são tão profundos que ele não pode tolerar qualquer classificação de algumas coisas como bem-sucedidas ou superiores e outras como falhadas ou inferiores.

Isto também está subjacente à rejeição, por parte de muitos esquerdistas, do conceito de doença mental e da utilidade dos testes de QI. Os esquerdistas são profundamente contra as explicações genéticas das capacidades ou do comportamento humano porque essas explicações tendem a fazer com que algumas pessoas pareçam superiores ou inferiores a outras. Os esquerdistas preferem dar à sociedade o crédito ou a culpa pela capacidade ou falta dela de um indivíduo. Assim, se uma pessoa é “inferior”, a culpa não é dela, mas da sociedade, que não a terá, como seria sua obrigação, educado correctamente.

     O esquerdista não é tipicamente o tipo de pessoa cujos sentimentos de inferioridade o tornem um fanfarrão, um egoísta, um rufia, um auto-promotor, um competidor implacável. Este tipo de pessoa não perdeu totalmente a fé em si próprio. Tem um défice profundamente intuído do seu sentido de poder e de auto-estima, mas ainda consegue conceber-se como tendo a capacidade de ser forte, e os seus esforços para se tornar forte produzem todavia o comportamento desagradável que lhe conhecemos e que a caracteriza.

       Mas o esquerdista está demasiado longe disso. Os seus sentimentos de inferioridade estão tão enraizados que ele não consegue conceber-se como individualmente forte e valioso. Daí o colectivismo do esquerdista. Ele só se pode sentir forte como membro de uma grande organização ou de um movimento de massas com o qual se identifica.

 


        Reparem na tendência masoquista das tácticas da esquerda. Os esquerdistas protestam deitando-se na frente dos veículos, provocam intencionalmente a polícia ou os racistas para que os maltratarem, etc. Estas tácticas podem muitas vezes ser eficazes, mas muitos esquerdistas utilizam-nas não como um meio para atingir um fim, mas porque PREFEREM tácticas masoquistas. O ódio a si próprio é uma característica da esquerda.



Pensamentos e reflexões extraídas da obra do insigne académico Theodore Kaczynski, no caso da sua obra “Industrial Society and its Future”, de 1995.


Todavia Theodore John Kaczynski não é flor que se cheire, licenciou-se na conceituada Universidade de Harvard em 1962, integrando de seguida o corpo docente da Universidade de Michigan onde obteve o seu mestrado (1964) e o doutoramento (1967) em Matemáticas, sendo-lhe atribuído o Galardão Myers Para Melhor Dissertação do Ano.

 

Apesar dos diplomas e de ter dedicado a vida fazendo ressoar o alarme quanto ao que considera o principal problema da humanidade: a omnipresente subjugação à força destrutiva do progresso tecnológico. Nos seus escritos articula uma extensa crítica ao "sistema tecno-industrial" antevendo as consequências catastróficas deste para a humanidade e para a biosfera, daí a autoria de A SOCIEDADE INDUSTRIAL E O SEU FUTURO....

 

Kaczynski nascido em 1942 em Evergreen Park, Illinois, foi um prodígio intelectual, ingressou na Universidade de Harvard aos 16 anos, onde se licenciou, tendo tirado o mestrado e doutoramento aos 24 anos na Universidade de Michigan, tendo sido aos 25 anos o mais jovem professor de Matemáticas na história da Universidade Califórnia Berkeley. Passados dois anos abandonou o ensino e mudou-se para uma área remota do Montana para concretizar a ambição pessoal de viver de modo autónomo e auto-suficiente, adoptando um estilo de vida sobrevivencialista, vivendo da terra e da caça durante cerca de vinte anos.

 

Tendo sido condenado a uma pena de prisão vitalícia pela campanha de atentados à bomba em que ficou conhecido como Unabomber, Kaczynski encontra-se encarcerado em regime de cela solitária numa Prisão Federal no Colorado desde 1998, onde continua contudo escrevendo ensaios tecnofóbicos.

 

Em 14 de Dezembro de 2021 e de acordo com Donald Murphy, porta-voz do Departamento prisional, Kaczynski foi transportado para o centro médico prisional FMC Butner, na Carolina do Norte. Murphy recusou-se a fornecer qualquer detalhe sobre a situação clínica de Kaczynski ou a razão pela qual foi transferido. No entanto, numa conversa por meio de carta, Kaczynski indicou estar sofrendo de cancro terminal e que a sua expectativa de vida seria de dois anos ou menos, mas isso nunca foi confirmado. Porém, na manhã de 10 de Junho de 2023, funcionários da prisão descobriram que Kaczynski tinha morrido em sua cela na cadeia da Carolina do Norte.

 

Obras

O Manifesto Unabomber

Industrial Society And its Future. The New York Times e The Washington Post, 1995. ISBN 0-9634205-2-6

A Sociedade Industrial e Seu Futuro. Editora Baraúna, 2014. ISBN 978-85-437-0127-1

Artigos e Ensaios

Morality and Revolution (Moralidade e Revolução), 1999.

Ship of Fools (O Navio dos Tolos), 1999.

When Non-Violence is Suicide (Quando a Não Violência É um Suicídio), 2001.

Hit Where It Hurts (Atinja Onde Dói), 2002.

The Coming Revolution (A Revolução que se Aproxima), 2005.

The Road to Revolution (O Caminho para a Revolução), 2005.

Coletâneas

The Road to Revolution. Éditions Xenia, 2008. ISBN 978-2-88892-065-6

L'effondrement du Système Technologique, 2008. ISBN 978-2-88892-027-4

Technological Slavery. Feral House, 2010. ISBN 978-1-932595-80-2

 https://pt.wikipedia.org/wiki/Ted_Kaczynski



quarta-feira, 18 de junho de 2025

833 - UMA IDA Á PRAIA, AVENTURAS E DESVENTURAS DE UM VIÚVO INEXPERIENTE ...

 



          Empurraram-me para isto, p'ra uma ida á praia ... Foi o que foi ...

          - Baião, tens que conviver, sair, bla bla bla...

          E francamente ou eu escolhia inscrever-me na “universidade” dos velhos, coisa que não suporto, ou alinhava com eles pelo menos uma vez numa das ida á praia, daquelas que o Grupo de Viagens GTI organiza (em tempos fui nalgumas viagens e foram óptimos passeios de grupo) ou os aturava o resto da vida pelo que anui e inscrevi-me numa dessas idas, mas nem tão pouco levei calções de banho…

          Tudo pk lá na ideia deles fiquei viúvo há relativamente pouco tempo e não posso continuar sozinho nem a isolar-me ou ainda viro eremita e bla bla bla bla… Aceitei, inscrevi-me, esperei o dia da ida e lá fui num belo autocarro daqueles a que só falta multibanco…  Para ser sincero ainda não tinha decorrido meia hora de viagem e já eu concluíra não estar preparado para estas coisas, nem para estas nem para ingressar na tal “universidade” dos velhos, nessa então muito menos !!

          Passeio pela vila ou cidade de Ericeira, bonita mas alcandorada numa falésia e com muitas escadas, ladeiras e subidas, tudo coisas demasiadas para velhos, e para novos, até p'ra mim que estou n meia idade, nem desci á praia…. Com tão excelsa companhia não me apeteceu matar a criosidade quanto a essa vila de contrastes, por isso apesar do passeio da manhã ser livre rumei a uma praça apinhada de gente, a maioria velhos, a maioria velhos de excursões como a minha mas oriundos das mais variadas zonas do país, a Ericeira tem mais turistas velhos num dia que ouriços tem o seu mar... E eu a pensar que o negócio dos "mata-velhos" tinha sido das melhores idéias que alguém tivera...

          Pelo que para afastar o calor entrei numa das gelatarias que me pareceu menos cheia, pedi um gelado de taça, que me saiu caríssimo, ia ficando sem os olhos e, sentei-me a comê-lo quando … snif snif snif …. Cheirava a merda que tresandava, não era o WC, confirmei, só podia ser um dos velhos ou velhas que por ali abundavam de bunda nas cadeiras em volta das mesas… portuga ? english ? franciú ? bosch ? marroquino ? tailandês ?? Fugi dali a sete pés nem acabei a merda do gelado….

 


          Depois rumámos ao autocarro que nos levou ao almoço, uma marisqueira daquelas que desistiram de fazer casamentos e baptizados por já não os haver mas que se reconverteu a dar almoços de marisco aos velhos turistas….. E ás tantas dou por mim a pensar : mas que faço eu aqui ? Que faço eu no meio disto tudo ?

          Cada mesa levava dez “turistas”, contei as mesas, eram à volta duns 600 os comensais, portanto muita gente de outros autocarros, de outras terras, e eu ali no meio daquele mar de gente velha, eu novo, 71 acabadinhos de fazer, novinhos, ainda a brilhar, e nem uma velha jeitosa, nem uma que valesse a pena levar a dançar, ou a apalpar, ou a engatar, uma coisa para o futuro que o amanhã a Deus pertence e eu tinha que satisfazer os cabrões que me meteram nesta alhada, que lhes vou dizer ? Que tenho má boca ? Que sou esquisito ?  Eu a fugir dos olhos gulosos delas, dos perfumes baratos de há 50 anos, dos fedores nauseabundos dos cremes da cara que me fizeram lembrar a minha avó Inácia que Deus tem à sua guarda há 40 e muitos anos….

          Sim porque havia música e músicos, de quinta categoria mas havia, eram todos cançonetistas de terceira, e o tal povo que Almada Negreiros tão bem categorizou;

          “ O Povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos.

          Coragem portugueses, só vos faltam as qualidades.”

 


          Havia música e mesas bem recheadas com tudo, e bem servidas, muita gente a servir, nada de esperas, fartura de tudo mas meu Deus eu estava rodeado de velhas e velhos, algumas mais novas mas ainda assim mais velhas que velhas… Eles idem, só grunhos, broncos, e parvos, até que desbastadas as entradas e o primeiro prato a mesa foi recheada de frutos do mar, do camarão mais pequeno á lagosta maior, da conquilha pequenita à vieira mais grandita, caranguejos, santolas... 

          Parecia a mesa das bacantes, quando repentinamente dou por eles todos levantados, de telemóvel na mão p’ra registar o momento, parece que nunca tinham visto marisco, ou comido marisco, impressionou-me a atitude, eu que nem aprecio nem um nem outro além de camarão, e eles numa atitude pasmada e generalizada, de todos sem falta focados no centro da mesa, no rei marisco, não neles, não uns nos outros, mas no ídolo do momento, no que lhes iria tirar a barriguinha de misérias, afinal o 25 de Abril valeu a pena, ali estão eles manducando o manjar dos ricos, é a igualdade prometida cumprindo-se ….

          E eu para com os meus botões, isto ainda vai demorar ? Felizmente a velharia cansa-se depressa e daí a pouco, todos felizes, todos de bandulho atolado de marisco, babando-se mas rumando, ainda que aos encontrões para o autocarro, eu olhando-os com pena e trocando sorrisos maliciosos com a guia, às tantas um piscar de olho, a coisa promete, a ela o espectáculo também a diverte…

        Quem sabe se nós um destes dias ireamos ver uma ópera, coisa fina, ou uma sessão de variedades no Estoril, ou quem sabe uma noite vendo as estrelas num dos programas do Dark Sky Alqueva, fica aqui o link caso vos interesse, 

          https://darkskyalqueva.com/

ela disse-me que têm programas muito variados e dessas coisas percebe ela, há casos em que o melhor é a gente deixar-se levar, o universo tem mistérios que a gente nem sonha nem sabe desvendar…. Além disso o meu futuro ta escrito na palma da minha mão garantiu-me ela, pelo que nem valerá a pena eu esbracejar não acham ????

 


          O pior foi mesmo o regresso, o autocarro no regresso cheirava mais mal que a tal gelataria, alguém estava borrado mas mesmo borrado, agora com aquelas cuecas para a incontinência cagam-se todos e só o cheiro sai de mansinho, mais nadinha de nada, mas olham todos uns para os outros sem que ninguém se descaia e é aí que está a piada…. Alguém viaja confortavelmente em cima de uma almofada de merda e nem diz nada…

          Depois, depois a toda hora caem, perdem-se, cada vez que o autocarro faz uma paragem na volta chegam atrasados, finalmente entram e depois ou antes de entrarem vomitam-se e mijam-se, se sentados e em andamento nunca se calam, nem sabem o que dizem nem dizem o que sabem, não têm maneiras mas têm suores frios, guincham e falam gritando desaustinadamente, palitam os dentes com a unha, desmaiam quando menos se espera, têm uma admiração mórbida por igrejas e santos, não sabem nada nem conhecem nada nem ninguém, que terão andado fazendo uma vida inteira ?

          Eis o que me espera, tou com 71 e para lá caminho… para lá do inferno …. Ainda não estou preparado para estas cenas…………….

 



HUMBERTO BAIÃO

AVENTURAS E DESVENTURAS DE UM VIÚVO INEXPERIENTE ...


sexta-feira, 9 de maio de 2025

832 - ELES E ELAS ... COSTAS COM COSTAS .....

                                       

 

Como tão bem sabes, sempre te amei, e continuarei a amar, disso não tenho a menor dúvida, é superior a mim. Ainda vivo de recordações da tua voz meiga, quente e doce, recordações que guardarei sempre comigo e jamais se desvanecerão. Não conhecerás o verdadeiro amor a não ser por aquilo que te ofereço, o amor é uma atitude, não um afecto passivo; é um acto de firmeza, de afirmação, não de submissão ou fraqueza...

 

É dar mais que receber, e, neste item, tudo que me for possível te darei, e há muito prometi a mim mesmo dar-te e dar-me por completo. Jamais confundas amor com paixão, que, após os primeiros momentos, poderá desaparecer. O verdadeiro amor, o verdadeiro carinho, cresce na medida em que estejamos mais unidos, por partilharmos mais e mais e mais.

 

Recorrentemente lembro os momentos maravilhosos que passámos, o teu carinho e meiguice naturais, o teu cheiro de mulher, madura e linda, a sensação da tua pele sedosa e macia, pormenores que tanto te enriquecem e te tornam, em simultâneo, irresistível para mim. Vivo do amor que te dedico e dessas inolvidáveis recordações que teimas agora tornar banais ou mesmo apagar.

 

Tens tu abordado algumas vezes o facto de nos vermos cada vez menos, o que não deixa de corresponder à verdade. Contudo sinto-me no dever de algumas explicações te dar, já que se por um lado é para mim um prazer ouvir-te, falar contigo, também não é menos verdade que me sinto muitas dessas vezes como sendo para ti um incómodo o momento em que te ligo ou apareço.

 

Ou estás fazendo qualquer coisa, ou estás a chegar, ou a partir, ou o sítio onde estás não é conveniente para atenderes, tens muito que fazer, ou pouco, ou nada, enfim são muitas as razões para sentir que te estorvo, o que não quero nem desejo, mas no que és hábil a transmitir-me.



Não raras vezes culpas-me e na verdade já sou que evito as conversas, para mim, ouvir-te já basta, saber que ali estás, do outro lado do telefone, que ainda existes, que estás viva, conta muito. Mas também não raras vezes ficas calada, não dizes nada, não ajudas na conversa, desconversas, perdes-te, propositadamente ou não mas perdes-te na conversa, e esqueces o principal para perderes tempo com o acessório, o que me coíbe de adiantar o que quer que seja, por vezes até de falar, poisos dois dizendo o que quer que seja acabamos por nada dizer ou nada ouvir ou compreender, mais me parecendo na maioria dos casos não desejares conversa nenhuma.

 

Mas o fulcro da questão é saber porque entre nós os telefonemas são por um lado cada vez mais raros, e por outro lado cada vez mais longos, e estranhos, por reagires, nem sempre, mas por vezes, das formas evasivas e irredutíveis que descrevo… Claro que não me sinto bem, nem à vontade, por isso espaço as chamadas, ou as torno mais curtas, para que te não mace.

 

Expostas estas razões espero que compreendas por que não sinto confiança, temo até por vezes, avançar com conversas que te possam aborrecer, aliás é tudo uma questão de confiança, senão vejamos;

 

sempre senti confiança em ti, e acreditei que a tinhas em mim, todavia, desconheço o motivo por que, agora, nem conversa de facto, e até mesmo quando por telefone, foges ou afastas os temas sempre que eles tomam determinado rumo, como dizer-te que te quero cá, aqui, ou quanto te amo. O facto de nem uma inocente bica tomar-mos há meses , nem ver-te tão pouco, atitudes que resultam num efectivo e completo afastamento de ti e por ti provocado, são exemplos flagrantes do que afirmo. Aceito tal, outra alternativa não me é sequer oferecida mas não compreendo, ou prefiro nem compreender….

 

Amor significa sempre entrega, dar-se ao outro. Só pelo sacrifício se conserva o amor mútuo, porque é preciso aprender a passar por alto os defeitos, a perdoar uma e outra vez, a não devolver mal por mal, a não dar importância a uma frase desagradável, a ser tolerante e compreensivo, etc. Por isso o amor também significa excedermo-nos, fazer mais do que nos é devido.

 

Mau grado, temo exceder-me e aborrecer-te, arrancar-te da tua aldeia indígena nem pensar, férias nem lembrar.... Aposto que um dia, um dia qualquer, no dia em que calhe, S. Pedro olhará para nós com um sorriso cínico nos lábios….






2026910

domingo, 4 de maio de 2025

ESSA AVÓ QUE ME ENCONTROU by Luísa Baião*

 

                              Escrito sexta-feira, ‎8‎ de ‎Setembro‎ de ‎2006, ‏‎11:05h

        Perdi minha Mãe muito cedo, foi uma dor que ainda é, e que julgo me acompanhará durante toda a vida. Não só por isso, mas também, estreitei os laços que então existiam com meus avós, todos muito queridos, e que também já são para mim, infelizmente, saudosas recordações.

          Talvez por isso a Terceira Idade me sensibilize de forma marcante, ou talvez porque diariamente lido com essa classe etária, tão fragilizada quanto, por vezes, abandonada e tão carente de atenções quanto devedoras somos todas (os) das suas memórias.

          Não esquecerei jamais minha avó Narcisa, com quem aprendi a enfrentar o mundo e a não adiar problemas. Dormir descansada significava para ela não deixar para amanhã o que devia ser feito hoje. Era alegre como poucas pessoas nessa idade o eram, dela herdei certamente esta disposição que me anima mesmo nos momentos mais difíceis.

          De minha avó Joaquina herdei os genes da perseverança e capacidade de trabalho, ainda hoje relembro o seu exemplo, já velhinha mas sempre trabucando, o que lhe permitia ir manducando e estar em paz com Deus e consigo própria. Disputavam as duas a minha presença, pelo que os sábados eram alternadamente vividos com uma e com outra, que para o almoço me preparavam os melhores manjares.

 

            Muito jovem, recém casada, órfã e mãe, nunca elas se aperceberam, do ainda me culpo, não lhes ter dito em vida quanto as amava e lhes devia. Julgo que o sabiam, já que vivendo próximas, e ainda que almoçasse com uma delas, nunca olvidando a outra que, ciumenta, me cobria de beijos e me prodigalizava a ementa para o sábado seguinte.

          Os meus avós não me eram menos dedicados, nem eu a eles, já esqueci os seus sermões, mas não esqueci o espírito que em mim incutiram, o espírito da devoção, da honestidade da solidariedade, da honra pelo trabalho. Eram homens, muito me mimaram, mas era sobretudo com o meu jovem marido, homem como eles, que gostavam de conversar. E claro brincar com o nétinho, que os fazia babar e pouco maior era, à data, que um chorão.

          Rezar-lhes na campa não redime a minha culpa, por isso todos os idosos são para mim avós, os avós que já não tenho, os avós que queria ter, ainda. Por isso um dia destes, quando na rua João de Deus fui surpreendida por uma velhinha muito querida, não pude deixar de ver nela essas avós que recordo com amor e com saudade, por isso a sua presença me foi agradável, por isso me agradou que sem pudor se tivesse dirigido a mim que, com a pressa com que sempre ando a não via.

       Somos vizinhas, embora eu não o soubesse, está internada num lar ali ao Alto dos Cucos, Fontanas, e espera como quem desespera, que os dias se sucedam. O nosso encontro parece ter-lhe sido grato, parece ter-lhe insuflado vida, mal sabe ela quanta gratidão senti em mim por me ter procurado, por me ter tocado, e na verdade tocou-me de perto o coração.

          Sei ser para ela uma amiga por quem espera à sexta-feira, eu não espero, procuro, procuro a amizade e gratidão dessa e de tantas avós que há entre nós e a quem não devemos esquecer dizer quanto amamos, antes que seja tarde, porque o tempo é uma roda, uma roda que não pára.

 


         Mãe é Mãe, e ninguém substituirá na minha mente e na minha dor a sua memória, minhas avós sabiam-no decerto, já que nunca a procuraram substituir, muito pelo contrário, todas as suas atitudes, sem que o assumissem, foram no sentido de atenuar essa dor e não fazer-ma esquecer, o que hoje reconheço acertado. Recordo ainda com saudade os seus mimos, as suas carícias, as suas palavras de consolo, amparo e encorajamento. As minhas avós souberam sabiamente deixar intacto um espaço que jamais alguém ocupará no meu coração, o amor por minha Mãe que ainda venero com mágoa, com saudade, e sobretudo com uma ternura que o tempo apagará em mim.

          Se alguém me amou incondicionalmente foi sem dúvida essa Mãe que todos os dias lembro e ainda me dá forças, para lutar pela vida, por seguir-lhe o exemplo, que tão bem recordo. Como é grande a pena que sinto por não a ter comigo, tão grande como o esforço que diariamente faço para que se orgulhasse de mim se entre nós estivesse.

          A saudade não tem fim. 

 

 * By Maria Luísa Baião. Texto talvez inédito. 

   Escrito sexta-feira, ‎8‎ de ‎Setembro‎ de ‎2006, ‏‎11:05h