quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

671 - ELES ESTÃO DISPOSTOS A TUDO ! CHEGA !

 

Há bem poucos dias o parlamento inviabilizou pela primeira vez em 46 anos, uma licença para que um deputado candidato participasse livremente na campanha para a presidência da república.

 Dias atrás um jornalista encartado veio (na sequência de Francisco Medina e de outros), advogar que se deveria cortar a voz ao microfone de André Ventura. Não demorará muito até que o parlamento em peso vote que lhe cortem o pescoço.

 Confesso que estas atitudes mesquinhas em relação a um recém-chegado ao sistema, e que o próprio sistema criou, me têm feito vê-lo antes, ou mais como um abnegado mártir e um lutador contra o parlamentarismo bacoco nesta democracia de instalados, que um perigo para os ditos órgão e regime.

 Se dúvidas tinha já as perdi, se o homem incomoda tanto e tantos alguma razão terá a assisti-lo e confesso ter André Ventura conquistado inequivocamente o meu apoio e o meu voto.

 Aliás parece até ser a única voz lúcida no manicómio em que este país e esta democracia se tornaram. Quem agora tanto o contesta parece ter esquecido que a democracia tem regras, mas não tem donos, e que eu saiba apesar das enormidades, alarvidades e falsidades de que tem sido injustamente acusado, André Ventura ainda não transgrediu nenhuma das sacras regras consignadas na nossa velha e caduca Constituição, essa sim a pedir uma valente reforma.

 Olhado à luz dos nossos dias, o 25 de Abril, essa madrugada libertadora, transformou-se num exemplo da história da iniquidade, da desigualdade, da injustiça, da demagogia, da corrupção, de tudo menos da democracia que o 25 de Abril prometera, tendo-se este corrompido e tornado exemplo do maior bluff e do maior falhanço da nossa história. Em simultâneo e paulatinamente tem vindo a transformar-se um regime mais desigual do que aquele que pretendeu substituir e derrubou.

 Os três D’s prometidos ficaram por concretizar, Democratizar (mal e porcamente), Desenvolver (engordando os ricos e multiplicando e empobrecendo os pobres), e Descolonizar (a vergonha das vergonhas), não passam hoje de um cliché batido a propósito de tudo e de nada mas nunca cumprido. De um regime de miséria que contudo nos deixou uma montanha de ouro, passámos para um regime que nos deixará na miséria e com uma dívida do tamanho do Everest.

 Em 46 anos este país não fez um único negócio proveitoso, mas muitos dos seus filhos, a exemplo do regime anterior, têm enriquecido mas nem deixam saber como, tornando-se os novos eleitos, os tais eleitos que era suposto terem sido apeados dos privilégios que a todos deveriam caber e não somente a alguns.

 Acusam André Ventura de populismo, e em boa verdade tenho observado serem as suas ideias cada vez mais populares e cada vez mais compreendidas e aceites por um número crescente de portugueses. Em contraponto estão os velhos DDT e demagogos, os partidos de um sistema que vêm debitando demagogia há 46 anos, que nem ao menos parecem interessados em pôr-lhe cobro e darem corpo e coerência a tanta coisa dita e repetida, isto é, a cumprirem com o que há 46 anos nos prometem.

 Populismo / demagogia é a grande aposta das próximas eleições, ou queremos um presidente palhaço e que de tal está farto de dar mostras e exemplos, ou uma socialista incoerente, inconsequente, que um partido tem vindo ao longo de anos pintando de vermelho para enganar as tendências mais à esquerda e os mais parvos do séquito, ou queremos André Ventura, o único candidato preparado, lúcido, disposto a lutar pelo país e não pelo partido ou por interesses pessoais ou obscuros como até aqui tem acontecido. André Ventura denuncia porque tem os olhos abertos, todos os outros os têm propositadamente fechados há décadas.

 A luta vai ser aguerrida e titânica, está em causa a continuidade desta podridão mansa dos instalados contra a pobreza que nos morde e ameaça. Vai ser uma luta renhida entre os privilégios indevidos, contra a desigualdade a que nos votaram, uma luta pela democracia a que temos direito. André Ventura é o único defensor e garante do derrube democrático deste regime que só a alguns benificia.  André Ventura é o único candidato que nos garante a instauração da quarta república e dum regime em que caibamos todos e todos observemos os mesmos deveres e direitos, com os deveres na frente.

Sim, os deveres na frente, os tais que tão esquecidos andam e sem os quais a liberdade de Abril virou libertinagem, voragem, corrupção e pobreza. Somos os últimos da Europa, e somente os primeiros em tudo o que seja vergonhoso, desgraça, pobreza e desigualdade. Nem à esquerda em à direita temos elites capazes, uma vez mais vai ter que ser o povo a correr com Miguel de Vasconcelos, uma vez mais vai ter que ser o pé descalço a mudar tudo, ele que tudo sofre e a quem tudo devemos.

 Foram os infantes com D. Henrique na frente o estandarte da Expansão Marítima, mas foi ao pé descalço que coube realizar os feitos históricos que o mundo conhece e reconhece. Éramos poucos em 1500, talvez nem milhão e meio, e a equipagem das naus era comummente arrebanhada entre prisioneiros, bêbados, vadios, sem-abrigo, pedintes e quejandos que, mal se descuidavam eram metidos numa nau debaixo das ordens de um comandante ou de um capitão e levados a cumprir os grandes feitos que os honrariam e nos honram a todos.

 A nossa história trágico-marítima, que Fausto tão bem descreve em algumas das suas canções, deve tudo aos pés descalços, que tudo passaram, ultrapassaram e superaram para se salvarem, darem mundos ao mundo e Glória a Portugal.

 A exemplo dos homiziados (séc. IX a XIII) que após a reconquista cristã eram atirados para coutos, ocupando o terreno libertado do jugo dos mouros e defendendo com a vida, a vida que desse modo lhe havia sido devolvida, também na expansão, e uma vez mais agora, cabe a este povo de pé descalço lutar para se manter em pé, lutar para se manter de cabeça erguida, lutar para manter a cabeça e não lhe cortarem o pescoço.

 E lutar contra esta nova Hidra De Sete Cabeças é lutar contra um sistema iníquo que após 25 de Abril se instalou em Portugal, e lutar por tudo isto é dar o braço a André Ventura e ajudá-lo a mudar tudo quanto tem que ser mudado para bem de todos nós porque para mal já basta assim.

 E quando todos parecem dispostos a tudo para calar a voz de André Ventura, só nos resta dar-lhe o braço, dar-lhe a força do nosso voto, por nós, por Portugal, pelo futuro !!!


sexta-feira, 13 de novembro de 2020

668 - ANJOS, ANJAS, O COMBOIO DOS DOCES ...

                         Pintura, acrilico sobre tela, Fátima Magalhães, 2020 

ANJOS, ANJAS

 

A questão era velha como Freud,

e,  enrolados no linho,

ia sendo desfiada como num fuso,

devagar , devagarinho,

as ideias girando tal qual na roca,

a dialéctica fumegando,

ora parada, ora avançando,

parada num desvio da linha,

uma extensa linha mental

em que a retórica cavava apeadeiros e estações,

onde sinaleiros conduziam o fio à meada,

cuja complexidade constantemente descarrilava.

  

Eram desvios colaterais,

e tu carinha de anjo teimando em bravata de séculos,

os anjos precisamente,

 

Tu :

 

- Quantos anjos na cabeça de um alfinete ?

 

Eu,

tentando trazer-te de volta aos carris,

 

abraçando-te, mimando-te,

a mão subindo as tuas costas,

travada p’las omoplatas salientes,

quais raízes onde dantes as asas,

eu mais que tu, fervendo,

quente, quiescente, aquiescente,

quase no ponto e,

repentinamente,

nova acometida,

 

- Terão os anjos sexo ?

 

Sim ? E qual será o sexo dos anjos ? 

 

O comboio reduzindo a marcha,

a polpa de tomate engrossando,

nós gulosos na avidez do doce,

da compota,

o caramelo ameaçando queimar,


e eu :

 

lembrando a colher de pau da avó Inácia,

 

mexe, mexe !

 

O comboio retomando lentamente a marcha,

devagar , devagarinho,

mexe, mexe !

gozando o travo agridoce a maçã verde.

 

O comboio agora ganhando velocidade,

mais depressa agora !

 

Mais depressa, mais depressa, mais depressa  !

 

Nós entretidos com o caramelo, a compota,

a polpa de tomate derramando,

pouca terra, pouca terra, pouca terra…

 

Não pára !

não páres agoraaaaaaaaaaaaa !!!!!!

mais depressa, mais, mais, mais, maisssssssss !!!

agora mais devagarrrrrrrrrrrrrrrrrr…

 

Oh ! Deus !

não sei se há anjos,

mas há céu,

eu vi o céu,

o céu, o céu, o céu, o céu, o céu …



Pintura, acrilico sobre tela, Fátima Magalhães, 2020


domingo, 1 de novembro de 2020

667 - O RETRATO A SÉPIA By Maria Luísa Baião *

                                                                                                                                                                                                                                                                                                         

Estava amarelecido já, pelo tempo, e julgando as características da película era mais que certo tratar-se de um retrato nas antevésperas da vulgarização do digital. A pose, essa, tinha sido moda meio século atrás, de pé, ar altivo, corpo hirto, a mão descansando nas costas de uma cadeira. 

A pose não enganava ninguém, pois se passara a vida a inventar destinos e grandezas, aquela foto fora tirada pensando na sua exclusiva consagração. Nunca soubera viver sem o mando, como nunca soubera que fazer com ele, o que lhe importara sempre fora sentir o palco como seu, e nele, enquanto viveu, cumpriu o triste papel de personagem enganadora gizando à sua volta um bem conhecido mistério. 

Levara uma vida visceralmente solitária, sempre ficcionando, manobrando, iludindo, intrigando, enganando e mentindo, mas porque em público se calava, a todos fizera julgar ser superiormente inteligente. De quem provavelmente nunca lera um livro, foi de estranhar ver na sua lápide aquela homenagem, como de grande vulto da cultura se tratasse. De sua memória muitos dirão reverências, mas quando descoberto o logro devastador que foi a sua vida, soará o prenúncio de uma queda abissal. Biógrafos registarão o falso charme religioso com que se cobriu e a sua figura será reescrita de forma consensual como a duma personagem nada sensual. 

Causa dos males e dos remédios de que toda a amoralidade é capaz, veremos então surgir o verdadeiro recorte de uma personagem sinistra, narcísica, megalómana, que simplesmente morreu como sempre vivera, cultivando uma fingida discrição, mas, com estudada perfídia arvorando sempre uma doentia arrogância. 

Uns anos mais e tal figura não merecerá mais memórias que D. Sebastião, pois fizera da sua vida uma selva e nela devorara, submetera, achincalhara, todas e todos quantos se lhe atravessaram na frente. A falta de veros amigos provocara-lhe irreversíveis perturbações psicológicas. Lembro ainda quando, com um pretensioso gesto de mão, afastava os conselhos de quantos médicos lhe haviam recomendado internamento psiquiátrico. Amigos de Peniche somente uma ou duas figuras, justamente quem pacientemente lhe escrevia os discursos que com ar grave proferiria como seus. 

 Sempre julgara saber mais que todo o mundo, implacável para com os que lhe estavam abaixo, era contudo irrepreensível no protocolo, adorando cerimoniais, mesuras e vénias aos que superiormente se lhe apresentassem. Passou o último dia na cadeira do poder, que tanto apreciava, certamente vira pela janela o pôr-do-sol, depois partiu, não morreu, apagou-se, deixando no vasto salão um cheiro a velas e a urina. Embora o escondesse de todos, urinava-se então pernas abaixo a toda a hora. Assim se retirara do nosso convívio, podem imaginar maior felicidade ? 

 O destino fizera-nos um favor, a sua morte libertara todos quantos submetera, para esses terminara o desânimo, a apatia. A tragédia / comédia consumara-se e, enquanto o corpo arrefecia, exultante, a populaça emergia de novo, apagando da lembrança toda uma vida sofrida e cabisbaixa, sacudindo o desânimo que durante anos a animara. A alegria de viver retornara lentamente como acontece com a Primavera, estendendo sobre todos um manto de alívio e libertação. 


 Por todo lado soavam estalidos de grilhetas quebrando, ecos de consternação, fulgores de futuros risonhos. Um fardo nos saíra dos ombros, e como quem desce uma montanha, recordo ainda a alegria incontida desse dia. “A vida não é um acaso, é um mistério”, onde foi que eu li isto ? Relembro S. Paulo, sim, fora S. Paulo, vai para três mil anos quem dissera acertadamente que: “ Deus escolhera na sua infinita sabedoria e entre a natureza, o que há de mais fraco, para confundir os fortes, e o que havia mais desprovido de saber para confundir os sábios”.

 Estava explicado o mistério, o retrato, a pose, e essa vida altaneira e obscena confundindo os fortes e ludibriando os fracos. Descoberta a velada e dissimulada ignorância para confundir os sábios. Que mais posso dizer ? Que a vida e os anos haviam feito dessa personagem enigmática, rodeada de falaciosos mistérios, torpes intrigas e cuidados silêncios uma figura ilustre que a morte despira sem pudor nem contemplação desvendando singelamente a sua vera e triste dimensão. 


 Já se avista Marte, chegarei a tempo do seu verão. 


 Ano da Graça de 2895.

 


* By Maria Luísa Baião, escrito a 6 de Setembro de ‎2012, inédito, é mais que provável portanto nunca ter sido publicado.

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

666 - QUE FUTURO PARA PORTUGAL ?????????? *

 

Portugal, é sabido, embora a maioria da população o não saiba, nasceu de uma particularidade trivial, de uma casualidade aleatória, do respeito pela família, dum mancebo sem a escrita em dia, de uma fogosa jovem ninfomaníaca e de um duque que se lembrou de visitar a tia.

 Um conjunto de factos, aparentemente aleatórios e sem a mínima importância conjugaram-se contudo para dar origem a este país tão caricato hoje quanto o era há séculos, quanto o era p’la data do seu nascimento.

 Por volta do ano da graça de 1086 o rei da Galécia, Galiza, D. Afonso VI, que igualmente imperava sobre os reinos de Castela e Leão, encontrava-se incapaz de deter o avanço mouro para norte, o qual ameaçava submergir os seus reinos. Devido a este facto o rei optou por engolir o orgulho e pedir ajuda aos príncipes da Gália, os quais lho não negaram, tendo-lhe enviado em socorro o duque Eudo, com tropas suficientes e frescas. Tropas que uma vez cumprida a missão de que haviam sido incumbidas, travar o avanço mourisco, encetaram alegremente o regresso a casa, à Gália, hoje França.

 Porém, e já que ali estava, cá estava, na Galécia, Galiza, lembrou-se o duque ter por ali, recolhida algures num mosteiro, uma velha tia a quem seria de bom tom fazer uma visitinha. E já que ali estava, já que estava agachado, lembram-se da anedota dos ladrões e dos polícias passando de carro na noite escura fazendo a ronda  ?

 Isso mesmo, os ladrões esconderam-se, agacharam-se atrás dum muro até que o carro da polícia passasse e deixasse de representar qualquer perigo. Então, e já que estavam agachados, um deles terá aproveitado e,

cagou.

 Idem para o jovem duque Eudo, que, já que ali estava resolveu visitar a velha tia em recolhimento no tal mosteiro perdido algures nas faldas duma serra da Galécia. 

Com o duque tinham vindo dois nobres, dois primos, a quem a ideia de se demorarem por estas bandas não agradava. Nem lhes agradava o sossego nem o tempo perdido após tão boa refrega contra os mouros. Eram cavaleiros, eram homens de acção, eram jovens de sangue na guelra, Raymond et Henri assim se chamavam os nobres cavaleiros.

 Raimundo e Henrique, que malgrado os bocejos caíram nas graças de Afonso VI que logo pensou numa forma dos prender ali de modo a tê-los sempre à mão e na mão, caso os infiéis e atrevidos mouros se lembrassem de novas investidas.

 Após muitas voltas à cabeça e tendo tido tempo para os observar, logrou encontrar meio e modo de os prender à gleba, tendo-lhes dado o comando de recuadas terras, longínquas terras que ele mesmo raramente ou nunca visitava, sabendo apenas serem elas férteis quanto baste. Assim foi que calhou a Raimundo uma parte da Galécia, Galiza e a Henrique o condado de Portucale, Portugal.

 E para os contentar nas noites frias da Galécia e de Portucale o poderoso senhor ofereceu-lhes igualmente a mão de duas belas filhas que mantivera até aí a bom recato, D. Urraca, filha primogénita, herdeira e única legítima, de oito anos, para Raimundo visto serem os dois fortes pesados e corpulentos. D. Terexa, treze aninhos, para Henrique, visto serem ambos espigadotes, magros, fininhos e qualquer deles um molhe de músculos e de nervos.

 Sabe-se que gordura é formosura, mas também que  fartura não convida a brincadeiras na cama, peripécias na cama é coisa mais  para magrinhos, ou musculados, gente de nervos à flor da pele, ginastas, ou pelo menos gente com corpos flexíveis, acrobatas ou malabaristas.

 Mas deve ter sido assim que nasceu Afonso, filho de Henrique. Portugal deve portanto o seu nascimento a uma breve visitinha que o duque Eudo fez à tia antes de rumar à Gália, a França. Um acontecimento tão trivial tomou todavia as impensáveis proporções que hoje lhe conhecemos, o facto de D. Teresa a “Galga” como lhe chamavam, ser ninfomaníaca é outra trivialidade banal que contudo e uma vez viúva a oporia ao filho Afonso Henriques, já que este aceitava mal ou aceitou mal que a mãe, saltando de cama em cama como cadela galga no cio, andasse nas bocas do mundo e nas bocas e camas de todos os nobres do então Condado Portucalense segundo rezariam as más línguas da época.

 Portugal deve assim o seu peculiar nascimento a uma série de acontecimentos fortuitos tecidos pelo destino. O seu nascimento não obedeceu a nenhum plano, a nenhuma estratégia, a nenhuma visão de futuro. Portugal nasceu do sexo descontrolado de dois fogosos jovens, Henri e Terexa, a que se juntou a qualidade ou característica ninfomaníaca da “Galga”, levando para calar os zum zuns correntes no paço ao sabido e conhecido confronto e embate extremo entre mãe e filho, onde o pudor, a vergonha e a honra se encontravam de permeio.

 Tal e qual, foi mesmo assim,  atabalhoadamente e devido a mexericos que por casualidade ou casualmente Portugal nasceu, e quanto ao futuro podemos dizer estarmos nas mesmas circunstâncias, sem plano, sem estratégia, sem um pensamento ou visão de futuro e ao sabor dos fortuitos acontecimentos do mundo. Pau que nasce torto...

  Até quando ?

 Até quando seremos capazes de manter a tesão ? A independência ? Perdida que está há muito a fogosidade, a coesão, a solidariedade, a união que fez a força e a diferença durante quase 900 anos ?

 Até quando ?

Não estaremos nós, a nação, em processo acelerado de decadência, de deliquescência ? Será isto ainda um país independente ? Um país ?

Oremos… Porque isto já não é um país, transformou-se num absurdo... 



quarta-feira, 28 de outubro de 2020

665 - OS HOMENS QUE NÃO OS TÊM... Texto inédito, by Maria Luísa Baião *

           

Estou em mudanças, deixei há poucos dias a minha alegre casinha, cá me arranjei para ocupar uma outra, bem bonita e a desejo, com comodidades que a que deixei não tinha mas que a minha idade já não dispensava.

Entre outras vantagens dispõe de gás canalizado, o que o meu marido acha óptimo, (queixava-se que as botijas pareciam aumentar de peso a cada ano que passava), é um aprazível rés-do-chão rodeado por bonito jardim, e fica localizado pertinho da casa nova que o meu filho irá estrear, o que, não deixando remorsos à alegria de o ver partir, minimiza a dor da separação.

Por este motivo ando ainda com tudo em bolandas, de tal modo que até há poucos dias e ao certo só sabia onde tinha a escova dos dentes e pouco mais, quase tudo o resto andava embalado numa centena de caixas de cartão aguardando vez de arrumação, para o que me sobrava vontade mas não me chegava o tempo.

Finalmente tenho espaço para suprir a velha necessidade de um escritório/biblioteca à mão, pois todas sabemos quanto é difícil trabalhar sem condições e na velha casa os livros já se amontoavam por tudo que era sítio, visto ambos sermos leitores compulsivos, mas sobretudo porque o meu marido os devora mais rapidamente que a um petisco numa qualquer cervejaria.

Até ocuparem o seu lugar no novo espaço que lhes será dedicado, muitos deles repousam ainda nas ditas caixas de cartão, razão porque não recordo agora se é de Camus, Sartre, ou qualquer outro um título que me acudiu há dias à memória; “ Os homens e os outros”, a propósito do ter carácter ou da falta dele, numa questão levantada no seio de um grupo de amigos e num alegre convívio.

Sou por hábito e formação directa e frontal, assumo as minhas atitudes que defendo com tanta garra e convicção quanto estou disposta a retractar-me e corrigir-me quando erro. Engano-me algumas vezes e outras tantas sou assaltada por dúvidas, problema que procuro resolver na hora ou logo que possível. A dar o dito por não dito é que não me apanham.

Nessa roda de amigos lancei propositadamente para o ar uma rasteira que sabia de antemão só ser aceite por parvos, na absoluta certeza de não haver ali nenhum, coisa em que não me enganei. Mas alguém mordeu o isco e se denunciou, e denunciou-se não pela posição tomada, (na rasteira eu sabia que ninguém cairia), mas pelo modo como colocou a questão, toda ela solidamente alicerçada numa diplomática falta de bom senso, de diplomacia, de verticalidade e de coerência.

Respeito ideias contrárias, honram-me opositores à altura, crentes, honestos e assumidos na defesa intransigente daquilo em que acreditam, mas não vejo com os mesmos olhos aprendizes de feiticeiro, marionetes a mando de cadáveres adiados que pensam fugir a uma morte anunciada porque ouviram ao longe tocar as trombetas das suas hostes. Quando os sinos tocam a finados os cães fogem assustados porque desconhecem não ser por eles que dobram.

Os “homens”, especialmente os condenados, têm obrigação de saber por quem vão eles repicar e quer se ouça ou não o clamor das suas hostes, em duas coisas deveriam pensar,

- primeira; se elas chegam a tempo ou dispostas a salvá-los,

- segunda; se não seria boa opção fazer os mínimos estragos possíveis de modo a morrer com alguma dignidade e com menos pecados na consciência.

Qualquer condenado que assim proceda não ganhará certamente um óscar, mas morrerá de pé, num combate frente a frente e nunca sujeito às indignidades que lhe mancharão a memória e jamais lhe apagarão as nódoas que sobre si derramou.

Quanto ao meu amigo que tão infantilmente se denunciou, não me conforta que se tenha desculpado, traições não se perdoam nem se esquecem, saberá certamente ter que viver o resto dos seus dias com o anátema de quem não procedeu correctamente. Há culpas que nem o mais compreensivo confessor redime, são culpas que nem terá coragem de confessar.

No que concerne aos restantes amigos dessa grande roda que fizemos não me desiludiram, vincaram opiniões que defenderam com galhardia, nem outra coisa deles seria de esperar. Prevaleceu sobretudo entre todos e no final a concordância.

Saí satisfeita do convívio. O que me aborrece mesmo é precisar de fósforos e verificar que há homens que não os têm...

* By Maria Luísa Baião, texto inédito, escrito em 14-2-2001, não existe a certeza quanto ao facto de ter ou não sido publicado mas, a tê-lo sido, teria acontecido no Diário do Sul, coluna Kota de Mulher por esses dias ou semanas.