segunda-feira, 13 de abril de 2020

641 - I LIKE GYPSIES, GITANS, AND YOU ????????

Vincent van Gogh, The Caravans Gypsy, Camp near Arles
                                                            
Gosto de nómadas, de ciganos, não que lhes inveje a riqueza, que não possuem, mas a fortuna que dizem sobrar-lhes e jamais alguém lhes poderá tirar.

Gosto do seu ar jovial, desprendido, matreiro e bem-disposto, do pensamento positivo que carregam e arrastam, da solidariedade que os une, da coesão que os cimenta, da faceta tribal que partilham, da honra muito própria que mantêm, da ética gitana do clã, do existencialismo que sofrem e gozam, do materialismo a que não se prendem, da liberdade que com suor e lágrimas defendem.

Roubam tudo quanto podem dizem, água nas torneiras, umas calças ou camisas deixadas nos arames. Tudo quanto no nosso descuido deixamos à mão de semear lhes interessará, lhes dará algum jeito.

 São ciganos, dar um jeito às coisas faz aliás parte da sua filosofia de vida e de subsistência, mais a mais como adquirirão algo se ninguém lhes dará emprego se o pedirem, supondo que o pedem. Sim supondo, e não mais que uma suposição seria lícito atribuir-lhes, trabalhar é para quem não sabe fazer mais nada, e eles sabem.

Um roubozinho aqui, outro ali, beliscam mais a nossa sensibilidade vulgar que a nossa carteira. Afinal os Salgados, os Bavas, os Césares, os Varas, os Sócrates, os Vieiras da Silva, os Oliveira e Costa e tantos outros, roubam-nos bem mais. Roubaram-nos milhares de milhões, e sem que nos revoltemos.

Gritamos aqui d’el-rei se um cigano nos leva os ténis que secavam no quintal, mas quanto aos outros, aos que verdadeiramente nos roubam somos mais contemporizadores, mais tolerantes, e até votamos neles uma e outra vez.
  
Adoro as suas músicas e ritmos tanto quanto seu estatuto libertário, cigano não é ovelha ranhosa, não é carneiro que faça parte da carneirada, cigano é ser tudo que nós invejamos e p’lo que não temos a honra de pugnar. Ser cigano é ter cara para tudo e não corar, enquanto nós calamos a vergonha de cumprir e de obedecer, de comer e calar. Não é o cigano que está errado, somos nós carneiros que não balimos e ainda aplaudimos e votamos no verdugo.

Enquanto nos fodemos das nove às cinco, enquanto trepamos pelas costas uns dos outros para ganhar o favor do chefe, outro merdoso como nós mas a quem o oportunismo guindou mais alto, eles deambulam pelas estradas e percorrem sem pressas paisagens e países. Nas calmas, gozando o sol sem tempo contado, sem corridas, enquanto nós sofremos um ano inteiro para passar correndo por um mês de férias que nos custou os olhos da cara e saiu do coro, que foi suado.


Nós acumulamos selfies e fotografias, eles recordações de lugares, nós no telemóvel eles na memória. Vivem à nossa beira sem preocupações de horários ou de carreiras, de pontualidade ou assiduidade, morrem de velhos quando tem que ser, nós morremos de AVC’s e de enfartes, fruto do muito que comemos, do stress que acumulamos, da avidez que abraçámos.

Não vivem à nossa custa não, sofrem a vida deles e, atentos, espertos, matreiros, tudo que nós deveríamos ser, sempre que podem cavalgam as nossas costas, por breves momentos somente e jamais nos deixarão dores para cem anos ou nos levarão 0,0001 do PIB que seja. Ladrões mesmo são os sérios que caminharam e caminham ao nosso lado… Ciganos são apátridas, sofrem as guerras que não declaram apenas por serem diferentes, na Segunda Guerra mundial foram assassinados mais de quinhentos mil. Hoje, passados setenta e cinco anos parece ainda e por absurdo haver dentro de cada um de nós um pequeno Hitler.

A CEE reconhece o seu estatuto apátrida e respeita-o. Atendendo a esse facto envia-nos anualmente milhões para os integrar, os socializar caso eles aceitem submeter-se. Esse bolo, esse montante de milhões que lhes é destinado e por eles deveria ser distribuído como subsídios alimenta contudo centenas de académicos cuja vida tem sido dedicada ao estudo da pobreza e os tem enriquecido. Tão admirável bolo alimenta ONG’s diversas, uma miríade de organizações governamentais ou não, departamentos universitários, instituições insuspeitas, associações que grassam como cogumelos, milhares de técnicos das mais diversas naturezas etc etc etc …

São músicos, são alegres, são foliões, são vadios, são sem lei que não a sua, são uma esperança à margem desta sociedade alienada e alienadora que construímos e gerimos, que aguentamos e sofremos. É bem possível que dentro de cem, duzentos, trezentos anos a nossa sociedade já não exista, já não pontifique neste mundo. Sobrarão ou restarão os esquimós, os aborígenes australianos, os indígenas africanos, os índios da amazónia e, podem crer os ciganos. Não há mal que entre com eles, nem os vírus. Somente a nossa inveja e baixeza os molesta.

Talvez dez por cento do bolo chegue às mãos dos ciganos, às mãos daqueles a quem se destinam, e mesmo esses dez por cento desejamos para nós e se pudéssemos… Haja calma bom senso e um travão à estupidez, é provável que se tanta narda lhes chegasse às mãos nos deixassem os ténis em paz, e as calças e camisas deixadas esquecidas corando no arame…

É caso para meditarmos e nos darmos ao cuidado duma introspecção regularmente, há-de valer a pena, talvez até aprendamos algo com aqueles que tanto vituperamos. Ganharemos no mínimo uma oportunidade para olhar para nós mesmos. coisa que deveríamos fazer mais vezes.

Capice ? Como diz o Camilo ?


https://www.youtube.com/watch?v=G6aAyvn2A2s&list=PLJ4SrfQtzo8WkVK8QG6gMTmq8lGZWXy31




https://funchalnoticias.net/2020/04/06/papa-denuncia-organizacoes-humanitarias-que-se-servem-dos-pobres-para-garantirem-os-seus-salarios/?fbclid=IwAR0YND5NoALzJKuVXIrbEoizaHYlEJ2rVslhxR85exIF6W1mIveyFtGTuh4

sábado, 4 de abril de 2020

640 - ALMAS ESTILHAÇADAS ...



                                ALMAS ESTILHAÇADAS


Lembro-te demasiado ainda e,
choro-te já contra vontade
num choro sofrido e babado
impossível de suster,
um choro  gemido, chorado.

Penso nos mistérios desbravados,
tudo que nos ensinámos,
e juntos descobrimos
nos passeios dados e trilhados,
mão na mão, cojito em ebulição,
sempre enovelados.

Em vez de passos incertos um fio
estendido, 
da partida à chegada e,
cada novelo um mistério desvendado.

E tanto passo dado,
tanto caminho trilhado,
pensar desenrolado, 
nastro estendido, 
desatado,
descobertas maravilhas, 
tantas,
tantas quantos os dias partilhados e,
agora lembrados,
agora chorados,
agora gemidos,
agora sofridos.

Por vezes interrogo-me,
ter-te-ei respondido a todas as perguntas ?
a todos os desejos, todos os anseios ?
correspondido ao que de mim esperavas ?
mesmo aos devaneios ?
terei cumprido as expectativas ?

Centenas de vezes me pergunto se,
se não poderia ter feito mais,
ter ido mais longe,
ter feito melhor,
ter-te amado mais.

Lembro-te milhares de vezes e
ao aprendido contigo  ou,
ao partilhado comigo,
no pouco que viveste.

Outras vezes quão pouco viveste,
desse tanto sendo tudo,
agora nada.

Imensas vezes me interrogo e
outras tantas me pergunto,
sim, todas as vezes que te lembro,
e são muitas,                     
demasiadas as recordações,
esboroando-se.

Sinto perder-te com o tempo,
perder o pé,  o fio da meada,
o fio de Ariadne porque
esboroadas, toldadas,
essas recordações se enleiam
e confundem no meu espirito
numa alquimia que,
aos poucos as altera,
as modifica a meu desejo e,
assim as falseia, ou remenda,
remedeia, Medeia, reconstrói e,
transforma num ideal vero,
verdadeiro,
de esteios colados a desejo.

Verdades coladas a esmo para
colmatar mágoas, 
calar prantos, sarar chagas,
te endeusar a estes olhos cegos para ti
pois não mais te viram,
nem verão.

Idealizo-te, esqueço-te e,
assim traindo-te, te mitifico,
te torno tabu e totem,
madeiro, trave,
porto seguro onde me abrigar,
tábua a que me agarrar,
madeiro alimentando sonhos.

E agora que te endeusei
e tudo e todos contigo comparo,
não há comparação,
tudo, todos batidos aos pontos e,
mais bates ainda neste coração.

Sei quão injusto é,
seres agora invencível,
porque te guindaste ao altar erguido e
se tempos houve em que me enfeitiçaste
percebi agora quanto te endeusei,
para mal de todos,
para mal de mim e dos meus pecados,
incapaz agora de me dar aos outros,
obcecado,
incapaz de viver e conviver,
pois me matas aos bocados,
nos tornaste pedaços,
de mim e de ti,
já não sou o mesmo, já não sou eu,
nem tu és tu.


Foste galáxia que me estilhaçou …




segunda-feira, 23 de março de 2020

A MÁSCARA DE ZORRO E A VEZ DO CHEGA...


"Z" A MÁSCARA DE ZORRO E A VEZ DO CHEGA... FICÇÃO

Apesar da minha doentia modéstia, sempre contrariando extrovertido que sou, vou hoje confessar-vos alguns segredos meus e que eu mesmo descobri em mim há poucos dias, mais propriamente quando a Fatuxa se interrogou quanto ao meu ar marcial, em especial pelo facto de levar tudo muito a peito e nunca deixar para amanhã o que posso fazer hoje.

Enfim, um comportamento inusual, todo ele atreito a suspeições de toda a ordem ainda que em certos casos eu prime pelo caos. Diria que contradições aparentes num carácter recto e decente. Não escreve Ele direito por linhas tortas ? Por que não O poderei fazer eu, nado e criado à sua imagem e semelhança ?

Esta primazia do direito e da justiça que cultivo, esta noção da justa medida, é sentimento que sempre me animou, que sempre pratiquei, a que sempre obedeci e sempre defendi. Portanto quase sempre pugnando por tal e, mesmo que os caminhos aparentem ser envios, jamais descurei porém o objectivo final, um resultado prático e real.

Este sentimento de justiça e rectidão impregna o meu carácter como a espinha dorsal dá forma e solidez a um peixe, ou como a coluna vertebral escora o esqueleto em nós humanos, por norma tão cheios de qualidades quão de defeitos. E uma vez que defeitos não tenho, já os tive mas ultrapassei-os, coloquei-os de lado, resta-me falar-vos das minhas qualidades, o que me comprometo a fazer com empenho e incomensurável prazer no sentido de satisfazer a vossa mórbida curiosidade e sede de saber, ou de conhecer, que confio de ciência certa vos animar.

Não é fácil defender justiça e rectidão num mundo em que a desordem reina e a violência é a práxis diária, pelo menos desde que ao cimo da Terra houve dois homens e, quer p’lo pão para a boca quer por mulher com quem dar largas ao instinto primevo e carnal, os homens se tornaram defensores cegos dos seus interesses e condições.

Olhando o mundo animal nos programas da National Geographic podeis ter uma ideia mais precisa do que por comodidade ignorais, o mundo, este mundo, este o nosso mundo, é violentíssimo e a violência o seu estado normal, natural, quer a nível animal quer humano. Portanto não o ignoreis nem vos admireis.

Entre os homens essa mesma luta é constante, apenas a civilidade e a socialização a enobrecem, disfarçam, camuflam, mas no fundo e no mais íntimo de cada um vive, latente e por vezes agindo de modo contundente o mesmo primitivismo de há milhões de anos, com uma agravante, agora o homem nega, disfarça, esconde e mente, isto é torna pior o que já de si é mau, sendo o único ser à face da terra que não se limita a matar única e exclusivamente para comer.

E por falar em comer já imaginaram quantos animais, quantas toneladas deles na cadeia alimentar que ocupamos matamos e esfolamos diariamente para satisfação da nossa necessidade mais básica ? E os que matamos por desporto ? E por terem um corno, uma barbatana, uma bílis ou tomates que acreditamos potenciarem a nossa virilidade ? Ou porque o seu pelo, a sua pele, dão boas botas e melhores casacos, malas ou cintos ?

Não, não é o crocodilo do Nilo, a piranha ou o tubarão o maior predador ao cimo da terra, é o homem, que por interesse e ambição contra tudo e contra todos move permanentemente uma guerra.

E toda a guerra exige um guerreiro, preferencialmente matreiro. A sociologia e a diplomacia juntar-se-iam para no-lo dar ou atirar para o terreiro. E assim nasceu o político, vulgo pantomineiro, tal qual a civitas o civismo e as artes nos deram o mimo a literatura nos deu os ficcionistas, as necessidades da manada os fascistas, as utopias os comunistas, a iniquidade os democratas que aturamos.

Sim, era voz corrente em casa dos meus pais ouvir dizer ter sido a Luisinha a fazer de mim um homem, embora sendo verdade tal não corresponde à verdade total e induzirá em erro os mais incautos. Nem eu era o bon vivant ou estoura-vergas que a afirmação parece dar a entender, nem a Luisinha por enorme que tenha sido o peso da sua influência foi a única responsável pela minha verticalidade, ou p’los meus carácter e personalidade.



Naturalmente ela contou, e muito, mas não posso esquecer o meu pai cujas atitudes e comportamento para comigo me levaram a matá-lo bem cedo, a fazer-me á vida e a fazer por mim. Aos treze anos fugira de casa, uma tentativa frustrada por um padre e pela GNR, mas aos dezasseis sairia para trabalhar em Lisboa, ramo verde onde parei bem pouco tempo tendo regressado a Évora passados cerca de dois anos* para quase de seguida me voluntariar para a Marinha Portuguesa, essa sim, não a minha mãe nem o meu pai mas que havia de me dobrar e torcer o suficiente para me endireitar. Foi uma incorporação inesquecível, uma recruta inolvidável, uma mobilização de arrepiar e finalmente um destacamento de assombrar. Tudo isto teria eu dezoito anos ou dezanove e antes dos vinte era responsável por uma companhia e dois batalhões de noventa homens cada deixados à sua, à nossa sorte no meio da selva, mais exacta e especificamente entre a mata, a savana e o deserto de Namibe no sul de Angola, junto ao rio Cunene.

Hoje é-se jovem até aos trinta anos, para alguns casos até aos quarenta, (caso dos agricultores penso eu) porém naquele tempo eras homem a partir dos dezoito e desenrasca-te, doravante de nada te valeria chamar pela mãezinha ou pelo paizinho, o paizinho agora serias tu.

Cedo tive portanto que cuidar da minha vida, e mantê-la viva, não só da minha como da vida dos demais às minhas ordens. E como para além do poder institucional advindo duma cadeia de comando te fazes aceitar por homens, alguns mais velhos que tu, alguns mesmo mais experiente que tu ? Só há uma forma, num ambiente hostil como aquele, num ambiente de guerrilha somente o exemplo cria respeito e o respeito conferir-te-á autoridade. Primeiro estranha-se, depois entranha-se, só através do exemplo ganharás, conquistarás a confiança dos homens e o seu respeito.

Fácil ? Não não é fácil, envolve coragem e riscos, mas não creio que exista outro processo, e riscos há-os sempre, compete-te através da coragem e do exemplo diminui-los, reduzi-los, controlá-los, calculá-los. Com vaidade afirmo que o meu destacamento foi dos poucos e dos primeiros a registar o mais reduzido número de baixas em cada comissão efectuada, um orgulho para mim, uma apólice de seguro para os meus homens.

Mas por trás dessa honra existe todo um trabalho de equipa e de campo, na planificação das operações levadas a cabo, no planeamento de cada missão levado ao extremo, ao pormenor, a ponto de não se partir para uma missão sem que os possíveis reveses tivessem sido abordados e estabelecida a resposta ou o modo de lidar com eles, nunca deixando lugar para o imprevisto. Era fulcral para o sucesso de cada missão ou operação o seu estudo aprofundado, a abordagem do objectivo a cumprir implicava a responsabilidade do seu correcto planeamento. A operação em si prescrevia os meios a utilizar e os processos e procedimentos a despoletar a fim de atingir os objectivos propostos. Uma   Theoria e uma Práxis adequadas completavam-se num binómio que quase nos tornara invencíveis.

Esse risco acrescido, esse exemplo que constantemente procurei dar estando sempre na primeira linha de tiro, de risco, na fila abrindo caminho pela picada e nunca me furtado a ele, essa atitude exemplar deu-me autoridade, verticalidade, rigor comigo mesmo, e havia de moldar-me personalidade e carácter até aos dias de hoje. Tornara-se e tornou-se uma prática corrente enfrentar de frente todo e quaisquer obstáculos, todo e quaisquer problemas, todo e quaisquer conflitos.

Por isso hoje deploro a leviandade com que governantes e responsáveis tudo fazem em cima do joelho, por isso o país definha, entregue a gente ambiciosa mas sem ambição, palavrosa mas sem palavra, com cara mas sem carácter.

O país vai mal, vai de mal a pior, e haja calma pois tudo irá gradualmente definhar ainda mais até que uma qualquer personalidade, uma qualquer pessoa dele tome o leme, tome as rédeas, e de novo o coloque nos trilhos, no caminho, no rumo, no eixo. A nossa liberdade desde há muito virou libertinagem deliquescente da probidade que devemos cultivar, daí até à iniquidade de que esta democracia faz jus foi um passinho de pardal, e atrás de cada passarão veio a corrupção.

Não é este o caminho, há que puxar do chicote e ajustar as rédeas, a manada tem que ser levada ao redil certo, à força se for preciso, força é sinónimo de capacidade, de segurança, e a manada necessita da segurança da autoridade e na vida como do pão para a boca, à força se necessário. Ah sim ! E a boca calada. A política para os políticos, o trabalho para todos, trabalho garantido para todos.

Naturalmente chegou a hora Z e uma vez mais estou pronto a alinhar na primeira linha e de novo me voluntario no sentido servir a Pátria, ajudar novamente a Nação a erguer-se do chão da ignomínia a que traidores a condenaram, 

             a levantar hoje de novo o esplendor de Portugal ! 


* Ler a este propósito   "O PRÉMIO VALMOR ERA EU" em:

https://mentcapto.blogspot.com/2016/05/345-o-premio-valmor-era-eu.html


sábado, 14 de março de 2020

639 - FLORES, SÓ FLORES... ‎ by Maria Luísa Baião *



Sempre gostei de flores e certamente não serei uma excepção à regra. Aproxima-se a Páscoa, período do ano em que começo a pensar dar um pulinho ao Algarve. Não vou a banhos, há muito que o Algarve me perdeu para férias, excesso de calor, excesso de gente e de carros, excesso de restaurantes sempre excessivos na falta de modos e profissionalismo com que nos recebem, excessivos até nos preços se comparados com os nossos vizinhos espanhóis.

O que o Algarve tem que ainda me seduz é todo um mar de impressionantes amendoeiras em flor, por vezes a perder de vista e que para mim são uma delícia p’ra espraiar o olhar.

Durante muitos anos fui campista, depois caravanista e só deixei o contacto íntimo com a natureza quando o meu filho cresceu deixando de nos acompanhar. Conheço quase todos os parques do país, conhecia até aqui há uns dez anos atrás, mas não foram eles que me afastaram do campismo. Incapazes de arrumar os campistas em socalcos sobrepostos, tudo dos parques foi retirado para ganhar espaço e claro, as flores foram as primeiras vítimas.

Conheço parques no estrangeiro, bastantes, em que os campistas eram sacrificados ao espaço, não o havia, não entravam, mas eram realmente uma maravilha de parques. Temos, segundo parece uma enorme capacidade para dar cabo de tudo que seja para nós algum prazer. Conheci Quarteira em 75, uma linda aldeia típica, vão vê-la hoje, agora, e digam-me se aquilo é em alguma coisa diferente de tudo que por aí há aos pontapés.

Não sabemos preservar, não sabemos desenvolver harmoniosamente, desconhecemos o significado de crescimento integrado, sustentado (se ao menos crescessemos), por isso não se admirem que goste de ver aquele mar florido, antes que seja queimado para construir torres e mais torres daquelas em que mesmo dum décimo andar só nos deixam ver mais torres.


Passei hoje o dia com a minha vizinha tratando do jardim fronteiro à casa. Arrancámos ervas, alguns arbustos em excesso, para quê ? Arranjar espaço para as flores trazidas daquele viveiro/estufa ali à estrada dos Canaviais as quais irão alegrar solenemente as nossas chegadas a casa.

Que flores ? Flores alentejanas com certeza, daquelas que vimos alegrando os nossos campos agora que a Primavera chegou, amarelas, violetas, rosadas, lilases e roxas, vermelhas, brancas e azuis, porque foi assim, com essas cores que pintámos quando meninas o Arco-Íris.

Um aroma salutar e alegre inebriará quem se chegar, fará com que o carteiro se demore um pouco descansando da labuta, a minha amiga Francisca falará a toda a gente nas suas flores, o Saias quando aparecer demorarar-se-á tratando cada uma delas pelo nome próprio e de família, terei que lhe ouvir de novo a história das roseiras de todo o mundo que não conseguiu trazer para Évora por causa da “Guerra Fria” e lamentar-se outra vez que já nem os crisântemos nos enfeitam a Praça maior.


Talvez traga do Algarve uma amendoeira, talvez venha a contribuir para preservar a espécie, talvez à sua volta falemos do que não devíamos fazer, talvez...

Mas vocês são capazes de imaginar só que seja a beleza do Algarve na Primavera ? Nada de excessos, excessivo só mesmo aquele mar de pétalas branco-rosa tornando exuberante a mesma paisagem que no verão se nos mostra árida, seca, agreste.

Os primeiros dias quentes concitam-me a caminhar para sul, como ave de arribação a quem os equinócios traçam os rumos. Contristada voltarei na certa, mas com a alma preenchida e desperta. O meu marido costuma contar uma história de um seu velho amigo que tudo fez para não ir ao ultramar no tempo em que dele se fugia. Parece que uma vez deram ao dito mancebo uma pistola (de pintar), cheia de tinta vermelha para que pintasse as cadeiras e as mesas de uma messe, arrecadadas para o efeito num armazém militar que servia de garagem às viaturas. Até aí tudo bem, não fosse ao fim do dia terem descoberto que tudo pintara, carros, camions, paredes, nada escapara, só ele escapou à tropa dado por maluco.

Se me deixassem iria mais longe no que o Eng.º Saias tentou, encheria toda a cidade de flores, flores e mais flores, de todas as cores e espécies, até que alguém notasse que aqui se teima pela vida e que não, não estamos malucas (os). 


‎  *  by Maria Luísa Baião, criado a 26 - 3 – 2002 e publicado no Diário do Sul, coluna KOTA DE MULHER provavelmente num dos dias seguintes.

               


sexta-feira, 13 de março de 2020

638 - UMA ESMOLINHA SÓ, by Maria Luísa Baião *



Rejubilo com pequenas coisas como qualquer de vós, uma flor que se abre, um aroma que apanho no ar, um gesto educado de um jovem. Mas com a mesma facilidade com que rejubilo ou me comovo, também sofro com a dimensão pequenina da terra onde vivo, da sua falta de perspectivas futuras, do desenvolvimento adiado, do marasmo e da rotina em que caiu.

Olho para os jornais e que vejo ? Futilidades, vacuidades, banalidades, guerras de alecrim e manjerona que só servem para nos ocupar o tempo, não o espírito nem as necessidades. Idem para a TV, toda ela cada vez mais espectáculo, cegada por corrida louca de audiências, como se daí viesse algum bem ao mundo. No mundo da política tudo o que se faz parece não resolver um único dos nossos problemas, pelo contrário, tudo é prontamente criticado, alvo de obstrução ou oposição, de tal modo que apenas durante um curto período de verão essas guerras abstrusas por algum momento se quedam.

O Presidente vai ao Porto em 2001? Um escândalo, os jipes vão encarecer  ? Uma afronta ! O ministro tem acções ? Heresia ! O governo vira à esquerda ? Traição ! Vira à direita ? Aberração ! O país vai para baixo ? Acima ! Vai para cima ? Abaixo ! A tal GALP é dos Italianos ? Pois sim ! Pois não ! A nossa EDP vai para os Espanhóis ? Errado ! Certo ! O despesismo é nosso ? Só pode ser bom, é teu ? Só pode ser mau ! O silêncio é de ouro, o sigilo é a alma do negócio. 

Sinceramente que opiniões esperam que este povo tenha do (s) momento (s) político (s) que atravessamos ? Que sabe ele de dividendos ? De acções ? De participações ? De SGPS ? De solvibilidade ? De manipulação de preços ? De cotações ? De fusões, de aquisições ? De OPV, de OPA’s ? de CMVM ? De Bolsas ? De controle de custos ? Do NASDAQ ? Do Dow Jones, do Niquei ? De deslocalizações , do Brent ? De imparidades e tantas outras situações que eu mesma não domino convenientemente mas que sei mexerem comigo e com a situação do país ?

Por que não se cingem os políticos mais à situação local e real do país ? Por que não nos resolvem os comezinhos problemas que temos à porta? Por quê milhões em submarinos para o Atlântico se nos faz falta aqui um hospital ? Por quê um aeroporto na Ota e não em Rio Frio ? Por que não vai o TGV passar na minha rua ? Por que se investe em Sines e não no meu Bairro ?

Por que muda a hora, quando há tanta coisa mais urgente a mudar ? É por ser mais fácil ? Por quê tantos milhões para a zona dos mármores e para o norte alentejano e nada para nós ? Por que se guardam seiscentos mil no banco se os juros até andam pela hora da morte ? Por que perdemos em Madrid ? Por que não ganhamos em coisa nenhuma ? Em lado nenhum ? Por que nada nos calha ? Será por que não pedimos ? Ou não precisamos ? Ou não nos lembramos ? É incapacidade nossa ou vergonha de pedir ? De exigir? Ou esquecemos que temos direitos mas também obrigações ?

Vamos esperar reste qualquer coisita do tal 2001 ? Ou do 2004 ? Vamos pedir, esperar ou agradecer uma esmolinha ? Ou vamos ficar caladinhos para não levarmos no focinho ?

Vamos perder a vergonha e rogar o favor de uma esmolinha só ?   


 *  by Maria Luísa Baião, criado segunda-feira, ‎30‎ de ‎Outubro‎ de ‎2000, ‏‎pelas 22:40h e publicado no Diário do Sul, coluna KOTA DE MULHER nos dias seguintes.