sexta-feira, 4 de setembro de 2020

657 - POEIRA CÓSMICA , Somos pó, Disse ela ...



POEIRA CÓSMICA


Somos pó,

                 Disse eu para ela,

poeira cósmica que o Big-Bang espalhou,
disseminou p’lo universo,
disseminou-se…

Como as ventoinhas espalham a merda pelas paredes,
a poeira assentou,
assentou-se”,
aglutinou, juntou,
anexou-se,
compactou-se,
terraformou-se,
transformou-se,
concentrou-se,
núcleo pesado, crosta leve,
flutuante,
as forças, as forças,
a pressão, a pressão,
o caos, a causa,
a casualidade, a causalidade,
as moléculas, os átomos, os núcleos,
o mistério, o milagre, a vida,
unicelular, bicelular, tricelular, quadri, quintup, sextup, octo…

A conquista da terra, a evolução,
a origem das espécies, a selecção natural,
África naturalmente,
Hermenegildo Capelo, Roberto Ivens,
a Eurásia primeiro,
a Europa depois,
o Magnon, o Cro-magnon, o Neandertal, o Sapiens Sapiens,
hominídeos…

A Magna Carta,
o recolhimento, as trevas,
os bretões, os normandos, os gauleses, germânicos, vikings, romanos, celtas, iberos,
a vida secular,
a conquista do Paraíso,
o Gama, Colombo, Magalhães,
Garcia da Horta, Camões,
Lamarck, Darwin, Mendel,
o iluminismo, o racionalismo,
os genes,

um passinho, o ADN,
estão explicadinhos o lado lunar,
o lado estelar, os átomos, os isótopos os biótipos,
os periódicos, as enciclopédias,
os enciclopedistas, os cientistas,
virando-me do verso e reverso,
mirando-me e remirando-me,
análise, biópsia, exame, água, sal, lágrimas,
de brancos e pretos, de brancas e pretas,
não passamos de água e sais minerais,
minerais, matéria,

                              https://www.youtube.com/watch?v=v2AXsH_miaQ

orgânica e não orgânica,
origamis vivos, alforrecas,
velas portuguesas em mar celestial,
não passamos de mão cheia de átomos,
matéria poeirenta, restos de poeira,
duramos um lapso e depois…

Pum !!
a morte, pim pam pum !!
como ao Dantas, que cheirava mal da boca,
foi um ar que lhe deu, um ar que nos deu,
o vento nos levará vogando p’la brisa da tarde,
e nos depositará, qual poeira maldita,
numa qualquer charneca,
já agora em flor,

                                                                    CHARNECA EM FLOR *

 

                                                                          Enche o meu peito, num encanto mago,

                                                                         O frêmito das coisas dolorosas...

                                                                         Sob as urzes queimadas nascem rosas...

                                                                         Nos meus olhos as lágrimas apago...

 

                                                                         Anseio! Asas abertas! O que trago

                                                                         Em mim? Eu oiço bocas silenciosas

                                                                         Murmurar-me as palavras misteriosas

                                                                         Que perturbam meu ser como um afago!

 

                                                                         E nesta febre ansiosa que me invade,

                                                                         Dispo a minha mortalha, o meu burel,

                                                                        E, já não sou, Amor, Sóror Saudade...

 

                                                                       Olhos a arder em êxtases de amor,

                                                                        Boca a saber a sol, a fruto, a mel:

                                                                       Sou a charneca rude a abrir em flor!

                                                                     

                                                                       * Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"



ou um campo viçoso de papoilas,
onde um ramalhete possamos abraçar,


O RAMALHETE RUBRO DAS PAPOULAS *

Naquele pic-nic de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico,
um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

* by Cesário Verde


poeira assentando camada a camada e depois,
milhões de anos depois,
compactada, transformada, entalada, emparedada,
pressionada, apertada, aquecida, arrefecida, submetida, 
submergida, permafrostada,

terra,

pedra, pedregulho, penedo, montanha, deserto, mar, floresta,
e aí estou eu, poeira cósmica,

da terra vens à terra voltas,

espalhado, disseminado, decomposto,
por campos floridos, montes, vales, rios, mares e oceanos,
estou em todas,
na relva dos prados, no rúmen das vacas,
nas bostas que largam e aquecem o passarinho da história,

o passarinho gelado lembram-se ?
o tal que sentindo-se quentinho cantou ?

nem todos que nos cagam em cima nos querem mal,

depois veio um gato, tirou-o da bosta,
deu-lhe banho e papou-o,

nem todos que nos tiram da merda nos querem bem.


se estás quente e confortável,
mesmo que seja na merda,
mantem o bico fechado,
até porque
quem está na merda não canta…


adiante, dizia eu que,
as bostas que largam e adubam os prados,
uma vez desfeitas são levadas p’los ventos,
os nossos ventos  arrastam toneladas,
do Saara para as Pampas Argentinas,
nem sei de mais onde para onde mais,
só sei que,

para ser franco nunca viajei tanto como agora,
que cavalgo os mares e as nuvens,
monto o Jet Stream ou me rebolo,
arrastado pelas correntes oceânicas
que circulam e percorrem o globo.

Foi um engano, é tudo um engano,
a cremação não é o fim,
a urna traz as cinzas,
traz-me a mim, e tudo  e todos de volta ao início,
pó eras e pó serás...


E aí estou eu de novo na berlinda,
pó lançado aos quatro ventos,
poeira cósmica,
cavalgando o Sirocco, o Mistral,
o Bora, o Suão, o de levante,

poeira celestial retomando o ciclo de vida habitual,
absorvido p’las plantas, peixes, aves, animais,
e comido por ti, absorvido,
transformado em sangue novo,
agora sou tu, faço parte de ti,
eu que já fui galáxia, universo ...

Não é perverso ??

Nós dois de mãos dadas, nós e mais quem ??

Nós agora uma família, somos todos irmãos,
e uns cães uns para os outros, uns figurões,
uns zés ninguém,
somos poeira, somos asneira,
insignificantes, petulantes, soberbos, prepotentes, impantes, intolerantes,
amorosos, fascinantes,

e

quando olhamos o cemitério
ou uma estação de tratamento de esgotos,
ou de lixo,

somos nós que nos olhamos, somos nós que nos olhamos,
nos vemos a nós mesmos,

e esta é a história verdadeira,
a nossa história verdadeira, a tua e a minha,
é esta a verdadeira história da tal poeira de que somos feitos,

amém…



quarta-feira, 2 de setembro de 2020

656 - PÁSSAROS, PASSARINHAS, PASSAROLAS ...



PÁSSAROS, PASSARINHAS, PASSAROLAS ...


Dia ou noite, noite ou dia,
nebulosa e constante essa imagem espectral,
estava presente como um  murmúrio,
avançando insidiosa
na escuridão do tugúrio onde me encerro,
aquecendo o óleo numa frigideira ferrugenta,
sombra, caverna, refúgio,
eu fechado sobre mim,
bicho de contas enrolado,
agachado, dormente, doído,
perdido e não achado,
fugido,
como bandido ameaçado procurado e não encontrado,
por não querer, por me esconder,
entre ninguém, entre escombros,
depenando passarinhos e magicando,
que fazer agora, enlouquecido,
o mundo não eu.


Crepita óleo na frigideira,
e eu recordo cada passarinho
ou passarinha depenada,
respeitemos os géneros,
mais a mais como saber,
como saber o que tenho entre mãos,
galo e galinha ainda distingo,
mas passarinhos e passarinhas,
é exigir demasiado de mim que,
apenas lembro tê -las entre mãos,
ou tê-los.


Não, tê-los não,
porque alguém mais afoito dirá que confundo os géneros,
que confundirei  géneros, alhos e bugalhos,
e não, nunca confundi,
não tive dúvidas,
lembro-me bem onde mexi,
no que mexi.


E não,
não são iguais,
não há duas iguais,
parecidas sim,
algumas irreais,
pela beleza,
ou pelos aventais,
ou capotes.


Bem lembro os Potes,
ou antes as Potes,
as filhas, as primas,
que guardavam em gaiolas passarinhos,
ou passarinhas,
voltamos ao mesmo,
como sabê-lo,
lembro-as bem, verão, praia, Cabedelo,
as passarinhas aos saltos,
fugidias,
esvoaçando p'la cozinha e pela galeria,
e não, dessas ou desses nunca acabaram na frigideira,
não havia ferrugem ainda,
era tudo novo nessa época,
nós, o trem de cozinha,
as passarinhas
e os passarinhos.


Bem lembro os primos, os Potes, Potezinhos,
a Maria chamava-lhes chávenas,
chávenas, não potes,
nem passarinhas,
era engraçada a Mariazinha,
uma querida, uma paixão de amiga,
sempre divertida,
sempre aos saltinhos de contente,
não de fingida,
sempre de taça na mão,
ou seria uma chávena ?


Era chávena transbordando de alegria,
e de satisfação,
até que um dia,
esvoaçou, fugiu a passarinha,
só tinha uma coitadinha,
numa gaiola doirada, uma cotovia,
Deus queira Não Matem a Cotovia,
devolvam-na à Maria,
se a acharem claro,
a passarinha, a cotovia.


E fico-me por aqui,
pelas perdizes, pelas codornizes,
passarinhas maiores,
passarinhas a sério,
fritas em óleo e crepitantes,
em frigideira ferrugenta,
antiga,
preta e delirante se aquecida,
preta ou branca que diferença faz,
agora faz,
agora revestidas de Teflon,
essa película antiaderente, mágica,
e eu magicando,
magicando e desesperando,
passarinhos ou passarinhas,
o mundo endoidando,
mascarado,
eu próprio de máscara,
o que me valeu dos salpicos do óleo,
ela me protegeu, a máscara,
um milagre,
mas tive que a tirar na hora de comer,
que outra coisa poderia fazer,
como haveria eu de comer as passarinhas,

os passarinhos.


Faltavam-me cá estes,
os passarões,
há sempre uns cabrões a estragar a festa,
ou a fresta,
espreitando pela fresta,
não comem  nem deixam comer,

Não esquecer de apagar o fogão,
não esquecer.


by Humberto Baião em 02 de Setembro de 2020









terça-feira, 25 de agosto de 2020

655 - “ CANTAR “ By Sophia de Mello B. Andresen ...




“ CANTAR “ By Sophia de Mello Breyner Andresen


            Tão longo caminho
                                        E todas as portas
            Tão longo o caminho
                                        sombra errante
Sob o sol a pino
                                         A água de exílio
Por estradas brancas
                                         Quanto passo andado
País ocupado
                                         Num quarto fechado


As portas se fecham
                                         Fecham-se janelas
Os gestos se escondem
                                         Ninguém lhe responde
Solidão vindima
                                         E não querem vê-lo
Encontra silêncio
                                         Que em sombra tornados
Naquela cidade


                                         Quanto passo andado
Encontrou fechadas
                                         Como vai sozinho
Desenha as paredes
                                         Sob as luas verdes
É brilhante e fria
                                         Ou por negras ruas
Por amor da terra
                                         Onde o medo impera


Os olhos se fecham
                                          As bocas se calam
Quando ele pergunta
                                          Só insultos colhe
O rosto lhe viram
                                          Seu longo combate
Silêncio daqueles
                                          Em monstros se tornam


             Tão poucos os homens



By Sophia de Mello Breyner Andresen in LIVRO SEXTO



***** Fotos espectacular esroubadas ao AMC no dia dos anos dele 😊

domingo, 23 de agosto de 2020

654 - PRANTO PELO DIA DE HOJE - Sofia Andresen




PRANTO PELO DIA DE HOJE 


Nunca choraremos bastante quando vemos

O gesto criador ser impedido

Nunca choraremos bastante quando vemos

Que quem ousa lutar é destruÍdo

Por troças, por insidias, por venenos

E por outras maneiras que sabemos

Tão sábias tão subtis e tão peritas

Que nem podem sequer ser bem descritas



Sophia de Mello Breyner Andresen In "Livro Sexto" pág. 77