Quem
estivesse espreitando por cima do meu ombro não entenderia patavina acerca do
que a Katy me interrogava num e-mail e, ainda menos da resposta que eu dera à
sua questão,
Ela
- então como correu a festa ?
A
festa a que ela aludia de imediato me trouxe à memória o primeiro verso da
primeira versão da canção TANTO MAR de Chico Buarque De Hollanda, e digo a
primeira versão da dita canção por a grande maioria do pessoal desconhecer haver uma segunda escrita
uns anos mais tarde.
Enquanto uma começa "QUE BONITA A TUA
FESTA PÁ" a segunda, cantada passados alguns anos, confirma a evolução do
tempo e das circunstâncias pois começa deste curioso modo: " ESTRAGARAM TUA FESTA
PÁ "…
Em qualquer dos casos o refrão mantem-se, "TANTO
MAR, TANTO MAR " entre ele e nós, daí que não tendo eu conseguido afastar
entre mim e ela, fê-lo uma outra também metida na conversa, e que não a Kathy a
aniversariante, pois lhe respondeu em linguagem telegráfica: "Mula continua teimosa STOP de resto tudo normal STOP estamos festejando
na Taberna do Centenário STOP sitio onde comemos há anos o primeiro almoço STOP
será este o último ? STOP o que fecha o ciclo ?? STOP só Deus sabe STOP cumprimentos
STOP”, referindo o facto de as pretensões diplomáticas no cerne da festa,
ou do aniversário da Camila não terem tido até ali quaisquer resultados,
qualquer sucesso, nem disso haver sequer a mínima sombra.
Entre
mim e ela, Kathy, continuava existindo um oceano, que é como quem diz, tanto
mar, tanto mar, ou uma distância incontornável quanto a qualquer entendimento
mesmo que aproximado.
A
“festa” foi o aniversário da Kathy, para o qual fui convidado tendo-o abordado
sob o manto da capa e espada da espionagem pois foi sob esse pretexto que me
propusera ir à “festa”, onde nos encontrámos para decidir do nosso futuro, isto
é, se ficaríamos ambos sob a protecção do mesmo meridiano, ou quem de nós se
deveria ou teria que deslocar 370 léguas para leste ou para oeste do meridiano
de referencia.
Se
querem saber como entre nós ficaram as coisas diria que as partes ficaram cada
uma de seu lado do paralelo 38, irredutíveis, teimosa e estupidamente irredutíveis,
enfim, burrada para durar já que uma das partes, mais próxima do Circulo Polar Ártico,
parece ter congelado no tempo e não ver a situação actual, as necessidades
futuras impostas pela idade etc etc etc ... Já a parte contrária, talvez porque
a sul e mais chegada ao Equador, debitou bom senso, discernimento, prudência, e
demonstrou possuir uma boa intuição da situação que apresentou num cocktail
equilibrado, ajuizado, prenhe de circunspeção.
Embora
o diálogo tenha sido diplomaticamente atencioso nenhuma das partes se deixou
seduzir pelos argumentos da outra, o que deixa em aberto a possibilidade de exclusão,
afastamento, esquecimento e guerra, nesta parte do campeonato não creio que a
coisa venha a deixar saudades, derivando do facto de as posições assumidas, irredutíveis
em áreas cruciais como a questão da reciprocidade ou a metafisica do sexo não terem
tido solução.
Como
abordar a questão da reciprocidade ou a metafisica do sexo ? Duas questões que
parecem diferentes, talvez se encontrem num ponto muito íntimo da condição
humana: o que damos de nós ao outro e o que acontece entre duas pessoas quando
os seus corpos, os seus desejos e as suas interioridades se encontram.
Vamos
devagar, porque cada uma destas questões merece espaço para respirar.
1. A
reciprocidade — a difícil arte de dar e receber, aqui devemos começar por uma
pergunta: Quando damos, damos algo realmente ao outro ou cedemos também à
imagem que desejamos que o outro tenha de nós ?
Parece
uma subtileza, mas não é.
Podemos
amar alguém e desejar a sua felicidade sem exigir nada em troca. Contudo, mesmo
nesse amor aparentemente desinteressado, pode existir uma expectativa
silenciosa: a de sermos reconhecidos, compreendidos, valorizados ou,
simplesmente, amados, mais, sermos amados como gostaríamos e quereríamos. Não
significa que o nosso amor seja falso. Significa que somos humanos.
Vejo
três dimensões na reciprocidade:
A
reciprocidade material: dou-te alguma “coisa” e tu dás-me alguma “coisa” idêntica.
É a dimensão mais facilmente mensurável.
A
reciprocidade afetiva: dou-te atenção, ternura, desejo, tempo e
disponibilidade; espero que também me reconheças como alguém importante na tua
vida e retribuas do mesmo modo.
A
reciprocidade existencial: permitimos que o outro nos transforme e aceitamos a
responsabilidade de também o transformarmos. Já não se trata apenas do que cada
um recebe, mas daquilo em que ambos se tornam.
É
nesta terceira dimensão a questão mais interessante. Porque a reciprocidade exige
que ambas as partes reconheçam a existência, a dignidade, o gosto, as
preferências e a importância da outra. A igualdade dos sentimentos implica a
identidade e similitude dos sentimentos em relação a….
Podemos
amar de maneiras diferentes. Podemos até amar com intensidades diferentes. A
questão decisiva é saber se um deles acaba ou não por se tornar apenas o
destinatário dos sentimentos de quem dá.
E há
aqui um paradoxo: podemos dar muito e receber pouco sem sermos necessariamente
vítimas; mas, se dermos continuamente à custa da nossa própria dignidade, o
amor pode converter-se numa forma de abandono de nós próprios. A reciprocidade é uma contabilidade
sentimental. Mas também pode ser uma conta permanentemente paga por uma só
pessoa, o que é de todo errado.
2. A
metafísica do sexo — o corpo como lugar de encontro.
Aqui,
entramos noutro território. Começaria por distinguir três coisas: o sexo como
acontecimento físico, como experiência psicológica e como experiência de
significado emocional.
No
primeiro plano, temos os corpos, o desejo, a excitação, o prazer, o acto sexual
puro e isolado de sentimentos.
No
segundo, temos a história de cada pessoa: as suas memórias, inseguranças,
fantasias, necessidades, medos e expectativas.
No
terceiro, surge a pergunta metafísica:
Quando
dois corpos se encontram sexualmente, encontram-se apenas dois corpos ou
acontece alguma coisa que ultrapassa a materialidade desse encontro ?
Não
precisamos de recorrer ao sobrenatural para reconhecer a profundidade da
pergunta.
O
corpo não é um objeto que possuímos separado de nós. É a nossa maneira de estar
no mundo e de nos tornarmos acessíveis aos outros. No encontro sexual, essa
acessibilidade pode atingir uma intensidade singular.
Por
instantes, podemos sentir que as fronteiras entre o eu e o outro se tornam
menos rígidas. O outro deixa de ser apenas alguém que observamos exteriormente
e passa a participar numa experiência que construímos em conjunto.
Mas
atenção: a proximidade física não garante proximidade interior.
Duas
pessoas podem ter relações sexuais sem estabelecer uma ligação afectiva
profunda. E duas pessoas profundamente apaixonadas podem experimentar a
sexualidade como uma forma de intimidade que não se esgota no prazer.
É por
isso que eu não confundo sexo com amor, nem os separaria necessariamente. O
sexo pode ser prazer, descoberta, comunicação, afirmação, fuga à solidão,
procura de validação ou expressão de amor. Por vezes, reúne várias destas
coisas.
A
dimensão metafísica aparece quando perguntamos o que significa, para cada
pessoa, entregar-se e receber o outro. O corpo pode dizer «desejo-te» sem dizer
«amo-te». Mas também pode dizer «amo-te» de uma maneira que as palavras não
conseguem reproduzir.
E
talvez seja esta ambiguidade que torna a sexualidade tão poderosa e, por vezes,
tão dolorosa. Porque duas pessoas podem participar no mesmo acontecimento
físico e viver ou não acontecimentos interiores completamente diferentes. Uma
pode sentir que partilhou algo irrepetível. A outra pode sentir que viveu um
momento agradável(ou desagradável), sem que isso altere o lugar que a primeira
ocupa na sua vida. O encontro foi o mesmo. O seu significado foi ou não foi.
3.
Onde as duas questões se encontram:
É aqui
que eu juntaria a reciprocidade à metafísica do sexo.
Imaginem
duas pessoas que se desejam. Cada uma leva para o encontro o seu corpo, mas
também a sua história, as suas expectativas e a sua maneira de amar. Cada uma
procura alguma coisa, mesmo que não saiba exatamente o quê. E cada uma oferece
alguma coisa, mesmo que não tenha consciência do que está a oferecer.
A
questão fundamental passa a ser esta:
O que
acontece quando aquilo que uma pessoa pensa estar a dar não corresponde àquilo
que a outra pensa ou deseja receber ?
Uma
pode oferecer prazer e acreditar que ofereceu amor. A outra pode receber amor
onde apenas existia desejo. Ou ambas podem amar, mas atribuir ao encontro
significados diferentes.
Não há
necessariamente mentira nem maldade. Pode haver apenas uma assimetria profunda
entre duas interioridades.
E é
aqui que a reciprocidade deixa de ser uma simples troca: torna-se um problema
de reconhecimento. Não basta perguntar se ambos participaram. É preciso
perguntar se ambos compreenderam, respeitaram e acolheram, dentro dos seus
limites, o significado que o encontro tinha para o outro.
O sexo
pode unir corpos sem unir projetos de vida. Pode criar intimidade sem
compromisso. Pode também tornar-se uma linguagem através da qual duas pessoas
se reconhecem e se transformam mutuamente. Talvez a sua dimensão mais profunda
resida precisamente nesta possibilidade: um encontro entre dois seres que nunca
conseguem conhecer-se inteiramente, mas que, por instantes, podem sentir que se
aproximaram do mistério um do outro. O sexo aproxima, gruda-nos.
E
deixo uma última reflexão:
Há uma
diferença entre possuir o corpo de alguém, ser desejado por alguém e ser
verdadeiramente acolhido por alguém.
São
três experiências distintas.
O
desejo pode fazer-nos sentir escolhidos. A intimidade pode fazer-nos sentir
próximos. A reciprocidade pode fazer-nos sentir reconhecidos. A reciprocidade engloba
as três experiências ainda que nenhuma das outras experiências garanta
automaticamente a reciprocidade.
E
talvez uma das grandes questões da existência humana seja esta: como podemos
aproximar-nos profundamente de outra pessoa sem a reduzirmos às nossas
necessidades, sem nos reduzirmos às dela e sem confundirmos a intensidade de um
momento com a verdade de uma relação plenamente fruída por ambos ?
Uma
pergunta sobre sexo, é também uma pergunta sobre liberdade, alteridade, amor e
solidão.
A
reciprocidade: dar, receber, esperar ou ficar em dívida afetiva quando dar o corpo
significa coisas diferentes para cada pessoa, perdendo o outro, a liberdade e o
sentido da troca, sentindo fenecer o desejo, as emoções, expectativas e
vínculos, já que sem reciprocidade eles dificilmente ou nunca se criam. A
reciprocidade existencial, íntima é que tudo ou quási tudo significa na vida
concreta de duas pessoas, ou o máximo que conseguem é encontrar-se nos corpos,
mas desencontrar-se nos sentimentos. Uma chega onde a outra nunca esteve. Uma
permanece onde a outra já partiu. Uma atribui ao encontro um significado que a
outra não reconhece.
E o
mais perturbador é que ambas podem ter vivido sinceramente aquele momento. Não
é obrigatório que uma tenha mentido para que a outra tenha sofrido. Talvez o
desencontro mais doloroso aconteça quando duas pessoas se encontram
fisicamente, se tocam intimamente, mas não coincidem no significado que
atribuem ao que viveram.
E aqui
regressamos à reciprocidade: eu posso dar-te algo que considero precioso, mas
não posso decidir por ti o valor que lhe atribuis. Posso desejar que o nosso
encontro nos transforme a ambos, mas no final não posso determinar a
transformação que ele produzirá em ti ou em mim.
Há,
porém, uma nuance que me parece essencial: desencontrar-se não significa
necessariamente que não houve encontro. Pode ter havido intimidade verdadeira,
ternura verdadeira, desejo verdadeiro. O desencontro pode estar naquilo que
cada um esperava, naquilo que cada um compreendeu ou naquilo que cada um estava
disposto a construir depois. O desencontro pode estar nas expectativas,
evidentemente goradas.
Talvez
o drama humano não seja apenas o de não conseguirmos chegar ao outro. Talvez
seja também o de chegarmos até ele, tocarmos algo de profundamente humano, e
descobrirmos que aquilo que aconteceu em nós não aconteceu da mesma maneira
nele. Este assunto é extraordinariamente interessante: por que razão duas
pessoas que se encontram sexualmente podem desencontrar-se humana, afectiva ou
existencialmente ?
Começaria
por uma hipótese: o desencontro pode nascer não daquilo que separa duas
pessoas, mas daquilo ou da expectativa que cada uma leva para o mesmo encontro.
Duas pessoas podem desejar-se sexualmente, mas desejar coisas diferentes
através do sexo.
Uma
procura prazer. A outra procura intimidade. Ou uma quer uma experiência; a
outra não participa apesar de ambas esperarem o princípio ou a continuação duma
relação. O corpo pode ser o mesmo território, mas os destinos são diferentes. E
nenhuma das duas coisas é necessariamente ilegítima. O problema surge quando as
expectativas não são reconhecidas ou são deliberadamente torneadas ou não
realizadas.
Resultado
? Atribuição de significados diferentes
e a entrada numa dimensão mais profunda. Para uma dessas pessoas, o sexo pode
significar entrega, confiança, exclusividade ou amor. Para a outra, pode ser
uma experiência intensa, mas circunscrita àquele momento e gorada pelo não
cumprimento da reciprocidade ou das expectativas que para o encontro levava.
Ambas
podem sentir prazer ainda que isso possa ser duvidoso. Ambas podem estar a ser
sinceras. E, no entanto, podem sair do mesmo encontro com interpretações
radicalmente diferentes daquilo que viveram. O acontecimento é partilhado; mas o
significado não é necessariamente comum, do que sobra uma assimetria dos
sentimentos, uma pessoa pode amar mais do que a outra. Ou pode estar
emocionalmente mais disponível, mais envolvida, mais preparada para assumir as
consequências da intimidade, a outra foi olvidada, criou-se uma dificuldade:
não existe um instrumento que meça o amor e permita comparar duas pessoas. A
assimetria resultante revela-se sobretudo nas atitudes, nas escolhas, na
disponibilidade e no valor ou expectativa da continuidade que cada um passa a atribuir
à relação.
E que
um deles possa nem se aperceber pode produzir uma situação dolorosa: aquilo que
para um é central na sua vida pode ser apenas periférico na vida do outro. Ora
a incapacidade de reconhecer o outro é porém especialmente importante e acarreta
o risco dessa incapacidade se tornar um instrumento, neste caso negativo, dessa
própria experiência. Não significa que não exista afecto. Significa que o afecto
pode coexistir com uma compreensão insuficiente da pessoa que temos diante de
nós. Podemos estar intensamente interessados em alguém sem estarmos
verdadeiramente disponíveis para essa pessoa.
O medo
da intimidade e o pudor faz com que haja quem deseje aproximar-se e, quando a
proximidade acontece, sinta necessidade de se retrair ou afastar. A intimidade
pode despertar receio de dependência, de perda de liberdade, de rejeição ou
exposição emocional. A pessoa aproxima-se porque deseja; afasta-se porque teme
as consequências daquilo que deseja. Isto pode contribuir para relações de
aproximação e afastamento, embora não devamos presumir que todo o afastamento
resulta de medo. Por vezes, a pessoa simplesmente não quer continuar. As histórias pessoais são diferentes, ninguém
chega a um encontro inteiramente vazio, levamos connosco experiências
anteriores, conceções sobre o amor, expectativas, aprendizagens, inseguranças e
maneiras diferentes de compreender o sexo.
O que
para uma pessoa é natural pode ser profundamente significativo para outra. O
que uma considera uma demonstração de carinho pode ser entendido pela outra
como uma manifestação inabitual de desejo.
Não
vemos apenas o que acontece: interpretamos o que acontece através da nossa
história e a falta de comunicação ou a comunicação ilusória, que acontece quando
duas pessoas apesar de falarem muito
mesmo assim, não comunicam aquilo que realmente importa.
Podem
dizer «gosto de ti» atribuindo à frase significados diferentes. Podem evitar
perguntas difíceis para não perturbar a relação. Podem presumir que o outro
sente aquilo que elas próprias sentem. E há ainda uma situação mais delicada:
uma pessoa pode compreender perfeitamente o que a outra deseja, mas não
conseguir ou não querer corresponder.
Nem
todo o desencontro resulta de um mal-entendido. Alguns resultam de verdades que
não coincidem. Mas há uma questão
ainda mais funda: por que razão não coincidem ?
Até
aqui enumerámos causas psicológicas e relacionais. Mas suspeito que o interesse
delas vai além disso. Imaginemos que duas pessoas são adultas, livres,
sinceras, sentem desejo uma pela outra e não estão a mentir. Por que razão o
encontro pode, ainda assim, produzir experiências interiores tão diferentes ? Uma
hipótese é que cada pessoa viva o encontro a partir de uma interioridade a que
só ela tem acesso direto.
Uma pode
reconhecer o outro, ouvi-lo, observá-lo, tocar-lhe e amá-lo. Pode aproximar-se
extraordinariamente da experiência do outro. Mas não pode ocupar o lugar do
outro e sentir exatamente aquilo que ele sente.
Na
filosofia, esta questão relaciona-se com a alteridade: o outro até poderá ser alguém
que eu conheça, mas nunca posso transformá-lo inteiramente numa extensão de
“mim”.
E o
sexo torna esta dificuldade particularmente visível, porque produz uma
proximidade corporal muito intensa sem eliminar a distância entre duas
consciências. Os corpos podem estar juntos. As experiências podem sobrepor-se
parcialmente. Mas cada pessoa continua a viver o acontecimento a partir de si.
Daí
uma possibilidade perturbadora: a máxima proximidade física não garante a
máxima proximidade interior. E talvez seja precisamente essa diferença que existe
quando falamos na metafísica do sexo.
O
desencontro é inevitável ? Não creio que seja inevitável em todas as suas
formas. Mas alguma diferença entre duas experiências será sempre possível. Não
podemos garantir que sentimos o mesmo, que atribuímos o mesmo valor ou que
desejamos o mesmo resultado ou futuro que o outro.
Podemos,
contudo, procurar compreender o outro, comunicar com honestidade, reconhecer as
diferenças e negociar o que cada um está disposto a viver. O objetivo
não precisa de ser uma coincidência absoluta. Pode ser uma relação em que as
diferenças são conhecidas e respeitadas.
E
importa distinguir duas situações:
Desencontro
sem culpa: duas pessoas descobrem honestamente que querem coisas diferentes. Desencontro
com responsabilidade: uma pessoa conhece as expectativas da outra, alimenta-as
deliberadamente ou desrespeita aquilo que foi acordado. A dor pode existir em
ambos. A responsabilidade, porém, não é necessariamente a mesma.
Agora,
há três caminhos possíveis, qual é o núcleo do desencontro que interessa?
Psicológico:
por que desejamos pessoas que não desejam o mesmo que nós ?
Metafísico:
como podem duas pessoas partilhar a intimidade e viver realidades interiores
diferentes se são desiguais nos seus gostos ?
E
voltamos à vaca fria, à “reciprocidade” ou por que razão aquilo que damos e
recebemos no sexo e no amor raramente coincide por completo ? Porque, tenho uma
suspeita: talvez não te interesse tanto saber por que as pessoas se encontram,
mas perceber por que razão, quando se encontram, não conseguem necessariamente
encontrar-se uma na outra.
E essa
é uma pergunta ou questão bem mais difícil de ser respondida.
Imaginemos,
duas pessoas dão-se bem em tudo: conversam, entendem-se, riem, respeitam-se,
talvez até se admirem profundamente. Existe cumplicidade em quase todos os
domínios, mas no campo sexual zero, não conseguem... Não há química, antes pelo
contrário... Quando chegam ao campo sexual, nada. Não há atração; talvez exista
até uma espécie de repulsa ou desconforto. A compatibilidade entre duas pessoas
não é uma realidade única. É possível haver uma enorme compatibilidade humana
e, simultaneamente, uma incompatibilidade erótica.
Mas o
que interessa nessa hipótese é precisamente o por quê. Podem existir várias
razões: a pessoa pode gostar muito da outra sem sentir desejo sexual; pode
haver uma inibição específica naquele vínculo; pode existir uma ausência de
atração física ou erótica que não depende da beleza; ou pode haver algo na
dinâmica entre ambos que bloqueia o desejo, que bloqueia a acção.
E há
uma distinção importante: não sentir atração não é o mesmo que sentir aversão.
O zero é ausência; o contrário do desejo já implica uma reação negativa, que
merece ser compreendida. A pergunta que eu colocaria no centro desta
investigação é esta:
Se
duas pessoas se entendem tão bem em tudo o resto, por que razão essa harmonia
não se traduz em desejo ou no campo sexual ?
A
harmonia humana não produz necessariamente química erótica. Mas será que essa
química é algo espontâneo, independente da nossa vontade, ou pode ser
construída, estimulada, aprendida e transformada pela relação ? Uma sente
desejo e quer concretizar mas a outra é pudica e moralista e essa pode ser uma peça fundamental do problema.
Uma
pessoa sente desejo, quer concretizá-lo. A outra, apesar de se dar bem com ela
em tudo o resto, é pudica e moralista e trava algum tipo de aproximação sexual.
Ficam três possibilidades.
1. Não
sentir desejo não é o mesmo que reprimir o desejo.
A
segunda pessoa pode genuinamente não sentir atração sexual. Nesse caso, o pudor
e a moral podem ser a explicação que encontra para uma ausência de desejo que
já existia.
Ou
pode sentir desejo, mas considerar que concretizá-lo é errado, impróprio ou
incompatível com os seus valores.
São
situações muito diferentes.
O
desejo de um pode tornar-se a pressão sentida pelo outro.
Quanto
mais uma pessoa procura concretizar a intimidade, mais a outra pode sentir que
tem de se defender, sobretudo se interpretar essa aproximação como uma ameaça
aos seus princípios. E quanto mais uma se afasta, mais a outra pode insistir,
frustrar-se ou sentir-se rejeitada. Forma-se, assim, um círculo em que o desejo
de um e a resistência do outro se reforçam mutuamente.
A
questão mais profunda é a relação entre desejo, moral e liberdade. Uma pessoa
pode considerar que o desejo é natural e legítimo, enquanto a outra entende que
nem tudo o que é natural deve ser concretizado.
Nenhuma
destas posições, por si só, nos permite concluir que uma pessoa é melhor ou
pior do que a outra. Mas revelam maneiras diferentes de compreender o corpo, a
sexualidade e a legitimidade do prazer.
E
aqui, chegamos a um ponto decisivo: a pessoa pudica e moralista não é
necessariamente incapaz de desejar; pode considerar que não deve permitir-se
desejar, ou que não deve agir em conformidade com esse desejo.
Isso
muda substancialmente a análise. Essa pessoa rejeita o sexo porque não sente
desejo pelo outro, ou porque acredita que o sexo, mesmo quando desejado, é
moralmente condenável ou impróprio naquela forma.
Temos
duas pessoas que se dão bem em quase tudo. Uma deseja intimidade sexual e quer
concretizá-la. A outra resiste, aparentemente por pudor e moralismo. Mas
sabemos se essa resistência não esconde ausência de desejo, medo, convicções
profundas ou outra coisa qualquer. Não sabendo
não vamos presumir a resposta. Vamos tentar descobri-la. há uma coisa que é
certa, duas pessoas sentem desejo. As duas dão-se bem. Mas uma consegue aceitar
e concretizar o desejo, enquanto a outra, apesar de também o sentir, fica
prisioneira do seu moralismo ou puritanismo.
O
conflito já não é necessariamente entre duas pessoas com desejos diferentes.
Pode ser um conflito dentro da própria pessoa: entre aquilo que deseja e aquilo
que acredita que lhe é permitido desejar ou fazer. De onde vem essa proibição
interior ? Da educação, da religião, da ideia de decência, do medo de perder o
respeito por si própria ? Talvez de uma mistura de tudo isso ?
Como
pode uma pessoa sentir um desejo que considera legítimo enquanto experiência
física, mas condenável quando concretizado sob determinada forma ? O desejo
aparece espontaneamente; a censura interior intervém depois. A pessoa pode
acabar por viver a própria sexualidade como uma luta contra si mesma. Será que
essa pessoa não consegue ultrapassar a proibição ou, num plano mais profundo,
não consegue autorizar-se a ultrapassá-la ? Há uma diferença entre não ter
capacidade e não se conceder permissão.
Não
devemos, contudo, concluir que todo o limite moral é uma prisão. Uma pessoa
pode sentir desejo e, ainda assim, decidir livremente não o concretizar. O
problema que estamos a investigar é outro: o que acontece quando existe uma
vontade de avançar, mas a pessoa se sente impedida por regras interiorizadas
que não consegue conciliar com essa vontade ?
E é
aqui que o desencontro se torna particularmente intrigante: o obstáculo pode
não estar entre as duas pessoas, mas entre duas partes da mesma pessoa.
Temos
matéria suficiente para pensar sem corrermos já para conclusões.
Porque
há uma questão que considero central nesta investigação: como distinguir uma
convicção moral verdadeiramente assumida de uma proibição interior a que a
pessoa obedece, mesmo desejando libertar-se dela ? Aí, começamos a entrar na
psicologia profunda do desejo, da culpa e da liberdade, plano onde uma educação
antiquada faz mossa, podemos estar perante algo muito interessante: a educação
não se limita a ensinar-nos o que devemos fazer; pode ensinar-nos aquilo que
devemos sentir acerca do que sentimos.
Imaginem
uma criança que cresce a ouvir que o sexo é pecado, que o desejo é indecente,
que uma mulher respeitável não deve demonstrar apetência sexual, ou que o
prazer deve estar subordinado ao dever e à moral.
Mesmo
quando essa criança se tornar adulta, adquire conhecimentos e passa a discordar
racionalmente de algumas dessas ideias, as emoções aprendidas podem persistir.
A
pessoa pode pensar: «Não há nada de errado nisto.» Mas, quando chega o momento
de agir, sente vergonha, culpa, ansiedade ou uma resistência que não consegue
explicar.
E aqui
está o paradoxo:
A
razão autoriza aquilo que a educação emocional continua a proibir. A pessoa
deseja, mas censura-se por desejar. Aproxima-se, mas trava. Talvez até queira
libertar-se, mas a transgressão parece ameaçar a imagem que construiu de si
própria, de pessoa decente, respeitável e moralmente imaculada. Não significa
necessariamente que seja hipócrita. Pode existir um conflito genuíno entre
valores aprendidos, desejo e liberdade pessoal.
E há
uma distinção importante: compreender a origem dessa inibição não significa que
ela desapareça automaticamente. Uma regra pode deixar de ser aceite
intelectualmente e continuar a produzir efeitos emocionais.
Mas há
uma coisa que me interessa particularmente, se essa pessoa deseja e, apesar
disso, não consegue ultrapassar a proibição, talvez não estejamos perante uma
ausência de sexualidade, mas perante uma sexualidade que aprendeu a vigiar-se a
si própria.
O
desejo e a curiosidade poderão existir; a autorização interior para os viver é
que pode faltar.
E
deixo apenas esta reflexão: a educação pode transmitir-nos valores que
escolhemos conservar, mas também proibições que nunca tivemos oportunidade de
questionar.
A
liberdade, neste caso, não consistiria em fazer tudo o que se deseja.
Consistiria em conseguir distinguir aquilo que verdadeiramente escolhemos
daquilo que apenas aprendemos a temer.
O
desejo existe; a autorização interior para o viver é que pode faltar. Deixo
apenas esta reflexão: a educação pode transmitir-nos valores que escolhemos
conservar, mas também proibições que nunca tivemos oportunidade de questionar. Há
uma diferença enorme entre não querer e não se permitir querer. E talvez a
tragédia do desencontro esteja precisamente aí: duas pessoas desejam-se,
poderiam viver algo que ambas desejam, mas uma delas não consegue conciliar
esse desejo com as proibições que interiorizou ao longo da vida. O que a
educação construiu, a pessoa pode nem sequer reconhecer esse desejo como uma
construção. Pode senti-lo como uma verdade absoluta, ou uma proibição absoluta,
uma inibição, como se tivesse nascido com ela.
E não
basta dizer-lhe que é livre. A liberdade exterior não dissolve automaticamente
as prisões interiores. Mas há algo que parece importante: compreender essa
pessoa não significa culpá-la, nem significa que a outra tenha de esperar
indefinidamente. Significa reconhecer o conflito e perceber que ninguém
consegue resolvê-lo sozinho.
Talvez
a verdadeira libertação comece quando a pessoa consegue perguntar a si própria:
«Isto é aquilo em que acredito ou é aquilo em que me ensinaram a acreditar?»
Não
tem de rejeitar os seus valores. Tem de poder examiná-los e decidir quais são
realmente seus.
Os
tabus, os preconceitos, as proibições interiorizadas, o desejo, esbarram numa
barreira que a própria pessoa transporta dentro de si.
E há
aqui outro pormenor importante: essa barreira pode ter sido construída muito
antes de a pessoa conhecer aquele desejo concreto. Foi aprendida na infância,
reforçada pela educação, pela família, pelo meio social ou pela religião, e
acabou por se instalar como uma espécie de censura interior. Quando o desejo
aparece, não encontra apenas uma possibilidade de prazer. Encontra também a
culpa, a vergonha e o medo de transgredir.
E
assim se produz o desencontro: o corpo deseja, a pessoa quer, mas aquilo que
aprendeu a considerar proibido impede-a de avançar.
Não
sabemos se é exatamente isso que acontece em todos os pormenores desta
situação. Mas a hipótese que estamos a explorar é coerente. E há uma diferença
entre libertar alguém das suas convicções e ajudá-lo a examiná-las. A primeira
coisa seria impor-lhe uma nova regra; a segunda seria permitir-lhe descobrir se
as regras antigas ainda correspondem àquilo em que acredita.
Porque,
no fundo a questão não é obrigar a pessoa a concretizar o desejo. É perceber se
ela consegue escolher livremente — incluindo a liberdade de dizer sim, mas
também a de dizer não.
A
liberdade sexual não consiste em fazer tudo o que desejamos. Consiste em não
sermos governados cegamente por proibições que nunca pudemos questionar.
Acho
que foi finalmente encontrado o verdadeiro núcleo da questão, oremos, pois
tanto ela se alongou que acabei por perder o comboio e voltar somente no dia
seguinte… Não foi bonita a festa, mas tenho esperanças que a reflexão tenha
valido pena…

