O AUDY Q5 GRAFITE – FICÇÃO OU
NEM TANTO
Sim,
claro, todos nós, com maior ou menor eficiência nos pusemos em campo a partir
de Milfontes afim de travar o abusador, o bandido, o ladrão, tentando evitar que
ele conseguisse vender o Audy Q5 Grafite da Nanda, em férias connosco mas que o
deixara nas mãos do namorado, que
Somente
agora se viera a saber, era um tratante oportunista, batido e encartado, expert
em dar a volta ás mulheres, sacar-lhes tudo quanto pudesse no menor espaço de
tempo e partir para outra.
Eu partilhara
em tempos no ramo automóvel grandes responsabilidades em pelo menos duas
grandes firmas do sector, tinha os meus contactos e conhecimentos, os quais se
mostraram de grande valia e utilidade, embora não negue que passados mais de 20
anos, a coisa me tivesse custado quase os olhos da cara…. Quase quase pois nenhum
dos concessionários de antanho existia hoje, firmas mudaram a um ritmo
estonteante, e os responsáveis delas haviam trocado de contactos móveis senão
uma duas ou três vezes. Vocês nem imaginam a trabalheira, mas consegui !!
E tudo
praticamente a partir da praia de Mil Fontes, através do telefone !! A técnica
hoje em dia é tudo, e foi realmente tudo !! Foi montada uma armadilha ao
bandido numa das muitas firmas contactadas e, quando ele apareceu de carro e
papelada, e já depois de se encontrar gulosamente com a narda nas mãos, a
autoridade saiu detrás do biombo e apanhou-o em flagrante, em flagrante de
litro balbuciou alguém sustendo o riso. Naturalmente a papelada era toda
falsificada, assinaturas da Nanda inclusive e principalmente, de modo que o
malandro levou logo ordem de prisão, mais tarde convertida em prisão
domiciliária e obrigação de apresentação bissemanal na esquadra da sua
residência…
Exultámos
todos, a Nanda, cujo carrito fora comprado adquirido com algum sacrifício não
fora molestada, e havia de fazer-se justiça, agora não haveria falhas, o
canário estava encanado e de pulseira electrónica no tornozelo…..
Mérito
sobretudo meu, logo ali e no momento a Nanda, chorosa, desiludida e abandonada
pelo seu amor, me quis agradecer as diligências convidando-me para um almoço, mal
chegássemos a Évora e no novo restaurante do Degebe, o mais recente moderno e
típico restaurante por aquelas bandas, encostado ao rio e com uma bela e
novíssima e amimadíssima esplanada ! Casa
das Migas e Petiscos se não me falha a memória.
Conversa
para aqui conversa para ali confessou-se ingénua e inocente em demasia para a
idade, desiludida, de autoestima em baixo, sem saber para onde se virar e
completamente desorientada. Ela nunca se teria sequer lembrado de desenvolver
as démarches que eu meti a rodar a partir da esplanada do restaurante na praia
de Mil Fontes e bla bla bla, admiradíssima com a minha prestação, lembrando
agradecida o seu belo carrito, olhando para mim e confessando ser de um homem
assim que ela precisava.
Ou seja,
seria de um como eu, com o meu saber, a minha manha, e a minha experiência que
ela estaria necessitada, eu ia engolindo em seco, corando a cada elogio e sem
saber onde meter-me ante tanta admiração, sobretudo tão abertamente expressa, magicando
como fugir àquela prisão anunciada agora que ultrapassada a cruciante dor da
perda sofrida, me encontrava há anos gozando da liberdade e do deleite da minha
pacata viuvez….
Embora
sentindo-me num pedestal, num altar, não perdi nem a calma nem o controle nem a
minha habitual bonomia, ou não fosse eu de Vila Nova da Baronia. Não era eu que
era especial, era ela, gentil alma inocente, que nem cria haver maldade no
mundo, bla bla bla… Fui-lhe regando o pezinho, fazendo-lhe crescer a estima por
si mesma, que estivesse à vontade comigo, mas que embora estivesse aposentado outros
compromissos me ocupavam as horas semana quasi por completo, começando
pelas sagradas horas do ginásio KUMA, da Susana e do André, dois experientes
diplomados que me vão conseguindo manter a rodar sem ferrugem, sem chiar, com
boa aparência, pouca barriga e melhor disposição.
Ela, a
Nanda, agradeceu, disse que, contudo, iria pensar nisso, e eu fiquei marado sem
saber o que teria ela querido dizer com o ir pensar nisso, mas duas horas
passadas estava esclarecidíssimo…. Esclarecido e convidado para um jantar em
casa dos pais dela, assim eu tivesse disponibilidade. Ter tinha claro, as aulas
no ginásio são sempre de manhã, o problema era minha aversão à coisa que ela
estava preparando, pelo que um belo dia, contrariado, muitíssimo contrariado,
todavia lá fui comer as febras grelhadas com salada e um verde muito verdinho e
bem fresquinho, ouvindo ora a Nanda ora a mãe ora o pai, todos eles de modo
unânime agradecendo a amabilidade por mim colocada ao serviço da filha que num
remate binário e quando eu menos esperava declarou necessitar da minha
protecção e presença, como quem confia num abraço protector, da Securitas ou de
qualquer outra, e sorrindo, linda, sentou-se displicentemente numa das minhas
coxas, abraçando-me com sensualidade, rindo para os pais que, mais espertos que
os julguei, logo ali abençoaram a ideia, me pediram que a apoiasse, que não
olhariam a custos, tendo marcado e anunciado de imediato um beberete para um
próximo sábado, á laia de copo de água, ainda eu não me tinha refeito da
surpresa e já eles todos telefonavam aos amigos dando novas da beberete e convidando
e confirmando quantos e quem nesse sábado apareceria, a festa poderia até estender-se
e continuar noite dentro na casa dela, que se limitassem a trazer as garrafas
dos melhores vinhos que quisessem e lembrassem que Deus nos protegeria e daria
longa vida….
E foi
mais ou menos assim que a minha vida mudou de um minuto para o outro, hoje pau
de cabeleira e segurança de uma escultural sessentona, virgem diz ela, linda,
magra, uma das loiras mais inteligentes que conheço, mais parecida com uma
cobra que uma cobra de verdade, dentes brancos e limpos, brilhantes, unhas de
gel extremamente cuidadas, cintura de
vespa, acho eu que estou a ver mal, ainda estonteado com tudo isto, tendo fé
nas aulas do ginásio para conseguir levar sempre a moça a bom porto, sorrindo, sorrindo
sempre, para o meu futuro e o dela que me confundia com o pai e não me largava
um minuto, eu sempre atrapalhado e meditando nos 7 chakras, no meu mantra, na
minha aura, todo eu magicando em como aproveitar tanta energia positiva para me
safar, estou já pensando em frequentar os banhos de cristais e tantas outras
merdas que nem aprendera no meu tempo longo tempo de vida e que noutros
sentidos talvez muito me servissem para alguma coisa.
Aqui estou
surpreendentemente infeliz, e agora sim, agora é que vou saber se a narda
investida no ginásio valeu e vale ou não vale a pena, eu sinto-me confiante p’ra
enfrentar as adversidades, perdão as bondades da nova situação, isto é fortuna,
sorte, e sucesso, que exigem muito
controle, muita concentração e ainda mais tolerância, isto é uma estranha sensação duma mistura eclética
de prisão e boa disposição, de alegria e
satisfação anormalmente ligados a este tipo de enredo e decorrente desta nova
situação….
O
máximo de contrariedades seria não conseguir dar conta do recadado, ter que
exigir do ginásio a devolução da narda extrapolada ou esportulada, coisa em que
não creio nem desejo, o Audy Q5 Grafite da Nanda tem uma cor linda, a Nanda
depois daqueles dias de praia tem uma cor ainda mais linda, eu estou a caminhar
para a velhice e ela tem um regaço capaz de me acolher se necessário, e um
peito mais que generoso para a criança em que com os anos me irei tornar…. Enfim,
um verdadeiro altar, eu quero é sonhar, eu quero lá mudar de emprego agora, eu
quero é sol e praia, dias risonhos, e… passear no Audy Q5 Grafite da Nanda .......... KKKKKKKKKK
Mas…
Surpresa das surpresas !! Quem até aqui mais chorara baba e ranho, a Nanda, numa
tão repentina quão inesperada atitude, passa a partilhar e defender toda a
merda que o bandido do namorado fizera e passa a defendê-lo e justificá-lo com
unhas e dentes !!
A
malta ficou sem folgo e com menos vontade ainda de lhe dar a volta á cabeça e
proporcionar-lhe uma nova lavagem, inútil, vocês já ouviram falar na Síndrome
de Estocolmo ? Assim estava ela, mesmo novamente apanhadinha de todo !!
É que
sem que ninguém desse por isso a Nanda durante a noite mantinha conversas
online com o bandido do namorado, este por sua vez conseguiu incutir nela,
loira claro, duvido que acontecesse com uma morena, os seus pontos de vista de vítima
desta sociedade desigual, diferenciadora, não democrática, e nem imagino que
mais nem quais, palavras amorosas e verdadeiras doçuras para o coração atormentado
da Nanda, verdade verdadinha é que lhe voltou a dar a volta, até à próxima
desgraça….
Síndrome de Estocolmo é um estado psicológico em que a vítima, neste caso a Nanda, criou uma ligação de afecto ou lealdade com o seu agressor de tal modo forte tão irracional quão paradoxal, a Nanda passou a sentir um carinho inexplicável por quem tanto a ludibriou, maltratou, condicionou e dela abusou.
A
ciência explica esta coisa como uma estratégia de sobrevivência ditada pelo
cérebro, que usa este absurdo isto para se defender dum qualquer perigo extremo.
Ora a Nanda apenas fora enganada, ludibriada, deixara-se embalar pela conversa
da treta dele, fora ardilosamente iludida ao permitir ser enganada por um
individuo sem escrúpulos cujo objectivo mais não fora que tentar e com recurso
ao logro viver e beneficiar à custa da Nanda e se tudo isto, que já acontecera anteriormente
com outras mulheres (e de que a Nanda tinha conhecimento) dizia eu se isto não
é escarnecer e burlar não sei que lhe hei-de chamar….
E no
meio desta novela eu ? Eu sairia sempre a ganhar, ou como segurança facturava, e
daria uns passeios enquanto a acompanhava, que aa consolaria nos momentos de
maior fraqueza… Perdi todo esse lado bom na nova relação que se criara, do novo
emprego ou nova ocupação, é certo que perdi, mas ganhei muito mais ao não ter
que suportar uma Nanda incoerente, bipolar, inconsequente, irresponsável, imprevisível,
e duma coisa tenho a certeza, não demorará que ela ande de novo a gritar por socorro,
socorro, socorro, o que eu duvido é que ainda haja gente, haja alguém disposto
a ouvi-la……
Ainda
por cima a Síndrome de Estocolmo não é considerada doença oficial, os vários
manuais que classificam a doenças, naturalmente manuais médicos e oficiais como
o DSM-5 ou a CID-11, que não reconhecem esta condição como um transtorno mental
formal, quando muito e extraoficialmente tal desiderato é atribuído á vivência
no seio de seitas.
Sabemos
que pode acontecer a vítimas de sequestros ou de raptos, pode surgir num
ambiente de relações de violência doméstica ou de abusos sexuais, tal como se
tem constatado existir entre pessoas submetidas a tráfico humano ou que
trabalhem debaixo de pressão, da stress, em ambientes de trabalho tóxicos …
A
nossa Nanda anda somente pendurada pelo beicinho e pingando amor atrás do bandido
para onde quer que ele vá, não anda doente, anda cega, anda a dormir, mas, como
há 50 anos atrás os anarcas escreviam em letras vivas e garrafais nas paredes, “
dormir entre lençóis de sangue vos acordará” …..

