terça-feira, 2 de agosto de 2011

77 - POR ESTE CAMINHO ANDANDO...





          Conheceram-se num dia luminoso e naquele espaço mágico, terra de toda a gente e de ninguém. Ela um anjo inocente, ingénuo, impoluto, ele um magno santo carregado de virtudes, probidade e castidade, ambos sem pecados nem preconceitos herdados ou cultivados, como quem à nascença viu os destinos traçados por magia, ditada por velho pergaminho que dera à costa, numa garrafa atirada ao mar num cerimonial tido havia largo prazo.

          Cruzaram-se como se numa viela velha de uma ainda mais velha cidade, tal e qual como se se tivessem olhado, trocado olhares e nesse ritual percebido, num instante que o encanto, os contos de fadas e o maravilhoso eram verdades, existiam, e se podiam cumprir. Não mais se perderam de vista, quebraram o encantamento ou teimaram na maquiavélica ironia de se ignorarem até que um dos dois tomasse a dianteira, a iniciativa, o oculto tornava-se-lhes presente.

          
         Quais contendores aventuraram-se na descoberta um do outro, ávidos por recuperarem um tempo que lhes não pertenceu, passado, a esquecer, e por imposição instintiva a recuperar e promover, qual livre arbítrio que a natureza do ser lhes consagrava.
Jamais se vira coisa assim nos anais da etiqueta e do voluntarismo, a entrega e conhecimento de cada um, de si ou do outro, a energia acumulada há milénios nos seus espíritos explodindo e desvendando-se sob a sua forma mais pura.

            A mesma barreira que os mantivera ignotos tantos anos, se esbatia agora para que se aproximassem e conhecessem, para que se animassem e vivessem, se procurassem e se cuidassem. Atrever-me-ia a garantir-vos ter havido quem os visse, vogando nos céus, de braço dado, como que caminhando lado a lado, terna e lentamente, num espaço de festa e romaria, a que mil estrelas de mil foguetes de lágrimas atapetavam o caminho ou, se calhava ficarem pairando no ar, se entretinham apanhando-as, ele colocando as mais cintilantes ternamente nos sedosos e iridescentes cabelos dela, que por sua vez, soltando risinhos se perdia no prazer e no tempo que levariam até que, finalmente conseguissem guardar todas aquelas estrelas, quais auspiciosos presságios, nos seus bolsos bordados, empreitada que, felizes, anteviam para toda a vida.


           Esconderam-se no clarão de um foguete mais arisco, tomaram um sonho para a terra do nunca, deitando-se em atapetada nuvem, qual novelo branco do mais puro linho e em que, voluntariamente, como um fuso, enlearam as suas vidas. Buscaram-se com a ânsia das almas que nunca antes se haviam visto, ele puxou-a a si, qual animal extasiado, farejando-lhe o odor a mulher, perdendo-se na suavidade daquela pele sedosa, do pescoço, elegante, esguio, que ternamente beijou uma e outra vez, olhos fechados, adivinhando-lhe a boca, os lábios trementes do êxtase vivido, entreabertos no desespero do desejo, uma língua procurando outra língua, os dois, quais caminhantes do mesmo deserto, buscando-se e descobrindo-se na voracidade que somente a perdição dos sentidos consente e exige.

          O fogo de artificio animava a festa, foguetes e girândolas continuavam estourando em caleidoscópios cromáticos de uma riqueza sem igual e ela, qual roda de fogo em livre rotação, que há muito perdera noção de tempo e espaço, numa entrega louca e completa, abraçados, apertados, perdendo-se e achando-se uma e outra vez, do seu corpo abria todas as cancelas que as pontas dos dedos dele, suavemente percorriam como quem corre os caminhos saudosos e impetuosos de uma excitação que ninguém sabe como nem deseja parar.

          E esses dedos, curiosos, exploradores, trouxeram consigo o sabor a fêmea, travo agridoce que suas bocas deliciosamente provaram, glosando da festa os malabaristas brincando com o fogo, ela, oferecendo-lhe o peito descoberto enquanto com as mãos lhe desvendava os segredos ao corpo másculo a quem oferecia os seios alvos, de bicos túrgidos rogando uma boca que, sequiosa lhe cumprisse o desejo, a fizesse alcançar uma aquiescência consentida, já que a sofreguidão da entrega e da posse lhe não davam sossego, que ambicionavam mas temiam, cientes da plenitude que só a loucura permite e o desejo ardente acalenta.

          Gradualmente uma paz doce envolveu-os, lentamente foram-se descobrindo e saciando, disso se encarregou a incontinência do respirar, a anestesia que o prazer incontido e audaz induz nos corpos suados, o apaziguamento do desejo, a plenitude do amor, até que, cônscios do momento chegado, ele a soergueu levemente, segurou pela nuca, enquanto beijando-a lhe afagava os cabelos em desalinho. Esperou um instante por esse sinal nunca aprendido mas conhecido, que apontasse a hora, se cumprisse o desejo, o recebesse, e assim se cumpriram e ficaram. 

          Inebriados por um milagre, um momento que são horas, horas que parecem minutos, e à margem do alvoroço dos festejos e do encantamento e beleza das luzes, abraçados, deixaram-se adormecer à beira de um caminho que para os dois agora começava. De mãos dadas, como um apenas, sem mas nem meios mas… somente vivendo. Certamente os veremos por aí, não são diferentes de ninguém, apenas, quer separados quer juntos, alimentam um sorriso cúmplice que facilmente os denuncia.


          Ingénuos, o tempo e o mundo os meterão na ordem…