domingo, 22 de maio de 2011

50 - QUE NOITE AQUELA !!!!! ..........




Não me lembro de nos ver a cada um agarrado a uma perna de galinha, isso não, mas ainda recordo a mesa farta, a enorme profusão de garrafas e canecas, o fumo denso pairando no ar e traindo todas as disposições deste país de loucos.

A Sandra parecia uma papoila, alegrou a coisa, não largou o Florentino nem a Beatriz, filha de ambos segundo a Cédula Pessoal e o que os dois garantem a pés juntos.

Foi a festa mais informal em que já me vi, mas em que toda a gente, até eu, nela entrei com esmero e saí direito, ainda que de mistura com as despedidas não tivesse havido amigo e convidado que não tivesse contemplado com solidário encontrão, pois que aquela hora tardia já me custava bastante andar direito nos degraus que o chão não tinha.

A Luisinha, como costume não me largou da mão, adoro levá-la àquelas festas, ela que nunca quer sair e me deixa com a consciência pesada quando o faço, mas que adora ver-se metida nestes convívios até à raiz dos cabelos !

A tarde de sábado tinha-se apagado como se apagam os dias tristes em que vai chover mas não chove, tomara banho, mudara de roupa e rumara àquele antro de amizades e segredos, de tertúlia e de degredos, carregado com a minha parte no repasto, mais não que dúzia e meia de garrafas de tinto alentejano da herdade da Chaminé, que aliás pouco duraram e foram as primeiras a esgotar-se.

Tal qual como quando era miúdo, e as chapeleiras dos carros eram adornadas com um cãozinho de loiça que, c’os solavancos abanava a cabeça, assim a Dádinha se mantinha, num tente não caias constante e prodígio ou maravilha do poder da mente sobre a vontade do corpo.

Foi uma noite de sábado e de revivalismo, ou saudosismo, pois jamais me passara pela cabeça que cada uma das madamas presentes tivesse honrado a mesa com receitas que me lembraram os tempos de menino e neto, em que os meus pratos preferidos me acudiram à mente tortuosa com uma autenticidade e um rigor que as delícias na mesa não desmentiam e me fizeram regressar à meninice.

O Miguel, fazendo jus ao seu carácter esponjoso, aviava copo atrás de copo como quem não era com ele e mais parecia taberneiro servindo os outros.

Como sempre, para ele, foi o mesmo que beber nada.

A Bella ficou de aparecer mas cortou-se, acho que num dos dedos dos pés quando aparava as unhas, pelo que ficou a promessa de na próxima se deixar levar por uma limusine ás suas ordens.

Era uma mesa sedutora a que me conteve até ás tantas no seio de toda aquela gente tão desbragada quanto eu, portanto gente irrepreensível que, propositada ou inadvertidamente provocou em mim um regresso ao passado, esse tempo vivido sobre uma infância ingénua e inocente a que jamais algum mortal logrou voltar.

Prometendo dietas ficou a Laurinda a noite inteira, como se a consciência lhe não perdoasse o excesso, ou como se aquele fosse o primeiro dos muitos que habitualmente condena. 

ehehehehe !!!!!!!!!!!!!!

Por isso aquela imagem, as amizades e a mesa que rodeávamos, mais que memórias, foram para mim legendas dos pratos de torresmos da minha infância, do café com brasa dentro, e feito de cevada no lume brando de uma chaminé descomunal, onde o pingo das linguiças no fumeiro prantava de quando em vez nódoas nos incautos e os gatos sopravam, se, por descuido alguém o rabo lhes pisava.

O Tozé desta calou-se que nem um rato, nem imagino o porquê, logo ele que vulgarmente fala pelos cotovelos mais parecendo um actor de teatro, que não é mas com os quais fala! 

ehehehe !!!!!!!!!!!!!!!!!

A seu lado, e numa de solidariedade, a Laurinha aparava-lhe o jogo e as boquinhas, toda ela simpatia, toda ela sorrisos, aliás, como sempre !

Bem, depois foi todo um desfilar de recordações que, iniciadas nas azeitonas, na rechina (ou rexina) e nos torresmos, contornou pelos dois lados os anos de primária, os brinquedos de lata pintada, cortantes e tóxicos até mais não, estendendo-se aos incipientes namoricos e paixões de rapazolas, às primeiras fotos de mulheres nuas que, se comparadas com as de hoje mereciam uma medalha pela ousadia, às matinés e aos filmes, às vidas de cada um dos comensais e aos seus fios condutores, numa recuperação de acontecimentos de que toda a gente riu pelo ridículo das coisas, pelo valor nelas colocado e hoje de todo desmesurado.

Bem… o máximo foi mesmo o Máximo ! Cujo nome não engana ninguém e tem uma auto-confiança de fazer inveja ao mais seguro de si, que por acaso não estava, tinha saído para a caça ! 

ahahaha !!!!!!! (*)

Sempre pensei que o convite deste sábado tivesse uma razão, e tinha, embora não a que imaginasse, antes a de playar entre nós, viver e recordar, vitórias, derrotas, ansiedades e exaltações de nossas vidas, vidas tão humanas e simultaneamente sem sentido ou significado, ou pelo menos o que na altura atribuímos aos trabalhos e aos prazeres pelos quais éramos passados como churrasco no braseiro.

O César fez as honras da casa e de anfitrião, queimou a merda dos frangos mas preparou uma óptima salada e teremos que lhe perdoar ou para a próxima não há convívio.

Sorte a dele o sacaninha !

Tempos em que todos sem excepção nos sobrepusemos aos medos e receios que cultiváramos, para nos encontrarmos ali, nessa noite, em que embora não fizesse parte do reportório o mesmo acabou recordando as nossas audácias, talentos, convicções, contradições e manias, manias que alguns de nós ainda alimentamos como parte intrínseca da nossa individualidade e carácter, um carácter capaz de rir dos idiotas que fomos e das parvoíces pintadas no decurso de vidas mais instintivas que programadas e, que agora, nesta noite, se encontraram para se reverem na coragem feliz e possidónia de cada um, e cada uma, a que a travessia da vida nos conduziu, hoje ostensivos amigos entre todos mas, e coisa incrível e quase inacreditável, assíduos amigos uns dos outros e dos folguedos mais inverosímeis que imaginar possamos.

A Mariazinha tornou-se tão leve, tão leve e tão fina que mais pareceu ter-se evaporado embora toda a gente saiba que muito do que correu bem a ela se deveu.

Havia mais uma dúzia de gente cuja cara ou nome nem consigo lembrar do Wilson à Violeta, mas estavam adoráveis e irrepreensíveis, quem não veio que se arrependa e medite o quanto perdemos com a sua falta, e que não falte portanto para a próxima, traga um cesto recheado de iguarias, pois por muitos que tivessem sido os queijos naquela mesa não chegaram nem para as primeiras quatro horas, pelo que urge que mais gente de boa vontade se inicie naquelas lides, e que, para não se envergonhar, participe com um cestinho bem recheado das especiarias que mais gosta, ciente de que serão os outros quem primeiro as comerão e valorizarão !

Apesar de tudo, quero mais ! Ufa !

Este sábado está passado, bolas e com que sacrifício !


(*) - o amigo Caifás :)