domingo, 11 de fevereiro de 2024

806 - PORTUGAL, 900 ANOS, VAI CAPITULAR ???


               DEMOCRACIA - QUALIDADE E FRAGILIDADE

 

        É dos livros que a democracia é um sistema frágil, não que não seja um sistema inteligente, porém não faz parte dela ser opressora, e como tal nem tem mecanismos que sustenham uma avalancha que a possa submergir. E várias vezes tem acontecido uma democracia morrer devido às próprias mãos, inadaptadas ou inábeis para prover à sua defesa.


        Ser frágil não é sinónimo de ausência de qualidade, nem há sequer sistema mais perfeito, todavia essa perfeição está demasiado dependente da qualidade dos seus eleitores. Estes por sua vez, pendurados e limitados por mecanismos que os manipulam e manobram a seu bel-prazer, em especial e primeiríssimo lugar, os mídia, fazem do eleitor um fantoche, ou um espantalho que necessita ser agitado em tempos de eleições para parecer estar vivo. Poderemos enfileirar de seguida entre os seus homicidas, ou “democidas”, o poder e o dinheiro. Mas há mais "gente" com culpas…

 

        P’los eleitores não poderemos responder, cada um deles responde à sua própria consciência, contudo, abstenções elevadas como as que se têm registado em Portugal não abonam em favor do eleitor nacional. Para além da abstenção acresce o facto dos eleitores teimarem votar em partidos não cumpridores de promessas eleitorais, esperando ,que “desta” vez o venham a fazer. Como se não fosse hábito reiterado desses partidos olharem primeiro para si mesmos e para os seus acólitos, e nunca para o eleitor que neles continua acreditando piamente.

 




            Será caso para ponderar, e se ao invés de se atribuir ou conceder o direito de votar a partir dos dezasseis anos, assunto, questão ou tema que já foi abordado p’las nossas elites, por que não impedir alguns eleitores pura e simplesmente de votar ?  A história é profícua em dar-nos exemplos destes, em que votariam apenas os chefes de família, ou somente os homens bons do concelho, ou ainda quem tivesse uma determinada escolaridade mínima, ou até unicamente quem detivesse um nível de riqueza máximo.


        A democracia, uma criação da Grécia clássica, parece nada nos ter ensinado, ou nós nada termos aprendido com ela ao longo de dois mil e quinhentos anos. Democracia onde nem todos eram considerados cidadãos, portanto nem todos votariam, democracia que receitava, e aplicava, o remédio ou mezinha indicada para cada maleita com que se confrontava.

 

        Tal qual nós que procuramos um podologista se tivermos uma unha encravada, e não um otorrinolaringologista, ou um dentista se nos calha em sorte uma cárie, e não um pediatra ou ginecologista. Eram coisa vulgar na Grécia antiga esses costumes, essas práticas, métodos que passaram para os romanos quando o seu Império se estendeu e “abafou” os helenos. Como tantos outros costumes, culturais, artísticos, a própria ciência, tudo que de civilizado a Grécia tinha foi absorvido e adaptado pelos romanos que tiveram a inteligência para absorver e não destruir, as civilizações que subjugavam.  






            Assim sendo, era normal entre os romanos a aplicação da solução mais aconselhada ao momento vivido, isto é a aplicação do remédio ou da mezinha que as circunstâncias indicassem para cada maleita com que se confrontasse o império, daí que o senado decretasse ou concretizasse na esteira duma normalíssima eleição, democrática, e legalmente regulada ou regulamentada a atribuição do cargo de imperador (ditador) o “dictat” ou seja, a atribuição da capacidade dada a um seu general para este impor pelo uso da força ou da exigência absoluta sem qualquer outra justificação que a ordem de si emanada os seus desejos ou vontades. 

 

            Naturalmente tal era posto em prática em raras ocasiões e muito em especial quando a integridade ou segurança do império era amaçada por forças estrangeiras, os bárbaros, e o cargo atribuído por um determinado período sendo definidos meios, calendários e objectivos para a missão que conduzira à pragmática e rápida ou apressada nomeação de um ditador, ou imperador. Os romanos, como os gregos, sabiam bem quanta morosidade, salamaleques, rodriguinhos e jogos diplomáticos e partidários a democracia envolvia, e sabiam também que uma ameaça pairando sobre eles só se resolveria agindo rápido, coisa para que a democracia, por muito perfeita e ágil que seja não está concebida para nos oferecer.

 

        Sabendo dos méritos e deméritos da democracia gregos e romanos esgrimiam-na com habilidade, e naturalmente se lhe aproveitaram as vantagens também lhe suportaram as desvantagens, pois é sabido que abusos houve, e houve-os sempre ao longo da história, ainda hoje os há e continuará a haver, a questão prende-se mais com o seu volume e constância, amplitude e repetição, abusos que numa democracia madura acabam quase por não acontecer, o que infelizmente não é o nosso caso, no nosso caso a corrupção mais parece uma cultura de cogumelos com eles irrompendo por toda a parte….




        Portanto a qualidade e a fragilidade duma democracia não constituem porém entrave a que seja a componente principal, a mais valiosa e a mais importante do capitalismo, e este por sua vez o mais perfeito dos sistemas económicos surgidos naturalmente no mundo, aprimorado ao longo de séculos, senão de milénios, espalhado por todo o planeta e imbatível por quaisquer outros sistemas já que o reflecte a alma e o coração do próprio homem, reflecte todas as suas virtudes e defeitos, o que está muitíssimo longe de acontecer com outros sistemas pelos quais gente menos avisada por vezes se deixa embalar, e entalar.

 

        Por mais forte ou mais perfeito que seja o sistema capitalista não resiste sem democracia, nem sem liberdade de expressão, de criatividade, de iniciativa e de originalidade. No entanto não esqueçamos que apesar de toda a perfeição que lhe é atribuída o sistema capitalista, ao reflectir a alma e o coração do homem, reflecte as suas virtudes e defeitos, e nós sabemos bem do bem e do mal que o ser humano é capaz... Não nos espantemos portanto do estado degradante que as coisas, os sistemas, a estrutura social, económica e cultural em Portugal atingiram, falta-lhes, falta-nos, o lux da liberdade, sobra-nos contudo a praxis instalada de uma censura canhestra. 

 

        Mas era de democracia que estávamos falando, ou melhor da decalage visivel na nossa democracia entre a teoria e a praxis, democracia que nós matamos um pouco a cada dia que passa com a nossa permissividade, complacência, condescendência e contemporização, pois ao calarmos os pequenos delitos do dia-a-dia estamos tacitamente a autorizar os grandes…. E é bom que olhemos em redor e vejamos o que fizemos da nossa linda democracia cujo nascimento Sofia descreveu assim:

 

            Esta é a madrugada que eu esperava

            O dia inicial inteiro e limpo

            Onde emergimos da noite e do silêncio

            E livres habitamos a substância do tempo

 

        É mais que obvio que tudo estragámos, nós, que demos novos mundos ao mundo fomos incapazes de preservar o melhor que tínhamos, nós que trouxemos o tabaco, o milho, a laranja e as especiarias que espalhámos pela Europa, nós que criámos a moda do chá das 5, que em nome do cristianismo levámos a espada e a civilização a todos os lugares da terra, fomos incapazes de nos auto disciplinarmos, de criar uma liderança forte, uma vanguarda esclarecida, ou uma elite culta e pragmática. Fomos incapazes de manter e de criar condições para a pratica dessa liberdade que tanto ambicionámos. 

 

        E sabendo tudo isto aposto que no dia 10 de Março os eleitores continuarão a teimar nos velhos e cansados cavalos, apesar de incapazes de lhes trazerem o que quer que seja de novo e esquecendo que as nossas vidas são demasiado curtas para andarmos repetindo constantemente os mesmos erros, incapazes de apreender a história e os ensinamentos que as longas mudanças que ela regista nos proporcionam.

 

        Bom Carnaval, e votai bem, bem ou mal, mas votai…  



2 imagens roubei-as a livros de Joana Amaral Dias... :) 
Ela que me perdoe :)