Não
vale a pena, não vale a pena a preocupação, ou o tempo perdido a analisar a
coisa, e a coisa é a nora e os seus alcatruzes, rodam, rodam sem parar, vão
abaixo, vão acima, num mecanismo regular debitando esperado fluxo, ou caudal, em
imaculada regularidade e estabilidade, essas sim que com água mãe toda a vida apascentam,
hortas e vidas que sem sobressalto vingam, crescem e se multiplicam.
E
então é ver de norte a sul, de este a oeste e em sintonia, a vida viver desculpai-me
a redundância, numa normal normalidade (outra, perdão) pois desde que o divino
queira e os humanos não esparvoem a vida flui feliz e gentilmente num arroubo
de êxtase, de enlevo, encanto ou admiração, a menos que na nora uma qualquer mula russa, teimosa, numa atitude pérfida deixe de marchar e então, se nem a marchar nem a
passo, simplesmente parada e com ela parada a nora, parados os alcatruzes,
parado o mundo, parada a vida.
Será
difícil aceitar e crer que uma mula, numa atitude pérfida faça parar o mundo,
as vidas, a própria evolução das coisas, enquanto ela teimosa e estática
envelhece de pé, parada, as ervas crescendo-lhe ao redor e por baixo dos cascos,
originando desde essa imaginária paragem ao redor da nora ter arrastado com ela
os desígnios do mundo, tudo passando de translúcido a baço e a opaco, interrompendo o curso normal e
corrente das coisas, canalizando o escoamento, fluidez e fluência da correnteza
para o vazamento na cloaca, na latrina, na fossa onde sem que nos apercebamos encerramos
as mundividências de la vie
O
problema é que a paragem do mundo não se insere na categoria das normais mundividências,
pelo que ir para cima ou para baixo, para leste ou oeste passa a ter, quando o
mundo parado, as vidas paradas, um significado imenso que se reveste duma
percepção gigantesca, colossal, desmedida, por originar os colapsos as paralisações
e bloqueios de vidas, por norma frágeis que logo entram em decadência, ruina,
suspensão e queda, de que resultam desmaios sincopes falências (de órgãos) e
morte.
E o
que morre não volta à vida, daí que tenha utilizado no início do texto o termo “pérfida”
relativo à mula russa e teimosa cuja paragem originara todos os fenómenos atrás
descritos, porque isto anda tudo ligado e, ao falhar um elemento falham todos,
o individualismo só medra cresce e se multiplica na teimosia, atitude irredutível
que não dá frutos, não dá nada, nunca deu nada que não o completo desastre das
relações e regras que regem este planeta e a vida que neles floresce se desenvolve
e prospera.
Portanto
concluo que a pérfida perfídia à qual desde o início aludo, ao gerar com a
paragem dos alcatruzes da nora a deslealdade no mundo, a falta de confiança na
sua constância, mais não é que engano dissimulado, traição, falsidade, perversidade
e insidia que só uma mente dúplice e hipócrita será capaz de fomentar…
Esta pérfida
perfídia é, tanto mais contundente e destrutiva quando levada a cabo com má fé,
sendo desmotivadora e alimentando e desencorajando quaisquer veleidades, logo fomentando
abatimentos, depressões e alimentando quaisquer estímulos que conduzam à morte,
morte no sentido figurado, morte da vontade, quebra do indivíduo, porque se há
coisas de que estou falando não é de noras,
nem de poços, nem de alcatruzes, nem de água, nem de regas, nem mulas, mas somente
e apenas de teimosia, de perfídia de gente que mais vale nunca encontrar pela frente.
Montemor-o-Novo / Évora 30 de Outubro de 2026

