segunda-feira, 21 de outubro de 2019

618 - QUE NUNCA ENCONTRES UMA PÉRFIDA

                        


Não vale a pena, não vale a pena a preocupação, ou o tempo perdido a analisar a coisa, e a coisa é a nora e os seus alcatruzes, rodam, rodam sem parar, vão abaixo, vão acima, num mecanismo regular debitando esperado fluxo, ou caudal, em imaculada regularidade e estabilidade, essas sim que com água mãe toda a vida apascentam, hortas e vidas que sem sobressalto vingam, crescem e se multiplicam.

 

E então é ver de norte a sul, de este a oeste e em sintonia, a vida viver desculpai-me a redundância, numa normal normalidade (outra, perdão) pois desde que o divino queira e os humanos não esparvoem a vida flui feliz e gentilmente num arroubo de êxtase, de enlevo, encanto ou admiração, a menos que na nora uma qualquer mula russa, teimosa, numa atitude pérfida deixe de marchar e então, se nem a marchar nem a passo, simplesmente parada e com ela parada a nora, parados os alcatruzes, parado o mundo, parada a vida.

 

Será difícil aceitar e crer que uma mula, numa atitude pérfida faça parar o mundo, as vidas, a própria evolução das coisas, enquanto ela teimosa e estática envelhece de pé, parada, as ervas crescendo-lhe ao redor e por baixo dos cascos, originando desde essa imaginária paragem ao redor da nora ter arrastado com ela os desígnios do mundo, tudo passando de translúcido a  baço e a opaco, interrompendo o curso normal e corrente das coisas, canalizando o escoamento, fluidez e fluência da correnteza para o vazamento na cloaca, na latrina, na fossa onde sem que nos apercebamos encerramos as mundividências de la vie

 

O problema é que a paragem do mundo não se insere na categoria das normais mundividências, pelo que ir para cima ou para baixo, para leste ou oeste passa a ter, quando o mundo parado, as vidas paradas, um significado imenso que se reveste duma percepção  gigantesca,  colossal,  desmedida, por originar os colapsos as paralisações e bloqueios de vidas, por norma frágeis que logo entram em decadência, ruina, suspensão e queda, de que resultam desmaios sincopes falências (de órgãos) e morte.

 

E o que morre não volta à vida, daí que tenha utilizado no início do texto o termo “pérfida” relativo à mula russa e teimosa cuja paragem originara todos os fenómenos atrás descritos, porque isto anda tudo ligado e, ao falhar um elemento falham todos, o individualismo só medra cresce e se multiplica na teimosia, atitude irredutível que não dá frutos, não dá nada, nunca deu nada que não o completo desastre das relações e regras que regem este planeta e a vida que neles floresce se desenvolve e prospera.

 

Portanto concluo que a pérfida perfídia à qual desde o início aludo, ao gerar com a paragem dos alcatruzes da nora a deslealdade no mundo, a falta de confiança na sua constância, mais não é que engano dissimulado, traição, falsidade, perversidade e insidia que só uma mente dúplice e hipócrita será capaz de fomentar…

 

Esta pérfida perfídia é, tanto mais contundente e destrutiva quando levada a cabo com má fé, sendo desmotivadora e alimentando e desencorajando quaisquer veleidades, logo fomentando abatimentos, depressões e alimentando quaisquer estímulos que conduzam à morte, morte no sentido figurado, morte da vontade, quebra do indivíduo, porque se há coisas de que estou falando  não é de noras, nem de poços, nem de alcatruzes, nem de água, nem de regas, nem mulas, mas somente e apenas de teimosia, de perfídia de gente que mais vale nunca encontrar pela frente.

 

 Montemor-o-Novo / Évora 30 de Outubro de 2026