terça-feira, 29 de junho de 2021

A DÉCADA PERDIDA E O VOO CEGO DA FÊNIX...

                     


715 - CHEGA, A DÉCADA PERDIDA E O VOO CEGO DA FÊNIX


Primeiro foi o júbilo, genuíno mas descontrolado, nada era demasiado bom para ser verdade e aquele momento tinha sido esperado ansiosa e pacientemente, por isso ali não havia exagero. O exagero viria depois, depois de consolidado o júbilo, depois de consolidado o poder. 2021 será um ano para festejar.


Agora era hora de festa, a meditação virá aos tropeções, como quem acorda de um sonho e demora algum tempo a processar a realidade. Até porque com tantas guerras que travaram já nem sabem fazer as pazes...


E a meditação, na pastelaria ou não, virá coberta não de chantilly mas de uma ânsia revanchista, inata e animalesca, quase simiesca e, um a um a turba foi engrossando, passando as mensagens de mão em mão ou em surdina, sendo então que me ocorreu o déjà vú, as montras pintadas ou partidas, a impunidade medrando, o medo instalando-se. Os mais argutos fizeram as malas e cavaram, os que acreditaram foram honrados com uma estrela amarela no peito e não partiram, nem ficaram, simplesmente desapareceram.


Um arrastão tomou conta do jubilo, não um tsunami, nem um tornado ou furacão, mas um arrastão espontâneo, explosivo e, montada nele a raiva e a inveja de muitos anos e, sob ele, como um tapete rolante, ajudando-o na deslocação, no movimento de progressão, um resquício velho e fermentado de chauvinismo e vingança, um desejo irracional abafado há décadas, surdamente alimentado por reformas que não tiveram lugar mas lhe mercaram o destino como se marca de véspera um bilhete na ópera, ou no cinema uma reserva que nunca foi levantada, nem consumida, mas alimentada pela espera e agora explode neste arrastão espontâneo mas que aguardava mudo, há anos calado, há décadas, e agora tomou o freio nos dentes e ninguém sabe como o parar, como o suster, como o enfrentar, como o resolver, como o redireccionar, sublimar.

 

Depois não foi Mao quem pontificou, foi antes um mau momento, digamos que uma sequência de maus momentos, sequência tão longa quão durou a Revolução Cultural, essa sim de Mao, essa sim muito má, muito mazinha, não um tufão, nem um tornando, nem tsunami, nem arrastão, antes caos, catástrofe, cataclismo, como se alguém tivesse puxado o autoclismo e toda a China tivesse borbulhado num turbilhão redentor cujo sacrifício e sangue mártir a tivesse lavado e preparado para a festa que se seguiria, por isso hoje ela de fato e gravata, varrendo para debaixo do tapete pesadelos como Tiananmen, surgindo impoluta na frente do G15, na frente do mundo, vanguarda vermelha liderando rumo ao Big Brother total e incontornável, marcando a agenda e tapando a merda, e por falar em merda lembrei-me quantos saudosos irão ter veras saudades de Salazar, um menino de coro, Homem com H como canta Ney Matogrosso, quantos o recordarão com saudade, se tiverem tempo, se tiverem oportunidade, se viverem para isso, se viverem para tal e ponto final.


A euforia dará então lugar à confusão, como quem acorda de um bebedão e não acredita, não crê no que verá depois da festa, depois da euforia, da alegria, depois duma década de confusão e atropelos, de tropeções e desmazelos, será preciso que lhe digam;

 

- é o fim da festa pá.

 

Como disseram ao outro,

 

- os russos estão em Berlim.

 

e só então ruirá o castelo de cartas pois tudo tinha sido armado no ar como as barracas, sem alicerces, e ele, AV o “Pé Leve”, sempre tão contestado quão desacreditado, afinal tinha pés de barro e ficara siderado olhando os estragos e não crendo, não acreditando que tão poucos tivessem provocado tantos danos, os malvados, os danados, esquecendo a velocidade furiosa a que correra, as orelhas moucas que fizera, as peças de dominó que levantara aprumadas agora caindo uma a uma numa sequência inexorável e aprimorada deixando atrás um rasto indizível de surpreendente e inexplicável destruição que nenhum oráculo quis antever primeiro, muito menos comentar depois. 2031 será a cúspide de uma década que ninguém esquecerá. 


Sabemos apenas de ciência certa que este povo tão mortificado quão estupidificado tem feito e fará como sempre, limitar-se a encolher os ombros, a olhar para o lado esperando resignado o próximo passo, o próximo fado, ignorando propositada e galhardamente a inexistência do homem da guitarra, do sábio da viola e, assim como até ali de tudo se alheara numa indiferença secular, assim fará doravante pois não está, nunca esteve e jamais estará para se maçar.


Assim como assim alguma coisa há-de aparecer, alguma coisa estará para acontecer, qualquer coisa que devia perceber, pelo que o melhor a fazer será o que sempre fez, o melhor será virar- -se para o outro lado e adormecer…

 

*  Em itálico trechos da canção "INQUIETAÇÃO" de José  Mário Branco



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