sexta-feira, 19 de agosto de 2011

10 HISTORIAS ALEATÓRIAS SEM CAUSALIDADE OU NEXO...............


 1 - Firmou as costas no encosto, baixou-se para forçar a patilha e fez deslizar lenta mas resolutamente o banco para trás. Debruçou-se sobre o manipulo das velocidades, repuxou-lhe com a violência das urgências incontidas o elástico do fato de treino beijando-o sofregamente, sorvendo-o…
  
2 - Mal a viu esbugalhar os olhos atirou o banco para trás recostou-se no assento, semicerrou as pálpebras, cruzou as mãos acima da nuca e não conseguiu evitar um sorriso largo, rasgado, que somente o sol, incidindo-lhe no rosto de forma obscena o distraíu da tão adivinhada e desejada fruição. Para se proteger deu uma sapatada na pala do sol com a ponta dos dedos e inspirou profundamente o cheiro a eucalipto que inundava a manhã…

3 - Quase oito da manhã, sentindo fome dirigiu o caminhar no sentido da vila, até lá ainda havia muito a palmilhar, o bosque parecia não ter fim, nem fim nem caça, até a espingarda lhe pesava já, mais meia hora e sairia dali, a mata de eucaliptos nunca lhe tomara mais que esse tempo e se a sede não atormentasse tudo estaria bem no reino da Dinamarca.
  
4 - Mas, olha esta, por esta não esperava eu. Reconheceu-a de imediato, já uma vez ou duas o atendera por causa de assuntos de licenças, de caçador e da arma, involuntariamente encolheu-se sob a protecção de uma ramada. Era demais, aquele descapotável também não lhe era estranho, algumas vezes se cruzara com ele na cidade. Sem saber porquê apontou cuidadosamente e disparou três ou quatro vezes se tanto, não mais porque o telemóvel acusando bateria fraca se foi abaixo desligando-se.

5 - Sim, era ela, Sonja Santos Madevski , e era dela também o apelido ainda que errado, o apelido teutónico prestava-se a erros, tivesse ela tantas notas de cem euros quantas as vezes que o apelido lhe aparecera errado e estaria podre de rica, mas para a frente que atrás vem gente, que lhe queriam ? Um envelope ? Anónimo ? Nunca lhe acontecera, nem era seu hábito, mas sendo a curiosidade maior que o gato, ou a gata, viesse ele, sim, devia ser para ela, nem havia na repartição mais ninguém com aquele nome, muito menos com aquele apelido, ainda que errado, e esta ? Mas, olha esta, por esta não esperava eu, pensou ao abrir no recanto e no recato da sua secretária o misterioso envelope.
Merda.
Mas que é isto ? 

6 - Encostou nele ternamente a face inflamada, soltou a patilha da coluna de direcção e levantou o volante ao máximo para que não lhe trilhasse a orelha. Viu-a desenhar um anel fechando o indicador contra o polegar, e, dizer que não se lembra de mais nada será mentir, lembra-se e bem, aliás duvido até que alguma vez esqueça, recostado, sorriu e distendeu-se, o que pensou não se lembra mesmo, aliás nesse momento nada mais interessava, nem saberá dizer quanto durou a eternidade, segundos ? Minutos ?
E ela, e ela e a manhã, tão frescas… Não aguentava mais, não aguentaria mais, repentinamente retesou-se, sentiu os dentes ranger, fecharem-se os olhos, a terra tremer… 
E, oh ! E esta ? Era por esta que eu esperava ! Já está, tão bom, tão bom mas acabara, tudo tem um fim, amanhã há mais, sorriu, adormeceria se pudesse, se adormeceria…

7 – Espero estejas atento e vigies, bem sei que tão cedo o risco é pequeno, quase nem há risco, mas nunca fiando, detestaria ser apanhada com a boca na botija, salvo seja, com as calças na mão, merda, saiu-me pior a emenda que o soneto, há dias em que mesmo que a gente não queira nos foge a boca para a verdade, gosto desta colónia, gosto do cheiro intenso do after shave pela manhã, ainda activo, não queria mas temos que despachar isto, não gosto da fazer estas coisas a correr mas detesto chegar atrasada ao serviço, tipo bombo da festa na repartição, temos que passar a encontrar-nos mais cedo, mais cedo ou mais tarde, e a trazer o meu jipe, este carro da mau jeito, aleijo sempre os rins. Adoro quando começas aos estremeções, não deixarei que fiques retesado ainda,
tens que sofrer mais um cadinho amorrrr
onde puseste a caixa dos lenços que não a encontro merda……

8 – Já vais ver cabra, há sempre complicações ? Aposto que se me vão acabar as complicações cabra de merda. Há mais marés que marinheiros.
Quando não são as fotografias são os documentos, ou as datas expiradas, e quando não são os documentos é qualquer outra merda, e quando não é outra merda qualquer são os exames psicológicos ou psicotécnicos ou o caralho, a carta, a arma, a licença, o BI, o cartão do cidadão, o NIF ou o número de contribuinte ou simplesmente a merda da puta que te pariu ?
Já vais ver cabra, verás minha grande cabra, vais ver que se me vão acabar as complicações, todos temos esqueletos no armário minha puta de merda, e o teu é bem grande minha putéfia, aposto que se acabaram as complicações grande cabrona, já vais ver cabra, depois me dirás cabra … o ultimo a rir será o que rirá melhor, a ver vamos…

9 – Isto dos carros é uma coisa tramada. Nunca os escolhemos pelas boas razões, nem pelas más, depende da opinião claro, do ponto de vista e do que esperamos ou queremos deles.
Este dá cabo dos rins, nem me permite distender-me se quiser tirar uma soneca, para alem de dar muito nas vistas claro, e nem é por ser ou não claro ou escuro este… O jipe é bom mas é claro, vê-se a milhas, ou a léguas, vê-se ao longe até de noite e só passaria despercebido no pólo norte e o meu outro carro é aerodinâmico demais e a superior inclinação do pára-brisas tira-lhe espaço por dentro, tudo que não seja ficar quietinho e sentadinho tem limitações.
Já não fazem carros como dantes, nem a tradição é como antigamente, veja-se como planeavam um carro, veja-se o espírito que presidiu à concepção do Renault Twingo em 1993… Vão ver à net, e como sei que a preguiça vos alimenta deixo aqui o link e algumas palavras tiradas desse site e desse projecto…

10 – Extractos verídicos extraídos de publicidade, divulgação, informação e conversas sobre o Renault Twingo  “ O Renault Twingo é um citadino de porte mini da Renault Surgido em 1993. Inicialmente foi concebido para apenas possuir um tipo de carroçaria uma versão e um motor. A carroçaria é de 3 portas tipo monovolume (foi este modelo que impulsionou outras marcas a fazerem citadinos tipo monovolume).
O nome Twingo é uma mistura de "Twist" e "Tango" versão inicial apenas possuía como opção o Ar Condicionado, o tecto de abrir panorâmico e estava disponível em várias cores claras e alegres.
Os seus bancos traseiros rebatiam e deitavam, o que juntamente com os da frente, tornavam-no uma cama. tornou-se objecto de culto em muitos países e deu lugar a vários clubes de fãs e entusiastas. Com um conceito verdadeiramente intemporal.
O grande trunfo do Twingo original é o facto de ser pequeno por fora, grande – enorme! - e modular por dentro. A possibilidade de optimizar ao máximo o volume do habitáculo fazia com que o Twingo, aquando do seu lançamento, fosse claramente o líder do seu segmento em altura, largura e no espaço para os joelhos, graças, ao seu inovador banco traseiro deslizante.
Os bancos do Twingo original podem ser completamente rebatidos e formar uma “cama” com dois lugares e esta era outra prestação única no panorama automóvel da altura. 
O Twingo é um modelo citadino da Renault, também conhecido como o carro de fazer filhos. (Uma revista espanhola elegeu-o como «o carro do amor»).  84/85 




http://youtu.be/z4H_NvhAAnA 


84 - O LIVRO QUE NUNCA LI ..........



A vida é por vezes tramada, como neste caso insólito, em que tanto fez por mim um livro que nunca li, e também precisamente por isso, eu seja hoje quem sou, e como sou. Estávamos em finais da década de sessenta ou princípios da de setenta, festejava-se o “Dia do Lusito”, em que por todo o país a Mocidade Portuguesa promovia essa habitual encenação do Estado Novo.

Eu terminava nesse ano a minha quarta classe, e depois das cerimónias da praxe, deixaria um ramo de flores no padrão dos “Descobrimentos”, ali à zona da Nau e cantaria o hino nacional de braço estendido, bem à moda nazi, marchando, bem alinhado, rumo ao antigo Liceu (hoje Universidade), onde no respectivo ginásio (agora um moderno anfiteatro) tiveram lugar as solenidades do dia. Não o sabia, só o descobri quando reclamaram a minha presença no palco, tinha sido considerado, ou indiciado para receber o prémio do aluno mais aplicado, (obrigado professor Pulga) pelo que, juntamente com os melhores alunos das restantes escolas desta cidade, fui contemplado com um exemplar do tal livro que nunca li, “O 2º Cerco de Dio”, rubricado pelo autor, que nunca vi nem conheci, como não recordo quem, para além do meu professor, me tenha cumprimentado ou dado os parabéns.

Fiquei orgulhoso, desci as escadas impando de glória, e só no regresso a casa, na companhia de um colega que recebera as “Aventuras de Tintim”, o Ananias Quintano, constatei que o livro nada me dizia, e mais indicado seria para gente como o Prof. Vitorino Nemésio, cuja conversa na TV de igual forma eu não entendia minimamente. Mas é curioso como tanto fez por mim um livro que nunca li, aquele prémio, aquele louvor, teve o condão de me dar tantas vezes coragem para superar o insuperável. 

E tantas foram as vezes em que conquistado o “Quadro de Honra” me senti eufórico e redobrei a força anímica para prosseguir, quantas as que me levou a não desanimar quando algumas vezes as pautas acusavam num vermelho bem carregado; “reprovado”, sinal de que ia por mau caminho e havia que arrepiar, sinal que me fazia cair em mim e meditar sobre o que andava fazendo, sinal ou expressão que nunca me causou os traumas ou desvios emocionais que, alegam agora os novos pedabobos, ameaçam as criancinhas. Chumbava em Julho? Repetia em Setembro, era só uma questão de trabalhar mais e melhor, como tudo na vida era uma questão de trabalho, e quando me sentia vacilar lá me vinha o livro à memória; se foste capaz uma vez, és capaz cem vezes, o remédio é sempre o mesmo, trabalho trabalho trabalho e muita aplicação. Resultou.

Mas porque não li o livro, perguntar-me-ão? Primeiro porque sendo uma criança, um jovem, não me senti minimamente atraído por um livro para adultos, depois porque já homem não considerei o dito com qualidade suficiente que justificasse a sua leitura. Mas foi no percurso da criança até ao homem que o livro mais me ensinou; ensinou-me o porquê de certos prémios, o que era o Estado Novo, o fascismo, o nazismo, a Mocidade Portuguesa, a Legião Portuguesa, a PIDE, o corporativismo, o colonialismo, o partido único, a guerra, a subversão, a sublevação, a subserviência, a emigração, a censura e a repressão. Conheci os rostos que emoldurados na parede da sala de aulas pensavam por todos nós, que velavam por todos nos; o Senhor Presidente do Conselho e o Senhor Presidente da República. Aprendi o que era a esperança e a democracia, a diferença entre elas e tirania ou vilania, foi por isso que, como muitos portugueses, assisti com ironia ao desmoronar desse mundo tão caricato quanto as razões de quem o mantinha de pé.

Curiosamente um livro de história que nunca li traçou o meu percurso, licenciei-me em História e em Ciências Sociais na mesma casa que serviu de palco à cena relatada. Nunca o li, mas já o folheei, não é história, nem sequer um romance histórico, antes um rol de subjectivas vãs e vagas ideias de quem pretendeu com ele dotar o país de glórias pelas quais não passou, nem no tempo dos Castros e Albuquerques, nem mesmo no tempo áureo do Salazarismo, que a todos tentou sacrificar face ao poderio militar da União Indiana, que nos reclamara o que era seu em 1956.

Está na estante há tantos anos que para mim não é já um livro, é uma taça, um troféu, a seu lado, e sobre quem cai já a mesma desconsideração e lástima, obras de políticos actuais, vivos e activos ou reformados, mas igualmente condenados na minha escala de valores a serem fuzilados numa urgente oportunidade.