segunda-feira, 16 de julho de 2018

518 - JÁ HÁ POUCAS MULHERES BONITAS 1, 2, 3


                  JÁ HÁ POUCAS MULHERES BONITAS … 1

Com a patinha, a minha Mimi puxou a cabeça decapitada da sardinha, filou-lhe as unhas, enredou-se nuns restos do aparelho e das artes ao qual ainda se encontrava presa uma linha, linha que vim a saber ao ajudá-la a desenvencilhar- se dela, estender-se até Vilnius.

Sim, daqui até lá, à Lituânia,  não daqui ou do Festival da Sardinha de Portimão, antes da vila de Olhão, vila tão afastada das revoltas matemáticas e repressões ortodoxas como a sardinha anda agora dos nossos mares e das latas de conserva. Haja decência pois a jurisprudência não tem aqui lugar.

Eu não podia estar mais feliz, por ter encontrado este rio tumultuoso carregando a história de enxurrada, história essa que eu amo e sobre cujas passadeiras vou saltitando de surpresa em surpresa, sempre sob a excitação e temor de escorregar nos lismos de alguma das pedras, ou torça um pé e me estatele no caudal desta ficção onde receio ficar empalado, como acontecia aos soldados americanos se calhava caírem e sumirem-se no fundo das armadilhas montadas p’los vietcongs, afim de caçarem os modernos cossacos da infantaria alada que os zurzia sem qualquer efeito e sem piada.

Tivesse eu caído e certamente o doutor francisco Fernandes Lopes me acudiria, tão bem ou melhor que o Tamanqueiro acudira ao Olhanense ao qual pela primeira vez na vida fez sorrir, pôs a sorrir. Sorriu o Olhanense então e sorriu agora, pois confirmo com agrado quão estava enganado o prior Sebastião de Sousa, é certo que passaram duzentos e sessenta anos mas como diz o bom povo, e não somente o de Olhão, mais vale tarde que nunca e, pelo que sei, vejo e constato, não se poderá dizer nunca ter ido a Olhão, pois se é de lá, nasceu mesmo lá…

HÁ CADA VEZ MENOS MULHERES BONITAS… 2


Como não havia de ser ela de têmpera se filha da terra cuja grandeza João Rosa nas suas crónicas nos canta e conta, em especial aquando da resistência aos franceses por volta do ano da graça de 1800, ano em que os olhanenses, famintos, estropiados, os quais ajudados por uma tropa-fandanga fizeram frente e expulsaram do reino do Allgarve o inimigo.

Por essa mesma altura e numa sincronia perfeita o pai de Bóris chacinava p’ra meter na ordem a cidade de Vilnius, inda que nenhum documento ateste esta genealogia mas tão caricata ligação seja romanescamente comprovada pela liberdade da ficção e, em caso de dúvida metódica se possam invocar as leis de Mendel e sobretudo a cartografia Ptolemaica* pois é sabido ter como base e ponto de partida uma superfície isotrópica e uniforme, a qual por sua vez possibilita a construção de posições abstractas, tais como as coordenadas terrestres, e uma terceira dimensão que por sua vez contém os métodos da ilusão ou, como isto anda tudo ligado, invoquemos sem a olvidar, a mais convencional simbologia dos mapas.

Quanto à questão espácio-temporal, a principal característica do mapa-múndi Ptolemaico, a sua cartografia assegura que os elementos representados num mapa devam ser co-síncronos, resultando numa separação entre o tempo e o espaço, da geografia para a história, justificando mais que a jurisprudência, a liberdade de que gozam nesta saga os elementos biográfico/geográfico/histórico/cronográficos, liberdade quasi impossível de imaginar no espaço exterior ao romance.   

Foram tempos em que terão penado muito mas não quasi** tanto quão Mário de Sá Carneiro, que se fora jovem sem esperar pelo mano-rei, quasi tanto sim quanto os de Vilnius. Também aqui, em Portugal, o drama das invasões fazia esquecer a fuga da corte para o Brasil, a incapacidade do rei, a inutilidade das cortes e da nossa tropa na defesa do reino, a eterna dependência, agora dos ingleses, os quais aproveitando a maré se penduraram em nós e inda hoje nomes sonantes como Sandeman, Croft, Tawny, Andresen, Dow's, Graham's, Cokburns, Taylors, Warre's, Crusted, Burmester, Offley, fazem as delicias do nosso paladar, seja como aperitivos ou digestivos cuja antiguidade em muitos casos remonta à época das invasões, antiguidade que as marcas publicitam com veemência ocultando-nos somente o modo e proveniência das fortunas feitas com as vinhas “compradas” a todos os desgraçados quantos as tinham nas margens do Douro.

A vinda dos franceses e a ida da corte para o Brasil haveria, qual cortina de fumo, de fazer as vazas do actual euro e união europeia a quem culpamos de toda a nossa desgraça, incompetência, inabilidade, oportunismo, caciquismo e espirito de manada ou instinto de rebanho. É bom ter um bode expiatório a quem atirar as culpas, eu disse culpas ? Essas nunca são nossas, Bóris dominava teórica e perfeitamente a situação, D. Leonarda a pena e a paixão, só desconheço se como a Bóris tanta erudição lhe terá vindo depois de beber até cair no chão.

Nada que me preocupe, é fazer como eu faço após cada ressaca, duas saquetas de chá preto da Tetley, um bule de água bem quente e esperançar não queimar a língua, é prático, rápido e cómodo. Por alguma razão inventaram as saquetas de chá que, calhando um dia ir a Olhão, levarei no bolso, meia dúzia chegarão, agora que a tropa francesa abandonou Faro e a ameaça se esfumou há muito dessa vila linda de céu azul de esmalte, só espero que o vento nesse dia esteja de levante, talvez por lá esteja o mano-rei e lhe crave um cigarrito.

        Que esteja ao menos D. Leonarda, provavelmente quem, inspirada por D. Catarina de Bragança, terá levado para o Algarve o hábito do chá, não me custa acreditar, imaginosa como é e já agora imaginando-a, após horas em redor de um fuso tecendo como Penélope teceu o seu velo, duas linhas riscadas por cada três alinhavadas até lograr ligar todos os factos ocorridos, não ocorridos e por ocorrer, provando à saciedade que isto anda mesmo tudo ligado, dera-se ao luxo de descansar passando então para a sala, visto serem quase cinco horas da tarde, e de seu natural o chá querer-se bem quente, de preferência a escaldar. Naturalmente irei aproveitar a ocasião para dar dois dedos de conversa, por que não, se há cada vez menos mulheres bonitas …

** QUÁSI

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse àquem...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dôr! - quási vivido...

Quási o amor, quási o triunfo e a chama,
Quási o princípio e o fim - quási a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dôr de ser-quási, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos d'alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ansias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indicios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sôbre os precipícios...

Num impeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .

Um pouco mais de sol - e fôra brasa,
Um pouco mais de azul - e fôra além.
Para atingir, faltou-me um golpe de aza...
Se ao menos eu permanecesse àquem...

** Mário de Sá-Carneiro, in 'Dispersão'



MULHERES, AINDA HÁ BONITAS E SIMPÁTICAS … 3


Nunca tive dúvidas quanto ao facto disto andar tudo ligado, nem dúvidas quanto ao dito do mundo avançar pulando como bola colorida entre as mãos duma criança. Por isso me alegrou sobremaneira a história de Madame S querendo transformar em Caterine tudo quanto Rousseau demonstrara relativamente ao bom selvagem, esforço a desenvolver com Caterine de quem se dizia ser filha do demónio, mas não somos todos ?

Sagaz como ele demónio, Caterine aproveitou, aprendeu e beneficiou, com muito mais pompa e circunstância, coisa raríssima, que a senhora presidente da dita acerca da qual não poderemos garantir tenha alguma vez tomado café na Brasileira do Chiado, como não poderemos jurar ter Bóris deambulado pela selva e roças do Brasil ou p’la foz do Amazonas.

Nestas coisas de juras é D. Leonarda mui certeira pois raramente se engana, não constando haver vez que não tenha tido mão ou se abanque com a banca, nestes pormenores dos players e dos dealers uma mão lava a outra e as duas lavam a cara, é preciso é que o marfim escorra, digo o money money, sendo bem conhecida a sua mestria para fazer manilha e compor bouquets, inda que nunca se tivesse dado por comerciar tulipas ou especular com bolbos.

Por falar em tulipas e bolbos ocorreu-nos que por aquele ano de 1925 Bóris se encontraria na Holanda e bem perto dela, na Alemanha, Hitler lançara por 12 marcos o seu célebre Mein Kampf, o que gerou acesa polémica, enquanto D. Leonarda alheia à controvérsia salpicava com uns pés de cravinho e uns pozinhos de noz-moscada o peru que preparava para meter no forno, quando alguém indeterminado sorvendo os olores em suspensão e com voraz apetite largou largo desabafo destinado a acompanhar a tentadora ave a caminho do forno,

- Uau ! Lá vai ele para Dachau !

tendo de imediato levado uma cotovelada pois se estava em 1925 e de Dachau por agora nem sombras quanto mais fornalhas.

Enquanto o sedutor peru caminhava para o crematório, D. Leonarda, munida de um pequeno copo de brande invertido desenhava com canela em pó argolinhas nas travessas de arroz doce. A todos D. Leonarda convidara para a sua mesa, o que prova não estar fora de moda a solidariedade dos olhanenses, confirmando-se continuar sendo o sentimento de igualdade mais forte ali que em qualquer outra parte ou lugar. Bebemos à saúde de Bartolomeu Constantino, da sua 36ª pena de prisão, erguemos de novo os copos em honra do causídico Afonso Costa a quem as circunstâncias não permitiram concretizar o desejo de se bater em duelo de pistolas com o juiz pronunciador de tão despropositada pena, e numa outra rodada relembrou-se Manuel Zorra The Sea Fox and your adventures, no momento em que alguém inopinadamente alvitrou haver ali parecenças com a vida corajosa e aventureira de Linda de Suza avec sa valise de carton, alentejana de Beringel, mas a ideia foi abandonada por extemporãnea com uma critica cerrada de,

- Hoje não acertas uma

por a dita senhora não ser sequer ainda nascida à data em que estávamos querendo inclui-la na rodada e beberricada homenagem.

Ficaram-se os convivas por Raúl Brandão e pelo novel fenómeno do Cinema Paraíso, tendo nascido em Olhão com duas salas concorrentes digladiando-se como os núbios nas arenas romanas, bárbaro mas necessário ao contentamento do operariado de oitenta fábricas conserveiras que o fim da guerra de catorze / dezoito havia de arrebentar. E implodidas as fábricas de conserva a conversa escorregou no óleo de olive derivando para a beleza cubista do bairro operário * cubista e obra do arquitecto Carlos João Chambers de Oliveira Ramos, bairro em cujas soteias o siroco se sente soprar mais forte, incendiando espíritos e enlouquecendo homens e mulheres. Por desmancha-prazeres alguém invocou o modelo ROC, fabricado em Palmela pela W, que também já fabricara o EOS, modelo cuja designação expressa um carácter jovem, caprichoso e despreocupado, vivendo amores intensos mas efémeros como era próprio da deusa com esse nome, fábrica que também produzira e produz o modelo Scirocco, rápido como o vento ghibi que sopra do norte de África, mas o diálogo ficou por aqui pois uma vez mais o infeliz que o conduzia “não acertava uma” …

Portanto, e não direi hoje soube-me a tanto por não termos iniciado ainda o repasto, por agora estamos sentados em redor uma mesa quadrada, travessa do peru fumegando e largando eflúvios de especiarias, naperons cobrindo as travessas de arroz doce decoradas com arabescos de canela, as rolhas saltando nas garrafas e os berlindes sumindo-se nos pirolitos, será caso para dizer que lá fora talvez, a julgar pela paz que embala o sono das cadelas, mas não ali, ali não vive gente brava, bruta ou repentista, ali vive pelo menos uma mulher bonita e simpática, porque sim, porque ainda as há assim. 


* (Bairro Operário mais tarde destruído, e projectado outro com idênticas características para a firma construtora Lucas & Ventura da qual faria parte um cunhado do mesmo arquitecto, Carlos Chambers Ramos que dera iniciativa à arquitectura modernista em Portugal, este seu projecto que por razões talvez económicas nunca chegou a ser construído, O Bairro Municipal de Olhão. 

             ................... (continua) ...................

517 - SIMPLIFICAR O PARADOXAL PARADOXO


Perante uma visão daquelas não pode a gente ficar-se unicamente olhando-a, pasmados, admirando-lhe a grandeza, que portento, que colosso, que maravilha, que enormidade, que impressionante, que peso, soberbo, sublime, que brilho, admirável, e já agora e para simplificar, incapazes hoje de lembrar de que materiais eram feitos os degraus de acesso ou a sua base, sustentáculo de tamanha estátua.

Nem podemos regressar ao lugar no autocarro preocupados ou pensando simplesmente que vinte dos trinta, ou três dos sete dias já lá vão, está o tempo a esgotar-se, era bom mas acabou-se, para o ano haverá mais, tudo tem a sua conta peso e medida, o seu tempo, e para simplificar, onde será o jantar hoje e o quê, que a loucura anda já por aqui reclamando um arroz de marisco na cataplana e deitando a gastronomia destes lugares pela boca fora.

É a isso que me refiro, a um pensar exclusiva ou maioritariamente centrado em nós próprios, no nosso umbigo, no nosso estômago, e nem ao menos que metal será aquele tão brilhante, imune à ferrugem, quantas toneladas terá a estátua, e a base, como terá sido construída, por quem, quais transportes a terão trazido até aqui, até este ermo, certamente foram precisas gruas gigantes, cadernais, carretéis, roldanas, os egípcios parece que iam acumulando areia em redor das pirâmides o que lhes permitia estar construindo sempre rente ao chão, junto à base, ao solo, sem gruas nem andaimes, mas isto já pressupõe que se conheça um pouco do Egipto e dos egípcios, das técnicas rudimentares, das antigas e das novas e, simplificando, talvez seja pedir demasiado ao visitante, por sua vez alheio ao guia, ao tradutor, ao homenageado, um tipo durão este para lhe terem erguido uma estátua tão alta mas que raio, tinha logo que ter nascido aqui, algures no meio de nenhures. 
              Pois que se diga de passagem, a talho de foice ou a propósito que este tipo, digo aquele ali em cima da equestre estátua gizou o primeiro império da história somente por ter, ele e os outros da laia dele, três ou quatro coisas que os determinaram, aborreciam-se de morte sem nada para fazer além da caça com faisões e a cavalo, cavalos, muitos cavalos, parece até ser o cavalo oriundo daquela parte do mundo, daquelas estepes e, simplifiquemos, em boa verdade terem acabado domesticando bem as cavalgaduras, dominando ainda melhor o equilíbrio sobre elas e a elas mesmas, de tal modo que para além do primeiro e do mais vasto, o tornaram o império da história milenar e planetária conquistado em menos tempo. Dali nasceria aquela que ficou conhecida como a famosa rota da seda.

Para simplificar que nos diz tudo isto ? Diz-nos que até hoje nenhum outro exército conquistador se moveu com a rapidez com que se moveram aqueles cavaleiros das estepes mongóis a quem o desfastio terá assaltado, senão empurrado como o vento empurra os arbustos secos nos desertos por ele batidos ou soprados e que vemos rolando, rolando sempre para diante, não cilindrando mas rolando açoitados portanto, movendo-se bem mais depressa que o cilindro por mim visto no passado e há muitos muitos anos, em que criança ainda fui porém capaz de ver a imagem que o futurismo me gravou para sempre na mente, um emblema dourado num cilindro verde espalmando a estrada preta nascendo até Reguengos e dizendo "Coolfield Road Roller", gravado no flanco do monstro bufando e gemendo sempre que lograva mexer-se e que do alto da vila de Monsaraz eu contemplava dia a dia na estrada em recta estendendo-se a perder de vista pelo mar daquela planície em que a aldeia era navio.

E não esquecer que esses valentes homens aos quarenta eram já velhos, digo se tivessem a sorte de viver quarenta anos poderiam dar-se por muito felizes pois bastava uma infecção, uma fractura, um abcesso ou uma cárie pra lhes ditarem a sorte e os enterrarem quando menos esperavam, pelo que a vida essa era curta, um acidente, uma doença, uma queda, uma espada, uma flecha, sorte era morrer em combate, se possível repentinamente, trespassados ou degolados. E uma vez mais para simplificar, morria-se muito, morriam muito, mas também nasciam muito, muitos, seriam como coelhos vivendo em tendas mal enjorcadas, suportando calores e gelos.

Eram uns bárbaros, uns simplórios, muitas das suas conquistas foram levadas a cabo com base no terror pois cidades houve que, temendo tais hordas se lhes abriram e entregaram sem luta. O mesmo não poderei dizer-vos quanto às mulheres, quer as do seu povo quer as que tomavam pela força, o casamento como hoje o concebemos não existia nesses tempos nem a esperança de vida augurava ligações capazes de festejar bodas de prata, daí começarem cedo, pelos treze ou catorze anos, algumas nem maminhas teriam ainda mas a natureza é ardilosa, as cadelas têm o cio no tempo próprio, mas às mulheres foi dado todo o tempo do mundo, para além de beleza, do olhar, da voz e das feromonas.

Simplifiquemos de novo pois também elas não esperavam muito deles, o romance é um privilégio dos tempos modernos, por aquela altura era truca-truca e já está, os deuses fizessem com que fosse menino, forte e um bom guerreiro pois de nada mais precisariam. Os espartanos viriam mesmo a brindar quem tal não prometesse com um voo sem regresso do alto duma colina, escarpa ou abismo, e toca a fazer outro que este vinha com defeito. Reclamações não havia, nem devoluções, nem custos ou pesos mortos para a sociedade, Heinrich Himmler bebeu aqui algumas das suas teorias. Portanto aquela coisa dos corações entrelaçados tão bonitinha e romântica é mais dos nossos dias de burguesa ociosidade, naqueles tempos queriam-se era varões com um grande par de … fortes, estultos guerreiros, bons cavaleiros, exímios enquanto homens de coragem e sempre dispostos a morrer pelo seu senhor.

E morriam, morriam muitos e muito cedo, as mulheres não contavam com eles para mais que fazê-las mulheres e engravidá-las, o mundo tinha recursos de sobra para todos, não havia pílula e tudo e todos apostavam em dar à luz guerreiros, carpinteiros, marinheiros, marceneiros, falcoeiros, pintores, curtidores, escultores, agricultores, caçadores, tendeiros, comerciantes, abegãos, feiticeiros, armeiros, bufarinheiros, pantomineiros, mineiros, ferreiros, correeiros, carroceiros, etc etc etc Todos eram filhos de todos, todos pais e mães de todos, até gregos e romanos se lembrarem de começar homenageando com coroas de louro as boas mães, Napoleão também as honrou, Hitler fê-lo melhor que ninguém e até o nosso vizinho Franco depois de enterrar metade de Espanha honrou, condecorou e roubou as boas mães espanholas, o que, simplifiquemos uma vez mais as coisas, conduziu alguns maledicentes da história a apodá-las de meras mães parideiras e, num registo conhecido mas nunca reconhecido como oficial consta mesmo uma alusão a porcas parideiras. 

Nos tempos de Gengis Khan não davam medalhas a ninguém, a vida era curta, curta a esperança de vida e, para brincar com a minha cunhada, tout a été fait à la main, ne pas acheter dans le magasin ni commander sur le net, como acontece hoje, e ter pão e carne na mesa dava trabalho, custava, exigia muitos braços, pescar, caçar com ou sem faisão, cuidar de centenas ou milhares de renas, perseguir ou controlar as manadas de saigas, ordenhar, curtir peles, construir armas, yurts ou tendas, confeccionar roupas, etc etc etc Tudo exigia muito a todas e todos, imenso tempo, e disponibilidade, cada sexo ocupava-se de funções próprias e todos podiam contar com mais deveres que direitos, todavia fazer parte do clã, do grupo, da tribo era ser admirado, considerado, estimado e o supra sumo, daí que cada elemento desse o melhor de si pela comunidade sendo a dureza da vida a ditar regras de sobrevivência, um por todos, todos por um. Contudo filhas e filhos raramente conheciam os pais, idos engrossando as hostes dos exércitos mais rápidos do mundo e que o dominavam sem sair da sela, lutando, matando e morrendo montados. 

Às mulheres cabia amá-los e chorá-los, e dar-lhes muitos, muitos filhos, era esse o seu papel, a sua missão, a qual aceitavam não com resignação mas com naturalidade, era assim mesmo a vida, elas sabiam-no. Hoje não, na generalidade elas e eles nem sabem o que querem, pelo menos por aqui, nem qual o seu papel, os tempos não ajudam, não vão de feição e nem temos nenhum Gengis Khan, nem de imitação. A imprensa chama-lhes a geração NIN, nem estudam nem trabalham, não têm nem lhes é atribuído um desígnio, um futuro, e na cabecinha de muita dessa juventude, formatada por décadas de Tv e um sistema de ensino embrutecedor, muitos deles querem ser engenheiros ou doutores, ganhar rios de dinheiro, preferencialmente sem estudar claro, enquanto grande parte delas emprenham pelos ouvidos vendo telenovelas ou as manhãs e tardes da nossa educativa TV e sonhando participar na Casa dos Segredos ou no Got Talent Portugal, ambicionando casar e ter filhos, esquecendo que os tempos não vão de feição. Os nossos políticos trocaram a ética pela estética e um país que poderia ser o paraíso da Europa está transformado num promissor inferno.  

 As gerações de mortos na I e na II Grandes Guerras já foram repostas, são já de novo demasiados os vivos ao cimo da terra, já atrapalham, cavalgam as costas uns dos outros por um mísero ordenado, corrompem e deixam-se corromper para sobreviver, é o salve-se quem puder e ninguém sabe que fazer com eles tantos são. Esgotam com pedidos de subsídios de desemprego os cofres da Segurança Social, não saem de casa dos pais, penduram-se dos avós, e nickles batatóides, não fazem nada, os governos nem se lembram que existem, e eles por sua vez apagam-se sem lutar, sem ao menos se manifestarem, transformados numa cambada de comodistas habituados (as) a tudo ter de mão beijada. Para simplificar, não pensam, nem pensam nem concluem não ser este o tempo certo ou ideal para constituir família, casar ou especialmente ter filhos, este é um tempo no qual nem uma casa nem uma tenda podem erguer pelas suas mãos, nem terão onde, nem um cavalo, nem um arco e flechas, ou uma espada, uma lança, tão pouco coragem. Este é o tempo do salve-se quem puder, do amanhe-se quem souber, e queres tu ser mulher ? E tu engenheiro ? E o dinheiro ? O trabalho ? E cadê a carreira que te preencha a carteira ?

Este é um tempo de aproximação e erupção duma nova guerra, uma guerra a sério e não mais uma destas guerrinhas diárias um pouco por todo o lado, vai soar novamente o tempo de Malthus, o tempo de uma das suas guerras higiénicas, uma razia, milhares, milhões de filhos irão perecer ou antes disso ser comidos pelos pais, como profetizara Jonathan Swift na sua "Modesta Proposta" por volta de 1700, onde resumidamente explicava como se poderia matar a fome a uns comendo os outros, recomendando que se começasse pelas criancinhas, mais tenrinhas e que não rendiam, antes consumiam, davam trabalho e nada produziam. Já então se vivia o tempo da produção, da competitividade, da rentabilidade, é assim ou não ?

Após 1945 e depois de enterrarmos 80 milhões de mortos tivemos direito a 70 anos de crescimento, progresso e felicidade, está na hora de mandar abaixo outros tantos e garantir o futuro a quem ficar, haverá novo baby boom e novas e felizes mães, não agora, agora não é bom tempo p’ra casar ou ter filhos que somente irão alimentar e garantir mão-de-obra barata e providenciar carne para canhão, Marx tinha razão, sempre teve, o problema é que ninguém o lê, nem aqueles que mais o invocam …









……” Certa vez Napoleão disse o seguinte: "Deixai que a França tenha boas mães e ela terá bons filhos". 2. Hoje, mais do que nunca, necessitamos de mães possuidoras de um caráter cristão, mães que educarão seus filhos no caminho do Senhor... 3. Uma mãe bem sucedida é a chave do sucesso do lar e da nação... 4. Nenhuma outra força na vida da criança é tão poderosa em influência como a mãe. 5. Através dos séculos, a mãe tem sido um fator estabilizador na formação da história... 6. "O destino de uma nação", disse Napoleão, "está sempre nas mãos da mãe". 7. Muitos homens famosos foram influenciados por suas mães... 8. A mãe de George Washington era uma mulher religiosa e patriota... 9. Por outro lado, a mãe de Byron era orgulhosa, contenciosa e violenta... 10. A mãe de Nero era gananciosa, sensual, assassina...  “……..

quinta-feira, 12 de julho de 2018

516 - PROTECCIONISMO, SIM, NÃO OU NIM ? ...



A coisa começou porque o Quim Zé, para além de calçar 43 e estar constantemente às caneladas a todos, lançou uma das suas provocações, curiosamente logo ele que até costuma ficar sempre calada ou demasiado calado, mas desta e a propósito duma foto qualquer que o jornal trazia em destaque atirou a dele: Porque é que as pessoas em Portugal defendem as politicas anti-protecionistas, quando ao mesmo tempo assistem à perda de competitividade das empresas nacionais, e consequentemente ao seu fecho e ao aumento do desemprego ? Estarei eu a ver bem o problema ?

A mesa do café é ecléctica ainda que seja de alumínio, as de dentro são de sólido carvalho nacional mas na esplanada é material importado, barato, prático, leve, fácil de lavar e sobretudo fáceis de prender com uma corrente o que é suficiente para que fiquem amontoadas na rua sem ninguém as levar durante toda a noite, o pessoal quer é anéis e relógios de marca, importados, caros. Mas sendo o pessoal amesendado em redor da távola q.b. heterodoxo e mui ecléctico, como vos dissera já, a questão caiu como uma bomba, até se ouviram as chávenas tilintando nos pratos, e foi precisamente o Pires, um ortodoxo, quem ganiu primeiro enfiando uma carapuça de ar sofredor. Está aposentado mas fora sindicalista, portanto carregara a cruz em defesa do operariado explorado e de imediato atirou culpas ao lóbi imperialista/capitalista, mas todos fizeram orelhas moucas como vai sendo habitual e calmamente aguardámos que tanta verve lhe passasse.  

O amigão Pratos, perdão Prates, do centrão, alvitrou que tal se deveria ao facto de existir na sociedade portuguesa uma doutrina antitética, e dual, que na generalidade a cabecinha das pessoas não está capaz de analisar ou separar. Mas é coisa fácil continuou o Prates, não proteccionismo significa concorrência, logo competição, logo evolução, o que implica modernismo, vanguarda, actualidade, liberalismo, liberdade. Pelo contrário proteccionismo é sinónimo de apadrinhamento, de protecção ao antigo, ao que está desactualizado, do obsoleto, do que não é competitivo, do marasmo, do engonha. Ainda no sábado li um artigo duma reitora universitária apoiando a transferência de vagas das universidades de ponta de Lisboa e do Porto para as universidades e politécnicos do interior, dos quais os alunos fogem por nunca terem tido mérito algum, ao contrário do que acontece com algumas faculdades de ponta lisboetas e portistas que se já encontram entre as melhores cem do mundo.*

Ora quem arrisca apadrinhar o obsoleto ? Ou identificar-se com o engonhar ? Todos queremos modernidade, e na voragem da modernidade cuja crista de onda desejamos cavalgar como no canhão da Nazaré, soçobramos todos incapazes de pensar que a cada estágio evolutivo corresponde um estado de proteccionismo ou de liberalismo que lhe está associado, lhe é inerente, de que é inseparável sendo cada um deles o conveniente para um dado momento... É o que dá não comer espinafres nem beber óleo de fígado de bacalhau quando se é pequenino...

Pois é meus amigos, não deixam de ter alguma razão, quer um quer outro mas isso é pouco, é redutor, é só uma face do cubo e eu vou ser breve na minha achega porque estou com pressa e ainda tenho que ir almoçar umas migas a Cuba com uma amiga das Honduras, mulher dura mas tão permeável quão persuasiva enquanto vocês são uns coirões.

Pronto lá está ele, este Baião tem a mania que é sabichão e mais santo que toda a gente, despacha lá isso e poe-te a milhas quanto mais depressa melhor, é preciso ter pachorra p’ra aturar este tipo irra, nem sei como a Luisinha te atura há tanto tempo, francamente.

Pois é pazé, eu tenho a mania mas não aprendo nada contigo e tu devias pagar-me as explicações diárias que levas desta mesa de qualquer modo se não estás bem muda-te, há anos que andas aqui feito melga, bem podias meter a língua na caixa em vez de… Bem deixa-me calar que a Laurentina não é para qui chamada e tenho-a por boa pessoa, como ela te atura a babuje é lá com ela, e contigo claro.

O problema é que o país é pequeno, pequeno em diversas dimensões, falta-nos mercado interno, a baixa demografia e os baixos salários tornam-no praticamente inexistente. Como se não bastasse ser quase inexistente e apesar dos baixos salários estes ainda são maioritariamente canalizados para consumos supérfluos vindos sobretudo da UE ou Américas, o que não ajuda a senão a afundar-se. Verdade que a UE nos tem metido a mão por baixo, está a mamar e cuida da sua teta, mas a UE falhou redondamente e mais dia menos dia dará um estoiro. Não é e nunca foi uma união de estados como acontece com os EUA faltou-nos e falta-nos muita coisa para uma união. Esta UE não cumpriu o seu papel de forçar a igualdade dentro da união, bem pelo contrário sempre se portou em modo cada um para si e, quando é assim os mais fortes phodem quem ficar por baixo, geralmente os mais fracos, é dos livros.

Quer Portugal quer a UE nunca sofreram uma verdadeira guerra da independência, nem de secessão como aconteceu com os States, nem tão pouco sofremos com a IIGG. Estes sofrimentos, estas dores de parto pariram uma nação coesa, uma identidade única e a sociedade rica que são os EUA, o país que mais e esforça por atingir a supremacia, o país onde ter o céu como limite foi teoria feita doutrina e práxis. Lembrai-vos de Kennedy. A nossa velha europa não, nunca teve pais fundadores, empenhados na justiça, na igualdade, na liberdade, na democracia, a UE teve estadistas sim, o último foi Jacques Delors, depois dele começou o deserto, deserto de ideias.

 Como se não bastasse falta-nos uma constituição livre, liberal, no sentido de liberalismo, de liberdade, a nossa constituição é invasiva da liberdade do cidadão, invasiva e cerceadora, é impositiva, controladora, foi desenhada por controleiros. Está virada para o passado e para quem colheu, colhe e goza de benefícios, está gizada para manter o status quo, o establishment, e em tempo de crise e de vacas magras torna-se um obstáculo e não um escape, uma oportunidade ou uma garantia. Se és jovem experimenta avaliar as garantias que em relação ao futuro esta constituição tem para oferecer aos jovens como saída desta crise a não ser impostos e mais impostos que garantam os direitos adquiridos manhosamente pelas classes que deles beneficiam ?   

A verdade é que se instituirmos o proteccionismo perderemos mercado, e não tendo Portugal mercado interno que lhe valha ou que valha alguma coisa que possa garantir o país em pé e o investimento acelerado temos que nos pendurar do mercado europeu, mais de duzentos milhões de consumidores, faca de dois gumes pois esses consumidores também produzem e também desejam exportar para aqui, e fabricam melhor e mais barato, têm a energia e quase todos os custos de produção mais baratos, o pessoal mais treinado, produzem mais, são mais rentáveis por unidade de tempo apesar de ou mesmo por isso, ganharem à hora três ou quatro vezes mais que o operário médio português. A produtividade ora aí está, como dizia José Mário Branco já em 1979 **

Optar pelo proteccionismo ou não, não é fácil, que vamos proteger se pouco fabricamos em volume, em qualidade, em diversidade, em valor ? Maioritariamente importamos tudo ou quase tudo, tomar atitudes proteccionistas depressa estas se virariam contra nós mesmos, são um pau de dois bicos. Proteger exige estabilidade governamental, olho para o negócio, digo para governar, é que já não temos as colónias onde ir buscar baratas as matérias-primas, nem colónias para onde vazar toda a merda que produzíssemos, a clientela europeia e global é mais exigente que eram a pretalhada e os branquelas. Mas ninguém diz isso a este povo que pensa caírem as coisas do céu. Nem essa nem tantas outras verdades. Verdade que temos uma ZEE (Zona Económica Exclusiva, mar) enorme mas sem meios para a explorar de nada nos vale, e ninguém explica a este povo que há 40 anos e com menos mar a nossa frota mercante era enorme, das maiores do mundo, nem contam como o almirante Tenreiro, esse fascista, era fascista mas era um fascista nosso, ia longe buscar os milhões de toneladas de bacalhau que agora importamos. E se enchermos esse mar de aventoinhas já saberão quem irá ganhar com isso. Quem senão "eles os outros" terá dinheiro para lá as plantar ? 

Com tempo democracia e leis laborais seriam instauradas, a revolução foi o pior que nos podia ter acontecido, olhai os políticos e as politicas que temos, olhai o futuro e fazei contas… A Comunidade Europeia, a UEFA a OCDE vinham exigindo e o país cumprindo o caminho que levaria à democracia sem revolução. Não que as revoluções em si sejam más ou coisa má, a nossa é que foi um desastre que temos dificuldade em admitir e negamos a pés juntos, realmente não foi um desastre, tem-se mostrado uma verdadeira calamidade.

Propositadamente deixei para o fim a perda dos dedos e dos anéis, das toneladas de ouro do tempo do fascismo, para que possais olhar a situação deste país, é que agora estamos aqui acantonados, sem seguros, sem banca, sem dinheiro, e os lucros dessas entidades faziam um jeito de morte para o investimento de que carecemos e não temos, dinheiro esse que, agora que nada é nosso é feito à nossa custa mas voa para todo o mundo, aqui é que não poisa, portanto não haverá, ou haverá cada vez menos dinheiro para escolas, hospitais, estradas, pontes, portos, estamos de tanga, estaremos atolados num pântano por mais trezentos anos e já nem sequer conseguiremos manter-nos orgulhosamente sós, o tal orgulhosamente sós que passámos quarenta anos a denegrir.

Estes democratas enterraram este país bem enterrado e nos próximos quinhentos anos, acreditem, estamos mesmo sem nada, nem esperança de mudar de vida…





segunda-feira, 9 de julho de 2018

E A REITORIA AOS COSTUMES DISSE NADA …



A reitoria da UE fez dar à estampa na edição nº 2384 do Expresso de 07-07-2018, no passado sábado, um artigo de opinião que o Diário do Sul já aflorara levemente no editorial de sexta-feira dia 6 mas de um modo tão pela rama que tornou o assunto incompreensível para a maioria dos seus leitores. A citada reitoria, e prefiro socorrer-me do termo reitoria por não desejar pessoalizar esta questão, portanto nem vou usar nomes pessoais nem tão pouco os substantivos reitor ou reitora, a questão implica e envolve a instituição universidade, portanto e apesar de estar ciente de que cada reitor lhe imprime o seu cunho pessoal, é de toda a justiça que não torne pessoal esta melindrosa questão.

Abordo-a contudo por julgar que nem os seus pares na academia nem os seus companheiros de partido ou sequer os amigos, receosos de perder uma prebenda, um jeito, um favor, se atreverão a pedir meças às suas palavras, e tanto pano que elas têm para mangas, que é como quem diz tanto que têm para ser cuidadosamente analisadas, já que se trata da posição oficial da academia sobre o candente tema das vagas no ensino superior, pois o citado artigo vem mencionado como tendo origem na senhora tal, identificando- a e identificando a sua qualidade na hierarquia da instituição. O artigo em causa será apresentado no fim destas minhas linhas a fim de que as mesmas possam ser bem interpretadas e julgadas por quem me ler, e inclusivamente conhecer a posição da academia, que como acabei de dizer, foi expressa pela sua máxima entidade em semanário público de grande circulação e tiragem.

Fez-nos a reitoria da UE saber a sua posição quanto à atitude governamental agora inclinada para unilateralmente cortar vagas no ensino superior nas metrópoles de Lisboa e Porto para as abrir nas instituições de ensino superior do interior do país, desse modo pretendendo o governo colmatar as assimetrias que se vêm acentuando a favor do litoral e em prejuízo desse interior. Ora um combate deste tipo contra as assimetrias sentidas esbarra com a mesma falta de lógica que as tem originado, mas a reitoria eborense, como o desiderato lhe convém, a universidade e o Alentejo têm perdido estudantes e população a um ritmo galopante, depressa aderiu à esdrúxula ideia governamental de, por decreto equilibrar este normal, natural e lógico desequilíbrio.

Estudantes e populações sempre se deslocaram para universidades de maior prestígio e áreas com melhor nível de vida, sobretudo para áreas que ofereçam melhores oportunidades e garantias de futuro. É dos livros, é normalíssimo, o êxodo rural em Portugal é velho de séculos. Deste modo arrevesado e caricato serão os estudantes obrigados por decreto a frequentar não as suas escolhas, mas por imposição as sobras das escolhas ou seja, cursos sem procura em cidades que ainda a têm menos e de onde todos fogem. 

Quanto às causas que a umas universidades dão prestígio e a outras o tiram a reitoria disse nada, e quanto ao facto duma região onde ela está instalada ter vindo paulatinamente a tornar-se a região mais pobre do país e da Europa, uma região de que vive divorciada ainda disse menos. Na realidade a reitoria foi clara ao afirmar que a transferência de vagas de Lisboa e Porto para universidades do interior não pode ser dissociada das assimetrias visíveis a todos os níveis entre litoral e interior, e eu sublinho, não pode ser dissociada das assimetrias visíveis a todos os níveis entre litoral e interior, sendo precisamente aqui que temos o busílis, a ilógica e aberrante transferência de vagas não pode ser dissociada das assimetrias, mas podem-no ser os anos e anos de acção / actuação / actividade da faculdade eborense que nada fez para impedir a sua própria queda e da região.

A reitoria desliga-se de responsabilidades nesse aspecto, a universidade, vistas as coisas pelo prisma da reitoria nada tem a ver com a quebra de estudantes e de população na cidade e região. Ela está cá para receber e beneficiar, e não para dar e distribuir, ela protegeu-se com uma cúpula doirada, sente-se lá bem, está lá bem, e a realidade circundante a ser mudada que o seja a seu desejo e por decreto. Poupem-na a trabalheiras porque há quase quarenta anos que a universidade vive sem uma verdadeira coluna vertebral, sem influenciar o meio nem o contexto, ainda que vivendo nele mas à margem do dito. A UE transformou-se numa casta vivendo alheada e desligada / divorciada da região, vive virada para o seu umbigo. Dum modo egoísta a UE raramente nos dá conta da sua interacção interior / exterior, a UE é mais amiga de aproveitar os louros do exterior em seu benefício travestindo-os de fama e proveito seu. Fê-lo com a tecnologia desenvolvida pela Embraer, fê-lo com a tecnologia desenvolvida pela TecniDelta II no ramo dos cafés. *

Noutro passo afirma a reitoria que tendemos muitas vezes a simplificar matérias que são complexas, como será o caso, eu acrescentaria que a faculdade simplifica a sua habitual e crónica apatia, marasmo, torpor, indiferença, indolência e paralisia pois jamais dei por ela reclamar por algo mais que fundos e mais fundos, e nada lhe ouvi alguma vez sobre a razões para a perda de estudantes por si ou quanto à perda de população pela região.

Insiste a reitoria não se tratar de opor as universidades dos grandes centros urbanos (Lisboa e Porto) versus universidades do interior, e na sua veemência quase garantir não se tratar de universidades com índices de qualidade elevados versus universidades mais mal cotadas, mas é precisamente disso que se trata ! É que quanto a mim, a queda de população estudantil que afecta a universidade e a queda de população do interior, ao contrário do que a reitoria diz tem de deixar de ser argumento para ser culpa e responsabilidade, a UE não contribuiu para reter nem aumentar o número de alunos nem populações, portanto não contribuiu para o desenvolvimento da região em que está inserida e com a qual, volto a insistir, vive um pleno divórcio há muitos anos mas à custa da qual vive sem que contudo preste contas.

Estou habituado a medir o resultado de politicas ou de acções pelos seus resultados, ao manter paralelo com a visão governamental unilateral que tanto apoia a UE volta a ignorar a região e o contexto e circunstâncias em que esta se inscreve e às quais a UE não pode ser alheia, logo não pode armar-se em defensora e apoiante da visão unilateral e governamental só por interesse, por comodidade, por essa visão lhe ser conveniente e vir ao encontro dos seus proveitos. Esta faculdade foi aqui instalada entre outra razões para promover (não digo ajudar) o desenvolvimento do Alentejo e do país, vê-la definhar e agarrar-se desesperadamente a soluções aparentemente conciliadores e repositoras de um equilíbrio entre assimetrias que a UE com a sua ineficiência ajudou a criar não lhe fica bem. Não estou a usar demagogia, é uma verdade aceite pela UE a perda de estudantes, tal como a demografia é exacta ao assinalar a perda de população e portanto, a julgar pelos resultados obtidos a UE falhou na sua missão, a menos que atire as culpas para cima de outros ou as deixe morrer solteiras. Embora eu aceite que as culpas são muitas, múltiplas e antigas, destas porém nunca ouvi a UE lamentar-se.

É a UE quem tem que defender os nossos interesses, nossos dos portugueses, alentejanos e eborenses, tem que ser ou devia ser a nossa vanguarda e não escudar-se atrás de nós, atrás das fraquezas que não nos ajudou a superar para todavia de modo oportunista aproveitar todos os meios para “facturar” em defesa dos “seus” interesses. A universidade de Évora terá que deixar o individualismo egoísta em que há muitos anos se encerrou, qual casta protegida, e ir à luta, fazer, abraçar a práxis, parar de engordar teóricos ávidos e gulosos, espremer a práxis, queremos coisas materiais, concretas, físicas, reais, produção, riqueza, emprego. Menos dialéctica balofa e mais trabalho, mais resultados, menos lamentos, menos queixas, mais acção, mais produtividade. 

Como pode a UE considerar inclusivas as reduções de vagas se um decreto não hesita em atirar pela força com alunos para fora das suas vocações, afim de os colocar contranatura no cesto dos interesses da UE e de outras faculdades do interior sem mérito para os atraírem ? Estaremos então a penalizar as faculdades eficientes e meritórias que ao longo dos tempos souberam criar uma tradição de honorabilidade que certamente não lhes terá saído barata, pois muito tempo e dinheiro devem ter investido em si mesmas para beneficiar quem as procure. Haverá alguma lógica em devolver, abusivamente apelando e usando a coerção, vagas a quem as perdeu ? É a velha irresponsabilidade e incompetência nacional, castigar, penalizar quem procede bem, aliviar e ajudar a quem pela sua prática e resultados já demonstrou que não chegou onde devia. Experimentem fazer o mesmo com as empresas cotadas na bolsa…

Talvez por termos atravessado o S. João a reitoria tenha puxado a brasa à sua sardinha, ela que puxe antes pelo desenvolvimento do interior. Sim sei o que tem feito e o que faz, mas é pouco, a julgar pelos resultados é pouco, muito pouco, pouquíssimo. Seja o Alentejo repovoado e os constrangimentos de que padece desaparecerão e não lhe faltarão alunos. Temos que ter presente e lembrarmo-nos constantemente que, ou todos por um e um por todos ou a coisa não funcionará…






Reprodução do Expresso de 07-07-2018 Ed 2384 
Reitoria da Universidade de Évora sobre as vagas no Ensino Superior

OLHAR O PAÍS COMO UM TODO

A proposta do Governo relativa à distribuição regional dos estudantes do Ensino Superior, que prevê a transferência de vagas de instituições de Ensino Superior (IES) dos grandes centros urbanos de Lisboa e Porto para as restantes IES do país vem abrir uma discussão há muito necessária e que não pode ser dissociada da assimetria, a todos os níveis, entre interior e litoral.

Tendemos muitas vezes a simplificar matérias que são complexas. É o caso. Não se trata aqui de universidades dos grandes centros urbanos (Lisboa e Porto) versus universidades do interior. Não se trata de universidades com índices de qualidade elevados versus universidades mais mal cotadas. Não se trata aqui de “proteger” umas instituições em relação a outras ou de beneficiar uns em detrimento de outros, nem IES nem populações. É, aliás, profundamente errado abordar a questão universidade a universidade.

O assunto não deve portanto ser encarado como estando a retirar-se vagas às instituições de Lisboa e Porto, mas antes como estando a devolver vagas retiradas às restantes instituições de ensino superior nos últimos anos. Os números são elucidativos:

O elevado número de vagas em cursos de formação inicial em Lisboa e Porto tem contribuído para uma deslocação privilegiada de estudantes para esses centros urbanos, em detrimento de outras regiões — 36% do total de inscritos nas IES Públicas de Lisboa e Porto têm residência fora dos Distritos do Porto e Lisboa, num número de cerca de 50.000 estudantes deslocados;

A queda de população no interior deixa de ser argumento quando se verifica uma disparidade entre o crescimento da população de Lisboa e Porto em relação ao ritmo de aumento de vagas nesses mesmos centros urbanos — enquanto, entre 2001 e 2016, a população residente aumentou 5% em Lisboa e reduziu 3% no Porto, o número de vagas iniciais atribuídas aumentou 42% no distrito de Lisboa e 13% no distrito do Porto.

As IES públicas de Lisboa e Porto têm 44% de vagas do Concurso Nacional de Acesso, 48% do total de inscritos no ensino superior público, mas apenas 36% dos estudantes bolseiros. Logo, a população potencialmente mais afetada pela redução de vagas tem características de menor carência socioeconómica que o resto do país. A proposta de redução de vagas é portanto, também, fortemente inclusiva.

Se tivermos em conta que a proposta do MCTES, que prevê a redução de 5% de vagas nas IES públicas sedeadas nos distritos de Lisboa e Porto e o mesmo aumento nas IES sedeadas noutros distritos do país, apenas vem reduzir 1103 vagas em dois distritos do país e devolver 1430 aos restantes, podemos facilmente concluir que não se trata de introduzir uma medida artificial que obriga os candidatos a deslocarem-se para o interior do país, como tem sido afirmado, mas sim corrigir um caminho que tem apontado no sentido único da concentração em Lisboa e Porto.



quinta-feira, 5 de julho de 2018

515 - AEROPORTO DE BEJA, ESSE EQUÍVOCO ...

 Foto recolhida de página do Diário Rural.

Faziam-lhes o ninho como quem lhes fazia a cama mas elas não se deitavam. Orgulhosas e desdenhosas passavam ao largo, ou ao alto, deixando intactos os lençóis que lhes haviam estendido com tanto amor, paciência e carinho. Nunca neles se deitaram.

A instituição e sociedade que dá pelo nome de National Geographic já passou por duas ou três vezes este mês, no seu canal por cabo, uma história, reportagem verídica filmada no continente australiano, ou seja na Oceânia. Grosso modo mostra-nos como eram os céus dessa parte do planeta antes da segunda guerra mundial e como passaram a ser durante e depois dela. Mostra esses céus, não vistos por nós mas pelos aborígenes, pelos indígenas australianos, gente que nunca na vida vira uma carrada de coisas que nós damos por comezinhas, no caso coisas no céu, aviões nos céus.   

A dita reportagem, bem documentada, mostrou-nos ou demonstrou-nos como facilmente se geram os equívocos, em especial se alicerçados na ignorância, e no fundo mostra como todo o esforço dos nativos se resumia a fazer com que aquelas aves enormes poisassem na cama por eles preparada para o efeito, no ninho, uma vasta língua de floresta totalmente desbravada, excepcionalmente limpa de árvores e vegetação, uma torre de controlo erguida e construída com troncos das árvores derribadas, enfim, uma pista e um aeroporto que na sua visão, deles nativos, indígenas, aborígenes, pouco haveria de divergir daquele que hoje sabemos existir no Dubai, o moderno hub do médio oriente, nunca tendo eles compreendido porque não poisaram ali as tão cobiçadas quão admiradas e gigantescas avioas, as quais ostensivamente lhes sobrevoavam os céus e, a julgar pelo seu tamanho, imaginem só o ovos que poriam…

Assim estão os de Beja, olhando esperançadamente os céus na mira de conseguirem que alguma avioa mais afoita, mais curiosa ou mais distraída lhes pouse no chamariz, digo na cama, digo no seu moderno aeroporto. O aeroporto de Beja, esse enorme equívoco, não tenho dúvidas ter servido bem os alemães. O nosso céu, que ao contrário do deles não se encontrava saturado, permitiu-lhes treinar livremente pilotos de aeronaves super rápidas sem o mínimo de risco de colisões no ar. As mudanças geopolíticas ditaram o fim da base de Beja, a queda do muro de Berlin e o colapso da ex URSS impuseram um outro equívoco, o fim da história e com o fim da história viria o fim da base alemã de Beja.

O actual problema desse aeroporto nem terá sido o seu custo, 33 milhões, o aproveitamento das infra-estruturas já construídas foi lógico, o país tem desperdiçado de modo bem pior muito mais dinheiros, quando não são sorvidos pela voragem da corrupção, da irresponsabilidade e da incompetência. O mal de Beja é o mesmo mal que assola o resto do país e tem a idade desta disfuncional democracia, pois logo a seguir ao 25 de Abril deviam ter-se traçado os eixos prioritários que definiriam a sustentação estrutural do país, o seu esqueleto digamos, ou exo-esqueleto, mas tal não se fez, e nunca mais foi feito.

Não o foi no aspecto concernente a aeroportos e portos, nem nos aspectos rodoviário, ferroviário, ou marítimo, nem no sistema de ensino ainda aos trambolhões, tal qual o sistema de saúde e segurança social se encontram actualmente. Não tivesse o SNS sido erguido nessa altura e não o seria de certeza. Outros aspectos desta estrutura foram igualmente esquecidos, ou torpedeados, como aconteceu com a agricultura e as pescas. A economia e a indústria nunca mereceram qualquer atenção especial, e quanto à banca, seguros e energia pensou-se nelas sim mas apenas para apurar por quanto as alienar.

Tudo foi deixado nas mãos do destino, nas mãos do acaso, o que se fez muito ficou a dever-se ao improviso, o país não tem ainda hoje quaisquer desígnios, não tem rumo há quarenta anos.

Tiveram os bejenses uma oportunidade de oiro que desperdiçaram por vaidade, por orgulho, por ignorância, por desconhecimento, o negócio da sucata de aviões. Lembro-me que na altura pesquisei o negócio, comentei-o acompanhado de fotos numa das páginas do aeroporto de Beja na net, portanto o meu testemunho ainda por aí estará algures. De modo vago recordo-me que as pesquisas efectuadas me tinham levado a concluir que, só na califórnia o desmantelamento e a reciclagem de aeronaves atingia um volume de negócios equivalente ou superior em dez vezes o PIB do nosso país, portanto nada de desprezar, tivesse Beja agarrado essa oportunidade e hoje poderia ser a cidade e a região com o mais alto contributo para o PIB de entre todas as regiões de Portugal.

Vaidade, orgulho, falta de visão e de cosmopolitismo, teimosia e cegueira deitaram ao desprezo um negócio que poderia ter sido uma galinha dos ovos de oiro, porque quanto ao resto, nem Beja tem dimensão nem pontos de interesse capazes de sustentar um fluxo positivo de turistas, ou de viajantes, a quem faltam como disse as restantes infra-estruturas que lhes possibilitassem sair dali depressa, sem incómodos nem atrasos. Digo isto por não acreditar que quer o castelo de Beja quer a biblioteca José Saramago sejam suficientemente apelativos e capazes de segurar alguém mais que umas horinhas. Forçar os operadores ou a ANA a engolir o dito cujo será pior que meter a gaiatagem a beber de novo o celebérrimo óleo de fígado de bacalhau e imposições desse teor serão sempre decretos contra natura cuja aberração a primeira oportunidade demonstrará.

Sem o desenvolvimento, crescimento e enriquecimento do país e dos portugueses o Aeroporto de Beja nunca passará dum emplastro, um grande emplastro sem dúvida, mas um emplastro.

Foto recolhida de página do Diário Rural.