MENTE CAPTO
domingo, 31 de maio de 2026
domingo, 10 de maio de 2026
849 - PRIMEIRO PASSOU ELA , DEPOIS ELE ...
Primeiro passou ela em passadas
pequenas, uma criança à ilharga, ténis baratos dum rosa velho bonito. Depois,
talvez meia hora depois passaram eles, isto é, ela de novo, igualmente com a mesma
criança á ilharga e, num esforço para a acompanhar ele, aos passinhos, mais aos
pulinhos ou saltinhos que aos passinhos, nem andando nem correndo, somente
perseguindo-a, não querendo perdê-la e, na falta duma passada maior, saltitando
para compensar. De mochila às costas, talvez saído da pré-primária ou do jardim-escola
e, como eu, ávido do lanche, eram horas dele, disso.
É em fogachos destes, cenas destas,
lembranças de situações assim que tento lembrar os meus vinte e muito poucos
anos, o meu petiz, os momentos mais marcantes com ele, com a mãe, nós três ali,
acoli, acolá, e é um vazio trágico que me assola, que se instala em mim, que
corrói, que desestabiliza, que tira o sono e dói.
Foram 50 anos deitados ao lixo, é
somente o que me ocorre, um desperdício de cinco décadas, irrecuperáveis, inda
que eu de novo na meta disposto a recomeçar, de novo só, de novo sem nada mais
que cinquenta anos em cima do antigo começo e, menos vigor agora, menos motivação,
menos vontade, vontade nenhuma de iniciar o que quer que seja, vontade de nada,
contrariando o poeta e desdizendo-o pois não acho mesmo que o nada seja tudo
além do mito, da lenda, da recordação prenhe de sentido mas vazia de conteúdo, ainda que cheia de uma saudosa realidade porém neste momento não mais que simbólica.
Natural e felizmente, para não entrar
em desespero e porventura correr o risco de chocar alguma depressão, tenho amigos
e amigas, alguns (as) fora de Évora, nas cercanias direi, e quer esses e essas
quer os e as muitas eborenses que me apoiam emocional e psicologicamente, ainda
me acham um homem relativamente novo e sobretudo um viúvo interessante e a não
perder. Quase constantemente me vejo surpreendido (prova de que nem são capazes
de me conhecer a fundo), gente com quem convivo bastante, e exemplares ou espécimes que do
ponto de vista curricular vão desde o ensino médio a licenciaturas, mestrados e
doutoramentos.
Graças a isso ou precisamente por isso ensinaram-me (eu nem imaginava que, quase a fazer 73 anos ainda seria uma máquina na cama), ensinaram-me dizia eu, a melhorar e diversificar as minhas potencialidades no que concerne a prestações de alcova, de tal modo que, correndo o risco de parecer mal agradecido mas para ser sincero, apesar de tanto tempo e lições despendidas nada mais aprendi com elas, tendo constatado mesmo imensas lacunas que me levaram um ror de vezes a concluir que nem sobre a matéria que supostamente deveriam dominar são capazes de manter uma boa prestação ou agradável conversação.
No meu estado de viúvo
"descomprometido" tenho-me apercebido de coisas inacreditáveis, as quais,
se as não tivesse vivido custaria a crer nelas... Por um lado lá em cima o céu
ou o tiro liro liro, e cá em baixo o inferno, ou o tiro liro ló…
TIRO LIRO
Lá em cima está o tiro-liro-liro,
Cá em baixo está o tiro-liro-ló !
Lá em cima está o tiro-liro-liro,
Cá em baixo está o tiro-liro-ló !
Juntaram-se os dois à esquina
A tocar a concertina, a dançar do solidó !
Juntaram-se os dois à esquina
A tocar a concertina, a dançar do solidó !
Comadre, minha comadre,
Ai eu gosto da sua pequena !
Comadre, minha comadre,
Ai eu gosto da sua pequena !
É bonita, apresenta-se bem,
Parece que tem a face morena !
É bonita, apresenta-se bem,
Parece que tem a face morena !
Lá em cima está o tiro-liro-liro,
Cá em baixo está o tiro-liro-ló !
Lá em cima está o tiro-liro-liro,
Cá em baixo está o tiro-liro-ló !
Juntaram-se os dois à esquina,
A tocar a concertina, a dançar do solidó !
Juntaram-se os dois à esquina,
A tocar a concertina, a dançar do solidó !
Comadre, ai minha comadre,
Ai eu gosto da sua afilhada !
Comadre, ai minha comadre,
Ai eu gosto da sua afilhada!
É bonita, apresenta-se bem,
Parece que tem a face rosada !
É bonita, apresenta-se bem,
Parece que tem a face rosada !
Lá em cima está o tiro-liro-liro,
Cá em baixo está o tiro-liro-ló !
Lá em cima está o tiro-liro-liro,
Cá em baixo está o tiro-liro-ló !
Juntaram-se os dois à esquina,
A tocar a concertina, a dançar do solidó !
Juntaram-se os dois à esquina,
A tocar a concertina, a dançar do solidó !
By “7 Saias” - (cantiga popular
tradicional)
Ante tal situação vou ou vamos
namorando, namoriscando, embora já não tenha idade para isso, contudo na minha
diáspora pessoal, na minha busca, ainda não encontrei mulher que considere reunir
as qualidades que reputo essenciais a fim de me garantirem uma vivência em paz
comigo já que não sou fácil de aturar antes bastante selectivo e exigente... Não
vos esqueceis que vivo rodeado de mágoas, e inda que haja muitas formas de as
minorar, há quem se drogue, quem se entregue aos fáceis devaneios e delírios do álcool, quem
insista e invista no desporto, daí as minhas idas ao ginásio, e quem se
entregue nos braços de musas e ninfas para esquecer as agruras desta vida, foi
a opção que entendi ser a mais correcta e a menos prejudicial à minha saúde, o sexo como remédio e refúgio, para além de nunca ter visto ou ouvido noticia de quem se tivesse afogado em
sexo bem pelo contrário, não me canso de ouvir clamar que o sexo é seguro,
então se é seguro por quê hesitar ou ter dúvidas ?
Almocei um destes dias umas enguias nos subúrbios
de Sesimbra na urbanização da Zezinha, no restaurante dum alentejano de Serpa
que para ali se mudou há uns anos. A Zezinha é uma Engª de
"logística" (nem ela sabe bem o que isso é nem o que devia fazer ou
faz mas preenche necessidades legais no quadro de pessoal) da CM do Montijo que não me larga e que eu poderia ter escolhido se ela não tivesse 2 filhos
problemáticos (e eu um).
Fala muito, fala pelos cotovelos,
quer ela quer as amigas, e quer essas sesimbrenses quer as muitas eborenses e
alentejanas com quem me é dado conviver posicionam-se em polos opostos, ou não
dizem nada e o pouco que dizem nunca é nada de jeito ou falam demais e quem
muito fala pouco acerta… Na realidade não sei se evitam contactos e conversas
por serem púdicas ou tímidas, o que na minha idade, e delas, é uma idiotice, ou
se se calam por de boca fechada não sair asneira e assim conseguem acreditar que
nunca viremos a conhecê-las, esquecendo que calar-se é também uma atitude e
como tal passível de ser avaliada e mensurável… (a)
Lamentavelmente a vulgaridade tomou
mesmo conta da urbe, do país e do mundo, sorte a minha que já não durarei
muitos anos e me verei livre do que de ordinário (no sentido de vulgar, normal,
o contrário de extraordinário) o planeta tem para nos oferecer. Que saudades
duma mulher inteligente... (b)
(a) - https://mentcapto.blogspot.com/2018/02/487-dificil-arte-de-ver-e-de-olhar.html
(b) - https://mentcapto.blogspot.com/2018/07/519-mulheres-inteligentes-apanha-las.html
sábado, 9 de maio de 2026
848 - “TRIVIUM” “LOGOS” “PHATOS” E “ETHOS”
Agora, passados mais de 7 anos sobre
a sua morte é que a memória me insta me convida me convoca a recordá-la como
nunca o fizera antes.
Não sendo desagradável não deixa porém de ser
estranho, parecendo mesmo que o destino me contraria propositadamente, através
da névoa com que carrega a sua imagem e lhe vai toldando as feições lindas de
que teimo não me desapegar.
Foram muitos anos, é muito ano, é
muito tempo, são contudo muito poucos os dias de que não me lembro mas,
tivessem esses dias sido maculados e mesmo esses lembrá-los-ia todavia como
algo de que por certo alguém nunca se arrependeria.
No outro lado da moeda os dias
felizes dos quais de vez em quando me vem um deles à memória e então, todo o dia
o lembro, te lembro, nos lembro, e lembro como por esses anos a felicidade era
norma e normalidade, quando agora essa mesmíssima constância mais não sustenta
que a saudade.
Como ao tripé de uma máquina fotográfica que
fixamos bem no chão, a fim de que a foto não saia tremida, também a saudade
assentou arraiais e não manifesta intenção de abandonar o local nos tempos mais
próximos pois quando parecia libertar-me do que em ti me prendia a atenção, o
intento, vago, sumiu-se como a água que nos foge entre os dedos e não
conseguimos segurar.
Culpa minha que não previ essa
eventualidade, habituado que estou ao analógico e ao digital, jamais lembrando
as lendárias e misteriosas ampulhetas, ou as clepsidras, onde a areia ou a água
se escoavam como se escoou esta oportunidade que deixei fugir como um tolo a quem
tudo chama a atenção e fustiga a curiosidade menos a sua tolice. Por isso
chorei mais tarde sobre o leite derramado como se tal me pudesse consolar,
tanto ou quanto nos conforta a chuva no molhado.
Tolice e excesso de confiança podem perder-nos, cegar-nos, mais a mais se lidamos com reagentes básicos que nem necessitam duma solução química complexa para entrarem em ebulição. Assim são, assim reagem os hominídeos, os primatas, são reacções, atitudes e comportamentos inatos, são reflexos automáticos, primários, geralmente com resultados que mais tarde viram arrependimento, quantas vezes sem solução.
Atitudes impulsivas e irreflectidas normalmente só nos ajudam em casos de perigo iminente, fora isso comportamentos impensados tornam-se mais destrutivos e prejudiciais do que podemos imaginar. Ele há gente que à mínima faz a trouxa p’ra zarpar.
A prática do diálogo, em especial o cultivo
nobre da retórica são os argumentos ou as armas que devemos utilizar numa
qualquer conversação, pois alimentam uma troca de impressões sadia, elevada, e
sobretudo baseada na racionalidade que a todos nós, e sempre, deve animar.
Constatei ao longo dos anos, ao longo
do tempo que sobre a retórica cai um estigma injusto, fruto da ignorância de
muitos, do preconceito errado de outros tantos, em especial de quem não usa a
cabeça, de quem não está habituado a cultivar pensamentos e juízos de valor bem
questionados antes de volverem palavra de ordem.
Disparar a primeira ideia que nos vem
à cabeça pode ser um tiro nos pés, ou um tiro que acaba saindo pela culatra, de
qualquer maneira será sempre o precipitado atirador a sofrer as mais pesadas penas
pela sua atribulada e impulsiva atitude.
Bem sei que é meu costume esticar a corda,
demasiadas vezes até partir, no entanto nunca permito que caia no esquecimento
o espaço livre para o diálogo e para a retórica, retórica que mais não é que a
arte de bem falar, ou a capacidade de persuadir o interlocutor, e persuadir ou
convencer não significa enganar, manipular ou ludibriar.
A retórica é a prática de um discurso
claro, bem estruturado, convincente, já que pretende sobretudo convencer,
influenciar, mas dentro do espírito grego clássico que somente entendia a
retórica ligada à “logos” ou lógica (verdade e simplicidade) ao “phatos” ou
ligação à emoção, ao discursar emotivo, vivo, e ao “ethos”, que ligava ou
comprometia o orador, o falante, ligando-se ao seu carácter, à sua
personalidade, que dessa forma beneficiava ou não de autoridade moral, á qual “pintava”
de ou com características que o creditavam, que à “priori” lhe atribuíam credibilidade.
O contrário que vulgo encontramos num fala-barato.
“O gesto é tudo” não anda desligado da oratória, da retórica, pois se falarmos com clareza e objectividade, a nossa postura, a linguagem gestual, não devem nem podem contradizer tudo quanto afirmamos.
P’lo menos foi de um modo coerente que
antes de se ir ela espalhou por toda a casa flores, dezenas de flores se podem
ver adossadas às paredes em vasos pendentes e sobre a mesa da varanda, alegres
e alegradas com a Primavera, com os dias de sol, a calmaria e paz, como numa
tela.
Passados anos, encontraremos sobre idêntica
mesa, esquecidos ou descansando, os pincéis dela, as cores, as alegrias e os
motivos, uns exuberantes, outros esquivos, uns ditando o rumo, outros traçando o
destino e, agora que chega a hora, a hora do sol no vértice, sucumbiriam de
tristeza essas flores alegres que alimento célere antes que percam o viço, a
alegria, o sorriso, como eu perdi o meu num Outono velho, triste, que desejava
esquecer e não esqueço.
Como nunca esqueço o pequeno regador
na varanda, sempre cheio, sempre presto a não deixar morrer as flores, para que
floresçam, e vivam e alegrem a vida dos passantes, dos caminhantes e visitantes
ou meros observadores que com tanto desvelo as mimam para que vivam, para que
ditem um futuro vivaço como a cor das suas pétalas, rosadas, esbranquiçadas, esverdeadas,
para que se ergam em pé, erectas sobre os caules e confiantes caminhem no
presente e no futuro, radiosas, quais anjos celestes e preste preste ordenem de
novo o mundo, o futuro, o presente, o dia, o devir, esse devir em que,
lembrando o mestre, o nada é tudo e tudo se transforma numa mudança contínua,
na transmutação dos seres, na passagem da sua imanente inconstância para a
transformação e afirmação continuas das suas existências.
Havemos e devíamos plantar mais
flores e regar mais vezes esses vasos que nunca esqueço e acabei agora mesmo de
regar e, já que estou com as mãos na massa, vou guardar numa caixa os pincéis,
as cores, as telas dispersas antes que este sol matreiro a tudo roube a cor
como o destino me roubou a esperança.
sexta-feira, 1 de maio de 2026
847 - O VIZINHO BOM, OS VIZINHOS BONS .....
Quando
calha, vulgo inesperadamente, nem sempre mas de vez em quando, quando me
aproximo duma janela ou de avental ando a cirandar pela cozinha, vejo-os, gosto
de os ver, não que se escondam, ou que se furtem às vistas. Não, nada disso, simplesmente
partem ou chegam, ou procuram o abrigo de uma sombra para o carro, uma oportunidade
ou espaço vago junto ao passeio, um modo de ficarem mais próximos da entrada e
pouparem o bebé a esta calorina.
Ela,
jovem, alheia aos compridos cabelos que a toldam de sereia, sorri, sorri
sempre, nunca dei por ela que não sorrindo, de olhos brilhantes e vivos, boca
ingénua de quem ainda sonha, ou mais não tem ainda que sonhos, e linda.
Ele igualmente jovem, de ar limpo, cabelo aparado, cabeleira poética, porte atlético, humano, sério, brioso, confiante, um homem já, riso comedido, sorriso franco, alto qb, um Adónis em potência, a coisa promete.
Pelo
menos comigo e a minha Luisinha prometeu, Prometeu abençoou-nos, promessa que
durou anos e anos, décadas. Desde imberbe e quando eu na minha mota azul,
cabelo p’los ombros, barba despontando, sério e brioso, confiante, quase homem,
me entreguei num compromisso para a vida confiante, ainda sonhando, e com muitos,
muitos sonhos nesse momento alinhavados, quase quase todos cumpridos.
Ele
acciona o start do carro brilhante de novo (brilhando como os sonhos?), ela
sorri cúmplice e, colocado o bebé no lugar, entra ligeira e álacre rumo a uma
qualquer “Lagoa Azul”.
Eu
fico, vendo-os partir, e volto a sonhar com o teu rir Luisinha, com o teu
gargalhar feliz, com o brilho dos teus olhos, tu ágil como uma sereia, sim
enquanto viva foste sempre uma sereia, e um sonho lindo.
Gosto
de os ver sim, porque neles me revejo, e com eles rememoro, e me iludo de um
tempo que não volta mais e jaz na minha mente como se 1 de Novembro todos os
dias e eu, depositando flores numa lápide imaginária, imagino o passado remoto
como estando presente e tendo ainda futuro, pois muitas vezes o melhor que
conseguimos da vida são os enganos e ilusões a que nos entregamos, que
prolongamos e revivemos, como se não houvesse hoje nem amanhã, apenas um
passado que ao mínimo pretexto nos convoca, provoca, trai e ludibria, sabendo
ser precisamente isso que dele esperamos e nada mais que isso.
Desembaraçada,
ela apeia-se com elegância, sacode por vezes os cabelos com um gesto airoso,
estudado,
tal qual tu, estudante
ainda, dona de casa cedo e por obrigação, leviana nos tempos livres como acto
de libertação e independência da mulher democrática que já eras, que sempre
foras e continuaste sendo.
Foram
tempos engraçados, o bambúrrio da revolução, a libertação dos tabus, a
afirmação do ser, do sermos, o princípio do fim. Tempos lindos, tempos de
liberdade vera, com os quais passados pouco mais de quarenta anos
conseguiríamos rebentar, por facilitismo e laxismo. Ainda bem que partiste e
não viste, não vês, não presencias o suicídio desta democracia pela qual tanto
lutámos, lutaste.
Ele, com um toque desinteressado atira com a porta
do carro, não atira, fecha-a. Certamente acredita que haverá um tempo para ele,
para eles, oportunidades para eles, para todos, engana-se mas não sabe, como eu
me enganei sem o saber e só acordei passados tantos anos e, quando era
ineludível que não avançávamos, mas recuávamos dois passos por cada um dado em
frente.
Era
jovem e acreditei, como não acreditarão eles que vivem um sonho que eu próprio
já vivi ? Que talvez calcorreiem os mesmos caminhos e as mesmas ruas que já
percorremos ? Juntos contra o mundo acreditam ter forças para tudo enfrentar, como
nós enfrentámos, portanto deixai-os sonhar como eu sonhei, como nós sonhámos,
não sabíamos nada, não sabem nada, será melhor assim…
Ainda hoje não sei nada, e saberei cada vez
menos. Sei, lembro-me bem, que ela me tirava o sono, me tirava o sono e me
tirava do sério, a terra parecendo o céu, os minutos horas, o presente algodão
doce e o futuro cor-de-rosa, lilás, fúcsia, polvilhado de estrelas e promessas,
num imenso tapete alcatifado que se sumiu repentinamente debaixo dos pés deixando-me
sem chão quando menos dei por isso.
Piso
com cautela o caminho que percorro agora, olhando criteriosamente para onde
ponho os calcantes por não ter onde me agarrar, me segurar, tu eras o meu porto.
Avanço muito devagar, tacteando, apalpando, tal qual um cego, vivendo de lembranças e memórias inda
vívidas em mim, contudo cada dia mais difusas, apagando-se aos poucos.
Por
isso gosto de vos ver, de vos ver vir, de vos ver ir, de vos ver chegar, de vos
ver partir.
Lembram-me eu, lembram-me ela, lembram-me nós.
São um espelho cujos reflexos recebo como um negativo que na tina os cristais,
óxidos, soluções alcalinas, metol, hidroquinona e haletos se revela, libertando
sonhos e recordações, fecho os olhos, respiro fundo e então visões.
Absorvo de olhos fechados essas emanações e tantas outras, de tiossulfato de sódio, de ácido acético
glacial, d’ácido cítrico e de sulfito de sódio, não mais que eflúvios capazes
de projectar na minha mente um diáfano holograma, monocromático ou colorido do
melhor que em mim fixei.
Embora
os jornais pintem os dias futuros de um escuro indizível, a esperança
sobrepõe-se à mais ténue crença e, dois passos em frente um passo atrás,
avançamos tão confiantes quanto o equilibrista no arame que os astros seguram e
o destino estica, dando tensão à vida e ao viver que com alegres cores pintamos
na tela do futuro, alheados da firmeza, ou falta dela, em que o cavalete
assenta os pés na terra.
A LAGOA AZUL
https://www.youtube.com/watch?v=eq7M89rpSCA
MELODY
https://www.youtube.com/watch?v=1B8a99J0bMU
VERÃO
42
quinta-feira, 23 de abril de 2026
846 - MAIS ESCURO, MAIS FRIO, MAIOR............
VAZIO
um vazio grande
grande, frio, e,
como disse, difícil de definir
muito difícil
Grande
mesmo grande
muito grande
e frio
sim isso, frio
muito frio
e escuro !
grande, frio e escuro
Perene
não arreda
cansa
consome
coarcta
trava
incomoda
paralisa
desmotiva
Alheia
para ser mais preciso
alheia
alheia-me de tudo
de todos
tudo para mim é indiferente
todos o são
tudo se tornou indiferente
frio
distante
como um escuro grande
sem interesse
desapaixonado
E não arreda
já cansa
consome-me
volveu perene
escuro, e frio
cada vez mais escuro
cada vez mais frio
cada vez maior.

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