sexta-feira, 13 de outubro de 2017

469 - BARREIRA INVISÍVEL - THIN RED LINE ...


Albino Tavares da ANPC

Não casual mas propositadamente este texto leva o nome de um filme que ao contrário do que vem sendo habitual deu posteriormente e por sua vez origem a um livro homónimo. Curioso é o facto de que, quer vejamos o filme quer tenhamos lido o livro, qualquer deles demasiado extenso, poderemos não dar à primeira vista com o significado moral da obra, tão longa, permeável e inconsequente nos parece por vezes ser o fio invisível que nela nos conduz do início ao final, como se caminhássemos passo a passo sobre instáveis dunas ou velozmente numa montanha russa. Assim me fizeram sentir as rápidas sequências da fita correndo lentamente, ou as suas lentas cenas passando rapidamente. A leitura de que depois me socorri não viria a mostrar-se mais visível mas deu-me a vantagem de poder rebobinar as páginas, voltar atras e repetidamente reler as partes cruciais até completamente as esclarecer.

Todavia que a velocidade da fita ou da vida não nos tire nunca o discernimento, pois essa linha invisível estará sempre lá, está sempre presente e toda a obra, como toda a vida, todas as vidas giram em torno de quem a pisa, a ultrapassa ou mui singelamente e quantas vezes com sacrifício pessoal a respeita. Sim, no caso presente trata-se de um filme, ou de um livro de guerra, porém daí só releva ser sobretudo em situações limite que a tentação se nos coloca de forma mais exigente ou tentadora, pondo-nos à prova no limite, sabido ser em situações extremas que melhor se pode testar a fibra de um caracter, de uma personalidade, de uma qualquer pessoa.


Dispomos actualmente de uma panóplia de instrumentos científicos que, desde o tempo à geologia d terra, à medicina ou à física, mesmo à astrofísica, nos permitem medir, aferir e apreciar ou aquilatar o que observarmos mas, contudo o insondável mistério da mente continua fechado a sete chaves, quantas vezes deslumbrando-nos pela negativa, quando não de modo quotidiano. Basta-nos olhar para os exemplos de Albino Tavares, triste figura do dia, pejado de condecorações, homenagens, considerações, e no entanto um individuo sem escrúpulos, como um vulgar assassino. Sem pestanejar mandou ocultar as provas da sua incompetência e culpa nas mortes trágicas de Pedrogão Grande, quando o que deveria ter feito era devolver o tacho de boy ao Instituto da Juventude ou ao partido que o pariu.

Muitas honrarias tem este país proporcionado a mafiosos, eu poria nesse leque Zeinal Bava, Granadeiro, Sócrates e tantos outros que há muito pisaram, cortaram, desviaram ou simplesmente puseram de lado para evitar incómodos essa linha invisível que vínhamos seguindo e traçando neste texto.

É a consciência e o racional que nos separam dos animais, porém, perdido o pudor, ultrapassada a linha vermelha da ética a raça humana só tem para oferecer animalidade, pior que isso, bestialidade, brutalidade. Nada, nadinha, nada substitui a moral e a ética por muito bom corte que tenham os fatos dos predadores ou aqueles que vistamos… 



terça-feira, 10 de outubro de 2017

468 - AS MAMAS DA GRACINDA BRÀS CUBAS ...



A amiga nem tanto, mas ela sim, deixava-a a um canto. Tanto, canto, ta bom e rima, estou inspirado hoje, talvez saia alguma coisa de jeito. A amiga, comecemos pela amiga, vinha acompanhada de um sujeito franzino, com cu de mulher, daqueles cus demasiado largos para homem. Como sabemos um homem deve ser talhado a direito de cima a baixo, mas não aquele que tinha uma cintura adelgaçada, as ancas largas e um cu grande, metido debaixo dos braços, quero dizer não tinha tronco ou parecia nem o ter. O maroto do Álvaro deu-me uma cotovelada mas respondi-lhe entredentes que já a tinha visto, aliás vira-a primeiro a ela e só depois à amiga. No tipo com o cu de gaja só reparei quando começou a dançar impaciente junto do balcão, talvez carência da bica, da cafeína, ou teria bichos carpinteiros…

O maroto do Álvaro tinha sido meu aluno no último ano antes de me aposentar, era um pinante, birrepetente, nem seria naquele ano que acabaria o nono, para além de História e Geografia, as duas que eu leccionava, estava chumbado a mais duas e ultrapassadas as três estaria fodido, iria ficar mais um ano a patinar. Para surpresa de todos na sessão de cante das notas passei-o nas duas e levantou-se um clamor de exclamações pelo meio do qual ele teve que passar a fim de ir à vida e deixar a escola e a todos nós pelas costas. Não mais castigou os contribuintes e tornou-se um dos melhores técnicos de frio e refrigeração no nosso distrito e, se tenho continuado a teimar no ensino hoje ganharia seguramente mais que eu, fiz bem em reformar-me, este país nunca esteve tão bom para quem não faça nada, mas estou a distrair-me, fixava eu os olhos na camisola que ele trazia envergada, com uma icónica imagem do CHE gravada no peito quando a loura, pousando-me a mão suavemente no ombro:

- Posso ?

O bom do Teles ia derribando as cadeiras ao recuar para lhe dar espaço, realmente a amiga nem tanto, mas ela sim, deixava-a a um canto, a milhas como o Ricardo diria depois delas abalarem, mas também ele lhe cedeu lugar e ela sentou-se, eu estranhei mas mal lhe senti o perfume recordei anos e anos de camaradagem em segundos.


Isso e a admiração pelas mamas dela, inda hoje as mesmas, sem querer o olhar fugira-me, fugiu-me e traiu-me,

- Inda gostas delas ?

fiquei embaraçado, embora os outros não percebessem patavina da conversa eu percebia-a e bem, não nego, apesar do meu feitio extrovertido corei, corei e pedi desculpa por não a ter reconhecido mas com aquele cabelo e penteado quem a adivinharia aqui? E a Guarda, ou o Fundão ou lá o que é, como estavam ?

- Estão no mesmo sitio, disse ela, na Serra da Estrela, onde haveriam de estar ? E tu meu caramelo, como vais ? Estás mais velho, mais velho e mais bonito.

Pronto, estava armada a barraca, rebentou-me com o ego, havia autoconfiança e auto-estima pairando no café como se repentinamente algo num forno tivesse jorrado fumo sem fim, por momentos cheirou-me a torradas queimadas acreditem. Claro que o resto da conversa nem se aproveitou, nem o Álvaro ou o Teles pescaram o que quer que fosse, e enquanto o Ricardo foi à rua queimar um paivante ela aproveitou p’ra recomeçar, digo teimar e rememorar:


- Eram uma ambição minha desde os catorze tu sabes e quando cheguei aos dezoito já eram assim, tu lembras-te, impossível teres-te esquecido. «A tua amiga é que saiu ao pai, tem uns peitos que mais parecem uma tábua» acrescentei.

- Não sejas maluco, és um parvo, tótó, ganha juízo e fica bem que eu tenho que ir fazer uma mamografia e não quero atrasar-me.

E lá foram, ela, a amiga de passar a ferro e o cu com pernas, porta fora em fila indiana e, comandando a traquitana ela, como sempre.

- Quem era prof. ?

Uma colega da minha irmã e também minha amiga, já não a via há uns tempos, por quê ?  Queres assassiná-la ?

A do assassinar atirei-lhe como provocação aludindo à camisola que trazia, o rosto do CHE, como já dissera, e por baixo em vermelho bem vivo a palavra KILLER.

Apercebi-me ao longo dos tempos que a maior parte do pessoal quer o admire quer o abomine não conhece o CHE, não conhece patavina mesmo, tristemente nem fazem por conhecer, então perguntei-lhe com a minha velha paciência de santo de antanho se conhecia a teoria da relatividade de Einstein, ou o conceito de “relativismo” ao que me respondeu prontamente ter uma outra camisola daquelas com a imagem de Einstein de cabelos em pé, e nada mais, nada mais sobre Einstein, nada mais sobre o CHE, o assassino, segundo ele.


O retorcido do Teles que chegara a fazer dois ou três anos de sociologia acompanhava a conversa interessado, tendo balbuciado qualquer coisa como as circunstâncias, Ortega e Gasset, o homem e as suas circunstâncias, bla bla bla, o CHE não foi um assassino, foi um comunista feroz, um animal feroz gracejou, pelo que aproveitei, puxei da maiêutica e estendi-lha na frente como uma passadeira a fim de que os dois descobrissem por eles as verdades que não viram ou que não tinham visto, tendo acabado os dois por me explicar que bem, não era bem assim mas, quer dizer a coisa é complexa, não pode ser vista só por uma óptica, isto é naquela altura…

E assim fiquei sabendo que o regime de Baptista, exercendo uma repressiva ditadura sobre Cuba e assente numa policia politica impiedosa jamais aceitaria o jogo democrático, pelo que não restaria outra solução que não a via armada, aliás aceite pela própria ONU, e claro, quem vai à guerra dá e leva, morre e mata, erros há sempre, sempre os houve e sempre os haverá, embrulharam-se os três, afinal o CHE já não era KILLER afiançava o Teles, nem tão pouco comunista garantia o Ricardo, fora ministro dos estrangeiros e da economia mas depois de visitar a China e a URSS apercebendo-se de como era o mundo e o rumo totalitário que se abria à sua frente abandonou Cuba e os privilégios que tinha, foi lutar pela liberdade, dignidade e libertação onde quer que um povo estivesse reprimido, primeiro para África, Congo, depois para a Bolívia mas já tinha a CIA no encalço que lhe fez a folha, digo a cama, que o terá feito fugir a sete pés duma revolução que amava e pela qual matou para não ser morto ? 


Eles nisto e eu pensando nas mamas da Gracinda, sim foi a CIA, mamas grandes auréolas grandes, pois a CIA armou-lhe uma cilada, já aos dezoito anitos toda ela eram só mamas, se calhar quando começava a saber alguma coisa da vida morreu, coitado, uma mulher perfeita como diria um primo meu, olha tem graça tu falares nisso, morrer quando começava a saber alguma coisa, e não é sempre assim? 

Agimos mais vezes animados pela ignorância que pelo saber e experiência das coisas, infelizmente é assim, tantas vezes, vezes demais, estou aqui lendo a entrevista do Carvalho da Silva ao Observador e a lembrar-me se nada disto que aborda e diz lhe veio à memória quando era sindicalista, agora é que certas coisas lhe dão cuidados, não se lembrou delas a tempo, ou não as conhecia, não as sabia, não sabia que era assim, mais um agindo sem saber e agora já entradote e indo p’ra velho é que está aprendendo, vendo o que nunca viu, não me recordo de o ver preocupado com o investimento estrangeiro que anda a zero há alguns anos, nem com esse nem com o nacional, a produção nunca lhe interessou mas agora está preocupado em que não baixe o nível dos impostos cobrados, inacreditável como com meia dúzia da patacoadas tira o crédito a outras tantas que disse acertadas, se não visse nem acreditaria, está como o CHE que deve ter somado dois mais dois e se meteu a milhas mal as coisas em Budapeste foram espremidas e antes que lhe fizessem o mesmo ou o atirassem para o saco de gatos em que a história se estava transformando.

Cada vez me convenço mais que os governos nunca deveriam ser entregues nem a gente com menos de sessenta anos nem a ignorantes, é um perigo, veja-se o Trump, o Maduro, o Kim Koreia, o Socas, o Passos, o Puigdemont, o André Ventura e tantos outros…

Quem sabe o que teria sido de Cuba se o bloqueio americano não a tivesse atirado para os braços de Nikita Khrushchev. O bloqueio económico foi mais um erro de gente nova, Kenedy estava verde e muito muito longe dos sessenta anos… Claro que tudo isto são suposições, não há uma história dos “ses” nem nunca haverá…

- E a outra prof. quem era a outra ?

Qual outra pá ? Quais mamas meu ? Se não fossem elas como teria eu conseguido a vossa atenção e que lessem todo este arrazoado que hoje tenho para vos oferecer ? Foste enganado parvalhão ! Com verdades te enganei !

HASTA LA VITÓRIA SIEMPRE COMANDANTE CHE GUEVARA ! 


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sexta-feira, 6 de outubro de 2017

467 - O SOLDADO PRÁTICO, by Diogo de Couto ...

Ao centro Diogo do Couto, pelo Grupo de Teatro Maizum. 

Ao contrário do que acontecia na época de quinhentos, em que tudo e todos enganavam o rei (no caso o nosso, imagino que ao de Espanha também), a actualidade é agora a marca dos dias, nada ficando por saber-se ou conhecer-se pelo que o reflexo das coisas é imediato, tendo sido aqui que senti algo ou alguém meter a mão nos estudos que desenvolvo sobre o nosso compatriota Diogo do Couto,* historiador, aventureiro, samaritano, marinheiro, mentiroso e trapaceiro q.b., como era então voga, historiador que contudo não se coibiu de criticar quer os abusos quer a corrupção e a violência decorrente ou provocada pelos citados compatriotas na Índia portuguesa de quinhentos, tendo activa e civicamente protestado abertamente contra eles.

Pois este nosso conterrâneo que larga e levianamente adjectivei soezmente, era em simultâneo um homem de bem e de honra, diga-se em seu abono ter sido amigo íntimo de Camões, que inclusivamente veio a descobrir naufragado na Ilha de Moçambique nos idos de 1569, a quem sem rodeios acudiu. Diogo de Couto partilhava a ideia de que a história devia versar a verdade sem quaisquer restrições, tendo plena consciência de que já nessa época quem o fizesse acabaria sofrendo repressões, criticando e alardeando sem temor essa  censura violenta e garantindo por experiência própria quanto a objectividade incomodava, caso em que se encontrariam “Os Lusíadas” obra que envolveria muitos nobres cujos familiares e antepassados estariam envolvidos nos acontecimentos que o poema narrava. Encontrando-se Camões com dívidas e sem dinheiro para voltar de pronto Diogo de Couto acorreu em seu socorro, portanto devemos-lhe a chegada até nós do épico de Camões, cujo manuscrito o bardo mantinha como único espólio do naufrágio que sofrera.

Diogo do Couto era homem de letras, já dera à estampa (nessa época a imprensa, embora rudimentar já existia) um completo e tão comovente quão impressionável relato do naufrágio da Nau S. Tomé, uma das naus da carreira das Índias, relato que o tornou famoso na nossa História trágico-marítima. Fora um dos protegidos do infante D. Luís,** e cursara latim e retórica no Colégio de Santo Antão e filosofia no Convento de Benfica. Pela morte do infante D. Luís e sentindo-se desprotegido (ficou sem padrinho, ontem como hoje os padrinhos eram,  são em tudo semelhantes) partiu para a Índia com 17 aninhos, de onde somente viria a regressar volvidos dez anos. Porém volveu de novo ao Oriente, o infante Filipe II incumbiu-o da missão de dar continuidade às Décadas de João de Barros. Sabe-se que deu corpo às que vão da IV à XII, tendo publicado completas apenas a IV, V e VII e o resumo das VIII e IX. Para sua e nossa infelicidade a VI ardeu e a VIII e IX foram-lhe posteriormente roubadas, enquanto a XI se perdeu. A XII embora postumamente viria a sair. 

Diogo do Couto era um estudioso com uma concepção diferente da história, muito diferente de João de Barros, e quanto a mim mais interessante pois entendia que as "verdades" deveriam ser ditas, doesse a quem doesse. Não por acaso e provavelmente para abafar a verdade algumas das suas "décadas" (VIII, IX e XI) levaram sumiço antes de irem ao prelo. É evidente que não poderemos afastar as suspeitas de que alguém, a quem não conviria a sua divulgação tenha estado na origem desse "sumiço". Por sua vez e na mesma altura El-Rei Filipe I nomeou-o em 1595 cronista oficial da Ásia Portuguesa e guarda-mor da Torre do Tombo em Goa, o que fez e lhe permitiu dar continuidade às Décadas da Ásia de João de Barros, encomenda do infante Filipe II como atrás ficara dito. De modo competente organizou esse novo arquivo, vindo a morrer nessa cidade de Goa a 10 de Dezembro do ano da graça de 1616.

Uma, ou essa concepção mais "realista" da história advinha-lhe da vantagem de ter vivenciado a colonização portuguesa no oriente, onde viveu grande parte da vida.  Observou os seus compatriotas as suas atitudes e comportamentos, tanto quanto a reacção dos nativos aos mesmos. Assentará aí a explicação para que vejamos os seus relatos mais próximos da verdade que a narrativa heróica de João de Barros. Também contribui para tal entendimento o facto da linguagem de Diogo do Couto ser mais simples mais viva e pitoresca do que a de João de Barros sobretudo por incluir alguma ironia e humor na narração d'alguns factos relatados. 

 Para além da continuidade por ele assegurada às “Décadas” de João de Barros, Diogo do couto celebrizou-se especialmente pelo testemunho do “Diálogo do Soldado Prático” livro que nos legou contendo uma critica mordaz ao funcionalismo público, na altura ao da Índia, cujas mazelas mete a descoberto, da ambição à riqueza por quaisquer meios, do vicio do amor ao luxo, da opressão sobre os pobres à falta de dignidade e às mentiras com que endrominavam com despudorada deslealdade El-Rei. 

Nada a que não assistamos hoje em dia. Uma pertinaz crítica ao sistema administrativo, militar e político da época de quinhentos perfeitamente adaptável aos nossos dias, pois se o Soldado de “O Soldado Prático” de Diogo de Couto se queixava dos desmandos no Reino e na Índia, os militares de hoje fizeram o 25 de Abril por se queixarem dos desmandos que nesta republica lhes aconteciam, sendo ignorados os seus feitos, carreiras e anos de efectividade tendo sido preteridos em promoções e ultrapassados pelos designados milicianos. O nosso país sempre foi palco de queixas, de furtos, de sonegações, e de igual forma sempre existiu cá quem a  isso fizesse orelhas moucas.

 “O Soldado Prático” é-nos apresentado sob a forma de um diálogo entre um soldado sexagenário, experiente, um fidalgo ex-governador da Índia e um despachante oficial ou secretário d’El-Rei. Curiosamente o original de “O Soldado Prático” fora furtado ao autor, somente através de cópias que dele havia se pôde proceder à reconstituição do mesmo, isto cerca de 1610. O livro impressiona pela narrativa, apoiada na experiência dos negócios pessoais do autor e dos que tinha conhecimento, nas suas amarguras pessoais, na visão pavorosa da decadência do império e do reino, as quais dão à narração um calor e uma violência que torna a verdade patética e elevando a obra “O Soldado Prático” a uma das obras mais honrados da nossa literatura. 

As palavras de Diogo do Couto são as palavras de quem viu e viveu as situações e os factos que descreve. Existe na obra um conhecimento pessoal dos factos por parte de quem a escreveu, daí haver quem recomende a sua leitura imediatamente a seguir à leitura d’Os Lusíadas. Meditemos. 

“O Soldado Prático é uma obra fundamental do corpus da literatura da expansão portuguesa. Rodrigues Lapa considerava o diálogo de Diogo do Couto uma das obras mais “honestas” da literatura portuguesa, Efectivamente, trata-se de um diálogo que nos permite conhecer o lado pragmático da expansão e a ideologia que lhe subjaz. Enfim, trata-se do texto que enceta a lenda negra do império português. Por todas estas razões, O Soldado Prático é um livro fundamental para os historiadores da expansão e do império português, sendo, como é, uma obra que faz uma análise atenta das misérias humanas numa sociedade de grande complexidade.” (Prof. Drª Ana Maria García Martín).



** D. Luís de Portugal era filho do rei Manuel I de Portugal e da infanta espanhola Maria de Aragão. Foi 5.º Duque de Beja, 5.º Senhor de Moura, 9.º Condestável de Portugal e Prior da Ordem Militar de S. João de Jerusalém, com sede portuguesa no Crato. Nascera a 3 de Março de 1506, em Abrantes vindo a falecer a 27 de Novembro de 1555, na actual freguesia de Marvila, Lisboa. Foi membro da célebre Dinastia de Avis e pai de D. António de Portugal, mais conhecido por Prior do Crato.




Diogo do Couto, Torre do Tombo.

466 - RUI RIO, BARBEIRO OU TABERNEIRO ….....

Cena da ópera "O Barbeiro de Sevilha", Teatro Polytheama.

A actual polémica levantada em torno do referendo na Catalunha, em especial a violência a que já deu azo, de braço dado com estudos que por motivos pessoalíssimos neste momento desenvolvo, aliados a recordações com décadas vieram bulir comigo, com a minha pacatez habitual, mormente com a defesa da razão e do bom senso que procuro praticar e aconselhar. Rajoy portou-se quanto ao assunto bem pior que um elefante numa loja de porcelanas, e El-Rei de Espanha, mau grado uma atempada e oportuna piada minha * tardou a deitar água na fervura, tendo- -o feito somente quando a espuma já levantava o testo, escorrendo pucarinha abaixo.

Podemos concluir que a violência pode ser despoletada pela falta de razoabilidade de quem dela devia deitar mão em qualquer circunstância e sobretudo a tempo e horas, ora não foi isso que aconteceu e a coisa leva todo o jeito para se avolumar a espalhar por toda a Espanha senão por toda a península. Seja como for, extremadas as posições a esse ponto comeremos por tabela e sofreremos nada despiciendos danos colaterais. Basta lembrar que o transporte rodoviário e ferroviário de e para a Europa serão cortados ou profundamente afectados, o mesmo acontecendo às nossas trocas comerciais com Espanha, o primeiro e principal destino das nossas exportações, ou seja o nosso principal parceiro comercial. Para além da ilegalidade que o fere o referendo já levou a que algumas das maiores empresas de vários ramos tivessem retirado as suas sedes da Catalunha, a brincadeira independentista vai sair-lhes cara.

Ao contrário do que acontecia na época de quinhentos, em que tudo e todos enganavam o rei (no caso o nosso, imagino que ao de Espanha também), a actualidade é agora a marca dos dias, nada ficando por saber-se ou conhecer-se pelo que o reflexo das coisas é imediato, tendo sido aqui que senti algo ou alguém meter a mão nos estudos que desenvolvo sobre o nosso compatriota Diogo do Couto, historiador, aventureiro, samaritano, marinheiro, mentiroso e trapaceiro q.b., como era então voga, historiador que contudo não se coibiu de criticar quer os abusos quer a corrupção e a violência decorrente ou provocada pelos citados compatriotas na Índia portuguesa de quinhentos, tendo activa e civicamente protestado abertamente contra eles.

E é aqui que todos os pensamentos se chocam e se cruzam, Diogo do Couto, autor do “Diálogo do Soldado Prático”, que estudei por volta de 1978 volta à minha memória através da violência desnecessária e aflorada levianamente na Catalunha. É necessário estudar os cenários, os contextos, avaliá-los, projectar os seus resultados em cada uma das hipóteses possíveis dos mesmos trilharem ou seguirem e agir, sobretudo agir em conformidade, em consonância, e agir logo, se há coisa que aprendi durante os meus estudos e formações em “guerrilha e contraguerrilha”, em “guerra psicológica e manipulação de massas”, em “terrorismo e contra-terrorismo” ** quando ainda neste cantinho nem se sonhava com nada disso, nem aqui nem na Europa, foi, sublinho e ressalvo a importância do agir a tempo, no momento exacto, se possível de imprevisto, quando a situação o aconselhe claro, não dando ao inimigo ou opositor tempo para se refazer da surpresa e contra atacar. Todos os erros possíveis e imaginários de todos estes manuais e cartilhas que apontei foram cometidos, quer por uma parte quer pela outra. 

              Que mundo é este de onde a competência tão arredada anda ?
Taberneiro, Presépio Cavalinho - São Paio de Oleiros

A competência essa mesma, que agora lança de novo na arena personalidades como Santana Lopes, Luís Marques Mendes o pequenino, Morais Sarmento, até André Ventura vai avançar o dos ciganos ! Rui Rio é como a noiva de Arraiolos, sempre indeciso, mas acho-lhe graça, tem cara de barbeiro. Ora torna-se óbvio e claro que entre todos estes nomes campeia sobretudo a incompetência, e dessa estamos fartos, só um país de cegos elege, quando a nação tanto carecia dum verdadeiro estadista, dum homem culto e sábio, o pior merdas que tivemos como PM desde o 25 de Abril. Um tipo dando corpo à ignorância em pessoa porém enfiado num fato caro e bem talhado.

Não tenho que ser do PSD nem de quaisquer partidos, mas qualquer que seja o PM que nos calhe a todos tocará por tabela, daí que me preocupe com as escolhas dos outros tanto quanto com as minhas, Passos Coelho não prejudicou única e exclusivamente o seu partido, e muito, prejudicou com a sua ignorância um país inteiro, uma população inteira, é essa aventura que não desejo ver repetida. Rui Rio é engenheiro de profissão, homem maduro, teve tempo para consolidar personalidade e caracter, e essas coisas num engenheiro apontam para a práxis mais que para a teoria, será um homem de fazer, de agir, de concretizar, o arquitecto concebe mas é o engenheiro que torna real essa concepção, essa abstracção, conhece os materiais, a sua resistência, ductilidade, durabilidade, compatibilidade, tensões, equilíbrios, compromissos, negociações, e tantas outras qualidades com as quais terá que lidar, enquanto os restantes não deixam de me parecer uma data de tolos do calibre do inenarrável Passos Coelho. Quanto ao resto, bons assessores, bom senso e boas equipas. Nem imaginam quanto vale uma boa equipa e quanto se tem perdido de há meia dúzia de anos para cá em equipas desfeitas pela crise e levadas na enxurrada de falências, encerramentos, et caetera…

Portanto, leia-se Diogo do Couto e o seu “Diálogo do Soldado Prático” e teremos uma miragem ou melhor, uma panorâmica do que tem sido este país, dos homens que o têm dirigido, saqueado ou mal tratado, de molde a que a próxima escolha, recaia ela sobre um barbeiro ou um taberneiro, não nos envergonhe e sobretudo saiba colocar o homem indicado no lugar certo e na hora H.

Por mor disso irei colocar neste blogue um texto que tinha já preparado e intitulado “DIÁLOGO DO SOLDADO PRÁTICO, by Diogo de Couto”. **** Assim, todos os que o quiserem poderão tirar-se de dúvidas acerca desse português quinhentista e homem de letras dos sete mares e dos sete costados, amigo íntimo de Luis Vaz de Camões.




domingo, 24 de setembro de 2017

465 - O FIO DE LADY MARY CINDERELA ..............


Deambulava por ali quando a vi, avançando calma e segura entra a parafernália ao longo de anos abandonada pela história, a maior parte dos trastes ofuscados pelo limbo ou vicejando tímidos sob o manto dum verdete confundindo-se com o musgo daquela floresta de enganos onde, os canos, silenciosos e quedos, despejavam soluços enfastiados entre os limos duma ribeira, sem tão pouco fazerem ondas ou sequer ao menos bulirem com sinuoso caudal correndo lento para um mar de enganos, acabando entre as algas que um dia fariam parte do mesmo Mar dos Sargaços onde ela, como Moisés sobre sarça-ardente e deslumbrante, por momentos haveria de pairar para melhor mirar os horizontes.

Por onde quer que passasse a denunciava um fio de água em que me apressei a pegar a fim de a não perder, seguindo-o com extremo cuidado não fosse o dito quebrar-se. Ténue fio através do qual ela me conduziu entre os factos da história que vos citei, abandonados uns, para ali atirados outros, alguns empilhados, e bem poucos com jeito de terem sido dispostos com cuidado. Nunca tal fio de água se quebrou, porém escoava-se-me entre os dedos antes de ter tempo de indagar onde, ou para que lado ficaria o seu princípio ou fim, de onde partira ou pretenderia chegar.

Teimando adivinhar-lhe a trajectória, numa dessas vezes dei de caras com solene depósito mostrado incapaz de resistir à minha espicaçada curiosidade e, mal toquei no ferrolho e nos cadeados que o cerravam, sentindo-me menos perdido na minha busca confesso-vos, de uma forma algo brusca alguma coisa me invadiu, apossando-se desta personalidade de que sempre fui cioso talvez em demasia, todavia, ao olhar espantado as pesadas portas abrindo-se de par em par sem que eu tão pouco tal coisa tivesse imaginado ou sequer sonhado, senti-me realizado com tão prosaico Abre-te Sésamo, contudo foi-me dado a ver pela fresta, inda que por esparsos momentos uma pilha de emolumentos e guias de mobiliário novo, impecável, inoxidável, de que o futuro havia de usar e abusar por ninguém ousar duvidar de que em potência tudo é possível ver inventado, nado ou criado, tudo esperar ou tudo aguardar.

Em potência tudo é possível de concretizar, todas as coisas e toda a gente terá potencial de realização, estará ou será livre, liberto, ou poderá livrar-se, tornar-se, salvo, independente, isento, desimpedido, licencioso, mas, há sempre um mas, jamais a floresta permitirá ver a árvore e o potencial desabrochar de cada alma e de cada ser pois será ou ficará ocultado pela intensa e densa ramagem que rodeia, protegendo-as, integridade e perfeição.    

Apesar do fugaz relance com que me foi permitido espreitar o futuro lá estava ela, pairando sorridente entre aqueles moveis puros, limpos, dominando a dimensão íntima em que se agrupavam, não logrando apesar de tudo quais deles seriam a nossa salvação ou perdição e, quando mau grado essa imposição me sentia já um herói por ter gozado num vislumbre do que a todos é negado dei comigo interrogando-me, analisando-me, intimando-me a prosseguir o caminho introspectivo do qual não me desviaria nunca, enquanto em simultâneo o brilho do futuro me ofuscava e os graves portões se uniram com um estrondo tal fazendo cair ao chão a auto-análise por mim feita e cerimoniosamente elaborada, qual novelo cujas pontas me desafiassem a encontrá-las dando início a severa confrontação comigo mesmo, eu herói e inimigo de mim e a quem o virtuosismo do caracter não permite desvios, vitórias ou derrotas, sob pena de me sentir enleado no meu próprio eu.

Enquanto isso e como que pairando em nuvens disseminadas pelos baixios ela olhava-me expectante, desafiante, de braços abertos como quem… Foi quando senti latejar violentamente a artéria cubital tendo eu igualmente aberto os braços, esperançoso que por eles se me escoasse a alma e, saindo p’la ponta do mindinho pudesse com ela estabelecer uma qualquer comunhão ou ligação cósmica, sei lá, deixar de ser eu e passar a fazer parte de algo maior, parte do todo que tece o universo numa rede de relações em que o dar e o receber transita por percursos inimagináveis, capilares, cada vez mais estreitos, cada vez mais finos, cada vez menos fios e mais ondas cósmicas e astrais alimentando-nos o karma, dando viço à aura, alinhando os chacras, numa espécie de telegrafia sem fios ou ondas hertzianas, abstractas, mas onde firmemente se alicerçam as existências humanas, sempre de dedinho no ar, qual antena parabólica apta e sedenta das vibrações que só o coração emite no seu pulsar imagético e magnético alimentando ao longo de séculos e milénios a hagiografia dos santos e agora nos confunde com hologramas de santas da Ladeira neste mundo pejado de Tântalos sequiosos de amor, um amor correndo ou escoando-se à velocidade da luz por cabos de fibra óptica deixando o mundo espreitando um caleidoscópio onde um prisma muda a óptica com que observador e observado se medem, se interpretam e interpenetram, confundindo-se, fundindo-se e destruindo-se.

Mas não ela, não eu, não nós que apesar das tempestades e tormentas nos mantemos hirtos, quais soldadinhos de chumbo, ou santinhos em pagelas digitais e outros artifícios tais que não os do estar e do ser pois que, apesar do ser ou não ser ser a questão, não duvidámos nem hesitámos um momento em estender as mãos, construir pontes como agora soa dizer-se, e ao tocarmo-nos, ponta do dedinho com ponta do dedinho, mindinho com mindinho, pude sentir fluir entre nós os conteúdos das almas e experimentar-lhe a leveza, a insustentável leveza dela pelo que, antes que me fugisse como o balão dos oitenta dias ou se demorasse como Ulisses num barco enfunando as velas em direcção a Ítaca e Penélope, lhe atei uma guita, um fio, um atilho, uma fita, um baraço, um fiozinho vermelhinho que contudo ou sobretudo me segure e assegure esta de que tanto gosto, pela supina inteligência e o fino fio de ironia que a percorre de alto a baixo e lhe permite, com inocente altivez, caminhar no céu como fio de prumo entre moveis de pátina decapê, lavada ou satinê tal qual uma deusa.

Ámen. 




           


sexta-feira, 22 de setembro de 2017

464 - O AMOR EM TEMPOS DE CÓLERA ................

 El-rei Filipe IV de Bórbon aos comandos de um tanque avançando para a Catalunha.

De vez em quando vem à baila a velha questão do recurso à violência, seja ela doméstica e individual, ou do casal, seja internacional e em doses industriais, psicológica ou meramente factual. Não foi por acaso nem ingenuamente que os estados reservaram para si o monopólio da violência, o modo como entre si nos convencem de que cada uma dessas opções é melhor que a outra varia mas é transversal a todas elas, elas sociedades ou nações, seja a simples manutenção da ordem ou se estenda até àquilo que muitos pensadores apontam como estando além da legalidade e que, independentemente da sua gradação comummente designam por terrorismo de estado.

Claro que o uso, abuso e recurso à violência começa logo em casa não sendo privilégio do homem, tenho uma nova vizinha, sobre quem nada sabia e nada perguntara, acerca de quem tudo me contaram deixando-me deveras pasmado (e não pasmo). Mas a mim, que adoro a história como hobby e como objecto de estudo nada disto devia admirar, desde os primórdios que a violência é o meio que a tudo e todos permitiu avançar, isto é desde há milhares ou centenas de milhares de anos, senão milhões que o bicho homem se adapta e faz conquistar e submeter o mundo através da força.

Depois do pecado original nada nos foi dado de mão beijada, tudo foi conquistado pela superioridade do mais forte, de Gengis Khã a Alexandre o Grande, César Augusto, ou Francisco Pizarro e Hermán Cortés, ou a GB para manter as Malvinas, como Saddam para se abarbatar com o Kuwait e mais recentemente Putin que abafou a Crimeia e uma parte do leste da Ucrânia. Lembremo-nos que até os portugueses conquistaram e durante quinhentos anos mantiveram as colónias ultramarinas pela violência, tendo elas sacudido o jugo precisamente lançando mão do mesmo recurso, a violência. Estou curioso quanto ao modo como acabará a querida e amorosa tentativa de secessão da Catalunha, o tal nono ou décimo reino de Espanha que nunca teve nem conheceu um rei próprio ou diferente daquele que sempre uniu na pobreza e na riqueza até que a morte os separe todos os reinos dessa Espanha una, solidária e coesa que a cobiça e o egoísmo agora tentam corroer. Por esta leva qualquer dia o distrito de Setúbal pede a independência, já que dispondo da AutoEuropa dispensará bem os desmandos do resto do país que contudo ou sobretudo ele Setúbal paga.

Ora sucede que sendo eu optimista incorrigível vos garantirei que a relativa paz que o mundo vive há pouco mais de cinquenta anos tem sido uma conquista do amor nas suas várias vertentes, paixão, afecto, empatia, altruísmo, entusiasmo, simpatia, dedicação, cortesia, do amor e da civilização, do civismo, apesar de tudo que contra a civilidade se tem abatido. O amor, qual flor brotando da fenda do alcatrão, tem conseguido manter as coisas num patamar minimamente tolerável (não disse aceitável) embora não possamos dizer o mesmo de D. Afonso Henriques que se impôs combatendo a mãe, ou batendo na mãe, tendo Portugal nascido ou começado como todos os partos começam, com dor.

Dor me deixou também o relatado acerca da minha nova vizinha, nova relativamente, chamemos-lhe uma adorável quarentona, ou lá perto, madura prontes, tá bem assim, mas não ter aguentado andar com a casa às costas de lado para lado deve ter pesado violentamente no seu casamento, desfeito, tendo sido a gota de água que fez transbordar o copo a tal violência de que vimos falando, neste caso doméstica, provada e comprovada, tendo o tribunal constatado durante as averiguações desse divórcio litigioso usá-la ela contra o marido.

Não, não lhe batia, parece que o mordia, alegadamente mordê-lo-ia (entre as várias fotocópias que apresentaram não constava essa parte dos autos), onde nem vos direi. A acrescentar a isso carrega às costas um volumoso processo disciplinar em fase de inquérito por assédio sexual e violação de menores, um de dezasseis e outro de dezassete anos, os quais alegadamente seriam seus alunos. Não sei, não me perguntem pois também eu não me atrevi a perguntar se a coisa seria à vez ou todos ao molhe e fé em Deus. Há perguntas que não se devem fazer, ainda por cima quando nada tinha perguntado ou indagado sobre a senhora, tendo contudo ao interpelar a minha interlocutora quanto à veracidade do que afirmava e qual a fonte onde obtivera tão pormenorizados dados, isto é como sabia ela tudo aquilo respondeu-me simplesmente:

- Dizem, é o que dizem, diz-se por aí, é o que consta.   

tudo dito debaixo daquele arzinho de santa que não parte um prato mas debaixo do qual está um frasquinho de veneno.

- Mordeu-o, teve que ser cosido no hospital, ia ficando sem ele.

Compreenderão ser por estas e por outras do mesmo calibre que aposto no amor, a violência, como a má língua, nunca deu bom resultado nem conduziu a lado nenhum ou levou quem quer que seja a bom porto, é o que se diz, é o que consta, embora tudo tenha sido feito, erguido ou conquistado precisamente por essa mesma violência que abominamos mas nos está no sangue, na massa do sangue, pelo que somente poderei afirmar ser a minha nova vizinha uma mulher de armas, afiadinhas, tudo levando em frente às dentadinhas. Podia ser pior, mas provavelmente nem ele abrirá mão da sua excelsa defesa nem nós deveríamos ter “abrido” a mão e ter deixado cair a fábrica das famosas metralhadoras FBP ali em Braço de Prata, nem a VM que fabricava as Chaimites no Porto Alto, era pouco mas era um começo no caminho da paz e do amor, lá diz o velho ditado «se queres a paz prepara-te para a guerra», violência nunca, apresente-se ela disfarçada de mera irascibilidade ou levada ao extremo do abuso, à coacção, à opressão, tirania ou simples constrangimento, pelo que os pacifistas tugas deviam era ter apostado neste lema, os nossos e os de todo o mundo, vejam lá se alguém se mete com a minha vizinha agora que se sabe da sua história inda que somente a metade, é o metem…

A coisa na Catalunha pode vir a ficar preta, mal da Espanha se a Catalunha sair do molhe, nunca mais darão conta do vespeiro, por vezes é preciso agir na hora e com força, morrem 500 agora mas evitam-se 5 mil mortes no futuro... Esta Espanha já não é a de Franco, que querem os independentistas ? A lua pelo Natal ? Se eu fosse o rei de Espanha convocaria os mídia, e diante deles envergaria a farda militar. Diria estar na hora de tomar partido, e só poderia tomar partido pela união de Espanha. Enquanto falasse dirigir-me-ia para a unidade de blindados e subiria para um tanque. A Espanha cair-lhe-ia aos pés, acordaria do pesadelo onde anda a meter-se. Se a Catalunha quer tornar-se independente por que motivo não hão-de exigir igual tratamento as outras nacionalidades do estado espanhol ? El-rei faria história e seria amado como nunca terá imaginado... 

A verdade é precisarmos duma Europa forte e firme, una, onde cada um se submeta ás necessidades do todo, o problema está na falta de elites, na ausência de gentes esclarecidas, vanguardas que se imponham pelo seu valor, o momento histórico não está para democracites, com UE ou sem UE há momentos em que não se pode permitir que o excesso de democracia arraste tudo numa avalanche, basta olhar para o nosso país…

Pelos vistos a vidinha está dificílima para toda a gente, com a Catalunha será o vamos a ver ou a ver vamos, com a minha vizinha será ó patas para que vos quero, nem um se aproxima e quando o faz, mal lhe vê os dentinhos mete-se a milhas… O problema da Catalunha resolver-se-á, mas o da minha vizinha é bem mais difícil de solucionar, palpita-me ser daqueles que só o tempo resolverá… Como eu fazia dantes com a papelada ao metê-la no cesto para os papéis que tinha na secretária, no cesto de cima os assuntos para resolver, no cesto do meio os assuntos para ir resolvendo, e no cesto de baixo os assuntos que o tempo se encarregaria de resolver…

Acredito que se os legalistas de Rajoy não tivessem a constituição "dita" Franquista do seu lado haveria outro qualquer argumento a que se agarrassem, neste momento já ambas as partes leram e releram os manuais de informação e contra-informação, já mediram forças, desenharam cenários, evidentemente não contaram nem com traições, que sempre haverá, nem com mudanças de lado d'um ou d'outro comandante ou batalhão. A coisa será assim; a Espanha será a representação da lei e da ordem, e a Catalunha secessionista representará os rebeldes, os mídia trabalharão debaixo desta cartilha, e oremos para que os mortos não sejam muitos se "eles" chegarem a isso... a vias de facto, pois nestas situações nunca as coisas correm sobre carris. Não  falo em  massacres, verdade que as coisas por vezes se descontrolam, será quando toda a gente lamentará e será sempre compreensiva, começando pela UE e acabando na ONU, coitado de quem se entalar, a história está cheia de exemplos, e ninguém quer instabilidade, resolvam lá isso como quiserem mas resolvam depressa, olhem as acções a cair... as empresas a fugir... Olhem, se estão pensando ir passear nos próximos tempos evitem a Catalunha...

Panfleto largamente espalhado pela PIDE em 1973 numa manobra de contra-informação e contrariando um idêntico, e original, oriundo dos USA, versando a guerra do Vietnam (e todas as guerras) e dizendo algo como:  "MAKE LOVE NOT WAR" parecendo a mesma coisa, não o era, reparem bem. 

domingo, 17 de setembro de 2017

463 - UM DOCE PÉ DE VIDEIRA CONSTANCE .......


Quando em 77 ou 78 regressei de Africa trouxe a meu pai, que acabara de adquirir uma pequena parcela duma herdade onde, para ocupar a reforma pensava entreter- se, um pé de videira Constance, um vinho doce da região de Constantia, na África do Sul, dado que ele começara já a plantar naqueles dez hectares uma fieira de vinhas. No passado, a popularidade dos vinhos doces fizera história. Os gregos, produziam o vinho o mais doce e concentrado possível para consumi-lo diluído em água e "temperado" com ervas e especiarias. Já na Roma Antiga os vinhos mais apreciados eram brancos doces, a partir da desidratação de uvas, para que se obtivesse concentração dos açúcares da fruta. Na Idade Média grandes cidades italianas, Génova e Veneza, ficaram conhecidas pelos vinhos que eram bem mais doces do que no resto do país. Até ao final do século XIX, a venda de vinhos doces provenientes da região de Constantia, na África do Sul, era sinal de status em toda a Europa. Portanto o que eu trazia ao meu velhote era um tesouro.

Mas o velhote ao invés de me agradecer invectivou-me, perguntou-me se estava louco, admirou-se mesmo como me tinham deixado entrar no país com uma bomba daquelas nas mãos. Eu não a trouxera propriamente nas mãos, viera num vaso de argila cheio de boa terra do Transval por sua vez bem enrolado em jornais permanentemente humedecidos e num avião militar até às Lajes, razão pela qual alfandega nem vê-la e dali para o continente fora um voo interno, sem péages nem adouanes nem alfandegas nem merdas dessas que só empatam e nos fazem perder tempo.


No fim do responso o velho agradeceu-me a boa intenção não esquecendo acrescentar e lembrar-me que de boas intenções estava o inferno cheio e mais a Filoxera e bla bla bla … Estava eu ali, espantado e especado, sem saber que fazer e com o vaso do pé da videira na mão quando entrou a Deolinda, espampanante, como sempre, em busca da minha mãe, a quem entregara um qualquer serviço de costura e, admirada ao ver-me ali largou um:

- Olha o caramelo, tu por cá ? Que tens feito ? Por onde tens andado que tão bom cabelinho tens criado ?

- Esperava-te, mal te vi no início da rua fui buscar esta lembrança que me ocorreu trazer-te, quem melhor que tu para lidar com uma nova cepa, uma nova variedade e eventualmente acautelar e lidar com o possível perigo da Filoxera ?

Arrumei-a, perdeu o pio, corou, ou corou e perdeu o pio, balbuciou um muito obrigado estou muito impressionada, nunca julguei que no outro lado do mundo te lembrasses de mim e mais isto e mais aquilo e mais bla bla bla …

Filoxera é o nome comum do pulgão ou hemíptero da família Phylloxeridae, da espécie Daktulosphaira vitifoliae, por vezes também designada pelo seu sinónimo taxonómico Phylloxera vastatrix. Todo o reboliço derivara do facto de em 1880, o pulgão estar disseminado na África do Sul onde dizimou hectares e hectares de vinhas, arruinando todos os produtores, tendo chegado ao norte de África somente passados cinco anos. Era uma praga terrível contra a qual o mundo pegou em armas, basta lembrarmo-nos que o século XIX chegou ao fim com as vinhas de todo o mundo destroçadas e com a produção mundial seriamente comprometida. Os serviços sanitários agrícolas mantinham-se permanentemente alerta em todo o planeta, até hoje.


Mas a minha airosa saída da situação acabou por cair bem e correu bem melhor que eu alguma vez teria imaginado, recordo que nos três ou quatro anos seguintes nos deslocámos umas cem ou duzentas vezes à estação agronómica onde ela debutara e trabalhava, era enóloga, ou seja, e abreviando, a merda do pé de videira que tanta arrelia me dera viera a rebentar numa vocação e a ser a haste donde cresceria e se fortaleceria a nossa amizade, e que amizade.

Hoje é famosa, tem três filhos, enquanto eu me fiquei por um só mas lindinho. Ela casou com o meu amigo Benigno para quem ela foram umas segundas núpcias pois a primeira mulher dele não estivera para lhe aturar as pielas constantes ao passo que a Deolinda, vinhos e seus efeitos eram com ela, coisas que tratava por tu, tendo endireitado o Benigno. Em boa verdade e aproveitando a sua tendência natural p’ra emborcar copos fez dele um escanção de craveira internacional, brilharete com o qual ela coroou o fruto do seu trabalho, hoje premiado e reconhecido internacionalmente e a mim orgulhoso dos seus sucessos e das suas amizades.

Vida e trabalho separaram-nos mas durante os últimos quarenta anos em todos eles recebi pelo Natal um pack, aliás dois packs com garrafas de vinho do melhor que ela sabe, um pack de brancos para a Luisinha e um de tintos para mim, estou mesmo vendo que este ano a Luisinha sairá beneficiada com um pack do reserva branco premiado, enquanto eu ficarei a olhar para o meu azar que só bebo tinto, mas é o tinto que ajuda a manter-me eternamente jovem, culpa dos taninos alentejanos, experimentem e verão, mas convém não começar tarde, eu comecei aos vinte e no verão de 78 com a primeira garrafa que ela me ofereceu no meu dia de anos, 29 de Setembro, estamos quase em cima deles. Não se esqueçam de mim vá lá…

Eu e a Deolinda sempre encaixáramos bem, fôramos colegas no ciclo e mais tarde nos complementares, uma espécie de 12º ano, ela formou-se primeiro que eu, saiu enóloga, e não descansou enquanto não lhe provei as características, eu era novo e nessa idade queria era tratar dos vinhos, queria lá saber das vinhas..