Pintura a óleo sobre tela de linho pintado à mão, original
de TudoQuadros
MENTE CAPTO
segunda-feira, 9 de março de 2026
844 - TARDE FRIA NUM CAFÉ AINDA MAIS FRIO.
domingo, 16 de novembro de 2025
843 - NÓS, ELES, MACACOS E MACACADAS ...
O homem, o ser humano, terá aparecido sobre a terra de entre 5 a 7 milhões de anos atrás segundo os cientistas. À volta de 2 milhões e meio de anos em África, o género Homo separou-se dos Australopitecos, tempo e lugar a partir de onde esses humanos se terão espalhado ou ramificado por todo o restante mundo que lhes foi possível e era acessível.
Milhões ou centenas de anos de
evolução, terão sido transversais e feito mossa nesses vários grupos, clãs,
tribos. Lugares e tempo, factos tão simples como nascer, morrer, respirar,
comer e matar, e matar também para caçar eram coisa normal. A luta tem sido uma
constante universal ao longo dos tempos e aos homens, luta por um local
privilegiado, luta por um lugar, uma região, um território, na medida em que o
dito fosse mais apto à recolecção, à caça, à pesca, à cultura de cereais ou
cobiçado por qualquer outro motivo.
Nada se fez nem faz sem trabalho, sem
conquista, sem defesa, sem segurança, sem constância, sem pertença, sem posse,
portanto, tende paciência, sem guerra. A guerra, tal qual o “amai-vos e
multiplicai-vos”, são as atitudes que melhor caracterizam o “homem” e que
durante maior período de tempo o definiram e ainda caracterizam. Somos uma raça
guerreira por natureza, esse código foi e está no nosso ADN, é-nos inato,
congénito, natural.
Partindo de África o homem colonizou o mundo.
Os Vikings foram até à América, outros até à Índia, o Gama, o Cabral, Fernão de
Magalhães, Camões e outros, deram mundos ao mundo, desvendaram este planeta,
deram início à globalização e a globalização despertou a cobiça e a colonização
do planeta.
É ver a saga do Mayflower, ou como o
homem chegou tão longe como às Américas, do norte, centro e sul, ou à
Austrália. É vermos como a sua inerente e nata vontade o levou a chamar suas a
essas terras, a esses territórios que já tinham dono, onde outros há muito
viviam e dos quais foram escorraçados, ou onde foram dizimados, ou colonizados,
quando não também submetidos, escravizados.
Não me caberá a mim fazer aqui o
julgamento do colonialismo, já que o colonialismo é tão velho e tão mau, ou tão
bom quanto o próprio homem. Este nosso cantinho, a Europa capitalista,
colonizou, explorou, sugou, tudo onde chegava. Em especial porque esta Europa,
inventora do capitalismo e que na época já estava mais desenvolvida que o resto
do mundo, e nela latente esse incipiente capitalismo decerto sedento e faminto
do que fosse ou pudesse abocanhar.
Essa voracidade faz parte da natureza
humana. Mas há outro tipo de voracidade não menos voraz todavia mais
perniciosa, o comunismo, doutrina que nem foi melhor nem pior. Desse dizemos
que não colonizou, foi inclusivista (kkkkkkkk) foi inclusivo, abafou, chamou a
si todos aqueles países que posteriormente e com a queda do muro de Berlim
renegaram o dogma comunista, o jugo soviético. Foi doutrina que não vingou nem
na terra em que nasceu e que muitos tontinhos ainda defendem, sem repararem não
haver sítio ou lugar nenhum deste planeta onde o comunismo tenha feito ou possa
apresentar obra meritória.
Comunismo é reflexo dum conjunto de
sentimentos humanos dos mais baixos que possamos imaginar, baseados na
intolerância, na prepotência, na inveja, na incapacidade, na incompetência, na
dualidade de critérios, na força bruta, na estupidez e acima de tudo na
cegueira.
Do norte de África, no médio oriente,
na Austrália, áreas igualmente colonizadas pelos europeus sabemos menos mas
sabemos, da China e Indochina sabe-se alguma coisa, pouca coisa e em especial
as notícias de guerras, sempre guerras, mas da China ancestral basta-nos
saber-se que construíram a maior muralha do mundo para imaginarmos ter havido
necessidades de defesa, para imaginarmos que terá havido ataques, que haveria
guerras.
“Guerra” a tal constante.
Mas no nosso caso o colonialismo tem
naturalmente girado principalmente em volta de Angola, Moçambique e Guiné. Hoje
nações e estados degradados, estados falhados, a Guiné é raro e negativo exemplo
de um estado pária, de um narco-estado. As outras duas nações pouco melhor
estão, e em ambas se fez sentir já o desejo de que os portugueses, seus antigos
colonizadores voltem a governá-los.
São povos a quem foi dada a
independência sem que tivessem maturidade para ela, sim porque isto dos povos
também tem que ver com a idade, a responsabilidade, a capacidade.
Desde 75 e da independência que só
destroem, nada digno de nota construiram, mas dos últimos 50 anos de
colonização portuguesa ficaram escolas, hospitais, portos, aeroportos,
estradas, viadutos, pontes, caminhos-de-ferro, cidades, organização,
estruturas, cultura, ensino, misteres, aptidões, barragens, centrais
eléctricas, infra-estruturas, fábricas, etc etc etc.
Nem tudo foi mau e no seu conjunto
acho que lhes foi bem mais vantajoso o tempo de colonização que o tempo que
levam de independência, tempo dedicado a guerras, vide notícias sobre a batalha
fratricida de Cuíto-Cuanavale (1987-1988, sul de Angola), onde pereceram mais
de 500.000 negros. Vivem-se por lá ainda hoje tempos de intolerância, de
instabilidade, de atraso, de dependência, de fome.
Entregues nas mãos de cubanos e russos,
Angola e Moçambique foram espoliados até ao tutano, com os chineses será muito
pior, já é e será cada vez mais. Do colonialismo, como do ser humano, podemos
dizer haver bom e haver mau, basta comparar o nosso com o belga, com o
colonialismo praticado no Congo Belga, para depressa concluiríamos que os reis
Leopold I e II da Bélgica deveriam figurar em museus como os demónios negros da
escravidão e do horror, devido ao terror com que colonizaram e governaram as
suas possessões.
Muitos exemplos poderíamos ir buscar, cito de
cabeça a Índia e o Paquistão, que antes da cisão hindus / muçulmanos eram um só
estado, a Índia Britânica. Hoje, quer para o mal quer para o bem são duas
potências nucleares e duas grandes nações, superpovoadas e superdesenvolvidas.
Pergunto como seriam hoje essas duas Nações (que já foram uma só até 1947), se
não tivessem carregado o fardo da colonização pelo império mais desenvolvido
deste mundo. Portanto e apenas do ponto de vista prático falemos unicamente da
Índia, que foi colonizada pelo Império Britânico, pelo Império Vitoriano.
Esse Império Vitoriano, que tantas
tropelias praticou na Índia, não terá deixado também um modelo, um exemplo, um
legado, um testemunho positivo ? Serão a India e o Paquistão, duas das nações
que congregam simultaneamente o maior número dos melhores técnicos informáticos
e engenheiros do planeta um fruto do acaso ou filhas da velha colonizadora ?
Como podemos ver, o colonialismo é
tal qual o homem, tal qual o ser humano, Há bom e há mau, cabe-nos olhar,
avaliar, ponderar, comparar, e naturalmente julgar, mas julgar moralmente, já
que de outro modo nunca será possível fazer justiça.
Mas julgar moralmente, avaliar
friamente e de forma isenta os diversos comportamentos coloniais também nos
obriga a ser honestos connosco próprios, e aceitar que se há situações que
foram condenáveis e até altamente condenáveis, outras houve em que foram benéficas
para os povos colonizados, e Portugal enquanto país colonizador foi no aspecto
prático indubitavelmente um "bom" exemplo para o mundo.
A verdade acima de tudo.
terça-feira, 23 de setembro de 2025
842 - EMBORA O OUTONO TENHA CHEGADO ...
( EN ESPAÑOL DEBAJO
DE ESTE TEXTO )
Não virás, embora o Outono tenha chegado há poucos dias sei que não virás. Nem preciso consultar o Observatório das Migrações, chegara a tua hora e, talvez temendo que Outono e Inverno trouxessem com eles o insuportável não esperaste, nunca soube o porquê mas a golpes de dor e sofrimento, aprenderas a temer a vida, a temer o futuro e não esperaste.
Habituara-me a ver todos os dias o teu sorriso álacre, a tua desenvoltura e segurança, a tua presença forte e omnipresente à qual silenciosa ou simbolicamente me encostava. Eras a trave após o dilúvio de que me não recompusera ainda.
Terão
sido demasiados Outonos, terá sido muita a dor e o sofrimento. Tinham sido
pesados esses dias e esses anos, eu vergara sem que o soubesse, por certo
julgando o contrário quando na realidade não lograra endireitar-me, seria cedo
ainda, talvez excessivamente cedo.
Cedo
pensaste migrar, certamente temeste enlear-te nas névoas que nos enredaram e
das quais não soubemos sair, nem lembrámos o truque de Teseu para sair do
labirinto ou, tão pouco nos acudiu a solução de Ariadne e deixámos que esses
nefastos nevoeiros nos envolvessem e nos cegassem.
Por
tudo que recordo sei que não virás, e apesar do Outono ter chegado não virás. Pelo
contrário, partiste e não voltarás. De acordo com o Observatório das Migrações Outono não é
hora de chegadas mas hora de partidas. Talvez temesses que o Outono e o Inverno
te trouxessem maior sofrimento, talvez temesses o insuportável e por isso não
esperaste. Provavelmente estará aí o porquê da tua partida, tu que aprenderas a
não temer a vida, a não temer o futuro mas que contudo não esperaste.
É-me insuportável o vazio que deixaste e muitas vezes me interrogo como não vi, não percebi o espaço oco que o universo criava à nossa volta, que nos sugava como para um abismo, qual buraco negro de onde, diz a física, nunca se sai, nem a luz sai, a luz, precisamente o que nos faltou e nos perdeu.
Era a essa luz que te admirava com paixão, sim, apaixonado, todavia sempre procurando ver para além da névoa, buscando compreender o toque raro das tuas mãos ternas, buscando preencher o vazio que sentia formar-se em meu redor, entender os mistérios da transformação da luz que agora não víamos mas cujo clarão terá cegado os pastorinhos olhando a tal azinheira onde, sobre uma nuvem pairou a Senhora cuja fé os cegou e, eu, como eles, incapaz de compreender as trevas fechando-me os olhos.
Os mesmos olhos que me enganaram, que me surpreenderam, que me cegaram a tudo quanto me rodeava e hoje estou disposto a arrancar pois não me deixaram ver, a ver claro, a ver se sim ou não ainda palpitava a mínima luz, não só a ver essa luz mas sobretudo me permitisse que a procurasse até me cansar, até que encontrasse com a paixão que a minha alma encerra e a paixão acicata o teu coração ainda batendo.
Foras um rumo, um caminho e um exemplo, inda hoje procuro com saudade, com carinho e meiguice o que terá exacerbado a minha calma, ou me terá acomodado a ponto de trair a confiança que me alimentara a esperança pelo tempo fora e que acabou cegando-me.
Veio
o Outono e migraste, acabou-se o milagre. O pensamento e as lembranças confundem-me,
todavia acredito, ouvir-me-ás, recordar-me-ás e àquele longínquo dia que começara
radiante. A memória traz-me lembranças de dias felizes, de cores e luzes não
esfumadas mas intensas, fulgurantes, um dia que começara como um sonho em que
estaria na luz, divisando vagamente um vulto a que ainda sinto o perfume e a
quem tento segurar a mão, o mundo todo luz, eu uma sombra saindo da escuridão, e
quando nem em mim cria sonho, que repentinamente te abraço, te afago a pele
morena e, perante mim, qual milagre, vagamente tomando forma uma mulher que aprendi
a amar, agora carência, imagem debruada a luz mergulhando como um punhal na
minha alma.
Contigo não, contigo não mais a melancolia, a solidão, agora sei não querer por nada habituar-me à tua ausência, tudo que sou também és, tudo que és também sou, agora sei, o mundo somos tu e eu, e mais ninguém, palpitas em mim, perco-me de mim com lume aceso no peito, imaginando-te, o coração batendo, morreria se não te contasse este anseio, esta verdade, vendo vagamente a luz, alegria imensa, pois por agora a única ponte que nos une é a ausência e, homem sincero como sou, pergunto-me, quando posso gritar aos ventos esta dor esta saudade ?
Sei que não virás. Apesar do dia especial que se avizinha não virás. Sei, por o Outono ter chegado não virás. Pelo contrário, partiste, foi ao aproximar-se o Outono que te foste, que deixaste este vazio, esta confusão, que em solidão me embrulhaste apagando em mim a luz que me guiava.
A luz que eras ascendeu contigo, subiu contigo, a luz, sim a luz, a mesma luz pela qual lutaram deuses, a luz que encerra a verdade, a ordem, a força, a justiça, o mal, o caos, a ignorância, as trevas, o poder, a destruição e a desordem. Serás tu tão egoísta e tão capaz de aguentar sozinha o archote, a tocha, o farol ?
quinta-feira, 28 de agosto de 2025
841 - A CAMINHADA, O PÉZINHO, O DEDINHO …
UMA CAMINHADA, UM PÉZINHO, UM DEDINHO …
Tinha
sido uma caminhada exigente, espinhosa, o que lhe valera fora um jogo de ténis
novos, novíssimos, mas, como não há bela sem senão, morderam-lhe os dedinhos.
Certo que por mor disso fora porém das primeiras a chegar, levou para casa uma
menção honrosa e uma borrega horrorosa.
Tratei-a
na chegada, mera bolhinha muito miudinha, muito pequenina, junto ao dedinho
pikinino, ao dedinho mindinho do seu pezinho bonitinho, Formosinho,
engraçadinho, e que eu segurava nas mãos.
Comovido ou enternecido ante tal visão, ou melhor, ante tal aparição, ao ver a bolhinha pequenina, miudinha no dedinho engraçadinho não me contive, ergui os braços, uma mão deslizando pela barriguinha da perna, a outra segurando o pezinho formosinho, que levei à boca e onde, com carinho, depositei um beijinho. Não passou dum jinho pequerruchinho, um carinho, depositado inocentemente e devagarinho com ternura e doçura naquele lindo pezinho.
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É
noite de sábado ou domingo, é uma noite fatal, é noite de fim-de-semana,
daquelas em que se bebe ou uma ou outra coisinha e depois…. Coiso e tal etc. e
tal e coiso… a gente por vezes nem sabe como acaba, ou se acabará em festival,
outras nem imagina como tal começará, mas é fatal que comece, depois….
O
tempo dirá…
Geralmente
um abracinho apertadinho marca o começo e tal e coiso, e depois… se coladinhos,
o comboio desata a apitar não parando mais… e nem três vezes, por vezes, chega
ele a apitar…
Mas
sabeis, não é bem no dedinho mindinho que ela tem a tal bolhinha, pequenina,
pequenina no dedinho miudinho, engraçadinho. É lá pertinho e, claro, naquele
mesmo pezinho.
É bom esclarecer estas coisas, porque ao principio enganava-me e pressuroso descalçava o sapatinho que não era, e depois, atencioso, subia-lhe aos beijinhos pela alva perna acima, ao joelhinho, à coxa rija, chegando à derivação, onde nem sinal nem proibição, para depois e só depois, de mansinho, recomeçar, descendo devagarinho p’la outra perninha abaixo enquanto ela, aos risinhos, libertava coceguinhas junto com as risadinhas e c’o pezinho descalço, descalçava o outro pezinho atirando o sapatinho lá p’ra longe, coitadinho, talvez p’ra que eu não parasse e descesse ternurento até ao pezinho certo e bolhinha redentora, onde finalmente e já exausto depositava com fervor o ultimo beijinho de um cento.
Sim
sim era mesmo assim, quer fizesse chuva ou vento, ou o sol a barlavento, eram
aos centos, aos milhares os beijinhos ternurentos que a bolhinha pedia mal o
sapatinho saltasse e de cada vez que a via. Era o princípio de tudo, era o meio
e o fim do mundo e era até o Xanax de quando ali chegava iracundo, irado c’o
reino animal ou então a pisar mal.
-
Pisar mal !!! Ahahahahahah !
Riu-se
ela a rodos quando entre dois grandes fogos lhe expliquei o pisar mal, assentar
o pé no chão numas botitas ajustadas mas sem as unhas aparadas, experimentem e
logo verão, caminhar manco, aleijado, como se vós mesmos ao andar tivésseis um
grão no sapato.
E
foi ela, atenta e bondosa quem me aparou as unhacas e me devolveu o garbo.
Voltei a andar direito, com natural naturalidade, como se das costas sofridas
me retirassem um fardo e, ao invés de um gavião, tornei a ser o Baião, mimoso,
doce, simpático, carinhoso e tal e qual me conheceis pelo menos há meio século.
Um estojo de unhas faz milagres e dá jeito, oh se dá ! Aproveitem os dias de
anos ou o Natal e comprai um meus alarves.
Depois
foi uma beleza, jamais se sentiu minha presa ou me julgou caçador, jamais malha
levantada ou um meia rasgada e, para ser mais minucioso, jamais teve alguma vez
as canelas arranhadas. Mas também isto vos confesso, caminhada bem andada só
com unhacas aparadas, sapato impermeável e justo c’os atacadores bem apertados
e um lacinho bem dado.
A
bolhinha pequenina no pezinho bonitinho, formosinho e engraçadinho era o mote,
fosse motivo ou desculpa para qualquer cena maluca que nos deixasse coladinhos.
Éramos uns desgraçadinhos, sempre sempre aflitinhos, sempre sempre
agarradinhos, sempre ora ponha aqui o seu pezinho, sempre o tapete sobre a poça
não fosse ela distraída, molhar o lindo sapatinho. Sim é verdade inda recordo,
sim é verdade, inda hoje o é, fosse desculpa ou motivo qualquer bolhinha era o
mote para sentarmos na garupa e abalar a galope montados num cavalinho.
Fosse
Rocinante ou Bucéfalo, fosse Silver ou Diablo a verdade verdadinha era que uma
vez montados, eram nuvens eram sóis, eram estrelas e cometas, eram bebés e
chupetas, e à terra só tornava-mos quando muito devagar, mesmo mui devagarinho,
com muito muito jeitinho, não fosse eu por distracção, ou desmazelo, pisar-lhe
um dia o pezinho, pequenino, mindinho, bonitinho, formosinho e engraçadinho,
descendo a cama ensonado, exausto ou aparvalhado após tanta correria em que os
cavalos cansados nos traziam de mansinho de volta à terra do nunca, onde entre
suspiros e ais fumávamos uns cigarrinhos muito bem enroladinhos com dois dedais
de conversa. De conversa vice-versa, ou versa-vice, se acontecia partir com
festas e arraiais a que só dávamos fim antes que a cama se partisse.
Foram
tempos de ventura, foram tempos de fartura, e aquela mesma bolhinha pequenina
junto ao dedinho mindinho do pezinho bonitinho, formosinho e engraçadinho,
continua na lembrança e, mentalmente e com carinho, a desafiar-me de fininho a
repetir os miminhos que derretidos, coladinhos, trocávamos escondidinhos nos
dias de sol quentinho ou de vero friozinho p’ra aquecer o ambiente e tornar a
cama quente fosse ele Natal ou não, ficai sabendo minha gente !!!!
quarta-feira, 20 de agosto de 2025
ZÉ ANTÓNIO ANTÓNIO ANTUNES, ele mesmo ...
Tivesse
sido ou fosse este país um país normal e a mesma adjectivação poderia ser usada
em relação aos seus cidadãos, se não a todos pelo menos a uma grande maioria já
que, como sabemos bem não há regra sem excepção
perguntou
o Gomes, arrastando a perna, que é mouco que nem uma porta e nunca é capaz de
ajustar convenientemente o som ou a configuração de uma prótese auditiva ultra
moderna ligada por wi-fi ao telemóvel e que ora apita por todos os lados, ora
zumbe, cortando- lhe o som não o deixando perceber bem as palavras levando-o a
confundir tudo e todos.
- Também estranhei
- Queres dizer que não foi ele ? Então
quem foi ? O meu amigo Desidério ? E que fez ele desta vez então ?
Mas ia eu dizendo, o Zé António António Antunes é um paz d’alma, ainda puto com três anos, não mais, desenhou tão bem um cisne, que uma estagiária, do Magistério Primário, levou o boneco para mostrar às colegas. Fosse hoje e o Zé António havia de lhe mostrar um boneco que ela não largaria por nada e abalaria calada e c’a ideia numa próxima vez. Ele é mesmo assim, bom tipo, muito bom tipo. Aliás toda a gente o conhece e conhece bem, tal como toda a gente sabe as porcarias de que é capaz quando se apanha sozinho encostado a um balcão.
Filho
único, menino da mamã, de todas essas benesses abdicou para se afirmar
individualmente, sei que daria a camisa a quem dela precisasse, é culto,
fluente em várias línguas quando bebe uns copos, e tem uma filha talvez da
idade do meu, filha que não conheço mas deve ser santa já que ele nunca a tira
do altar.
Eu e
a Lila chegáramos nesse momento, D. Apolónia veio logo a terreiro sem que a
chamassem, que a culpa era nossa, que nunca tivéramos juízo e ao filho só
fizera mal ter-nos conhecido e acompanhar-nos e p’ráqui e p’ráli.
Segundo
a Verónica confidenciou mais tarde à Filipa, a exaltação de D. Apolónia adviera
da estreia, umas noites atrás, duma fantasia de enfermeira, coisa que sabia
agradar ao marido e pai do Zé António António Antunes, velhote que se queixaria
das máscaras, das capas e dos chicotes e algemas, de que andaria a ficar mesmo
farto.
Há
aqui de tudo como na farmácia, e acreditem-me, apesar de vos ter relatado um ou
outro pormenor menos claro, são de resto gente digna, trabalhadora,
respeitável, aliás como qualquer de vós, ou não fariam parte das minhas
amizades.
D.
Apolónia é uma daquelas mulheres com o cu debaixo dos braços, viúva, doméstica,
proprietária, nunca fez nada na vida, tem a quarta classe antiga inacabada, não
entende porque não se obrigam as criancinhas à catequese e tem dois ódios de
estimação, a Vera, que lhe roubou o filho e matou o marido e a Direcção geral
de Contribuições e Impostos, um bando de gatunos que só querem o que os outros
conseguiram com muito suor. Nunca eu soube a quem terá pertencido o suor a que ela
se refere, uma vez que trabalhar jamais, criadas usa e abusa a uma média de
duas por ano, no mínimo, e o marido idem enquanto foi vivo. Analfabeto, sempre
viveu da especulação imobiliária, influências, compadrios, negócios, e, dizem
os maldizentes, financiando as campanhas de um determinado partido. Deixou a
viúva inconsolável, cheia de propriedades, contas bancárias, cadernetas de
aforro e acções do BES e do BCP. Como a mulher, nunca terá vertido uma gota de
suor ainda que soubesse do que se tratava, tanto que era coisa que evitava com
a maior precaução.
É
melhor ficar calado. (não contem a ninguém), mas certa noite, à beira mar em
Puerto de Santa Maria, todos com uma piela de caixão à cova, o Zé António
António Antunes e uma tal Pilar ou coisa parecida, enroscados por causa do
frio, ela procurara-o por causa de um aparelho nos dentes cheio de efeitos
multicores brilhando no escuro como pirilampos… Era bonito o aparelho, ou a
prótese mas a verdade é que depois de um par de garrafas VAT69 mandadas abaixo
o Zé António António Antunes andou a tratar-se mais de um mês, ficou todo
escalavrado !... O Amor é Fodido mas ninguém desiste dele ! Um verdadeiro
Adónis, cultor do corpo, do carácter e mais homem que muitos homens, o Zé
António António Antunes não ligara muito à mirifica prótese mas dera a volta à
cabeça da Pilar.
Afinal
convenhamos, somos tudo gente normal, ou não ?
- Ai sim ? O despautério foi com o Euletério ? Eu sabia que dali não podia vir coisa boa !
gritou o Gomes quando acordou, mas dizia eu ter-se o outro queixado depois de ter ido lá a casa reparar um candelabro que nem sabe como teria sido arrancado do tecto, mais parecendo, palavras dele, alguém no mesmo se ter pendurado propositadamente !
São contudo dois dos meus melhores amigos pelo que se vos cruzardes com eles na rua não hesiteis num caloroso cumprimento, são cidadãos de primeira apanha, apenas ela detesta o cheiro a erva que por vezes paira no ar, coisas de somenos se em conta tivermos o facto de santos naquele grupo só eu, mas já sabem, de mim não falo, não vale a pena e já me vão conhecendo de ginjeira.



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