domingo, 17 de setembro de 2017

463 - UM DOCE PÉ DE VIDEIRA CONSTANCE .......


Quando em 77 ou 78 regressei de Africa trouxe a meu pai, que acabara de adquirir uma pequena parcela duma herdade onde, para ocupar a reforma pensava entreter- se, um pé de videira Constance, um vinho doce da região de Constantia, na África do Sul, dado que ele começara já a plantar naqueles dez hectares uma fieira de vinhas. No passado, a popularidade dos vinhos doces fizera história. Os gregos, produziam o vinho o mais doce e concentrado possível para consumi-lo diluído em água e "temperado" com ervas e especiarias. Já na Roma Antiga os vinhos mais apreciados eram brancos doces, a partir da desidratação de uvas, para que se obtivesse concentração dos açúcares da fruta. Na Idade Média grandes cidades italianas, Génova e Veneza, ficaram conhecidas pelos vinhos que eram bem mais doces do que no resto do país. Até ao final do século XIX, a venda de vinhos doces provenientes da região de Constantia, na África do Sul, era sinal de status em toda a Europa. Portanto o que eu trazia ao meu velhote era um tesouro.

Mas o velhote ao invés de me agradecer invectivou-me, perguntou-me se estava louco, admirou-se mesmo como me tinham deixado entrar no país com uma bomba daquelas nas mãos. Eu não a trouxera propriamente nas mãos, viera num vaso de argila cheio de boa terra do Transval por sua vez bem enrolado em jornais permanentemente humedecidos e num avião militar até às Lajes, razão pela qual alfandega nem vê-la e dali para o continente fora um voo interno, sem péages nem adouanes nem alfandegas nem merdas dessas que só empatam e nos fazem perder tempo.


No fim do responso o velho agradeceu-me a boa intenção não esquecendo acrescentar e lembrar-me que de boas intenções estava o inferno cheio e mais a Filoxera e bla bla bla … Estava eu ali, espantado e especado, sem saber que fazer e com o vaso do pé da videira na mão quando entrou a Deolinda, espampanante, como sempre, em busca da minha mãe, a quem entregara um qualquer serviço de costura e, admirada ao ver-me ali largou um:

- Olha o caramelo, tu por cá ? Que tens feito ? Por onde tens andado que tão bom cabelinho tens criado ?

- Esperava-te, mal te vi no início da rua fui buscar esta lembrança que me ocorreu trazer-te, quem melhor que tu para lidar com uma nova cepa, uma nova variedade e eventualmente acautelar e lidar com o possível perigo da Filoxera ?

Arrumei-a, perdeu o pio, corou, ou corou e perdeu o pio, balbuciou um muito obrigado estou muito impressionada, nunca julguei que no outro lado do mundo te lembrasses de mim e mais isto e mais aquilo e mais bla bla bla …

Filoxera é o nome comum do pulgão ou hemíptero da família Phylloxeridae, da espécie Daktulosphaira vitifoliae, por vezes também designada pelo seu sinónimo taxonómico Phylloxera vastatrix. Todo o reboliço derivara do facto de em 1880, o pulgão estar disseminado na África do Sul onde dizimou hectares e hectares de vinhas, arruinando todos os produtores, tendo chegado ao norte de África somente passados cinco anos. Era uma praga terrível contra a qual o mundo pegou em armas, basta lembrarmo-nos que o século XIX chegou ao fim com as vinhas de todo o mundo destroçadas e com a produção mundial seriamente comprometida. Os serviços sanitários agrícolas mantinham-se permanentemente alerta em todo o planeta, até hoje.


Mas a minha airosa saída da situação acabou por cair bem e correu bem melhor que eu alguma vez teria imaginado, recordo que nos três ou quatro anos seguintes nos deslocámos umas cem ou duzentas vezes à estação agronómica onde ela debutara e trabalhava, era enóloga, ou seja, e abreviando, a merda do pé de videira que tanta arrelia me dera viera a rebentar numa vocação e a ser a haste donde cresceria e se fortaleceria a nossa amizade, e que amizade.

Hoje é famosa, tem três filhos, enquanto eu me fiquei por um só mas lindinho. Ela casou com o meu amigo Benigno para quem ela foram umas segundas núpcias pois a primeira mulher dele não estivera para lhe aturar as pielas constantes ao passo que a Deolinda, vinhos e seus efeitos eram com ela, coisas que tratava por tu, tendo endireitado o Benigno. Em boa verdade e aproveitando a sua tendência natural p’ra emborcar copos fez dele um escanção de craveira internacional, brilharete com o qual ela coroou o fruto do seu trabalho, hoje premiado e reconhecido internacionalmente e a mim orgulhoso dos seus sucessos e das suas amizades.

Vida e trabalho separaram-nos mas durante os últimos quarenta anos em todos eles recebi pelo Natal um pack, aliás dois packs com garrafas de vinho do melhor que ela sabe, um pack de brancos para a Luisinha e um de tintos para mim, estou mesmo vendo que este ano a Luisinha sairá beneficiada com um pack do reserva branco premiado, enquanto eu ficarei a olhar para o meu azar que só bebo tinto, mas é o tinto que ajuda a manter-me eternamente jovem, culpa dos taninos alentejanos, experimentem e verão, mas convém não começar tarde, eu comecei aos vinte e no verão de 78 com a primeira garrafa que ela me ofereceu no meu dia de anos, 29 de Setembro, estamos quase em cima deles. Não se esqueçam de mim vá lá…

Eu e a Deolinda sempre encaixáramos bem, fôramos colegas no ciclo e mais tarde nos complementares, uma espécie de 12º ano, ela formou-se primeiro que eu, saiu enóloga, e não descansou enquanto não lhe provei as características, eu era novo e nessa idade queria era tratar dos vinhos, queria lá saber das vinhas..


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

462 - VENCER OUTRA VEZ * by Maria Luísa Baião


Nos idos de quinhentos, Portugal foi uma potência mundial, conduziu o experimentalismo tímido de então, afirmou-se dando novos mundos ao mundo, porfiou e matou caça, da grossa. A ocupação espanhola, embora os compêndios o não reconheçam (lá mais para diante a história da comunidade imporá outros critérios que fundamentem a irmandade), foi benéfica para o país, colocando muitos mais mercados ao nosso dispor, tendo os portugueses beneficiado, porque coligados a Espanha (Castela), das prebendas, tenças e pressupostos inerentes a qualquer potência dominadora a nível global.

E, beneficiando a nossa burguesia do mundo que, Espanha, Castela dominava, já então com muito mais recursos que Portugal, “ad libitum ad gloriam et ex dono”, muita da nossa nobreza por essa via ocupou cargos que dada a reduzida dimensão de Portugal a nossa corte nunca teria sequer criado. Ingrato contudo o Zé-povinho, lá serviu de pau-de-cabeleira aos interesses de D. João IV, tendo corrido com os espanhóis, castelhanos, acerca de quem fizemos circular a frase e o preconceito que "de Espanha, Castela, nem bons ventos nem bons casamentos".

Ingratidão, este povo foi sempre ingrato é o que é.

Todavia Castela, essa Espanha que parece não precisar de nós para nada, não foi menos ingrata. Basta pensar nos séculos durante os quais nos virou ostensivamente as costas, para vermos quanto não foi menos ingrata para nós que nós para ela. A verdade é que ninguém devia nem tinha nada a dar a ninguém, em especial nas últimas décadas, em que dois pilantras, qual “mens divinior”, governaram a península e os respectivos países como se governam as hortas.

O "quinchoso" de meu avô, um homem simples mas probo, andou sempre, talvez por isso, muito mais bonito, viçoso e proveitoso.

Mas esses tempos parecem estar a ficar esquecidos, agora, são precisamente “nuestros hermanos” quem, sem peso na consciência porque no caminho certo quanto a muitas de nós, ou acusados por outras de, sub-repticiamente, promoverem a conquista do espaço nacional, se atiram denodadamente, como não fizeram em Aljubarrota, a estudar a nossa língua, a formar a nossa juventude, a acudir veladamente para que nada nos falte quando vamos ao hiper.

Um ex-ministro português da economia disse uma vez que, cada vez que dispara o nosso consumo interno, são criados novos postos de trabalho no estrangeiro. É verdade, mas quem nos tira o prazer de terrincar um bom torrão de Alicante, degustar um vinho fresco de Bordéus, cabidar um fato de corte italiano ou passear um bom carro alemão ? Quem se atreve ?

Agora, milagre da vida comunitária, ou porque se acham no lugar do mano mais velho, ou porque tenham inconcebíveis problemas de consciência, “nuestros hermanos”, outra vez eles, através de um banco espanhol bem implantado em Portugal, vão atribuir bolsas de valor mensal equivalente ao salário mínimo a alunos portugueses do ensino superior, durante cinco anos, desde que tenham aproveitamento. Essa mesma banca prepara-se para acudir com condições ímpares às nossas PME, o grosso das empresas nacionais.

A quem devemos chamar pai ? E mãe ? Aos reis de Espanha ?

A verdade é que já nos venceram uma vez, em 1580, devido a questões dinásticas, e vão vencer outra vez, agora devido a questões práticas, simplesmente práticas. Por muito que custe à minha amiga Paula, perguntem aos de Olivença de que país querem fazer parte, perguntem !

A Espanha ajuda, a Espanha fará por nós.  

E na Irlanda, país onde nascem por ano 50.000 empresas, tantas quantas as que entre nós reiterada e consecutivamente há décadas dão prejuízo, serão apoiadas anualmente 20.000 delas, apoiadas as Start-ups, isto é, as estrelas da inovação e da tecnologia, ou sociedades de empreendedores que, por lá parecem vingar como por cá os cogumelos.

São, fiquem descansadas, maneiras de ser e de estar muito mais ingratas e incómodas que o laissez faire português. Entretanto, e para compensar o desgosto, felizmente que temos um caso, queira Deus que não somente para exemplo, a Portucel, que exporta 92% do que produz e exporta 26 vezes mais do que importa. Longe da vista e do coração, a Portucel faz melhor serviço que a mítica Auto Europa, que muito embora exporte 99% do que produz, junta-lhe fraca componente nossa, pouco mais que a mão-de-obra, uns pedais e uns escapes de incorporação nacional, sendo os veículos, sob a forma de peças e acessórios, importados para montagem em Palmela.

Mas não desesperem, virá o dia em que os espanhóis nos dirão como são as coisas.


* Texto publicado por Maria Luísa Baião no Diário do Sul, coluna Kota de Mulher, 2ª feira 23 de Maio de 2005. 

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

461 - QUE É E ONDE ESTÁ O TERRORISMO ? * .....


Não posso deixar neste momento de falar sobre o nosso mundo, mais precisamente de alinhavar umas palavras sobre terrorismo. Na realidade meditei um pouco sobre o que dizer que não estivesse já dito, sem deixar de agradar a quem me ouvisse (ou lesse), mantendo contudo a preocupação de contribuir para abanar consciências porventura adormecidas, em especial aquelas que parecem percorrer os caminhos sem se darem conta dos pormenores que os ladeiam.

Não vou portanto falar-vos do terrorismo que quer televisões quer jornais tanto se esforçam por quotidianamente trazer à superfície e de que vamos estando saturados, o que não significa contudo que o terrorismo, sob outros prismas menos visíveis, não seja também terrorismo e razão aduzida e suficientemente preocupante para meditarmos sobre ele. Ao reportarem esses atentados constantes no presente e no passado os mídia demonstram à saciedade os resultados do terror, preocupam-se todavia muito menos em nos mostrar as suas causas.

São várias essas causas e sem que pretenda defender aqui o terrorismo ou sequer incentivar a sua apologia, é com pertinência que colocarei algumas questões passíveis de perturbar as consciências melhor instaladas, generalizadamente egocêntricas, porque etnocêntricas. Começo por lembrar-vos a necessidade e virtualidades do adormecido “Diálogo Norte-Sul”, poderia evidentemente recuar mais no tempo, mas não julgo necessário, este é um ponto de partida tão bom como qualquer outro, para tanto basta que nos lembremos de quando tudo começou e por que começou, tentando colmatar necessidades sentidas há muitos, mesmo muitos anos.

A disparidade de desenvolvimento entre o hemisfério norte, rico e poderoso, e o hemisfério sul, pobre, subdesenvolvido e populoso, foi sempre fonte de preocupações por via das desigualdades chocantes e das assimetrias criadas. Porém pouco ou nada foi feito, e o que foi, como o “diálogo” atrás referido, além de sol de pouca dura, mais não conseguiu que motivar algumas consciências bem intencionadas e clarividentes, cujas vozes foram contudo pronta e eficazmente abafadas ou caladas.

A pobreza mundial, que conduz à ausência da própria esperança e a que muitos nada tenham a perder quando perdida, pode explicar hoje o sacrifício dos “homens bomba” na Palestina, como explicou a imolação pelo fogo de muitos outros no extremo asiático, ou o fanatismo que um pouco por todo o globo levou ou leva a actos tresloucados, verdadeiras bandeiras erguidas em nome de uma causa, derradeiras e desesperadas chamadas de atenção a tantas e tão gritantes injustiças disseminadas pelo planeta.

A cada vez maior desproporção de meios e de riqueza entre nações cria autênticos “guetos” de revolta, e não foi colonizando, neo colonizando e explorando avidamente muitos dos povos espalhados pelo mundo que se lhes incutiu, nem incutirá um espírito de partilha e compreensão pelos direitos humanos. Afinal quem “inventou”, para quem e para quê esses mesmos direitos ? Luta-se e lutou-se para impor modos e vontades que garantem o bem estar do Ocidente, luta-se contra tudo e todos que ousem perturbar a nossa paz celestial, mas quando foi que se lutou do mesmo modo para impor esses direitos, que deveriam ser universais ?

Envaidecemo-nos com os nossos ténis fabricados por crianças trabalhando horas sem fim por uma côdea de pão, com jóias extraídas por quem come o pão que o diabo amassou, bebemos pela manhã o cacau que escravos colheram para não morrer à fome nesse dia. Perturbamo-nos com isso ? Deitamos ao lixo, para manter os preços no produtor, toneladas de bens alimentares que poderiam saciar a fome no mundo, e impomos nas Bolsas de Nova Iorque, Londres, Paris, Bona, o preço de bens essenciais para nós mas produzidos por outrem no outro lado do mundo. Somos católicos uns, escuteiros outros, mas em quantos dias da nossa vida praticamos realmente uma boa acção ?

Em Angola, diamantes e petróleo começam a alimentar uma guerra que irá deixar sem pão gente cuja única ambição é viver em paz, minas ceifam vidas todos os dias porque alguém as fabricou e com elas fez fortuna. A fortuna de uns é o infortúnio de outros. Sinto-me incapaz perante tanta abjecção, sinto-me incapaz e culpado, mas não inconsciente, alheado ou desencorajado para fazer algo. O quê, na verdade ainda não sei, talvez seja bom começar por agitar consciências, a minha inclusive, mas textos destes, se bem que muitos os possam produzir, haverá na certa bem poucos que os queiram reproduzir.

 Diz-vos algo esta afirmação ?

Onde quer que rebente uma guerra os maus de hoje foram os amigos de ontem, tudo vale desde que os interesses não sejam tocados, a televisão só já nos mostra o que nos querem dar a conhecer, mas é de enaltecer que, para bem das nossas consciências (demonstram as evidências), de há alguns meses para cá não vimos mais aquelas crianças famélicas morrendo aos milhares todos os dias e em directo na TV, agonizando as nossas dietas ao almoço e ao jantar, estragando-nos a vontade de ir ao bar.

Todos os dias surgem novos conflitos, somos como o beija-flor, esta serve, a outra compromete. E assim uns morrem enquanto outros se divertem. A diplomacia e os interesses tudo justificam, por isso impera por esse mundo fora o “Terror de Estado” que ninguém contesta, ainda que o mesmo solte a besta que há em todos nós. Sou mancebo, e mesmo agora percebi porque o sou ou inda o sou. Homem maduro, experiente, vivido e consciente não serve como carne para canhão. Pegam portanto em adolescentes, da realidade inconscientes, ávidos de glória e de medalhas, corações cheios de Pátria, mentes fixas na honra e ideias tais, e que inconscientemente avançam cegos para os cais de embarque em viagens sem retorno. Que maior glória poderão desejar ? Uma lápide, uma memória, uma medalha. Metralha que tralha de gente nos (lhes) despeja em cima. Quem fabrica as armas de destruição em massa que hoje nos apresentam como ameaça e pode ser usada por grupos terroristas, fanáticos, lunáticos, fundamentalistas, simpáticos, apáticos, neuróticos, psicóticos, políticos, músicos, hipocondríacos, paralíticos, míticos ?
  
Armas biológicas, químicas, atómicas, intercontinentais, cuja quantidade e custos poderiam ter terminado com a fome no mundo continuam a produzir-se a ritmos impensáveis. O ambiente vai sendo defendido para inglês ver, o mundo só acordou para o nazismo e o fascismo demasiado tarde, como demasiado tarde estamos a entender ou a enfrentar o terrorismo e o miserabilismo. Gastam-se milhões na prevenção de situações que nada justificaria acontecessem, milhões que poderiam ser usados em cooperação. O homem é egoísta, é louco, em toda a parte vê ameaças, em nenhum lado esperanças.

Que é o terrorismo ? Não sei, todos somos cobaias e vitimas potenciais  da cegueira que nos envolve e isso é terror, porque é de loucos. O apocalipse pode estar perto, como próxima está toda a desordem que o homem criou no mundo. Se todos caminhamos para o suicídio, seremos todos loucos suicidas ? Não creio, mas negar que essa loucura existe, negar que os caminhos que trilhamos não são os mais correctos, negar que o pior cego é o que não quer ver, também é terrorismo. Os senhores da guerra que o neguem.


* Texto extraído do meu discurso de fim de curso quando da formação em “Terrorismo e Contra-Terrorismo” na PUC-Rio – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, no ano de 1978. Este texto (com ligeiras alterações) foi em tempos publicado no Diário do Sul.

  


sexta-feira, 8 de setembro de 2017

460 - A VIDA É FEITA DE PEQUENOS NADAS ...


Ser o Benjamim duma família de cinco filhos e ainda por cima o único rapaz nunca me ajudou. Primeiro porque assimilei muita da sensibilidade feminina, modos e trejeitos que me valeram o repúdio de muitos e o isolamento na escola, onde o Gouxa foi o único amigo que se manteve firme e fixe até hoje. Segundo porque para provar ao paizinho que tanto a sua hostilidade como a sua postura ostensiva em relação a mim estavam erradas e me levaram a erradamente conduzir a minha própria vida.

Por vezes parece-me estar ainda ouvindo-o:

- Estragaram-me o único gaiato, fizeram dele um efeminado de merda, tantas esperanças que eu alimentara.

Recordo-me como se fosse hoje, deviam ser umas dez da manhã, ele arrancara-me bruta e bruscamente ao convívio das minhas irmãs e atirara comigo porta fora. Não, não me meteu na rua, eu é que de orgulho ferido e atingido na virilidade rumei à estação e antes das onze assomava à janela do comboio para a capital. No dia seguinte faria dezoito anos, por Deus que me lembro como se fosse hoje.

Um pouco antes daquela época tinham-se experimentado por todo o país as primeiras turmas mistas e, se entre os rapazes somente o Gouxa se mantinha firme na confiança que nele sempre pudera depositar, entre as raparigas via-me tão ou mais submergido e abafado por carinhos e mesuras que alguma vez o fora em casa pelas manas.

O mundo é feito de contradições, de pequenos nadas, onde o Yin e o Yang se equilibram de modo precário mas eficaz, as amizades que não porfiava encontrar entre os colegas sobravam-me entre as colegas, entre mim e elas nunca houve segredos, nem segredos nem mal entendidos, dávamo-nos maravilhosamente. Acarinhado assim fora-o também quando terminado o sétimo ano ingressara na WoolTrade, uma multinacional de curtimenta e confecção de artigos em pele. Nessa empresa voltei a ser, como sempre fora em casa, um homem entre mulheres e, não tivesse sido a cada vez maior aversão que o paizinho me demonstrava abertamente teria levado a jantar em minha casa, à vez naturalmente, cada uma das mais de cem amigas da WoolTrade. Talvez não fossem tantas assim mas a verdade é que não vim a casar com nenhuma delas, tudo por uma questão de somenos importância, embora complexo o mundo é feito de pequenos nadas e para ser franco nunca consegui abrir os colchetes dos sutiãs a nenhuma delas, por incrível que pareça no momento crítico via-me sempre atrapalhado. Com a minha Fatinha, que tirara o curso em Lisboa enquanto eu por lá cursava a tropa de elite em que me inscrevera, consegui, estamos casados quase há trinta anos sem uma beliscadura.

Naquela mesma tarde em que o paizinho me arrancara ao doce convívio das manas alistei-me nas tropas especiais, nos fuzileiros, tinha dezassete anos e precisava de ficar nalgum sítio, fiquei na Casa Do Marujo, na baixa de Lisboa ali à rua do Arsenal, pegada com o Ministério da Marinha o qual viria a ser a minha casa durante uma carrada de anos seguintes, alternados de prolongadas licenças e férias. O paizinho havia de ter tido orgulho em mim, mas infelizmente viera a falecer pouco tempo após a minha intempestiva saída de casa e por razões que compreenderão. Somente meia dúzia de anos depois da sua morte vim a conhecer o facto, o facto e as circunstâncias, morreu como viveu, à bruta, engasgado com um pedaço de borrego que não conseguiram soltar-lhe a tempo da garganta pelo que se finou todo vermelho, vermelhusco, mais vermelho que o próprio nariz, sempre denunciando-o, fosse inverno fosse verão e, entretanto naturalmente o ensopado esfriou e já ninguém o comeu, segundo me contariam alguns anos ainda mais tarde.

A sua morte culminou o processo de desagregação da família, os seus modos rudes sempre tal haviam prenunciado, sem ele e sem mim as manas debandaram como um bando de pardais, a Mia, Minervina de seu nome fora a primeira, o moço com quem casara um subinspector da Pide com vida feita no aeroporto de Faro, fora obrigado a fugir para os USA após uma rocambolesca fuga em que ninguém sabe como deixaram escapar quase noventa deles da prisão de alta segurança de Alcoentre numa tarde de Domingo, 29 de Junho de 75, o malfadado verão quente, imaginem só o que não terão penado nesse dia os desgraçados, o certo é que nenhum deles voltou a esta Pátria que tão ingrata lhes fora.

As restantes e à vez foram abandonando o ninho, voltámos a encontrar-nos todos há dias no escritório do advogado tratante das partilhas e da venda da casa do paizinho, cujo pecúlio dividiu por todos nós sem esquecer guardar para si mesmo a melhor parte. A mais novinha delas, a Mariana, tem passado as passinhas do Allgarve, escolheu Psicologia por lhe agradar conhecer o género humano e não consegue acertar uma, já vai no quarto marido e não tarda no quarto divórcio. A artista da família, a Gertrudes, que adorava cantar e tinha jeito, casou com um director de serviços da Seg. Social que a puxou para lá queixando-se ela desde sempre aborrecer-se imenso, que não faz nada, faz depressões digo eu, passa a vida de depressão em depressão, teve mais de uma dúzia nos últimos dez anos e aposto que não se ficará por ali, qualquer dia será ela também chefe de serviço após o que se reformará com uma choruda reforma, merece-a, só eu sei o que ela tem ali penado.

A outra gémea do meio, a Dádá, a Deodata sempre manifestara jeito para trabalhos manuais e lavoures, conseguiu imiscuir-se como mestra de trabalhos manuais numa escola preparatória em fins de 79 princípios de 80, e por lá ficou, o sindicato cuidou-lhe da carreira, soube compor as coisas e hoje ela, ela e mais umas boas centenas ou milhares são professores do quadro, continuam maravilhosamente trabalhando com as mãos mas não lhes peçam para abrir a boca ou escrever uma letra pois tal iria muito para além do que são capazes e nem um sindicato faz milagres.

A vida é feita de pequenos nadas e na ausência de pequenos nadas a família dispersou-se e desintegrou-se. Eu fiquei uns tempos entre os homens de barba rija, eram tempos em que se podia ser herói e fiz por isso, corri toda a África do equador ao Cabo armado em Rambo e quando me cansei voltei para a WoolTrade e para a Fatinha, para o aconchego das mulheres cujas disputas por mim sempre me alimentaram o ego até que farto delas me casei, e como castigo do Senhor tenho quatro filhos e uma filha, ela é uma Maria rapaz, a mãe não lhe poderia ter escolhido melhor nome, Maria José, por vontade da mãe todos eles têm nomes de mulher, Manuel Maria, Joaquim Encarnação, António Epifania, José Vitória. Adoram brincar com as bonecas da irmã, espero sinceramente que nenhum saia maricas e a Maria José não me estrague o apelido com parvoíces daquelas da igualdade de géneros, fora isso é uma mulher perfeita, admira-me como os marmanjos não se atiram a ela, espero que não haja ali gato.


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

459 - IMPREVISTOS IMPREVISIVEIS .......................


Somente por acidente não recebera um descomunal ramo de rosas. Coisa que lamentou profundamente, pois nunca com tal obséquio tinha sido prendada. Debalde o arrependimento, perdera esse momento mágico e como viria a dizer mais tarde, a estranha sensação de ter-se sentido desejada, nem que por um momento só, pois reconhecera quanto bem isso faria ao ego de qualquer pessoa.

Ele surgira do nada na vida dela, talvez por essa circunstãncia tenha sentido medo, inda que pouco pois nem acreditava em acasos, e nem tempo tinha tido para assimilar a ideia. Para agravar a confusão ele expressava-se de maneira muito romântica, coisa rara de se ver nos dias de hoje, principalmente nos homens, particularmente nesse homem, que já trocara com ela algumas palavras.

Contudo nunca se haviam visto, não se conheciam, sempre tinham comunicado pelo telefone ou outros meios nada pessoais. Nunca suas vidas se haviam cruzado nem na virtualidade do destino. E aquele era o momento em que pela primeira vez se viam. Verdade seja dita, ficaram logo amigos, ambos se viram rodeados por arco-íris e solstícios, ouviram dó ré mis, lás e bemóis não ouvidos por mais ninguém, acreditaram e concordaram que na vida não havia mesmo coincidências.

Ela era agradável, tão depressa ria como mudava de conversa, e, coisa curiosa, tinha um olhar perdido que os olhos dele fitavam, daí, metade do seu olhar clamar aflita, a outra metade como que chamando-o para marinhar. E era um olhar doce, como que encerrando amores prometidos, enleados nuns olhos castanhos apontando ao infinito… abrindo e prometendo caminhos.

Ele mudo e quedo, deslumbrado, lá fora a lua, tão formosa, e ali mesmo a seu lado que coisa gostosa, ele louco de desejo, sonhando o mar e  deitando-lhe um ensejo para, num lampejo voltar a si ficando assim… um pouco tonto, tanto que num fulgor lembrou momentos agradáveis esquecendo os demais.

Virou a cabeça ao céu buscando Deus, talvez Ele lhes estivesse dando uma oportunidade para serem felizes, quem sabe. Não sabiam, eram respostas que ainda não desvendavam. Ela riu, confessou gostar que ele soubesse quanto tinha adorado tê-lo conhecido e logo ali combinaram falar-se no dia seguinte. Ele pasmou, não sabendo se ela estava falando se mirando-o ou fitando-o, cândida, virando a cada minuto e repentinamente a conversa como um sinaleiro, ele pensando e amando tanto que de tanto amor achou que ela era bem bonita e por momentos nem acreditou em tamanha felicidade …

“Nenhum sabia se chegaria o dia em que, desprevenidos ou intensamente, cairiam no chão como dois amigos, se abraçando e beijando com falta de jeito, qual milagre da vida em que suas vontades quebrariam todinhas, e talvez então”... se quebrasse o dilema que desde então o passou a assaltar...

Ele respeitava-a, e mais, sabia não ser o homem que ela buscava e queria, um homem para a vida, um homem que virasse seu companheiro, que com ela viajasse, que estivesse sempre a seu lado, que vivesse consigo, e, querendo ser honesto consigo e com ela, confessou-lhe não ser esse homem que ela procurava. Ela fora simpática, dele gostara e aceitaria o que Deus lhe desse para seu conforto, conformar-se-ia. Nada desejava para ele que não quisesse igualmente para os outros. Ele achara-a muito bela, doce e meiga, e queria retribuir tanta doçura, meiguice. Ele era só um homem, ávido de dar e receber, só isso.

Confusão a dela, imaginam a situação ? Pedira a Deus que lhe aparecesse na vida um homem íntegro, este ano já, que merecesse seu amor, bem, aparecera-lhe aquele, ainda por cima sem o ramo de rosas que ela por acidente não recebera. Aí ela perguntou a Deus o que queria Ele com estas ciladas na sua vida, ou Ele o estaria colocando na sua estrada para ela, quem sabe, para a pôr à prova ?

Para terem um momento de delírio ?

Jamais saberemos, jamais qualquer deles foi visto por estes sítios.

Amem.


Nonocas com o vestido de noiva da avó :D 

458 - ANALOGIAS * by Maria Luísa Baião .................

               
Orã

Tenho um amigo engenheiro de minas que, acompanhando a expansão da empresa em que labuta, tem corrido mundo e se encontra neste momento na Argélia, mais precisamente na cidade costeira de Ourã, onde a empresa desencantou na sua saga expansionista, vai para três ou quatro meses, um contrato vultuoso para construção de um porto de mar, molhes quebra-mar protectores contra a ondulação, acessos, cais de carga/descarga e embarque/desembarque para navios com calado superior a 30 metros e tonelagem impensável, em especial para transporte de gás natural, recurso em que esse país é riquíssimo. Trata-se de, como lhe costumo afirmar, da nossa nova diáspora, agora num mundo globalizado com tendência a minimizar ou menorizar Portugal. Mais uma razão para uma expansão nossa, agora em moldes diferentes da época de quinhentos.

Vulgarmente envia-me por mail fotos de maquinaria impressionante pelo tamanho e funções, guindastes, gruas, escavadoras, dragas, e, por vezes, uma ou outra foto tirada por certo do alto de grua gigante, deixando ver os afadigados operários que em baixo mais parecem formiguinhas, em especial se comparados com os blocos utilizados para travar ou reforçar os molhes contra a fúria das ondas, quais colossos trípedes que, enganchando uns nos outros, tanto mais reforçam a coesão quanto mais as ditas cujas tentarem dispersá-los.

Portugal tem sido nos últimos anos um país em obras, nem tantas quanto desejaríamos dirão algumas, nem as que deveriam ser prioritárias, acrescentarão outras, mas isso não tira porém validade à questão nem esperança às obras agendadas. Não descortino a ligação que inferi entre estas obras, que no país vão surgindo ou surgiram um pouco por todo o lado, mais ou menos apreciadas, menos ou mais contestadas, e as obras que esse meu amigo dirige, o que é certo é que cada vez que passo por obras, e são muitas essas vezes, não deixo de lembrar esse meu amigo.

Talvez esta inusitada analogia derive do facto de as obras que vejo, ambas serem obras, já que nada mais lhes consigo encontrar em comum, não sei, não sei explicar, até porque a dimensão de umas e de outras são por vezes completamente díspares, certo é que as ligo em pensamento. Da empreitada que ao meu amigo compete vou dando conta pelas imagens que me envia, a par da descrição da vida na Argélia, país com cidades, hábitos e cultura muito diferentes da nossa e onde, não passando fome, se vê obrigado a dieta forçada que o tem tornado muito mais elegante.

Nas obras que pelo país vou vendo e dou conta cada dia que passa, claro que involuntariamente observo ou aprecio o esforço, o ímpeto, o avanço e o empenho que cada um dos formigueiros aplica no seu mister. Não direi que fico embevecida, mas comove-me o empenho, o profissionalismo e a organização engendrada por essas formiguinhas e que, pouco a pouco, vão dando corpo e realização aos projectos que abraçaram com uma entrega digna de nota.

No nosso país espero que contribuam para enriquecer o património, em especial de equipamentos sociais em que ainda somos tão carentes, infantários, creches, lares, novas escolas e hospitais, mas também outras estruturas, viárias, portuárias e aeroportuárias, empreendimentos turísticos e outros, que criem emprego, serviços e permitam a captação de divisas, que equilibrem a nossa balança de pagamentos, ajudem a colmatar ou a fazer desaparecer o malfadado deficit, que ponham fim a dramas de desempregadas e deslocadas.

Não sei porquê quero, ou desejo que, apesar da desigualdade e dissemelhança entre projectos e obras, de tal modo os intui como análogos apesar de nem eu saber as razões, acreditar piamente que alguma coisa no mundo, ou alguém, os colocou de molde a que os avalie a par e passo e venha a ter o prazer de os achar terminados e acumular motivos para duplamente comemorar e dar por satisfeita.

Terminariam os incómodos a que o aperto de cinto nos obriga e teria em simultâneo o prazer da chegada e visita desse amigo agora longe e que, como sempre, não se esquecerá de me trazer inigualáveis tabletes de genuínas tâmaras, como só naquele país e no médio-oriente se encontram.
Truck, obras, Orã





Orá, panorâmica de rua
Évora, obra no largo de Sertório
Évora, renovação da linha da CP
 * Texto concluído numa quinta-feira, 13 de ‎Novembro‎ de ‎2007, ‏‎pelas 11:14:54h e publicado por esses dias na coluna Kota de Mulher do Diário do Sul - Évora      


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

457 - CARROSSEL MÁGICO * by Maria Luísa Baião

             

Para que o dia fosse um daqueles dias de encantar só faltava mesmo aquela coisa que logo pela manhã vi no ar. Um homem, sim, um homem passeando um carrossel, que com uma guita segurava pela mão. Girafas, zebras, cavalos, grilos, golfinhos, serpentes, peixes, tantos peixes que o dia num repente ficou mais parecido com um aquário. Tudo girando em montão, tudo tomando asas tal como um balão, fugidio caso lhe largassem a guita.

Eu marchava pela praça vogando ao sabor dos pensamentos quando esbarrou comigo um elefante azul e orelhudo. Tamanhas orelhas fizeram-me recordar uma entrevista dada vai já talvez para três anos a José Faustino, da Rádio Diana. Engraçado que, nessa entrevista, lembro-o tão bem, eu era só orelhas e cuidados. Engraçado como não aproveitei as oportunidades que cada pergunta encerrava. Senti-me empurrada, parecendo que alguém ou algo queria arrancar de mim, ou arrancar-me dali, tal foi a sensação quando uma mastodôntica baleia branca, perseguida por uma orca malhada, me atirou passeio fora. Então pouco à vontade na política, então pouco à vontade no protagonismo obtido com a vitória numa freguesia tão difícil, remeti-me, qual caracol, para dentro de uma concha protectora, o que hoje considero ter sido exagerado.

Olha ! Lá vai uma andorinha ! Será primavera já ? Sabem que se diz serem elas as mensageiras de Deus ?

Que me perdoe o José Faustino se aquela entrevista lhe não rendeu o esperado, temi que procurasse sangue e burilei as respostas tanto quanto pude. Tanto que, ouvida hoje, me pareceria não ser eu ali sentada frente a ele e àquele microfone.

Céus! Isto hoje está impossível ! vejam-me só quantos cavalos-marinhos aqui na praça !

Mas creio não ter estado mal apesar de tudo e penso que, melhor que eu, os governos tidos ao longo desse período responderam a muitas das interrogações (provocações?) que o José Faustino me atirou acima e que, qual nora esforçada, tentava arrancar de mim com uma fateixa.

Essa zebra deve ter pensado que a não vejo, ela que se cuide, já por aí vi tigres de Benguela, op ! Mais um tropeção bolas ! Que mar encapelado, só mesmo aos leões-marinhos apetece brincar ! Larguem-me os pés seus malandros, por favor !

Uma questão teimava andar à volta da diferença entre ser de esquerda ou de direita, fugi-lhe um pouco à resposta claro. Um leão da savana olhou-me intimidativo, parece o José Faustino conduzindo o interrogatório. Hoje não se é de esquerda nem de direita foi o que pensei para comigo, é a verdade, e em concomitância lhe respondi furtando-me a uma resposta directa.

Olha que lindo cavalo branco ! E que crina bem cuidada !

Hoje não teria fugido a essa pergunta como então fiz, ter-lhe-ia dito frontalmente que não me inscrevo nessas marcas, que estou acima delas, e sou pelas pessoas, pelo social, pelo progresso, pelo bem-estar, pela qualidade de vida e que, se alguma diferença existe entre forças políticas essa diferença está na razão e no fazer, exacto, especialmente no fazer.

Um pinguim avança para mim aos tropeções, só mesmo a ele achamos graça se aos tropeções.

Portugal, Évora, o país, a região, precisam de acção, precisam que por eles se faça alguma coisa, tudo. Lá aparecerá quem faça, como apareceu quem não tivesse feito.

Que lindos estes peixes, confundem-me com uma das deles por me verem soltando bolhinhas da boca !

Parecemos todas, ou somos todas (os) treinadores de bancada. Não há nenhuma, nenhuma de nós que não saiba o que deve ser feito para que isto se endireite. Pois façamos. É só fazer. Não é tão difícil como parecerá à primeira vista, é só fazer, é só ter vontade, é só compreender, é só arranjar motivação, de sobra, para os amigos também. E fazer. E sorrir. E dar despacho. E procurar a resposta. E achar a solução. E voltar a sorrir, satisfeita com mais um problema resolvido, um obstáculo ultrapassado. É copiar o exemplo. É dar o exemplo. É exigir o exemplo. 

Crocodilos do pântano levitam por cima de mim, corri para o homem da guita, quis comprar-lhe um bilhete para o carrossel, não mo negou, apenas me impediu por ser adulta. Mas foi simpático, atirou-me um sorriso de tamanho paquidérmico, com tal força que me desarmou. Mas não me quebrou o sonho, nem me atirou um não à primeira, disse-me que sim, mas…

             - “gostaria muito, teria até muito prazer nisso, seria mesmo boa publicidade para mim, mas a senhora veja, é já crescida, os animais não aguentam”.

Retruquei-lhe com a lábia mais sabida que tinha à mão, disparei-lhe um dos meus sorrisos/gargalhada, uma palmada nas costas, como fazem os homens, bebemos uma bejeca e ali mesmo lhe paguei todos os balões do carrossel, que distribui pelas crianças, correndo mais doidas que eu com aquele zoo inesperado.

E foi belo, enquanto as cervejolas frescas gorgolejavam goela abaixo era ver a miudagem circulando, contornando árvores e nuvens, subindo e descendo, até o contentamento os fazer voar céleres direitinhos a casa. Que cheiro a bolacha americana ! Onde ? Que desejo de matar saudades !

Os vendedores de balões nunca me desiludiram. Desculpa lá Faustino se nesse dia te troquei as voltas, é que não estava à vontade com uma joaninha avoa avoa que me tinha calhado em sorte. Abraços.


* Escrito a uma quinta-feira, ‎dia 10‎ de ‎Novembro‎ de ‎2005, ‏‎pelas 22:44:02h e publicado por esses dias no " Diário do Sul ", coluna " Kota de Mulher "

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

456 - VIEIRA E A SOPA DE PEDRA DE ALMEIRIM



               Não posso deixar de dar conta do prazer encontrado na leitura dos sermões do padre António Vieira, nado em Lisboa nos idos de Fevereiro do ano da graça de 1608, à Rua dos Cónegos, o que terá parecido um prenúncio a muita gente e não somente a mim que, através do conhecimento da sua biografia, e bibliografia, me surpreendi com o que já há muito sabia mas cuja espectacular dimensão nunca apreendera de imediato.

O padre António Vieira, aproveitando a então recente globalização iniciada pelos portugueses, os quais havia pouco mais de cem anos tinham dado novos mundos ao mundo, tornou-se um globetrotter de nos fazer inveja, numa época em que nem navios paquetes, nem cruzeiros, nem aviões e nem sequer balões dos que dariam a volta ao mundo em oitenta dias ou a tal Passarola do confrade Bartolomeu de Gusmão, que nasceria somente na década em que Vieira se finaria.

É notável e extraordinário quanto este jesuíta palmilhou, digo viajou, numa época em que só cascas de nozes, muita fé, um bom estômago e espírito de aventura permitiam tais viagens, mas a verdade é que pelo seu percurso o sabemos num ano em Lisboa, n’outro deles no Brasil, designadamente na Baía, novamente em Lisboa, depois Paris, Haia e Roma para daí voltar ao Brasil e retornar ao reino, à metrópole, donde partirá de novo p’ra terras de Santa Cruz, para no Maranhão vir a ser preso, expulso e recambiado para Lisboa devido ao facto de ser jesuíta.

Perseguido também em Portugal refugia-se no Porto e em Coimbra, esclareça-se que a Companhia de Jesus, ganhara grande ascendência no país e não só, digamos que a todos os níveis, o que acontecera paulatina e principalmente após a nossa independência do domínio filipino em 1640. Esta peculiar Companhia de Jesus abarcara claramente o domínio das influências na Corte, punha e dispunha nas Missões nas Américas e no oriente, dava cartas no ensino, era a vanguarda da cultura intelectual da época, o que como ainda hoje aconteceria despertou a desconfiança de governos e despoletou rivalidades n’outras ordens religiosas e no clero em geral. As condições criadas viriam a acicatar a antipatia pombalina para com os jesuítas, o resto da história já a sabemos, levou à sua expulsão do reino, sua dela, companhia. 

Foi em Coimbra que veio a ser julgado pela edição do livro “Esperanças de Portugal, Quinto Império do Mundo “ o que lhe valeu ser privado do direito de pregar, oralmente ou por escrito, e para sempre. Como podemos ver calar o pio é moda vinda do antigamente. Quanto a mim reconheço ter finalmente compreendido donde veio o Quinto Império a que aludia Fernando Pessoa, e não deixo de vos fazer notar que já em 1665, Portugal, o quinto império do mundo, não passaria de esperanças, aliás coarctadas, pelo que acrescentarei de minha lavra a certeza de que vivemos de esperanças há séculos…

“Quando é alto e régio o pensamento,
súbdita, a frase o busca
                e o escravo ritmo o serve “  *

Habituado a viajar e às representações diplomáticas o padre António Vieira faz-se deslocar a Roma como quem vai ali ao Samouco, a fim de pedir ao Papa Clemente X a absolvição da pena injusta a que fora condenado e a sua reabilitação perante a inquisição portuguesa, o que milagrosamente consegue, vencer o santo Oficio. Entretanto em Roma conhecera a Rainha Cristina, da Suécia, que o fez seu pregador e o convidou a ser seu confessor, convite que Vieira humildemente declina. Regressado a Lisboa vindo de Roma cedo parte novamente para o Brasil cuja costa cabotou ao longo da sua longa vida, pregando os seus sermões, tendo vindo a falecer na Baía aos 18 de Julho de 1697 com 87 anos.

Não posso deixar de frisar quão me surpreendeu a vida deste homem, culto e viajado numa época em que quaisquer destas qualidades eram difíceis de encontrar em alguém. Encontro-me lendo, com prazer, os seus “Sermões de Roma e Outros Textos” que as mais de quinhentas páginas desta sua obra encerram. Como devem calcular são os sermões de um padre mas não de qualquer padre, nem tão pouco de quaisquer sermões, são os sermões de Vieira, do padre António Vieira que, ao longo dos séculos se ergueram a um púlpito inimaginável e impressionante pela qualidade da sua oratória, da sua gramática, da sua retórica e da sua lógica.

Ao invés do tal livro de WHM que tanta celeuma causou pela barbaridade do conteúdo, este sim, este livro do padre António Vieira deveria ser de leitura obrigatória num qualquer programa escolar que se preze pois, ao contrário de “Eurico o Presbítero” este não obriga a ânsias nem vómitos, coisa que leva muito boa gente a nunca mais pegar num livro o resto da vida, ficando a abominar Alexandre Herculano. Pelo contrário os sermões escritos por este padre num português de qualidade impar, ajudam-nos a aperfeiçoar a linguagem e a argumentar e contra-argumentar, isto é a expor e a defender o pensamento e as ideias, os nossos pontos de vista, ajudando-nos a ordenar as ideias, a pensar.

Certamente já vos tereis interrogado acerca da razão pela qual vos trouxe hoje esta arenga e a verdade é que, não o parecendo tem porém a ver com a célebre “sopa de pedra” de Almeirim. A net distribuiu fartamente um anúncio que me sobressaltara ao vê-lo na TV, “Festival da Sopa da Pedra e do Petisco 2017” tal e qual, e todos parecem ter ficado satisfeitos com a obra parida. Tive oportunidade, na net, de lhes chamar a atenção para tão clamoroso erro pois na verdade os organizadores deveriam ter escrito “Festival da Sopa DE Pedra e do Petisco 2017” mas debalde e, curiosamente ia sendo incinerado numa fogueira.

É surpreendente que dos organizadores do certame à gráfica que imprimiu os folhetos, acabando na TV que passou os anúncios ninguém tenha dado por tão crasso erro, ou pelo menos tenha sido assaltado pela dúvida e puxado de uma gramática ou dicionário, ou simplesmente tirado a dúvida junto de alguém mais conhecedor da nossa língua. Antigamente gráficas e redacções acoitavam um designado "revisor" que evitava estes desastres, agora só se pensa em reduzir pessoal e poupar... 

Veio-me então à memória e a propósito uma piada que há poucos dias iniciou a corrida nas redes sociais:

- Estás mais gordo, devias ir para o ginásio.
- Eh pá ! E tu devias ir para a biblioteca.
- Não percebi.
- Lá está…

É tudo por agora, e se forem a Almeirim comam uma saborosa sopa de pedra, sopa delas, das boas e ignaras gentes de Almeirim, e não da pedra, de qualquer pedra, preciosa ou não.


             * Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa.