quarta-feira, 22 de abril de 2015

233 - HELENOS NA HÉLADE .....................................


               Acolheu-se sob o seu braço reconfortante, o mar azul e o sol chispando tornariam inesquecível aquela manhã. Não era a primeira vez, porém naquele dia tinha um significado especial, sorriu quando lhe sentiu a mão deslizando-lhe sob a túnica numa caricia que tão bem conhecia.

Recostou a cabeça e entreabriu as pernas, antevendo o gozo, habitualmente extremado, sem imaginar que outros motivos surgiriam para que jamais esquecesse aquele momento.

Ter arrancado as melhores notas na Academia antecipava-lhe um futuro radioso e brilhante, de cujo orgulho desfrutava já por antecipação. Com esse pensamento deixou que aquelas mãos lhe percorressem o corpo, numa provocadora carícia que lhe causava vera estranheza, como se a carícia fosse mais desejada, ou se tivesse tornado repentinamente mais perturbadora. Era uma sensação nova e agradável multiplicando por mil todas quantas sentira até ali.

 Aqueles dedos deslizando suavemente causavam-lhe agora arrepios, olhava os braços, tisnados do sol, mais ásperos que pele de galinha. Contudo abandonou-se numa concupiscência consentida e repartida, que lhe causou um estremeção sentidas que foram as mãos abrindo-lhe as pernas, e uma boca libidinosa de hálito quente sugando com urgente avidez a essência do seu ser.

A voracidade daquela boca impenitente fez com que se sentisse crescer, e um fogo subindo-lhe das entranhas tomou conta da situação até que o horizonte e a razão se toldaram. Primeiro um rubor nas faces, depois um tremor de mãos dadas com calafrios, desaguando num turbilhão incontrolável, o corpo aos sacões, tal qual olhasse de frente o sol ígneo. Algo algures no fundo de si eclodiu num jorro irreprimível, misto de luz e prazeres tais que só a graça dos deuses poderia igualar, foi como se tivesse sido derramada sobre todo o Peloponeso uma chuva de estrelas cadentes. 

Debaixo do sol e do céu, vindo de bem fundo de si e das suas entranhas, algo irrompeu em erupção contorcendo-lhe o corpo, algo que jorrou repentinamente, num relâmpago, deixando-lhe o corpo prostrado, desfalecido, sorriso rasgando-lhe a cara, provando a lânguida felicidade experimentada e vivida.

A fácies do mestre denunciava igualmente a enorme gratidão devida aos deuses inundando-lhe a alma. Cuspiu numa bacia sob a tarimba que lhes servira de leito o leite, ainda aguado, que tanto o deliciara, limpou-se a um pano branco de algodão do Egipto, procurou e beberricou uma taça de vinho quando, batendo solenemente com a mão na testa:

- Raios e coriscos Heitor ! Esqueci-me e profanei o jejum, que os deuses me perdoem.

Heitor sorriu ruidosamente lembrando-se que, a ser verdade ter o mestre compilado uma lista, era inegável ocupar o topo, não tinha sido alvo da sua atenção e acabado de testemunhar quanto era amado ? E que seria aquela sensação nova e avassaladora que minutos antes experimentara e sentira ?

- Já és um homem Heitor, acabaste de mo provar, não demorará que sejas chamado para a tua aprendizagem guerreira, o quê ? Isso que acabaste de experimentar ? A ejaculação ? Somente uma prova de que já não és menino, a infância foi-se, entraste na juventude, goza-a, quando findar terás metade da tua vida vivida. Agora vai, os teus pais esperar-te-ão, já é tarde, conta-lhes o sucedido hoje, antevejo-os felizes e orgulhosos do seu adónis.

Heitor atirou sobre o ombro à tiracolo a guita que amarrava os papiros e, apressando o passo rumou ao treino de triatlo, a hora tardava e queria desesperadamente passar por casa e relatar aos pais aquela maravilhosa manhã.

Abraçou o mestre, pensando para si mesmo estar explicado o acne que desde a última maratona vista lhe bexigava a cara. Confessou-lho e este prometeu levá-lo, interceder por ele e inscrevê-lo na cidade de Maratona, cuja prova para o ano que se aproximava exigia que começasse já intensa preparação. Teria tempo para treinar e completar os catorze anos, exigência mínima daquela prova.

Uma vez mais Heitor sentiu-se agradecido, apertando mais o abraço, naquele momento julgou serem eles as duas criaturas mais felizes do Pireu, em simultâneo notou no mestre uma ligeira mas notória excitação e, buscando-lhe uma abertura na túnica, subtilmente procurou-o e tomou-o na mão.

O mestre acusou o toque e, brincando, fez com que caíssem os dois sobre o leito modesto que a tarimba era. Respeitosamente percorreu-o com os dedos, primeiro numa ousada e propositada carícia, depois, num desafio, pegando-lhe com vigor e, sem deixar de o olhar nos olhos, masturbou-o com carinho e ternura.

Não demorou que ambos se imaginassem no Olimpo, com um esgar seguido de longo sorriso o mestre deixou-se adormecer.

Heitor tapou-o com uma manta leve, colorida, e fez-se à estrada cantarolando, feliz.


quarta-feira, 1 de abril de 2015

232 - EUROPA QUERIDA EUROPA * ........................


     O continente europeu e em especial os europeus ocidentais têm assistido ultimamente a um confinamento geoestratégico que, se ainda não os submeteu nem os pressiona, no mínimo lhes tira o dormir.

No seu interior o crescimento da extrema-direita, a leste a Crimeia primeiro e a Ucrânia depois, a sul o avanço do estado islâmico, são realidades, não somente aparências e constituem factos e presenças amplificadoras da ameaça terrorista que lhe morde os calos. É isto que a actual Europa tem hoje para nos oferecer, para além do espaço Schengen claro, e de uma moeda e política comum que cada vez mais são fontes de dissensões e dissabores. Não há uma estratégia comum, nem um exército comum, e quando chegar a altura e a necessidade também não haverá táctica comum que lhes valha… Nem gentes comuns dispostas a fazê-lo….

Nem vale a pena carpir mágoas, nem tudo será negativo ainda que ecluda o pior cenário. Apesar de tudo a Europa ainda é o continente com a mais favorável distribuição de riqueza, (existe porém enorme disparidade entre os países da UE) quer no que concerne à riqueza oriunda dos rendimentos do trabalho ou de rendimentos de capital ou de propriedade, digo apesar de tudo pois igualdade nunca houve e está mesmo a crescer de novo entre nós, lenta mas inexoravelmente, a desigualdade.

Causa maior desta apesar de tudo tao benfazeja, ou proclamada igualdade que a Europa actual goza, foi o período que englobou as duas grandes guerras. Havia, antes da destruição de nível mundial que elas provocaram, uma desigualdade muito maior no mundo, e entre nós. Benditas guerras que, mau grado os inconvenientes que induziram e o caos a que nos arrastaram, também nos legaram méritos que fruímos longo tempo mas estamos a esquecer, tais como liberdade, fraternidade, igualdade e solidariedade, pormenores não de somenos importância e reflectidos em coisas simples como o emprego, o crescimento, o bem-estar e a comodidade. Todavia com o passar do tempo todas estas “facilities” que 60 milhões de mortos nos legaram só nos tornaram mais cínicos, mais egoístas e mais individualistas.

Dantes era um por todos, todos por um, agora é cada um por si.

E não pensem que ironizo ou brinco, basta olhar para os estudos sobre o “Capital” que Thomas Piketty ** desenvolveu e felizmmente para nós muito fácilmente acessíveis na net em http://piketty.pse.ens.fr/fr/ e muito simpática e especialmente em http://piketty.pse.ens.fr/files/capital21c/en/Piketty2014FiguresTablesLinks.pdf para confirmarem a verdade das asserções que atrás fiz.

Cresce a desigualdade, cresce o desemprego, cresce a falta de solidariedade, cresce a pobreza, são variáveis muito perigosas de manipular se as não levarmos a sério, contudo não levamos, andamos a brincar com o fogo. **

Mas como ia dizendo, não desesperemos. Outra guerra só nos iria fazer bem, em primeiro lugar alguém, finalmente, criaria uma verdadeira politica virada para a juventude e de um dia para o outro, ao invés de agora que andam há meses, senão anos, para parirem politicas como o VEM, para os mais jovens, no caso emigrantes. No aperto seria o VEM E VEM JÁ !

... e ai de quem não viesse, portanto não é falta de atenção à juventude, é falta de motivação para perder tempo com ela. Imagino que todos os destinos do Erasmus passariam em exclusivo para as fronteiras nos Urais ou no Mediterrâneo e o recrutamento seria mais que certo ….

Uma das iminentes vantagens seria que se perderia nos jovens a atracção pela aventura e a sua partida incógnita para a Síria e para o Iraque. Um mundo de oportunidades se lhes abriria a leste, ali, de certeza haveria campo para demonstrarem e aplicarem a sua coragem, a sua heroicidade, a sua entrega a uma causa, o seu desprendimento das coisas terrenas e ou mundanas. Com a vantagem de se escoarem stocks e abrilhantarem o uso e comprovado sucesso das armas em armazém e em estudo ou desenvolvimento, sem que tal representasse para eles, jovens, um custo acrescido.

Muitos deles e delas encontrariam no seio das forças armadas e pela primeira vez uma família funcional, um lugar seu, uma cama, lençóis banho, aquecimento, roupa lavada e quiçá refeições quentes todos os dias, não esqueçamos que se trata de três ramos diferenciados portanto diversificados, e cabalmente capazes de acolherem as mais variadas vocações, atentem que vos falo de ramos sem aperto orçamental. Não duvido que todos esses e essas jovens saberiam gerir e prolongar a guerra, fazer-se ou tornar-se necessários, incontornáveis mesmo. Um bom planeador ou programador e já agora mobilizador, líder, mandaria fazer atempadamente centenas e centenas de condecorações e cruzes de guerra apropriadas.

O problema da ligação das linhas de caminho-de-ferro entre nós e a Europa seria solucionado em três tempos, mais rápido que de imediato, e aposto que o óbice da bitola nem sequer se colocaria.

O desemprego jovem baixaria como que por magia e a juventude encontraria finalmente uma razão de vida, uma ocupação digna, nobre mesmo, sendo que os mais empenhados saberiam começar a construir logo ali uma carreira profissional, um futuro, dando corpo a uma vocação, o que pela primeira vez em quarenta anos seria um desígnio vero, levado a sério e prosseguido com coerência neste país. Relembro os tais três ramos sem controle orçamental… absorvem muita coisa…

Meia dúzia de bombas a sério em meia dúzia de cidades mudariam de imediato a Europa. Então, e só então, seria vê-la a fazer em cima do joelho tudo o que não fez com tempo, a mobilizar-se mobilizando tudo e todos no interesse comum, a entregar / distribuir tarefas e planos definindo prazos e objectivos a cada país, navios de guerra na Lisnave e submarinos em Viana do Castelo, tanques de guerra na Krupp AG alemã e aviões aos franceses da Dassault-Breguet, destróieres aos estaleiros italianos Fincantieri, armas químicas na Unidade Experimental de Defesa Química em Porton Down, Wiltshire, Inglaterra e aos holandeses, belgas e luxemburgueses, espoletas.

Leis refinadas, justas e calibradas cairiam em cima de quem iludisse o fisco, e toda a organização europeia seria canalizada, à vez, para o esforço de guerra: Finalmente veríamos em três meses a tomada de medidas conjuntas que a CEE ou EU nunca bolsou em vinte anos e o futuro sorriria a todos nós por muito tempo, calcula-se que dada a capacidade técnica actual a reconstrução de uma Europa arrasada nos garantisse, a todos, (de novo a todos) a todos os que sobrassem vivos claro que dos mortos não reza a história, bons empregos por mais de cinquenta anos, além que aos mortos poderíamos ficar com as heranças, as namoradas, os empregos, as contas bancárias, as casas, (as que tivessem ficado de pé) as jóias, os PPR, os certificados de aforro, as acções e participações….

Enfim, uma indeterminada e extensa amálgama de facilidades, proventos e oportunidades que esta paz podre nunca saberá proporcionar-nos nem que dure cem ou duzentos anos. Estará, em especial nas mãos de Putin, resolver os seus problemas e os nossos, os seus de coesão da grande mãe Rússia, os nossos, mais comezinhos e somente uma catrefa de contradições e estrangulamentos em que o excesso de democracia e o politicamente correcto nos enredaram. Estamos enleados em necessidades que urgem e falta de coragem para as suprir, nunca se tornou tão difícil levar reformas adiante, todos querem tudo mudado desde que tudo fique na mesma, uma guerra aplanava o terreno para a aceitação de reformas que de outro modo jamais alguém se atreverá a efectuar, quem contesta mudanças ou o que quer seja depois de um país arrasado pelo destino ?

Uma guerra pode ser uma bênção, pode ser o princípio da redenção, uma boa calamidade tudo permite e tudo fundamenta, autoriza, aprova, já há trezentos anos Thomas Malthus,*** o pai da demografia, ao debruçar-se sobre os factores que nos iam equilibrando a fomeca meteu as guerras ao lado de medidas automáticas de harmonização deste mundo, ao lado do que ele chamou medidas higiénicas, que permitiriam garantir que os bens alimentares chegariam sempre para aguentar a população deste planeta, tais como febres, cóleras, pestes, há portanto males que vêm por bem…

 Benditas guerras repito, e se Thomas Malthus *** não as recomendou ou aceitou, pelo menos no-las explicou convenientemente, e de facto elas são motores de evolução, na tecnologia, na medicina, na biologia, na finança, ou vocês não sabem quanto elas mudaram o mundo ?

E pra melhor….





quinta-feira, 26 de março de 2015

231 - IMPONDERÁVEIS................................................

                             
A crescente proximidade da Páscoa alegrava-o, as perspectivas meteorológicas prometiam bom tempo e o sorriso de Heidi, de quem pedira a mão, tornava-lhe ansiosa a passagem dos dias até essas férias.

Como sempre fizera desde rapaz, com tanto empenho quanto orgulho, escalaria o Maciço dos 3 Bispos, desta vez Heidi acompanhá-lo-ia, o que tornava essa escalada ainda mais desafiadora que todas as outras.

Assoberbava-o a ideia feliz dessa conquista, tinha sido dificílimo mas conseguira impor-se a si mesmo e dominá-la mau grado todos os escolhos da escalada, de si para si diria que se superara. Frequentava as montanhas desde a infância e do tempo dos escuteiros, a aposta em Heidi era mais recente, remontava apenas ao tempo dos estudos secundários.

Escalar aquele monte pela primeira vez custara-lhe menos que conquistar Heidi, além disso contara com a experiencia do pai, velho alpinista de moral prussiana que colocava empenho e cumprimento de objectivos acima da honra.

Várias vezes esse pai austero o repudiara pendendo de cordas, ganchos e mosquetões a cem metros de altura numa qualquer escarpa com vozes de incentivo e encorajamento:

- Agora desenrasca-te meu maricas e aprende que só contigo podes contar, “dos fracos não reza a história”.

Fizera-se homem, conquistara todas as escarpas que se lhe atravessaram no caminho, conquistara o respeito e a admiração do pai, conquistara Heidi, sentia-se extrema e invulgarmente confiante e realizado.

Ultimamente (não andava bem) recordava a mãezinha com uma frequência regular. Não eram saudades mas a sua perda estava difícil de aceitar. Era linda a mãezinha. Há muito esquecera os castigos em que o metera encerrado na cave tardes inteiras, às vezes dias inteiros, sem almoço sem lanche sem brinquedos, por vezes devido a coisas tão simples como não saber a tabuada dos noves, ou hesitar na identificação de Hanna Reitsch ou Amelia Earhart, ou não saber na ponta da língua quanto devemos ao chanceler  Otto Von Bismarck.

Muito lhe custara mas tudo perdoara à mãezinha, era impossível não lhe ter perdoado, era a sua mãezinha linda, até os castigos com orelhas de burro, que ela trazia da escola com o argumento de ele não ser mais (ou menos?) que as outras crianças lhe desculpara. Sorte a daqueles meninos terem a mãezinha como professora. Jurara-lhe mesmo ambicionar ser de aço como o chanceler e voar como Amelia e Hanna quando fosse grande.

Jurara mesmo nunca aceitar que quem quer que fosse se lhe atravessasse na frente ou o dobrasse, a mãezinha teria tanto orgulho nele como o paizinho, prezava ser ariano e honraria a sua ascendência, só por cima do seu cadáver o contrariariam e, conhecendo-o, a mãezinha decorou-lhe o quartinho com aviões e modelos primeiro e anos mais tarde inscreveu-o num clube de voo planado.  

Foi o céu na terra, nada contrariava o seu destino, pais e padrinhos conjugavam esforços para que ao menino Andreas nada atrapalhasse o devir até ao êxito, até ao sucesso absoluto, o céu era o limite, e como que caindo do céu tudo lhe ia parar às mãos.

Adorava planar, sobretudo se com nuvens. Ultimamente refugiava-se nelas tanto tempo quanto quaisquer térmicas favoráveis lhe permitissem, para o que aproveitava a oportunidade do mais pequeno voo de colina e até que atingisse uma onda estacionária. Ali se refugiava da intransigência independentista de Heidi, uma independência que cada vez mais lhe parecia insolência, coisa inaudita numa mulher, jamais vira ou sequer pressentira ou notara tal traço de rebeldia na mãezinha, aquilo contrariava-o, e atormentava-o, o exigente treino de voo dinâmico poupava-o a estes pensamentos.

A ser verdade o que dizem, e ela ter ido embora para Espanha, abandonando-o sem sequer lhe ter dado uma satisfação é causa para explicar muita coisa. Andreas é o tipo de pessoa que lida muito mal com a rejeição.

Olhe lá tem isso ligado ? Importa-se de colocar em OF ?

Em record nada mais tenho dizer. OK está bem, adianto-lhe que Andreas foi meu aluno até aos dezassete dezoito anos, um dos melhores, não falhava uma, e quando falhava temia a reprimenda do pai ou o afastamento da mãe e penalizava-se a ele mesmo, quantas pessoas assim opiniosas ante um falhanço, por mínimo que seja você encontra ? Uma em mil ! Ou em cem mil ! São alunos que vão parar inpreterívelmente a medicina, casualmente a engenharias, a gestão, a economia, e irrevogavelmente à politica, são casos anormais, são almas anormais, quer que lhe diga mais ? 
Não me admira nada disto.  

Como ouvi a alguém «a procura de seres perfeitos para qualquer lugar só pode levar a eleger os mais treinados na representação dessa perfeição» …  



terça-feira, 24 de março de 2015

230 - MULHERES INCONTORNÁVEIS .....................


           Era impossível não dar por elas dado o entusiasmo reinante e o clamor que levantavam, quer eu quer elas frequentamos a pastelaria “Boa Vida” há anos, confesso todavia somente agora ter reparado nisso. Não que eu seja curioso, ou cuscas como agora se diz, não, não sou, são elas que tornam impossível que não se dê pelo seu grupinho, pela sua alegria, pela sua vivência, empenho, entrega e incontida felicidade.

Na minha mesa chamamos-lhe o grupo da galhofa, se bem que a designação não faça jus ao espirito solidário daquelas senhoras. Estava capaz de jurar nunca as ter visto antes, mas na mesa muitos garantem que as testemunham completamente mudadas. Parece que anteriormente de tão caladas ninguém daria por elas se bem que fossem habitués na pastelaria.

Agora eram comemorações e festejos semana sim, semana não, e raro o dia em que na sua mesa não houvesse algo ou alguma coisa para celebrar. Num dia era a constituição de um comité, no outro o objecto de determinada comissão, numa semana o estabelecimento de quaisquer protocolos, na seguinte a promulgação de uma qualquer medida ou legislação. Nada parecia ficar esquecido, nada parecia ficar por brindar. Hoje mesmo a conversa girava à volta de pontes, desemprego, duas almas penadas, solidariedade desinteressada, reportagens.

Ontem foi-me impossível não as ouvir gizando um grupo de socorro local vocacionado para os desfavorecidos da “Boa Vida”, decidiram-no de valência abrangente e integradora, de acção articulada com a comunidade e potenciadora de efeitos e expectativas que causas de tal dimensão sempre geram. No meio do banzé geral muitos beijinhos e abracinhos, muito chá de limão ou lúcia-lima, muitos jesuítas, muitas risadas e uma indisfarçável felicidade que toda aquela risota expunha a ouvidos e olhares.

A morena dos caracóis que dissertava sobre a angariação de roupas, calçado e brinquedos usados e respectivos canais de redistribuição não me era estranha. Costumava vê-la sozinha numa mesa da padaria tomando o pequeno-almoço, cara carrancuda, modos introvertidos, demorei a reconhecê-la, quase nem a reconhecia, tal a pacífica e feliz expressão agora reflectida no seu olhar. Toda ela estava mudada, eu apostaria até que melhor cuidada, verniz fúxia, baton a condizer, e ao dar conhecimento ao Reinaldo destes meus pensamentos largou uma gargalhada e, fixando-me nos olhos só acrescentou:

- E agora usa Wonderbra aposto !

Pela minha cara o Antunes adivinhou que ficara a patinar com a resposta do Reinaldo, aplicou-me uma disfarçada cotovelada e sussurrou:

- Largou a Triumph pá, agora tá noutro campeonato…

Confesso que se já estava confundido pior fiquei, para mim o campeonato eram a Suzuki, a Yamaha, a Honda, onde tardava mas só agora as marcas italianas começavam a impor-se e onde a Triumph jamais conseguira uma vitória, nem sequer me constava que tivesse estado inscrita. Embatuquei mas quedei-me por ali, não estava a alcançar a relação nem isso me afligia, e o Peres, olhando a minha desistência, esboçou um gesto despercebido aos demais para que eu entendesse a subtileza das coisas e quando colocou as mãos em concha junto ao peito imitando sopesá-lo, fez-se repentinamente luz no meu espírito e afivelei um rasgado sorriso. Sim, também seria verdade, pensei.

Até a ex. do Patrício parecia outra, era quanto a mim uma das mais activas do grupinho, faço notar aqui que era uma mulher bem-parecida gostando de se impor. Depois do divórcio passara certamente mal durante uns tempos, notava-se-lhe na cara e no descuido a que se entregara, contudo nunca desistira das suas ideias, e se por um lado lhe custaram o divórcio, não era menos verdade que levara a sua avante e dobrara o Patrício a quem, ao fim de muitos anos, obrigara a mijar sentado.

Não é segredo, toda a gente notava que o porcalhão salpicava os sapatos, e os ladrilhos da casa de banho acrescentaria a Lélia, coisa de somenos mas que lhe infernizava os dias e complicava com os nervos. Ela dobrou-o, todavia já foi tarde, a animosidade acumulada foi tanta que nem o facto de ter ganho a demanda evitou um divórcio litigioso.

Posteriormente tudo se passou muito depressa e nem conheço bem os pormenores, sei que o Patrício, despeitado, voltou a casar-se em três tempos com uma ruiva mamalhuda filha de um coronel que vivia ao fundo da mesma rua e que nunca fizera nada na vida (refiro-me à filha, embora dele pudesse dizer o mesmo) dizem as más-línguas que ela ter menos vinte e muitos anos que ele, facto que não ponderou, poderá ter contribuído para que tivesse baqueado que nem um patinho, porém toda a gente na avenida sabe que se tratou de um enfarte fulminante. Acontece aos melhores…

Acredito ter sido após este episódio que a Lélia voltou a dar acordo de si e a cuidar-se novamente. É provável que tudo tenha perdoado ao Patrício, ou então, como se compreenderia que encabeçasse a comissão instaladora dos “Patrocínios Patrício, Almas do Céu”, destinada a dar assistência aos desvalidos e deserdados da sorte no âmbito da paróquia ?

O meu bairro está a mudar, ele são intenções veladas de transformar o velho armazém numa capela, ele é a tecedura de acordos e acções de voluntariado com a Misericórdia e a Cáritas, ele são as filas da “Sopas & Paz”, isto tá de tal modo que um bairro tristonho amorfo e aparentemente deserto em que até os cafés fecham às 19:00h se está tornando hiperactivo como nunca se vira, em especial de há meia dúzia de anos para cá…

Um bairro onde as mulheres atiraram às urtigas o crochet e os homens as olham espantados, onde elas se dedicam entusiástica e efusivamente à acção cívica e abraçam o social com a mesma devoção que a Isabel Jonet entrega a alma aos pobrezinhos. A propósito, um cartaz à entrada da pastelaria anuncia-a como oradora convidada numa palestra promovida pelo grupinho “Escravas De Madre Teresa” calculo eu que de Calcutá pois o coronel, velho combatente da India portuguesa abraçou a causa sem sequer se interrogar e participará igualmente na tal palestra, intitulada “Será A Pobreza Trilho De Redenção” ?

Toda esta gente amorfa ganhou súbita e milagrosamente vida, gente sem objectivos tem agora uma causa, a crise criou a oportunidade e toda a vizinhança, tudo quanto era dona de casa desesperada ou frustrada é agora um soldado mobilizado na nobre tarefa da caridade e do voluntariado, as cabeleireiras da urbanização voltaram a abrir aos sábados de tarde, acredito que uma graça divina caia actualmente sobre os pobres na minha paróquia, a reciclagem de roupas, calçado, brinquedos e livros atingiu proporções inusitadas de que as pagelas que estas santas senhoras distribuem nos dão conta com um fervor desmesurado.

Por favor não estranhem a minha ausência, vou desaparecer por uns tempos, alguém disse a estas alminhas caridosa que em tempos dei aulas no oratório salesiano e chegou-me aos ouvidos estarem contando comigo, como contribuinte da sustentabilidade do grupinho e sobretudo para debater com a Jonet a vida e a obra de S. João Bosco … 



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quarta-feira, 11 de março de 2015

229 - O PREÇO CERTO ................................................


Com redobrado cuidado, coisa que nem era apanágio seu, evitou riscos ou pancadas no esmalte branco da banheira, todo o cuidado seria pouco, o apartamento era novo e a confiança com os vizinhos era ainda recente, por isso a desmembrou sem pressa, com ternura, e muito pesarosamente.

Armado de sentida lástima não conseguiu contudo evitar, quando do corte e estraçalhar de zonas mais intimas, o emergir de recordações gravadas a fogo na sua memória, nem que uma ou outra lágrima lhe tivesse acudido e soltado, à revelia do asseio pelo qual tanto primava.

Manobrava o cutelo e a faca com destreza, somente os sacos de plástico lhe pareciam não ser suficientes para o efeito, nem compreendia a fobia que repentinamente se levantara à volta e contra os mesmos. Em boa verdade nunca pensara que um chapadão acabasse como acabou, cada vez se tornava mais difícil encontrar quem acatasse ordens sem as discutir ou aceitasse trabalhar aos fins de semana e feriados, e ele atravessava uma fase em que dificilmente aceitava ser contrariado, até por lhe ser pacifico que toda e qualquer razão o assistia.

Noutro canto da cidade, não fossem as novas medidas de combate ao tráfico de seres humanos e um pai teria mesmo conseguido vender a filha, menor. A vida, ou simplesmente sobreviver, era coisa que andava pela hora da morte, e com maior ou menor riqueza de pormenores era assim, ou era isto que a imprensa trazia à colação e estampava na primeira página com fotografias a cores ou desenhos detalhados.

Tudo se vendia, tudo se comprava, tudo se traficava, tudo tinha um preço. O povinho espantava-se e devorava este tipo de notícias com a mesma avidez com que acompanhava na Tv o “Preço Certo”, raramente se questionando sobre causas ou razões, e menos ainda sobre os preços dos produtos e serviços a pagar ou o custo fiscal das transacções.

Tudo tem um preço, a questão é se o dito é baixo ou alto, e o busílis assenta simplesmente na questão de sim ou não e se estamos dispostos a pagá-lo.

Antes que me chamem nomes por tê-lo comprado vermelho, digo-vos que ontem, finalmente, fui comprar no Stand Maravilhas um soberbo carro de cinco portas. Custei a decidir-me, quer o stand quer a marca estavam repletos de carros para todos os gostos e sobretudo para todas as bolsas. Fiz as contas de cabeça e de papel e lápis e conclui que, uns modelos não estavam ao meu alcance e outros não valiam o carcanhol que por eles se pedia. No fim tomei firmemente uma opção meramente racional e de acordo com os meus rendimentos e avaliação do produto e das circunstancias.

Decidi-me pelo preço justo e por um modelo que conquistara a minha Maria desde o dia em que pela primeira vez visitáramos o Stand Maravilhas. Comprei um Nissan Note branco pérola que lhe luzira ao coração e fui para o café de ar inchado e mãos nos bolsos celebrar e comemorar, isto é, molhar a compra e mostrar àqueles pindéricos que ainda me dou ao luxo de gritar de alto e dar ordens à “CrédiBom”. 

Escolhi bem e foi uma opção deveras racional, o vendedor de usados foi o primeiro a reconhecer a minha sagacidade, tanto que me presenteou com um vigoroso aperto de mão e uma valente palmada nas costas. Não é todos os dias que vemos gabada a nossa perspicácia, trago esta conversa ao de cima porque os cabrões impiedosos no café

- A Renault dá mais tempo p’ra pagar e sem juros ó parvalhão – largou o César a quem a sogra oferecera um lindo Aixam bordeaux …

- A Toyota tem carros melhores e mais baratos e tinha-te dado mais tempo de garantia ó xoné - Alvitrou o Carriço que há uns cinco anos pediu o Mercedes emprestado à mãe e ainda não teve ocasião de devolver-lho…

No meio desta festarola salvou-se o Simões, o único que teve uma atitude digna e consentânea com a longa amizade que levamos

- Toma lá Baião compra uma ponteira de escape daquelas que roncam com estes vinte euros goza bem o carrinho, saúde, felicidade vida longa e bons passeios, qualquer dia temos que ir molhá-lo à Amieira não te parece ?

Confesso que me vieram as lágrimas aos olhos mas contive-me, por várias razões, vinte euros não chegariam para a ponteira, nem sequer para a gasolina de ida e volta à Amieira, não mencionando que me caberia a mim pagar o almoço comemorativo da compra, mas sobretudo para não me distrair e me afastar do tema de hoje que se bem me lembro é o preço certo ou não é ? O preço que estamos dispostos a pagar pelas coisas, é ou não é ? E certamente não será por uma ponteira, um almoço ou uns litros de gasolina mas pelo preço da vida, ou melhor do custo de vida.

No nosso país está tudo pela hora da morte. Esta democracia está a sair-nos caríssima não está ? E mais cara ainda se atentarmos no pouco que nos dá em troca. Para a carga fiscal que suportamos temos futuro a menos, emprego a menos, estabilidade a menos, saúde a menos, fim do mês a menos e dias a mais.

Temos seguramente crescimento a menos e oportunistas a mais, estadistas a menos e ladrões a mais, enforcados a menos e políticos a mais.

E ainda a música da regionalização não recomeçou a soar de novo…