terça-feira, 7 de junho de 2011

POUR TOI, MARIE KOVACS *....................................

                      

 Marie Kovacs é francesa, 68 anos, professora aposentada, casada há muito com um português que, segundo ela, acolhera no seu seio na década de sessenta e quando nem sabia, em Paris, onde cair morto.

Deixou filhos em França e veio com o seu Aníbal viver a reforma em Portugal, cuja gastronomia aprecia e onde o sol, a julgar pelo que diz na sua carta, a maravilha.

Todavia compreendo as razões de queixa que me apresenta, um casual mês “de vacances au Portugal “ não era o mesmo que os três anos que já leva entre nós. Um mês não chega para apreciar este torrão à beira-mar plantado, três anos é tempo suficiente para lhe descobrir as mazelas.

Da sua carta roubo uma frase, uma única, só, que não expressando totalmente o que lhe vai na alma, avivou em mim recordações daquelas que nos fazem deixar cair uma lágrima.  “ Et le Théâtre mon Dieu ! le théâtre “ !

Esta simples frase, nem por sombras a mais expressiva da sua “lettre”, (fala e lê bem o português, mas não o escreve), deu o mote a esta crónica e pretende expressar a Marie a minha compreensão pela situação que está vivendo entre nós, a minha solidariedade e simultaneamente um louvor à sua terra.

Corriam os finais dos anos oitenta, eu e meu marido passeávamo-nos em Paris, no “Bois de Bologne”, quando, na sua orla, do lado em que o mesmo confina com uma moderna zona residencial, se não erro “La Defense”, descortinámos invulgar movimento em redor de uma “Église”.

Do lado do bosque, caravanas, parecendo pelo seu exotismo, pelo tipicismo dos carros de muares, pela exorbitância das cores e das músicas um acampamento de saltimbancos.

Na contra-mão do mesmo “boulevard”, à porta da igreja, de um lado enorme cartaz pintado, do outro uma bilheteira em madeira, tipo barraca e qualquer deles rivalizando nos desenhos e cores com o alegre carnaval das caravanas. Bem anunciado; “Le Théâtre des Moliéres”, com espectáculo a decorrer na igreja (?), e cujo início se processara, segundo o horário afixado, há um quarto de hora.

Na bilheteira ninguém (viríamos a pagar somente no fim o que cada um quis), curiosos entrámos, a lotação estava a meio, imperava o silêncio, todos pareciam recatados, mais parecendo em oração que esperando uma peça que não recordo bem o nome mas aludia a qualquer coisa como “Le Monde réel c’est ici”. Única nota discordante, o trajar de alguns dos espectadores, expectantes, fugia em certos casos à normalidade vigente, ou por algum absurdo, ou por excentricidade. Não percebi mas calei, fui esperando, a igreja enchendo, contrastando a solenidade dos presentes com o inusitado movimento, som e cor que lá fora bradava aos céus.

Quando o cerimonial começou reparei que se tratava de um espectáculo inusual. O coro, de uma heterogeneidade de idades, vestes, sexos e raças que só tinha paralelo com o eclectismo que assinalei na assistência presente, começou com o que me pareceu “ A Marselhesa”, não tendo ficado a saber de onde e como foram aparecendo, aos poucos, nas suas mãos, os mais díspares instrumentos musicais.

Levantei-me, desviei-me um pouco para a coxia, na tentativa de observar em melhor ângulo determinado pormenor.

Um chefe de família e sua prole, (espectadores atrasados, pensei), ao encontrar-me no meio da coxia estendeu-me a mão e deu-me dois francos !, era o que faltava ! então não fui confundida com o sacristão, ou o arrumador ?

Debalde tentei devolver-lhe as moedas, sorria para mim, um sorriso do tamanho do mundo, de quem achou imensa graça (não sei a quê), recusou a devolução e fez-me sinal, indicador nos lábios, que me calasse, o que fiz.

Quando pretendi reocupar o meu lugar, sentei-me inadvertidamente no colo de um cavalheiro que sub-repticiamente ocupara o espaço por mim deixado vago ! Sem barulho, senti contudo pelo seu sorriso que ria a bandeiras despregadas, amuei e fiquei de pé, não daria àquele palhaço o prazer da minha atrapalhação.

Palhaço sim, pois como vestia mais parecia um palhaço !

No entretanto o coro avançara, tocou / cantou  Charles Aznavour, Jacques Brell, Maurice Chevalier, Edith Piaf, outras, muitas e alegres canções típicas francesas, abandonou a sua postura, e apercebi-me então que entre o coro e a assistência havia troca de lugares, e de papéis !

Dei-me conta mais tarde que talvez um quarto da assistência fazia parte da trupe, entre eles o tal chefe de família e o citado palhaço !

Assistência e personagens haviam-se aos poucos fundido. Como cá, se fez lá aquela fila indiana que dançamos ao som de “ O comboio apita, apitou três vezes...”. O espectáculo transbordou para fora da igreja, percorreu as rua limítrofes, viveu, conviveu e ligou-se aos passantes, passeantes, habitantes e operários encontrados. A todos arrebatou e arrebanhou.

Um senhor sentado à beira do bosque gritou comigo (eu ia na marcha), levantou-se irado, ameaçou-me com uma cana, que lhe tirei das mãos.

Noutra galáxia eu,  gritei-lhe; s'asseoir !, sentou-se, - Em pé !, levantou-se !

Abalei a correr, cantando alegre, para não perder a marcha, e surpreendida com a minha ousadia. Alguém me tirou a cana, deram-me uma bandeira bem grande que de imediato me lembrou um espectáculo / bailado chinês de “ Bandeiras Vermelhas”, que vira em 75 em Moscavide no auge do PREC. A bandeira virou gaita de foles !

E eu que não sabia tocar, toquei, eu que não sabia bailar, bailei ! eu que não sabia cantar, cantei !

Quando tudo terminou e reencontrei o meu marido, perdido como eu no seio de tamanha multidão, chorei ! Peguei-lhe nas mãos, chorando, e gritei-lhe; 

- Berto ! Isto é teatro !

Apaixonei-me logo ali pelo teatro, de lágrimas nos olhos, emocionada, teria abraçado uma carreira se mo tivessem pedido. Metade daquela gente misturara-se secretamente entre todos nós para nos divertir, para nos dar momentos inesquecíveis, vívidos.

Não fui ao teatro, fiz teatro !

Teatro que não sei classificar, se de revista, musical ou de outro cariz. O cartaz tinha razão; “ La realité c'est ici”, a realidade esteve ali !

Talvez compreendam agora porque mui raro vou ao teatro, custa-me  desvirtuar a ideia linda que tenho do teatro.

O teatro é a vida, eu fiz teatro, eu sou vida.

Como a compreendo Marie.

* In Diário do Sul, Kota De Mulher, – Évora,  por Maria Luísa Figueiredo Nunes Palma Baião, publicado em fins de 2005 princípios de 2006

segunda-feira, 6 de junho de 2011

55 - A MULHER QUE RECUSOU UM BEIJO...



Porque me lembrei da catequese logo naquele dia, naquele momento?
Não sei, ainda hoje não sei.
Sei que reagi inconscientemente e foi o fim.
Não foi logo, mas percebi perfeitamente o enfado dele, a desilusão instantânea, o afastamento progressivo até deixar de aparecer por completo.
Até hoje. Tudo por causa de um beijo, custa-me acreditar, hoje, naquele dia.
Só eu sei onde arranjei forças para me conter, para me assumir, para recusar o que tanto esperara e ardentemente desejara.
Nunca mais o vi, nunca mais um sonho tornado pesadelo me abandonou.
E tudo por causa de um beijo, como hoje acho tudo isso ridículo, me acho ridícula.
Mas tenho os meus sobrinhos, e quanto o Elias é parecido comigo! Um amor!
Já o Hernâni, não sei, não sei que lhe acho, que tem o rapaz, tão embirrante que irrita, tão parecido com ele, com ele como era há mais de trinta anos.
As mesmas sobrancelhas carregadas, o semblante, os dedos finos com as mesmas unhas esguias e quadradas.
Até assusta credo, raio do rapaz que só me traz recordações, e logo as que nem queria lembrar. Tudo por causa de um beijo.  Mas que me levou a recusar aquele beijo?
Ainda hoje não sei.  Só sei que não o esqueci.
E tanto que faço por esquecer, mas como evitar?
Aquelas mãos que as minhas seguravam, os seus avanços seguros, tímidos mas ousados, que nunca paravam. Porque terá teimado beijar-me naquele dia?
Eu segurava nas suas, volvia-lhas afagando-lhe as unhas que me impressionavam, como as invejava!
Óptimas para pintar, sempre arranjadas, tinha unhas de mulher dizia-lhe eu brincando.
A minha irmã, Deus a proteja, ela e aqueles sobrinhos são a minha graça.
Terá ela alguma vez recusado um beijo?
Ando aborrecida, hoje, sempre, os dias sempre iguais, casa escritório, escritório casa, e a Tv, sempre a mesma, as novelas que me parecem todas iguais, adivinho-lhes o fim, o enredo, os falsos e as sonsas, que fartura, nunca imaginei!
Nunca mais vi umas unhas como as dele…
E os canais de cinema, que tolice, não sei que os diferencia das novelas, é tudo uma parvoíce pegada, mas como vim parar a isto, que enfado!
No escritório, o Raul, tão parvo, nunca percebe que se lhe digo que não é por feitio, e nunca insiste o parvo. E umas unhas...  credo dão nojo!
Roídas até ao tutano. Nunca vi ninguém com um feitio tão desleixado.
Naquela idade, solteiro, e nem em casar falou alguma vez, pelo menos que eu ouvisse.
Os amigos, as voltas, as cervejas, os jogos, o carro, que passa a vida a lavar.
Estúpido.
A Josefa, sempre alegre, uns vestidos coloridos que me fazem comichão só de os olhar. Esta gente hoje em dia não terá espelhos em casa?
E o Manuel para aqui, o Hélder para acolá, sem vergonha é o que ela é.
Por aquele andar está aqui está casada. Nem sei como não caiu já num deslize.
E os parvos que não topam o jogo dela, um dia com um, outro dia com outro, se minha mãe alguma vez me autorizaria tais coisas. Nem pensar.
Gostava de ter umas unhas como as dele, óptimas para pintar, esguias e quadradas, sempre arranjadas, unhas de mulher dizia-lhe eu brincando.
Os miúdos, que estupores, quanto mais crescidos mais tolos, nem sei como a minha irmã os atura! Parecem parvos os gaiatos, gaiatos é como quem diz, já vão sendo homens, talvez por isso estejam a ficar estúpidos.
Nem os homens são já os mesmos, passaram numa geração de atenciosos e cavalheiros a alarves.
Tanto que lhes dei, em troca de nada, sou uma parva, sempre fui, o que eles querem sei eu, são todos os mesmos, todos iguais, mas de mim não levam nada.
Ai! Tomara já a reforma.  Só já falta um ano, um aninho!
Esta rua está cada vez mais estranha, já nem conheço os vizinhos, aliás já nem conheço quase ninguém nesta cidade, tem-se tornado esquisita, não entendo esta gente nova, nem a velha, até as velhas cada vez mais talharocas.
Tanta saudade, por causa de um beijo, custa-me a acreditar, e eu que tanto esperara e ardentemente desejara, como hoje acho tudo isso ridículo, me acho ridícula, aquelas mãos que as minhas seguravam, porque terá tentado beijar-me naquele dia?
Porque terei recusado?  Porque não lembrarei tantos outros beijos trocados e não mais esqueci precisamente o único que recordo ter recusado?
Teria a minha vida sido diferente?
O cinema, as novelas, tudo uma parvoíce pegada, mas como vim parar a isto, que enfado!
Ai Afonso, Afonso, que nunca mais vi, que saudade, quando me abandonará este pesadelo?

domingo, 5 de junho de 2011

" SER OU NÃO SER " ERA E É A QUESTÃO ............

              
Blindado Chaimite, rodados em linha.

Dizer-se que ensinamos é uma coisa, pretender sabermos alguma coisa é outra, completamente diferente. Em boa verdade eu ensinava e orgulho-me de o ter feito bem, ensinava cuidava eu de dizer as coisas do meu mister, ao longo de dias, semanas, meses, anos. Dizer que ensinava é dizer pouco, pois foi mais o aprendido com aqueles a quem formava, muito mais, foi muito mais sim. Uma das matérias da minha competência tinha a ver com olhar, ver, observar e a partir daí colher informações que permitissem conjecturar e, durante anos tive relutância em aceitar, em admitir quanto eu mesmo aprendia a ver ensinando esses “cegos” a olhar.

“Só sei que nada sei” é coisa sabida de todos nós e encimando a academia de Sócrates na Grécia antiga, séculos mais tarde gente moralista haveria de escrever sobre a entrada de Auschwitz-Birkenau “O Trabalho Liberta”. Quasi ao mesmo tempo Einstein afirmaria a “Teoria da Relatividade Geral”, qualquer coisa que demoraria não milénios mas um século a ser confirmada, eu não tive que esperar tanto tempo para constatar como tudo na vida é relativo e as nossas prioridades e capacidades mudam radicalmente de acordo com o meio em que nos inserimos.

Ensinava a ver mas era também cego, cego ao que posteriormente aprendi a ver com esses mesmos “cegos” que ensinava, como um oculista que usasse óculos ou lentes de contacto. Certamente já entraram num “zoista”, digo numa loja de óptica, terão entrado talvez para ver as modas quanto a óculos de sol, repararam que nos “zoistas” toda a gente ou quase toda a gente usa óculos ? Assim estava eu, como um gerente dessas lojas, vendendo e exibindo o meu produto, ensinando a ver mas usando óculos e por que não, binóculos ?

Berliet Tramagal, rodados em linha.

A ver vamos então como paravam as modas, não dos óculos de sol ou quaisquer outros mas de golpe, golpe de vista, porque estas coisas dos olhos, do ver e do olhar, de saber ver ou saber para onde olhar, ou o que se está vendo tem, ao contrário do que poderão pensar mesmo muito que se lhe diga. Já aqui o disse, os negros em geral e em especial os negros do sul de Angola estariam culturalmente dois milénios atras de nós brancos, de nós que em quinhentos anos de colonização nada mais lhes levámos que um padrão afirmando terem acabado de ser descobertos, para além disso levámos o chicote e a escravatura. Fomos pioneiros no comércio triangular e global de escravos e desde esses tempos para cá pouco mais fizemos por eles ao abrigo dessa tão honrosa missão civilizadora e evangelizadora de que o Infante nos incumbira. 

Apesar de tudo e pelo que estudei e sei, dá-me impressão que para o negro africano das nossas províncias ultramarinas, colónias, os seus melhores tempos debaixo do nosso jugo, do nosso domínio, nem terão sido após a abolição da escravatura pelo Marquês de Pombal* mas os tempos do Estado Novo, com especial incidência no período das guerras coloniais. Abundam exemplos de comandantes nossos, severos, e não somente Spínola, exigentes quanto ao respeito devido ao ser humano negro que dominávamos e submetíamos, mau grado Bafatá (Pidjiguiti), Wiriamu e a PIDE DGS, também presente nessas províncias, colónias, e nada branda segundo reza a história.

Berliet Tramagal, rodados em linha.

Paradoxal ? Paradoxal mas real e se observarmos igualmente a história da repressão sobre o negro nos países limítrofes e vizinhos, também eles alvo da dominação branca, a história passa a câmara de horrores. As revoltas de 61 têm um fundamento histórico, e atenção, não estou afirmando haver ali uma razão fundamental, mas têm uma origem, uma causa que as explica e do ponto de vista deles as explica e justifica. O que se vê ou não vê, o que o olhar abrange depende muitíssimas vezes do ponto de vista do observador, da perspectiva, e dos seus interesses claro.


Em Wiriamu e Bafatá não viram eles o que nós vimos, a bestialidade é transversal à história, aos povos, contudo apesar de atrasados dois milénios se, por algum motivo, uma guerra nuclear ou outra desgraça o mundo fosse deixado à sua sorte os africanos resistiriam, sobreviveriam, pois ante uma perspectiva como a que desenhei, aterradora, eles vêem melhor que nós, sabem olhar e ver, vêem mais longe, vêem mais profundamente e sabem mais no que concerne ao fundamental, ao que interessa, ao que garanta a sobrevivência, ao que é vital. Eles sabem viver sem nada, nós não sobreviveríamos sem a tralha que arrastamos para todo o lado.

Imensa gente desconhece que os veículos militares nunca têm rodados duplos, podem ter isso sim o mesmo número de rodas que os modelos civis, mas uma adiante da outra, e nunca ao lado, tal desiderato diminui em cinquenta por cento a estrada pisada e como tal em igual percentagem a possibilidade de pisar uma mina e ir pelos ares. As rodas, os pneus, têm rasto, e para confundir o inimigo nós trocávamos o pneu montado na jante, virávamo-lo deixando-o numa posição em que deixava na terra um rastro que, olhando-o pensar-se e acreditar-se-ia que a viatura estivesse andando em marcha atrás, tal confundia o inimigo o qual, ao olhar o nosso rasto pensaria estarmos regressando quando afinal estaríamos indo.
Pneus de rasto neutro.

 Porém em fins da década de setenta os sul-africanos surgiram com um pneu de rasto neutro, idêntico, quer estivessem virados para a frente na jante ou p’ra trás, facto que destruiu, deitou por terra todas as elaboradas teorias mantidas, ensinadas e aprendidas sobre a leitura de rastos. Mas somente a nós os entendidos essa generalização enganou, pois os bantus nunca tinham precisado do desenho de um rasto para saberem em que sentido ele se movia. Essa e muitas outras pequenas grandes coisas do género aprendemos a ver com eles, qual o segredo, tu como farias ? Era difícil detectar-lhes o sentido da marcha se as viaturas viajassem devagar mas, desde que aumentassem a velocidade, o sentido em que a areia ou a terra do rasto estivesse tombada determinaria esse sentido. Os negros sabiam isso há milénios, ainda a roda não tinha sido inventada…

Com a generalização dos pneus de rasto neutro a sabedoria dos pisteiros indígenas por nós ensinados a ver demonstrou-nos verem melhor que nós os seus mestres, melhor e mais longe. Em pouco tempo aprendiam o que havia a aprender, o resto do tempo davam-nos cartas, aprendíamos nós com eles, e surgiam nem sabíamos de onde, da mata… O que os movia ? O que os fazia lutar ? O que os tornava tão orgulhosos de si mesmos ? Por que lutavam por se superar ? Por que nunca se lamentavam ? Por que granjeavam com o tempo honor e respeito junto dos seus ? Por que nunca tinham fome ? Nem sede ? Nem dores ? Por que lhes bastava ser ? 
Pneu de rasto direccionado.

Dentro da realidade vivida e alteridade impunha-se e cambalhotava-nos todas e quaisquer noções por nós carregadas desde a metrópole. 

O que era ser ? O que significava para eles ?

Voltaremos a este tema.

Berliet Tramagal, rodados em linha.

* Reinava de D. José I quando a 12 de Fevereiro de 1761 a escravatura foi abolida pelo Marquês de Pombal na Metrópole e na Índia. Seria um Decreto de 1854 a ordenar a libertação dos primeiros escravos, os do Estado, mais tarde os da Igreja por Decreto de 1856. Uma lei de 25 de Fevereiro de 1869 viria a proclamar a abolição da escravatura em todo o Império Português até ao termo definitivo em 1878.


Rastos de pneus direccionados.

QUÁSI *

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse àquem...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dôr! - quási vivido...

Quási o amor, quási o triunfo e a chama,
Quási o princípio e o fim - quási a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dôr de ser-quási, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos d'alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ansias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indicios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sôbre os precipícios...

Num impeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .
Um pouco mais de sol - e fôra brasa,
Um pouco mais de azul - e fôra além.
Para atingir, faltou-me um golpe de aza...
Se ao menos eu permanecesse àquem...

* Mário de Sá-Carneiro, in 'Dispersão'


Rastos sobrepostos de pneus direccionados. 

sexta-feira, 3 de junho de 2011

54 - AQUELA LINDA PEDRADA . . .




Que noite esta de estrelas suaves e suave amanhecer…

Em que desfraldo estandartes largo foguetes, grinaldas…
Que sonho este meu Deus!

Violas, luzes, caleidoscópios, astrolábios, que céu meu Deus esta noite!

E que colorido está!
Só me apetece cantar!
Eu sou aquele voando !!!! Eu sou este aqui sonhando!!!!!

Sou doidão famoso adejando como pena sobre nuvens de marijuana...

Singra-me a alma os oceanos, enfunam-se-me as velas de desejos recalcados, me sussurram os ventos aos ouvidos que este sonhado mar é pr’abraçar e nele me extraviar envolto em espuma brilhante, porque tem nas suas águas, saudades dos dias passados, um berço de prata e ouro, alento de me e te querer, pois numa guitarra eu te ouço, teu nome ela me cicia e grita, sibila e chora em expiação...

Que festa!
Chama-me querido, guapo!
Ai que me escapo e te trinco!

Maria juana mari juana, p'ra libertar-me e pensar, p’ra me enamorar outra vez!

Porque hoje não caibo em mim!

E como atleta corro, corro a milha e só então em mim reparo, aberta a braguilha!

Ah! Que falta de decoro e de atenção!

Noite de suspiros e ais, logo abotoo-o... o coração, perco a saudade esquecida, tomo nas mãos esta guitarra, dedilho brisa suave, de amor e de chamamento, por baixo da noite estrelada percebendo nesta pedrada com que Orfeu me inspirou, uma madrugada feita e a garganta a arranhar de tanto que te cantei até teu mar me inundar.

E só de mim olvidado, solto, nesta sangria me banho, e invento uma anedota dando por mim em pelota... kkkkkkkkkkkkkk !!!!

Tira-me agora o retrato que estou sem nenhum fato olhando as águas do mar e, como sempre quando sonho, és tu que vejo a meu lado, e já não desesperado, inventando o que Abril esqueceu, crio tal impulso e volúpia, vindos do fundo de ti, que não crendo estar neste mundo e por muito que o não queira, esqueço o refrão de entrudos!

Um dó li tá! Quem está livre livre está!
Salto à corda, brinco à cabra cega, ai!
Meu Deus que sensação!
Isto não tem princípio nem fim!

Não quero cavalo nem haxe, quero um toco de mari juana, quero voar outra vez, quero sonhar-te de novo, quero ir p’ra diante morena, com pica me mortifico, morena de chocolate, coisa doce que me tentas…

Ah! Segura-me e agarra-me! Que lindo bolero me cantas!
Mari juana mari juana!

E corro para a praia exausto, para comprar gelado mágico, de arco-íris, e Osíris, de Oruz, Ramsés e Cleópatra, e em sanha, afogueado, pelas avenidas corro, assustando desvairando miúdas desprevenidas, mas nada, nada do glacial sorvete, sendo então que, estarrecido, como um cão atrás da lua, deliro, vogo no ar, não sabendo que dizer…

Cheguei ou estou a abalando?

Somente fúrias não sinto, e só lembro teres prometido que serias minha um dia, e eu aqui, enublado, sem achar-te a ti nem num fado!

Então, sinto-me claramente, tão claramente embevecido, ir ao fim do mundo e voltar!

Tudo apenas num segundo!

É de pasmar!

E, coisa que nunca vi, já não entendo o que aprendi, nem os feitiços da lua, atónitos pendões da alma, mas, milagre dos milagres, vejo o medo a fugir célere, correndo…..  

E eu álacre sorrindo!

E p’ra mais nada me dá, que lembrar-te a ti viola, violinha, violão, e o meu corpo em alvoroço, e o meu amar não se acalma!

Que noite de estrelas suaves e suave amanhecer…

Que sonho este meu Deus!
Aqui voando e sonhando!

Uma coisa sei ao certo não saber, por que não estás aqui perto, e que esta dor não se me acalma, e logo hoje que minha alma se soltou…

Ai meu Deus!
Hoje é que estava escrito meu Deus!
Ai meu amor se assim fosse!
Agarrava-te, abraçava-te, Ai meu amor se assim fosse!
Ai! Meu Deus que noite esta!

Conquistado, apaixonado, seduzido, nesta noitada perdido, que me abraces docemente, me segredes insolentes baboseiras, e, sedutora, faz-me bobo, torna obsceno e um alegre sileno, pois que, petulante e bem alto voando, não é que vejo, insolente, toda a cidade em sobressalto!

Ave César! Ave Fausto !

Torna-me a alma á terra de mansinho, e num remanso de cansaço, torno a mim e a ti abraço, c’a noite, o sonho e o delírio chegando ao fim, nesse amplexo...  


                         

terça-feira, 31 de maio de 2011

53 - CHEIRAR A RIO, OU A MAR…




Por isso a sonhei percebes?

Certo, desta vez não me bateu com os punhos fechados no peito como quando zangada sempre fazia.

Então, segurava-a até que acalmada  a enlaçava pela cintura e, porque leve, depositava-a naquele colchão de praia já velhinho, como se de oferenda a uma divindade se tratasse.

Ela, como uma pena, pendurava-se-me do pescoço e sorria-me com um ar matreiro de menina má, fingindo ignorar o que se seguiria e se tornara já mais que um hábito, uma dependência mútua, um vício.

Quando jovem, muitas vezes acompanhei meu “afô” Nuno em pescarias na ribeira do Guadiana.

Nesse tempo, e muito cedo apesar de verão, por cima das águas uma neblina leve e fina que me inebriava, pois nela latente o cheiro a rio, inexplicavelmente um cheiro a mar, uma névoa humedecendo-me as roupas, que se me colavam ao corpo como se hoje, no velho colchão, da primeira vez com ela, e em que eu, qual criança entretida com brinquedo novo, visivelmente excitado, suava abundantemente o prazer que nos colava os corpos e de cujo som quando nos libertavamos ríamos.

Vem desde aí a história do pedestal percebes-me ?

O amá-la como viciado percebes ?

Era cativante, metia-lhe os dedos em pente pelo cabelo macio, e vibrava com isso, ela e eu, mordiscando-lhe a nuca, segurando-a pelos peitos hirtos que me enchiam as mãos e a mente de remoinhos junto aos quais gostava de pescar, porque na confluência das águas estreitando para a azenha se juntavam cardumes como atraídos por íman gigante.

Vinha da pesca como vinha do colchão, cansado mas eufórico, realizado mas sedento, perguntando a cada minuto ao “afô” Nuno quando voltaríamos, se num dos muitos e pródigos feriados que ela, à força, arrancava à vida.
Ainda recordo a primeira vez que a vi e me estendeu as mãos macias como pele de pêssego, era um dia de sol, um dia em que, embora a esperasse, me encontrava imbuído de uma melancolia inconformada em que nunca me vira, nem tão ansioso nem tão iludido e, talvez por isso não tivesse sido, ou melhor conseguido, e me rendi à evidência de que até nos momentos de maior glória a ansiedade nos molda e inibe, nos tolda e confunde, nos marca e melindra.

São estórias do que devia ter sido e não foi, pois que embora os corações batendo em uníssono, ficámos tão atrapalhados quão insatisfeitos e eu, até aí tão confiante, jamais acreditei nos baralhos de cartas nem nos seixos dos rios, nas borras do café ou na leitura dos búzios, ciente de me enganar a mim mesmo e estar a fazê-lo, p’lo que nunca mais aconteceu um revés assim e, tão sofrida ela ficou que nem reparou no meu destino, escondido nas palmas destas mãos fechadas e lisas, e me perdoou o desaire que não se repetiu e me deixou rendido à sua bondade e beleza.

Neste caso, quisemos nós voltar a repetir uma e outra vez e tantas quantas estrelas tem o céu, pelo que o saldo está ainda por apurar e nós a haver o que de melhor cada um tem para o outro e que jamais se acabará nesta vida ou nas futuras, pois ambos sabemos não ser deste mundo este imenso querer irreverente e louco que, por muito que tentemos, saberá sempre a tão pouco.

Por isso a sonhei percebes ?

Verdade que não cerrou os punhos e me bateu no peito como quando zangada me fazia, verdade que ainda não fugiu entendes-me ?

Mas virá o dia em que não mais que sonhos, não mais que impossíveis e eu, que julgara nesse dia realizar pescaria pródiga, assistirei ao passar lancinante dos minutos, das horas, dilacerado p’la desilusão, toldado por uma frustração que nunca digerirei...  deixando meu “afô” Nuno carregar-me as canas e as mágoas, ciente de que só eu contava num mundo que nunca achei justo.

Aprendia a ser, a ter, e a perder o que de mais raro existe e do qual a ideia de posse é tão imprecisa quanto as distancias calculadas a olho, os sentimentos a peso, as dores ao metro ou o bem-querer ao litro.

Há muito meu “afô” Nuno me deixou, com amor o recordo, e com pena o lembro.
E recordo quanto me ensinou sobre o ser e não ser e o quanto hoje sou, graças a ele.
Lembro quanto me ditou sobre o ter e não ter, o que é nosso e não é, o quanto devemos dar e podemos exigir.
A ele devo este coração enorme que me anima, esta tolerância que cultivo, tanta placidez quanta conheceis em mim.

É por isso que, tu, menina má de cabelos macios, pele de pêssego e beleza infinda, sabei que és um sonho sonhado e repetido que de tanto o ser me foi, é, e será sempre mui querido...