domingo, 18 de setembro de 2011

89 - EU E O PAULO PAULINO...............................


 

Claro que estranhei !!!! Pois se nem conseguia fazer avançar o carro até ao alpendre que ele me tinha indicado !

De cinco em cinco metros via-me obrigado a parar, descer e retirar literalmente debaixo das rodas um pato ou um ganso. A capoeira passeava-se por inteiro pelo vasto quintal como se este fora o Paraíso.

Mas é melhor começar pelo princípio.

Dei com ele na Net por mero acaso. Há uns largos anos que o não via, aliás toda a nossa vida tinha sido assim até aí, entrecortada por períodos sem nos vermos, contrapondo com outros em que chegámos a trabalhar juntos.

Desta vez há uns bons três anos que não lhe punha a vista em cima e todos os contactos que dele guardara tinham ido abaixo.

Não tive dúvidas, era ele ! A foto estava maculada por nevoeiro de palco mas era ele, o tronco largo, os braços nus, o cabelo apanhado em rabo de cavalo, inusitada a foto e a postura, a viola, nem o sabia artista, mas era ele, impossível estar enganado, conhecia-lhe bem a faceta de homem dos sete ofícios e sete instrumentos, portanto nem o estranhei e logo ali lhe atirei um gentil comentário:

- Então meu mariconço ! meu cabrão ! Onde tem a menina andado que ninguém te põe a vista em cima meu panasca ?

Na volta do correio recebi mensagem comedida, educada mesmo, sobretudo tendo em conta a liberdade de linguagem por mim utilizada…

- Que deseja meu amigo ? Não estou a percebê-lo…

- Assim mesmo ! Embatuquei ! 

                Claro que vi de imediato que me enganara na pessoa  e me apressei a fazer o que devia ter feito antes de tudo, ver o perfil completo de quem tão delicada e educadamente punha em questão os inconcebíveis mimos que eu lhe havia prodigalizado.

Expliquei-me, pedi escusas e desculpas, justifiquei-me com a parecença, ele aceitou, ficámos amigos.

Encetei então a caça ao homem e jurei que não pararia enquanto não encontrasse o Paulo Paulino.

Encontrei ! Alguém me deu o número dele, liguei-lhe e fui de imediato convidado a visitar a sua nova quinta, que habitava sozinho e era demasiado grande para um homem só. E que ficasse para jantarmos.

No dia aprazado lá me apresentei na quinta do Paraíso para o jantar combinado. Abriu-me o portão automático e pelo intercomunicador instruiu-me para que deixasse o carro debaixo do alpendre no espaço livre deixado entre a mota e o carro dele. O problema começou aí, chegar ao alpendre atravessando um quintal pejado de bichos de capoeira que se passeavam ostensivamente frente a mim fazendo questão de frisar que o quintal era deles…

Logo me intrigaram os patos e os gansos, já que galos galinhas e coelhos não os igualavam naquele comportamento absurdo. Para percorrer cinquenta metros apeei-me cinquenta vezes afim de retirar debaixo do carro cinquenta patos ou gansos que pura e simplesmente ficavam deitados no chão, esperneando e grasnando, de patas para o ar e sem serem capazes de se endireitarem. Retirava-os, colocava-os em pé, longe de mim, mas volvidos dois ou três passos voltavam a cair na mesma posição intrigante da qual os acabara de safar. Estranho. Andava ali coisa.

Mal entrei na ampla cozinha do monte disparei:

- Que coisa esta pá ! Os teus bichos parecem estar com a camada !

O Paulo largou as amêijoas em lume brando, agarrou-se à barriga morrendo de riso e respondeu-me:

- Raio dos bichos ! Já se soltaram outra vez ! Sabes Baião, é que os patos e os gansos quando se soltam vão direitinhos a uns vasos de cannabis que nem sei quem ali deixou a enfeitar o perímetro da piscina e, até onde o pescoço lhes consente, comem toda a rama que podem !!! Não fica uma folha verde como hás-de ver !! Apanham cada pedrada que nem eu !!!

Estava explicado o mistério.

As entradas muito muito boas, as amêijoas melhores ainda, os queijos e as tapas mais que optimas, o vinho e a cerveja sublimes, os finalmentes de matar, e a tardada acabou já passava das duas da manhã e nós dois piores que gansos…

Valeu a pena.

Matámos mesmo as saudades !!!!!!!!!

hi hi hi hi hi hi hi hi
eh eh eh eh eh eh eh eh eh eh eh eh eh
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
grrrrrrrrrrrrrrrrrr
ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah

uh uh uh uh uh uh uh uh uh uh uh uh uh uh

Foto; o Paulo Paulino inadvertidamente incomodado, foto ao vivo, salvo erro no Restaurante Snak Bar Concerto -  MOLHÒBICO – Portugal – Alentejo - Évora - 2010



quinta-feira, 1 de setembro de 2011

88 - A FAUNA QUE SOMOS (estudo)


Tinha prometido dar-vos notícias de um estudo académico que, a título meramente pessoal, andava e ando desenvolvendo, mais para satisfazer a curiosidade que me anima do que a um qualquer dever, imposto ou não, entendei que estou  a referir-me à fauna que habita este espaço de virtuais virtualidades.

Esclareço-vos já que este estudo, não obedecendo embora a uma pesquisa exaustiva, pauta-se todavia pelos requisitos mínimos dos aspectos essenciais a um trabalho científico.

Não se trata portanto de uma opinião, bem ou mal fundamentada, muito menos de um trabalho que ao empirismo deva os seus predicados, antes da constatação nua e crua, deste universo que convosco partilho e onde, agora já o estou antevendo, arrisco e desbarato o meu prestígio, prestígio aliás impossibilitado do justo e merecido reconhecimento, ainda que tal prejuízo seja um problema meu, nem tão pouco como tal contabilizado, uma vez que é lançado na rubrica entretenimento, donde não espero quaisquer mais valias palpáveis.

Muito honestamente sou contudo obrigado a reconhecer que, os parâmetros alardeados pelos média quanto aos padrões de iliteracia existentes no país, foram total e plenamente confirmados por este meu singelo estudo.

Outro resultado igualmente animador para mim, se confrontado com as estatísticas oficiais, o que me dá um certo orgulho, visto o meu trabalho ver o seu rigor e validade científica comprovados por padrões tornados públicos oficial e largamente divulgados, é o que concerne ao analfabetismo funcional da generalidade dos “amigos” deste caricato universo, já que os resultados por mim obtidos os colocam umas escassas décimas acima dos números oficiais, o que, não sendo um valor considerável é contudo um valor a considerar, e um motivo para que não se sintam tão desmotivados e insistam apostando no uso destas novas tecnologias, coisa em que até o governo tanto desvelo coloca, motivo mais que suficiente para que todo este pessoal se sinta deveras orgulhoso do seu desempenho.

As mensagens, ou tráfego comunicacional, foram outro dos items analisados exaustivamente e, com garbo vos assevero que as impressões colhidas no dia a dia encontraram plena justificação, tendo sido registadas num mapa diário e comprovadas largamente, pelo que é sem a menor sombra de dúvida que vos asseguro a completa vacuidade da quase totalidade das mesmas e uma futilidade simplesmente assombrosa, atingindo índices incrivelmente inéditos !

Sei que o entusiasmo que transparece da minha linguagem terá que ser provado pela exactidão dos números, e espero em breve poder dar-vos uma panorâmica completa, com tabelas e registos anexos e relativos a todas as observações efectuadas.

Por enquanto entendam esta crónica como uma breve e ligeira apresentação, que não somente vos devia, como tinha prometido aos mais curiosos e atentos, quer do meu blogue quer da minha página pessoal.

Não podemos esquecer a imensa alegria que muita gente, a maior parte certamente, tirará destes resultados, lamento que nem todos concluam pela mesma satisfação, uma minoria haverá que não se reverá neles, lamento imenso mas a estatística e o rigor cientifico o exigem e com falsidades, incorrecções e manipulações não posso pactuar, a verdade acima de tudo e de quaisquer suspeitas, doa a quem doer.

Proximamente serão editados os fascículos posteriores deste trabalho, os quais se debruçarão sobre os mecanismos de intervenção e interacção de que podemos socorrer-nos aqui neste meio, e que vulgarmente conhecemos pela designação de novas tecnologias.

Para o fascículo final ficará a caracterização das tipologias humanas que designei por fauna deste universo, virtual, porém, a julgar pelas indicações e leituras já permitidas ou pelo menos antevistas, nada virtuoso, e que constituirão certamente a parte mais curiosa, interessante e esperada deste estudo.

Solicito-vos calma e paciência, pois o rigor factual e histórico não me perdoariam a mínima veleidade ou inexactidão.


Obrigado, até para a próxima…

domingo, 28 de agosto de 2011

87 - CONTIDO ...............................................................



Como, nem eu sei. Sei apenas que, contra todas as expectativas e contra tudo que são os meus hábitos e as atitudes repentinas que me caracterizam, contive-me.

A custo mas contive-me.

Assinalei o facto, lançando foguetes, dando ordens à banda para tocar e festejar, mas obriguei-me a ficar ali, contido, expectante, não fosse inadvertidamente tocar nalgum botão que disparasse coisa perigosa ou não pretendida. 

Por uma vez na vida terei que volver propositados sacrifícios, tanto mais se as coisas valerem a pena, mor das vezes, nem tanto pelo seu valor intrínseco, que nem estará em causa devido à incapacidade da sua avaliação ou estabelecimento dos seus limites, mas por uma questão de ética ou de princípios, coisa em que fui educado a rigor e jamais ousaria pensar sequer que tal alvitrar pudesse.

Ali fiquei portanto, quieto e calado, mudo e quedo, numa alegria interior que, por cinismo nunca repartiria e egoisticamente fruía. Por momentos pareceu-me o planeta ter parado, estacado, enquanto eu, contido, gozava, desfrutava essa sensação inenarrável que cambiou em remanso toda a visível inquietude do mundo. Até o sol me pareceu ter ficado por momentos suspenso no seu aparente movimento de translação, as aves quietas, pairando imóveis nos ares, enquanto eu, travando a fulgurante, impetuosa ou arrebatada e fogosa exuberância que permanentemente me anima, estoicamente subjugava o espartano que já era, que sempre fui.

Por uma vez na vida tomara uma decisão em três minutos, e por uma vez na vida me pareceu ir pagar cara essa decisão. Ainda hoje não sei se por ter sido demasiado breve e espontâneo na resposta, se por ter demorado muito mais que habitualmente demoro em qualquer aspecto da minha vida. Viver comigo é, por vezes ou quase sempre, como que viver com o cobrador de bilhetes de uma montanha russa. Muita gente o sabe e jamais lhes ouvi um queixume, os meus amigos mais próximos o sabem melhor que ninguém, sem que lhes tenha escutado um único lamento, comigo nunca há desânimo, ninguém tem a vida parada, mas por esta vez, três semanas de meditação me aconselhei e impus, porquanto sei quão pesadas analisadas e ponderadas vão ser as minhas atitudes e palavras.

Arriscar-me-ia apostar que à milésima, e submetidas no final a um escrutínio de coeficiente de ponderação cuja amplitude, ou margem de erro, que por certo adivinho ínfima. Tudo porque contra todas as expectativas e contra tudo que são os meus hábitos e os comportamentos repentinos que me caracterizam, me contive, a custo mas contive-me. Agora é já um outro tempo, é tempo de dar tempo ao tempo, de deixar assentar a poeira, de me remeter a mim mesmo a um período de resignação, de contenção, de renúncia, contemplação, abdicação, de sujeição a outros desígnios.

Com paciência me conformei já, e de antemão confirmo não ser o mesmo, agora privado da minha impetuosidade orgânica, da minha impulsividade natural, pelo que, durante nem sei quanto tempo, provavelmente nem me reconhecerão como eu, mas um outro, a quem a espontaneidade tenha sido roubada que, cabisbaixo, sonhador e saudoso, caminhe por uma vez como alguém designou, nem sei com que autoridade, de “caminhada com os pés assentes no chão”. Pois que pelo menos a alguém sirva esta atitude, esta imolação, a alguém cuja subtileza capte quanto sacrifício cabe neste meu tão pequeno quão grandioso gesto.

Durante dias, qual estilita, ou asceta, de olhos em baixo, observarei as condutas do mundo, as consciências do mundo, a elas me submeterei com parcimónia, examiná-las-ei sem a mínima severidade, e vos juro, tentarei pela segunda vez saber para que serviu e qual o proveito de quase cinquenta anos de vida exemplar. Mas igualmente vos garanto, que se o resultado a que chegar, concluir, como por uma vez aconteceu já, nada ter de proveitoso ou sequer valer a pena, erguer-me-ei do meu retiro, do meu recolhimento, e farei o que não fiz então, gritar-vos que NÃO !

NÃO VALE A PENA O QUE QUEREIS !

NÃO ACEITO A VOSSA VIDA !

A VOSSA UNILATERAL, FALSEADA E REDUTORA FORMA DE VIDA !

QUERO SER EU PORRA !

DEIXAI-ME SER EU ! DEIXAI-ME !

LARGAI-ME DA MÃO ! VOCÊS ESTÃO LOUCOS !

SOIS TODOS LOUCOS !

MAS EU AINDA NÃO !!!!!




quarta-feira, 24 de agosto de 2011

86 - UMA SIMPLES PERGUNTA ? ...



Uma pergunta fácil tem por vezes uma resposta difícil, “Qual a importância de Vasco da Gama e de “Os Lusíadas” no Processo de Globalização”?
A pergunta foi-me atirada por um painel de gente, motivada e interessada neste fenómeno que nos rouba empregos e dificulta a vida, numa sessão ricamente participada de uma Associação Cultural e Recreativa de uma vila dos arredores de Évora, há bem pouco tempo elevada a cidade e que busca, com estes encontros culturais, suprir o que a economia lhe recusará sempre, seja por falta de dimensão ou massa critica.
Mas essa é outra questão que não desejo abordar aqui hoje, pois se repararem a minha preocupação do momento é portar-me bem, como se portam os homens cultos, e dar-vos de mim uma imagem que não conhecem, também ela verdadeira, tanto que nem vou botar aqui alarvices nem excessos desses a que me dou liberdade sempre que de coração nas mãos escrevo para o meu blogue.
Voltando ao discurso, diria que não foi uma pergunta fácil, muito exigiu que eu dissesse, muito ficou por dizer, como aliás ficará em todas as perguntas que a este título façamos, por muito bem organizado que tenhamos o discurso o saber e o pensamento.
Esta questão teve o desaforo de amigos chegados, alguns velhos alunos, hoje homens de ciência e, como eu, amantes da história e do saber, ainda que não tenhamos tido o apoio da “Comissão Para os Descobrimentos”.
Mesmo essa comissão, acredito, teria sido insuficiente para recordar tudo que aprendemos na escola sobre o tema, e que hoje é, enquanto fenómeno global, uma preocupação essencial de países pobres, sobretudo como Portugal, agora atirado para a periferia do centro de gravidade económico e europeu.
Em primeiro lugar, como terão sido os encontros de culturas e trocas de influências a esse nível durante os descobrimentos? 
Sabemos alguma coisa, delas nos falam “Os Lusíadas”, de Camões, “A Peregrinação”, de Fernão Mendes Pinto, e um ou outro testemunho que foi ficando da nossa presença, um ou outro escrito de historiadores e sábios nossos de então, ainda que pouco acesso tenhamos ao que de importante em nós contou para os outros.
Não é despicienda esta posição, éramos os melhores na altura, demos mundos ao mundo. Como então e ainda hoje se diz, revolucionámos os saberes, levámos a dianteira na observação directa das cousas, directa e sistemáticamente, exercida sobre a natureza e seus fenómenos, sobrepusemo-nos ao empirismo vigente, subvertemos lentes e escolásticos, fizemos ciência...
Mitos mantidos durante séculos viram a sua gratuidade e inutilidade despedaçada pela realidade concreta das nossas observações e experimentações. Fizemos verdades.
Matámos os monstros falados em textos eruditos e velhos de séculos, que deixaram de o ser, demos a conhecer novos povos, novas raças e cores, novos costumes, novos animais e plantas, novidades inimagináveis, explicado fica o eco " ter Portugal dado novos mundos ao mundo "...
Esses novos mundos, ou o novel conhecimento de outros povos, raças, nações e sistemas, foi o princípio de uma nova era de que Portugal foi a vanguarda, mas do qual é hoje, tristemente, a periferia.
Ainda hoje é incalculável o preciosismo que demos ao surto do espírito europeu moderno. Foi nosso o maior contributo para a revolução cultural da Idade Moderna, já que o valor da experiência se impôs ao saber livresco estabelecido até então.
Quanto mais os nossos descobridores recorriam aos livros legados pelos antigos, mais os crassos erros de que enfermaram durante milénios eram por nós denunciados de forma evidente. Pela observação directa se chegou à verdade, a experiência tornou-se a matriz de todas as coisas; “Sabe-se mais agora num dia pelos portugueses que se sabia em cem anos pelos romanos”, o que destronou de um dia para o outro todo o saber das autoridades clássicas.
A cultura letrada, livresca, tornou-se prisioneira do cepticismo em toda a parte e em todas as latitudes era confrontada com as verdades que diariamente dávamos ao mundo. Ptolomeu, aquele que foi um dos maiores “geógrafos” da antiguidade clássica estava enganado, nós não somente redesenhámos as suas “cartas marítimas”, como evidenciámos e corrigimos outros erros seus, como o da inabitabilidade dos equadores, erro que permaneceu até que os portugueses o desmistificaram, e desmentiram, foram portanto os portugueses quem revelou à Europa a forma geográfica e correcta do mundo.
Como nos víamos por essa época uns aos outros? 
Nós europeus, desde a antiguidade, sempre víramos os Africanos como caricaturas grotescas e monstruosas, fruto do pouco conhecimento que sobre eles tínhamos.
Durante a Idade Média o africano e o ameríndio eram assimilados à noite, ao mundo das trevas, às forças do mal, ao diabo, com origem num misto de animal e vegetal.
Não esqueçamos que durante este período da história o negro era a oposição do branco, o branco a pureza, o maravilhoso, a luz, o que levou a que não tivesse havido dificuldades em associar a cor negra dos africanos e ameríndios ao diabo, o senhor das trevas.
Mais tarde os mesmos africanos e ameríndios são vistos ou representados como servidores domésticos, fruto da sua sina na época da escravatura, mas sempre como selvagens.
Veja-se a este propósito como estão caricaturados no lado direito do Claustro da Sé de Évora os personagens negros ali esculpidos.
E africanos e ameríndios, e outros, como nos viam eles a nós europeus?
Naturalmente como seus senhores, e ainda que a arte seja por natureza e regra subjectiva, obras há, gravadas ou esculpidas em bronze ou em dentes de marfim, dentes de elefante, em pau-preto, e outras cenas e gravuras ou relevos que nos dão essas imagens. Que imagens?
Imagens em que o europeu é identificado pelas roupas, pelos narizes pontiagudos, lábios finos, cabelos longos e lisos, barbas aparadas. Mais tarde, em plena época colonizadora, essa imagem irá reflectir a sátira social e a crítica, englobando o lado grotesco do colono e ou do cipaio, funcionário negro ou mulato, (este ultimo filho da rica miscigenação que promovemos) ao serviço do branco.
E desta forma, prenhe de empatia e vinhos alentejanos, acabámos a nossa noite cultural, rica de conteúdo e ensinamentos, em que me portei como um senhor, vejam só, provavelmente nunca me imaginariam assim, tão franco e directo sou noutras crónicas espetadas neste blogue.
Na realidade não fora o excesso de acolhimento a estragar a festa e tudo teria corrido pelo melhor. A minha participação foi muito aplaudida, considerada e comentada, não fora isso e não teria apanhado a bebedeira que apanhei, de caixão à cova, acordei com um rosto angelical erguendo-me a cabeça a tempo de não me afogar no meu próprio vomitado, com a mão segurei-me ao seu corpete, que de imediato se rompeu deixando antever quatro seios alvos e mais redondos que a bola com que jogou a selecção, e ainda não sei como, mas recuperei a tempo de um internamento a soro no hospital local, pois acabei de ver a primeira janela do dia sem ser em duplicado !
Estou pronto para outra mas, conferências, a partir de hoje só pagas, ficam já sabendo, bem caro me custou o último fato que caguei todo.
Ficou sem conserto.

85 - MULHER DE TRINTA ANOS * ...


Percorro o cais devagar, e enquanto mantenho um olho na moto à minha frente, pelo canto do outro espreito o Sado, ali ao lado. Longe vai o tempo em que nos obrigavam à sua travessia nos velhos ferrys até Tróia.

Jovem ainda eu deliciava-me então com essas travessias, cavalgando as ondas mansas e buscando reter no rosto os salpicos arrancados às águas pela afiada proa do barco. A travessia era coisa para menos de meia hora, um quinhão de fantasia em que, ancorado nas imagens dos navios amarrados às docas, deixava a imaginação deambular pelos mares das Caraíbas logrando ver um paquete, coisa rara nesse estuário. Júlio Verne despertava em mim à simples visão de um submarino se calhava vê-lo, dada a proximidade de uma base da nossa marinha na península. Como disse, tal bastava para que as “20.000 Léguas Submarinas” me acudissem ao espírito.

Grandes petroleiros descansavam nas docas secas da SeteNave, num sono reparador que se prolongava por meses, mas eram as “dragas” que, quando jovem, mais me impressionavam, quais “catrapilas” dos fundos aquáticos, raspando e cavando caminhos no imenso espelho de água, com os seus mecanismos, veros alcatruzes da “nora” de Neptuno, e para mim a maravilha das maravilhas. Olhando-as perdia-me no tempo, e, tal como as formigas humanas que nas docas secas rodeavam infatigavelmente os monstros marinhos em hibernação revitalizadora, também os seres humanos que nelas manobravam impressionavam os meus pensamentos de jovem imberbe e cru adolescente. Corpos de Adónis, despidos cintura acima, deixando reluzir ao sol o aço de músculos que invejava, troncos em V, bíceps e peitorais ameaçando abandonar aqueles corpos suados. Numa ocasião dei por mim pensando a minha sexualidade e a licitude da inveja que esses corpos me provocavam. Dúvidas de jovem, que, se desde cedo me assaltaram, também depressa as transpus. Outras ficariam anos esperando resposta, foi-me difícil a adolescência, é difícil a vida. Pior se a não interrogamos, questionamos, provocamos.

De modo que talvez pela inveja desses corpos cedo pendi para o culturismo. Recordo-me vagamente de um dia, na brincadeira, ter imaginado um homossexual naquela equipa de machos, a bordo de uma draga dançando nas águas do Sado. Coitado, pensei, e por aí me fiquei. Cada um no seu mundo, e o mundo das dragas e dragões é o das grandes obras, tendo o meu pensamento derivado para as épicas e heróicas aberturas do Canal de Suez e do Panamá, as dragas ainda meninas à época, ao pé de super-homens que morreram aos milhares para que as obras ficassem.

Regressei pelas complexas e eternas obras do Porto de Sines, um elefante branco em transformação, e deslumbrei-me mirando veleiros na marina, de onde derivei para uma draga acostada ao cais, onde Apolos se atarefavam manobrando pesadas cordas de amarração, suados, musculados, corpos batidos por leve brisa correndo apressada, agitando pavilhões de navios, flâmulas tremeluzentes, mantendo pairando no ar as gaivotas, como magia, e tornando o mundo menos real. 

Uma mulher de trinta anos passeava-se pelo cais, parecendo deixar-se conduzir pelo vento ébrio que de tempos a tempos lhe levantava a saia azul clara e pregueada. Ao fazê-lo descobria-lhe as pernas altas, esguias, bem desenhadas, coxas firmes, bronzeadas, contrastando com o negro rendilhado das calças. Cabelo louro, revolto, a que ela não ligava e mais acentuava a ideia de que a brisa a conduzia, fechada em pensamentos por adivinhar.

Uma horda ululante de dragões largou a draga, de mimos e vernáculo a rodearam mal se aproximou. Cães que ladraram porque lhes invadiram o território, mas cujos latidos se esfumaram nos seus sentidos à medida que ela, indiferente, se afastou. Não se deixou intimidar, altiva, e de sorriso nos lábios seguiu o seu caminho até desaparecer na intensa luminosidade do dia. Os cães calaram-se, voltaram ao cordame, deixaram de ladrar à lua, lua que a técnica conquistara, e onde o homem ensaiara os primeiros passos. Agora promete-se Marte para breve, não se sabe quanto teremos que esperar, mas teremos.

Para onde vamos? Porque será que o homem teima transpor difíceis obstáculos, tão longínquos, descurando a miséria que o rodeia, a pobreza, o analfabetismo... Mas essas parecem metas que não seduzem ninguém. Só queremos o que não temos, desgraças já temos quanto baste. Agora queremos Marte, Vénus, o Sol na eira e a chuva no nabal, estamos vendendo a alma a troco de missangas e lantejoulas.

A draga vai cavando devagar devagarinho, parando, partindo, até que descobriu, enterrado na lama dos fundos, o corpo daquele rapaz que se matou num domingo. Paro de pensar, paro para pensar, como vão longe estas recordações, como a vida depressa me fez homem, esquecer o culturismo, Adónis, gays, mulheres de trinta anos, homens perdidos, vento, gaivotas, docas, dragas e dragagens.

Só agora reparo como tenho andado ocupado com a vida, demasiado ocupado, tão ocupado que pensar, recordar, parece um sonho lindo, um luxo caro, mas não é ainda uma heresia pois não?
                    
                                Eu, 30 anos depois do passeio relatado...                  

* Nota: texto escrito e publicado no Diário do Sul no ano de 1998