segunda-feira, 21 de julho de 2014

198 - ALEX, PARA OS AMIGOS…….................….....

  

À data eu vivia perto, e durante alguns anos acompanhei-lhe o luto, mas quando começou a usar em permanência o véu preto sobre o rosto, que escondia debaixo de um elegante chapéu redondo de abas largas enquanto subia a altura das saias convenci-me que se lhe finara o desgosto. Alex, Alexandra, ou Alexandrina, voltara ao nosso convivio. 

Não era crível o que todos jurariam em surdina, que D. Natália tudo fizera desde o início para boicotar as relações com a nora e respectiva família desde a morte, dois meses após o casamento, do seu querido menino.

Prova disso era o facto de Alexandra, Alex para os amigos, ter permanecido em sua casa até hoje, tantos anos depois daquele triste dia em que Julinho, agarrado desde que em jovem se formara com louvor e distinção, fora encontrado, a metros de sua mãe e da jovem esposa, fulminado por uma overdose. Alex entrara quase de imediato em depressão, e D. Natália acudiu-lhe durante anos e anos apesar da nora nem um neto ter tido tempo de lhe dar.

Não era linda nem elegante, seria muito mais que isso, e se durante meia dúzia de anos escorraçara todos os pretendentes à partilha das suas mágoas, depois passou a provocar, consciente e deliberadamente, todos aqueles em quem se dignava pousar a vista ou conceder atenção.

Do quintal, regando o jardim, ou da janela de sacada onde queimava os paivantes eu observava o rol de mártires que em permanência arrastava atrás de si e, que ao longo de meses palmilhando a rua ou nela fazendo sentinela, adquiriam a convicção de que a inutilidade do gesto aconselhava o afastamento, para logo serem substituídos por um qualquer outro incauto apaixonado.

Acho que depois dos primeiros meses ou anos de baixa psiquiátrica, ou psicológica, Alex se habituou àquele modo de vida. Não receberia muito, mas a cama e mesa garantidas por D. Natália certamente terá aproveitado.

Enquanto contribuintes eu e os vizinhos aguentámos e comentámos aquilo, talvez porque a crise forçasse esse tipo de conversa, talvez por também rendidos à sua beleza e encanto, até o Dr. Paulo, nosso parceiro da sueca e médico dela sofrera o seu Gólgota a que somente a inclemência do inverno afastara das sentinelas que prolongava até tarde nas noites.

Por essa época eu não sonhava ainda com o sindicalismo, nem com o estudo dos iluministas nem do filósofos medievais ou da sabedoria escolástica, o que só aconteceria numa fase muito posterior, mas os abusos aos direitos por parte dessa nossa vizinha incomodavam-nos. Para ela não havia deveres, aliás nunca houve, já os direitos pareciam ser nado e exclusivo direito seu. Esse dilema, que eu nunca superei, estivera aliás na razão pela qual a sua pulcritude e vida inconstante cativaram a minha atenção, era um admirador confesso da sua beleza afrodisíaca e lubricíssima presença, o que calava em mim os protestos ante a sua conduta desregrada e que em nada a abonava.

Haviam passado muito mais de vinte anos sem a ver, o que não obstou que a tivesse reconhecido à primeira, mesmo se apenas a silhueta, o porte e andar garbosos me tivessem sido por breve momento uma saudosa aparição.

- Deve ser ela ! É ela ! Tem de ser ela !

E era. Era ela, agora certamente nos quarenta, fruindo de uma sensualidade, maturidade e segurança insofismáveis a que ainda menos gente ficaria indiferente. E nem tivera tempo de pestanejar ou levantar os olhos de tão fantástica visão quando a consciência, mais que a memória, atrever-me-ia a dizer o subconsciente, trouxe à tona e rebobinou como se arrancadas de areias movediças lembranças, recordações, tais quais colótipos da Picasa, perdoem-me a comparação.

Era ela e nada nela mudara, o mesmo gosto pelos saltos altos, altíssimos, e que lhe firmava o porte projectando-lhe o peito para a frente, o mesmo andar em frente olhando e varrendo tudo num ângulo de 180º à esquerda e à direita, as costas como quem engolira a espada Durendal, sim, a de Rolando, a tal que pertencera a Heitor de Tróia, as nádegas opulentas movendo-se alternadamente com o andar numa bem ensaiada provocação, o pescoço firme e direito fazendo-o parecer mais comprido, ou alto.

Há mulheres que não querem ser vistas, ou que não desejam dar nas vistas, mas também há as que sim, que o querem e desejam, há até as que procuram das nas vistas, e as que sem que o saibam o conseguem, as que por mais que o tentem ou porfiem não matam caça… Alex inscrevia-se num dos grupos assinalados, dispenso-me de especificar qual.

Mas não há dúvida, era ela, é ela, porque terá voltado a pisar a rua ? Ter-se-á quebrado e enguiço ? Sacudido a maldição que sobre si mesma lançara ?

Aquela aparição majestosa não foi inocente, adivinhei nela a vaidade que a vestia, o antigo cuidado no corte, o fru fru das sedas que me fez lembrar as rendas sublimes e transparentes numa malha aberta, fina, delicada, e que mais pareciam filigrana, coisa em que era viciada e, porque uma lembrança nunca vem só, os lençóis de seda, eu numa atrapalhação vergonhosa e delirante escorregando sem conseguir onde firmar-me e ela, de gatas, miando, olhando-me e gozando-me provocadoramente …

Jamais esquecerei, jamais lhe perdoarei.




                                     

sexta-feira, 18 de julho de 2014

197 - MEU AMIGO RETRATISTA...............................

  

Agachado sobre os joelhos dobrados, olhava-lhe sobretudo o esfolado, e a mão, minuciosa, tocando virando revirando e remexendo com um pauzinho, um escaravelho esperneando de patas para o ar

Quanto mais apurado ele na averiguação obsessiva, criteriosa, maior a minha curiosidade sobre si, todo ele focado no bicho, olhos mais focados que concentrados, convexos, e que, como os do próprio pai, me assustavam

Dizer que brincámos juntos seria extrapolar uma relação que não existiu, morámos a pouca distância, ele num casebre entalado entre a Comenda e o Xarrama, eu num cubículo colado ao prédio azul e, mais correcto seria dizer que me consentiu por perto, e isso teve que bastar-me, pois era o máximo de aproximação por ele consentida e o modo de, cada um de nós ser um mundo sem ficar só

Não brincávamos, ele brincava, sozinho, absorto, dava largas à sua curiosidade militante, e eu divertia-me vendo-o, observando a sua curiosidade, que por sua vez espicaçava estimulava e satisfazia a minha

Virava bichos, bocados de espelhos, vidrinhos, focos, desfocos, imagens, certamente arquitectando fotogramas experimentais que a memória me guardou, e nesses curtos anos de vida desvendámos no terreiro ao lado da sua casa, frente ao Marcelino do ouro negro, da benzina, do benzovaque, do etanol ou álcool azul ou etílico para o arranque dos fogões, e já um etanol e não um derivado do pitrol, pois devo ser explícito porque aprendi com ele a remexer tudo com um pauzinho e observar bem as coias antes de me pronunciar

Foi aí, nesse baldio que, observando-o, me iniciei no preciosismo das coisas, na observação da fauna e da flora, até que o pai o chamava, jornal na mão, bonecos coloridos na capa como os dos cromos dos grandes, os tais que não me aceitavam nas suas brincas, e esse pai que o chamava quebrando a intimidade dos momentos em que sobre si se fechava assustava-me, era um pai de olhos convexos como lentes de grande angular, dois olhos entre patilhas, lembrando os toureiros das noites de quinta feira que eu à sorrelfa via na Tv, em pé, espreitando sobre os ombros dos crescidos, nos cafés do velho Gerardo ou do senhor Raul

Eu morava no prédio azul, quer dizer, não bem no prédio azul mas nas traseiras, onde moravam o Quito, os Tanitas, o Ângelo morava na frente, e o irmão, o Simões, ele ao fundo do bairro, na rua que levava ao riacho

Tão introvertido lembro este meu amigo que nem a carroça do bufarinheiro dos petróleos lograva arrancá-lo da introversão e clausura a que voluntariamente se remetia, bastas vezes o vi vogando no tempo e, recordo um dia em que, na rua subindo do gaveto da casa onde vivia, nem um molhe do fotografias a branco e preto o arrancou da perscrutadora minúcia com que se debruçou sobre o caixote com que o senhor Zé Alves, o bolacha amaricana, fazia bonecos à la minute encalhado na porta do jardim público, ou numa praia quaisquer a que o chamamento do Verão o conduzisse no sentido de prover à família, prole numerosa que as bolas de berlim, a bolacha amaricana, os gelados vendidos à colher de uma caixa meio frigorifica meio enjorcada carregada ao ombro, de mistura com magia, espectáculos, truques com cartas, velhas e novas antiguidades, fotografias de mulheres nuas aos molhes, molhes de fotos e molhes de mulheres

 E esses molhes de que eu não entendia a magia juntaram em seu redor, tumultuosamente e em minutos, tantos homens em sincronia e anuência quanto contestação ou divergência que eu não alcançava, eu não entendia ainda e, enquanto tentava perceber, ele ausente, absorto, persistindo na sua perscrutadora minúcia debruçado sobre o caixote com que o senhor Zé Alves, o bolacha amaricana, fazia bonecos às portas do jardim público

Hoje sei o que nessas fotos de nus de forma tão fulminante agregou tantos homens claro, mas não o sabia por aqueles dias, e se o meu mudo e calado amigo se fechou em torno da maquina dos retratos do senhor Zé Alves eu aderi ou melhor, assisti, tão calado quanto ele, à desordenada assembleia que num repente aquele molhe de fotos a preto e branco suscitou no grupo heterogéneo que mais depressa se formou que um escaravelho demorava a rebolar espernear e dar a volta até ficar de novo de patas no chão

Depois, num ano que não recordo, deixei de ver o meu retraído amigo, após as férias e os desenhos animados do Flipper, que sentados de pernas cruzadas a garotada via no chão da sala do Junça, da Lúcia ou do Sezídio, deixei de o ver, desapareceu, como que num passe de magia, como negativo por revelar, como frame perdido no meu arquivo, e, só passados anos e quando as fugas heroísmo, o soube na Holanda, ulteriormente uma paixão in finita por uma prima minha, contou-me ela, para alguns anos posteriormente o reconhecer na ExpoÉvora 82, e adiante recebendo aquele prémio que o fez aos olhos de cada vez mais gente um Pessoa, e ele o mesmo, e os mesmos olhos de um pai que eu pensava ser o Almada Negreiros, o mesmo olhar tão meu conhecido parecendo parado mas que eu sabia resolvendo a solução de grãos de prata que o haviam de abrir num maravilhamento como o que ante as flores brotando ou desabrochando tantas vezes vivêramos calados

E brotaram, e comove-me que este meu amigo ainda hoje se emocione, com regra diz, se nunca o conheci que não emocionado, sempre terrivelmente emocionado, e calado, sempre tremendamente intrometido consigo, sempre regrado, e hoje sei que o pai não o Almada, nem inventámos a introspecção naqueles dias em que agachados sobre os joelhos esfolados, virávamos escaravelhos com pauzinhos e esperávamos calados, cada um em seu mundo, cada um a seu modo, que uma flor abrisse como fotografia que brotasse…

Não usa óculos e vê mal este meu amigo, não vê, quase não vê, uma pena ...

domingo, 6 de julho de 2014

196 - DEVE SER ELA, É ELA !!!!!!!!! .....


E saí disparado do sofá como impulsionado por uma mola, atravessei a sala a correr e no momento em que me precipitava para o telefone tropecei numa ruga do tapete, dei uma valente topada no pé da mesa, blasfemei, atirei-me ao chão enrolado, agarrado ao pé, as lágrimas desprendendo-se enquanto o tinir do telefone, que não parava, me enlouquecia.

- Bolas !!  Fogoooooooooooooooo !!!

Rangi os dentes e o telefone calou-se. O sangue aflorava por baixo da unha do mindinho, e eu, incapaz de pensar e de me levantar, ruminava contudo na minha precipitação e estupidez. Ela não merecia o sofrimento, não merecia o sacrifício e agora, mais calmo e menos doído, vivia a situação como castigo divino que sobre mim se abatera, à laia de reprimenda das culpas que me atribuía por a vir ignorando nos últimos tempos apesar de, ou por saber de antemão quanto isso a aborrecia e irritava.

Mas o do sinal de chamada não voltara a ouvir-se em todo o dia, somente ficara registada uma chamada da bisavó Concepcion na escassa hora em que adormecera, e por certo, como habitualmente, para saber se estava bem, se não me esquecia de comer, e recomendando-me que me cuidasse, por isso nem lhe ligara de volta.

Já noite abri o correio electrónico.

Como vinha acontecendo nos últimos tempos apaguei sem os abrir mais de vinte emails sem nenhum interesse e concentrei-me nos dois restantes.

Repentinamente senti um aroma forte nas narinas e num instante toda uma catrefada de lembranças me acudiu à memória em catadupa. Como o ventre de uma odalisca dançando, pairava no ar um bálsamo serpenteante que sempre tive dificuldade em situar à esquerda ou à direita de mim por me embriagar os sentidos e embotar a razão. Ou pelo menos assim me pareceu.

Quase de imediato golfando das profundezas da memória, como se tivesse sido ontem, a cama alta, alta e larga, onde tantas vezes me sentira levitar ou flutuar como Moisés nas águas do Nilo há três mil e quinhentos anos, aquele odor trouxe-me lembranças de quando também eu por baixo, sim, debaixo dela, temente, assustado, e aquele aroma ondulando, absorvente, estonteante, anestesiante e paradoxalmente estimulante que me perturbaria durante tantos anos sem me permitir aperceber se temê-lo se agradecê-lo, porque da primeira vez fumarolas como as que em Delfos se libertavam alucinando e levando ao delírio o Oráculo diziam, e afirmavam mesmo ser como quando dos tremores de terra por isso me recordo tão bem, eu criança, debaixo dela, a terra tremendo, o cheiro intenso enrolando-me os sentidos ante o imponderável.

Eu encolhido, temente, debaixo dela, também ela tremendo ao ritmo do ruído surdo vindo das entranhas da terra e abanando as paredes, o chão, e sim bem me lembro, eu debaixo dela, da cama, como o senhor professor Pulga nos tinha recomendado na aula dedicada aos terramotos há tantos tantos lustres.

No primeiro email somente a imagem de um perfume inesquecível e, em negrito, uma frase comercial;

-  Só “SERPENTINE “ Define a fragrância dum perfume como a tua doce rebeldia  e perdura identificando-te como única.

Publicidade pura que somente a curiosidade pelo remetente me levou a abrir. O segundo era bem diferente e pareceu-me premonitório;

- Voltei, aposto que não me esperavas.  

Aquela fragrância voltara agora sob a forma do mesmo olor leve e sedutor, algo mesclado de doce rebeldia que perdurando nos sentidos se identifica e com o qual nos identificamos, me identifiquei eu há vinte, trinta anos, já não eu por baixo dela mas por ela adulado, envolvido, seduzido e remetido ou elevado ou erguido à condição de imortal bem aventurado.

Era já madrugada quando saí, pé ante pé alcancei a rua, entrei no carro e sumi-me sem ruído para não a acordar.

Deixara-lhe sobre a mesinha de cabeceira um post it  cor de rosa em que desenhara dois corações atravessados por uma seta e :

- Bom dia e beijinhos querida Lavínia, gostei da noite amor.

Ela era Júlia, e certamente detestara a minha propositada falha, eu procurava refrear-lhe os ânimos e conter-lhe o ímpeto antes que aquela paixão impossível me arrastasse para o inferno.

Resultou melhor que alguma vez imaginara, contra todas as expectativas ela desaparecera de vez.

  Voltava agora ao fim de trinta anos, só podia ser para de novo me assombrar.
                



segunda-feira, 23 de junho de 2014

195 - NA MESMA, COMO A LESMA …



Mal caiu a noite o senhor Honrado parou o Simca Ariane 1500 duas vielas abaixo da Travessa do Embuçado, voltou para buscar as malas sacos e tralha variada recomendando-me :

- Alberto, vai já e não faças barulho.

Eu era um rapazinho com doze ou treze anos, e demorei outros tantos a entender o porquê de tanto segredo. As tias Teodora e Sofia, meio agachadas nas sombras da viela, correram em passinhos pequeninos, e sem deixar de bichanar acomodaram-se, uma no lugar do morto, outra a meu lado, atrás. O senhor Honrado olhou duas vezes por cima do ombro direito, três sobre o esquerdo e não vendo ninguém meteu-se ao volante e arrancámos a toda a velocidade, contudo os pneus nem chiaram. Ninguém viu nada cochicharam elas, e eu, igualmente cochichando :

- Tia tenho vontade de fazer xixi.

- Valha-me Deus Alberto ! Não tiveste tanto tempo p’ra te lembrares ? Santa paciência, não me digas nada agora que ainda tenho os nervos à flor da pele !

A tia Sofia era diferente, era a tiazinha boa, acariciou-me os cabelos e segredou-me, aguenta um bocadinho filho que daqui a pouco já paramos e tu fazes. O que a tia Teodora tinha a menos em paciência sobrava a dobrar na Sofia, talvez por não ter nada a esconder, mas a Teodora exagerava nos cuidados, e eu interrogava-me sobre as razões pelas quais ela e o senhor Honrado partilhavam e teimavam tantos receios e segredos.

Célere, o carro galgava a estrada, eu olhava a lua contabilizando os marcos quilométricos sobressaindo do luar sob a luz amarela do Simca. A lua cheia sorria-me, nela via nitidamente estampado no disco platinado um velho carregando um feixe de lenha. Pendurado no retrovisor pendia dançando um terço com a medalha de S. Cristóvão, e no tablier um imã segurava uma placa prateada com a esposa do senhor Honrado ao meio, e uma das gémeas de cada lado dela, na base uma nuvenzinha plástica branca, encimando tudo o sorriso da santissíma Virgem Maria.

À medida que avançávamos tudo era descrito e comentado doutoralmente pelo senhor Honrado, lembro-me que era calmo, que tinha as unhas bem tratadas e envernizadas. Eu esquecera o aperto da bexiga, o mal agora era a sede, mas claro temia admitir tal, a tia Teodora atirar-me-ia logo com um :

- Meu Deus Alberto ! Haja santa paciência, quando não é uma coisa é outra, por que não te lembraste em casa antes da viagem ?

Pelo que me calei, voltei à lua, ao terço com o S. Cristóvão, à placa com a esposa e as filhas do senhor Honrado, quando ele :

- Atravessamos Montemor, a porta iluminada por cima é o Hospital S. João de Deus, há quatro anos fui ali operado à próstata. E prosseguiu conduzindo devagar até deixarmos a cidade. Não me recordo se depois se calou ou continuou doutoralmente, descrevendo e enumerando tudo minuciosamente como era seu hábito, ou se se calou, não lembro mesmo. Nem sequer se a tia Teodora para ele, como habitualmente :

- Conheces tudo meu querido, sabes tanta coisa meu xuxuzinho.

Mas a verdade é que não me lembro mesmo. Só me alembra que quando eu estava de testa colada ao vidro mirando os canhões o senhor Honrado, criteriosa e pausadamente :

- Atravessamos Vendas Novas, à direita o Regimento de Artilharia, aqui é que o meu irmão Bernardo que Deus tenha se finou coitado, na véspera de ser promovido. Foi uma hora de azar, todos temos uma, ainda decorre o inquérito.

- Sesimbra ? Perguntas quanto falta Alberto ? Ainda estamos um bocadinho longe, vamos aí a um terço do caminho.

E eu imaginava como seria Sesimbra, como seria o mar, os barcos e a praia, encontraria enterrados e perdidos na areia pauzinhos premiados dos gelados como achara em Sines ? Nisto aproveitei p’ra fazer xixi, o senhor Honrado tinha parado o carro num parque na berma da estrada, para arrefecer disse, enquanto de mãos firmes no tejadilho flectia as costas para lhe passar o quebranto, dizia ele desculpando-se.

Aproveitei a ida das tias atrás de um monte de gravilha e de uns bidões de alcatrão e sôfrego bebi toda a água de uma garrafa esquecida no porta-luvas. Depois, enquanto atrás mirava o vermelho vivo dos farolins acesos, chutei-a para debaixo do carro e por momentos tive receio que uma roda pisasse a garrafa e os vidros furassem o pneu, mas nem tive tempo, porque o senhor Honrado, brincando e batendo palmas :

- Andando ! Não podemos atrasar que depois de voltar ainda quero dormitar um cadito antes de abrir a loja.

O urbano, civilizado, polido e envernizado senhor Honrado tinha uma loja no centro da cidade. Eu não sabia de quê, mas sei que ia muitas vezes aos correios pois o ouvia queixar-se sempre das bichas, corrijo, das filas, teria-me repreendido se me ouvisse, pois naquela altura eu também teria dito além de teria-me, escrevido, ou há-dem.

Não lembro onde, mas ceámos num grande restaurante, “Bocage”, reparei que na avenida Luísa Todi porque na curva os faróis do carro bateram numa placa e mal tive tempo de a ler. Aqui nesta passagem seria corrigido pelo senhor Honrado :

- Bateram não Alberto, incidiram.

E descendo as curvas da serra acrescentou faltar já bem pouco para Sesimbra. Era noite e pareceu-me uma serra, os travões do carro chiavam, o senhor Honrado esticando o pescoço com a língua de fora passou todo esse caminho máximos médios máximos médios.

- Detesto conduzir à noite !

Bradou irritado, e foi das poucas vezes que a tia Teodora ficou calada. Virou-se para trás, encolheu os ombros esbugalhando os olhos mas não disse nada. A Tia Sofia limitou-se a sorrir. Finalmente o Simca brecou junto ao muro da praia, não via mas ouvia a rebentação, a casa alugada ficava a uns passos, ninguém me ordenou que carregasse as malas e fiquei ali ao luar, ouvindo o marulhar.

De uma abertura no sótão pendia uma escada, por ali subia para a minha cama, as tias ficavam em baixo, e por uma fresta ficava vendo-as despindo-se antes de dormir. De manhã acordava com os sussurros e os cochichos delas, abraçadas na cama, aos beijinhos, iluminadas pela claridade do sol matinal coado pelos buraquinhos do estore, luminosas mas suadas as tias, cansadas mas amigas. Nunca contei nada a ninguém.

Adorei Sesimbra, dois ou três dias depois chegou a tia Heliodora e o tio Mateus, em férias de Angola onde ela era professora e ele engenheiro, o Armandinho ainda nem nascera e os tios vieram de Itália num Fiat 600 Múltipla, que parecia um autocarro e nem havia cá. Foram dias lindos esses, deslumbrantes. Durante toda a quinzena a tia Teodora nem se lembrou do senhor Honrado, a tia Sofia nunca se esqueceu de mim, um dia compraram-me uma bola enorme, igual à que estava no meio da praia mas mais pequena. Compraram a bola e saiu-lhes uma lata de creme com que se barraram e me besuntavam todo, todos os dias. Ainda tenho essa bola, o azul um pouco desmaiado, mas as letras brancas ainda se leiem bem. O senhor Honrado corrigindo-me, lêem Alberto, lêem.

Somente passados uns dez anos voltei a Sesimbra. Sem estar, estava na mesma, como a lesma, teria dito a tia Sofia.


                                                                                                                                                                                     

terça-feira, 17 de junho de 2014

194 - SUBMISSION OR BONDAGE ? ...




- Não vamos zangar-nos por causa disto. Não sabíamos como ia ser, foi isso. Não repetiremos pronto. Zangarmo-nos não vale a pena.

- Nem acho que a culpa tenha sido minha, ou sequer tua, a existir foi dos dois. Esta coisa de tudo querer e tudo dar não é assim tão simples.

- Hoje aprendi, aprendemos, teremos que saber impor-nos limites. Não pode valer tudo pronto. Compreendo que estejas magoada, não foi de propósito, não tive essa intenção.

E, pela primeira vez em muitos anos não estavam de acordo, pois não se podia dizer que a experiencia tivesse corrido bem.

Verdade que, tanto um como o outro a tinham desejado, e analisadas as coisas à lupa, tinham-na mesmo provocado. Jamais haviam pensado ou sequer suposto que pudesse ter acabado assim, teoricamente ambos tinham esperado o contrário, mas todos sabemos como na prática as teorias são outras.

Outra coisa, e agora urgia esquecer e seguir em frente.

Seria o melhor.

- Não se chora sobre o molhado, em frente que atrás vem gente.

- Longe vá o agoiro, safa !

- Lagarto, lagarto, lagarto !

 O episódio tivera raízes na passagem das décadas de setenta oitenta, portanto há mais de trinta anos, e, quando há uns meses se reencontraram renovando os passaportes, acabaram rindo da casualidade e da fita que os juntara da ultima vez que se tinham visto, “ O Ultimo Tango Em Paris “ , com Marlon Brando, e que correra no Cine-Paraíso.

Pouco depois dessa fita uma paixão pressentida mas nunca consumada tivera um fim abrupto. Uma disrupção como agora se diz. Ela para Bringhton-on-Sea, na Great Britain e ele para New Bedford, nos States.

Durante mais de trinta anos não se viram, sem Net nem redes sociais acomodaram-se e esqueceram-se, o casual reencontro no Governo Civil foi-lhes motivo, os passaportes móbil.

Seguiram-se os encontros para um cafezinho cada vez menos espaçados, cada vez mais demorados, cada vez mais arrojados. Até um compromisso, primeiramente comedido, de seguida revivalista, acabando por ser loucamente vivido.

Já não estavam sozinhos nem lembravam quotidianamente os respectivos divórcios, nem o resto, nem nada, nem tudo, o mesmo tudo nada que agora os opunha, há que traçar limites, não podiam zangar-se por isto.

Não sabiam como ia ser, muito menos como iria acabar, foi isso.

Não repetiriam concordaram, não se repetiria, acordaram.

- Para quê insistir nisso se há outras coisas tão boas ?

Choramingou ela.

- Tens razão, não há necessidade, não voltarei a forçar.

Caíram de novo nos braços um do outro. Não, não havia dúvidas, não tinha sido de propósito, nem tinha havido essa intenção, a experiencia, com a qual desde a primeira hora em que a tinham pensado tanto os arrebatara, não acabara bem.

- Não pode valer tudo.

Tem que haver limites, contudo, quando há um mês atrás a tinham abordado, primeiro a rir, a brincar, e depois de modo sério, jamais teriam acreditado tanta subtileza existir nesse episódio e, voltando à lupa, uma coisa era o cinema, outra a realidade.

Não tinha havido intenção de magoar, isso não, ele só vira na coisa uma oportunidade de ligar o bom ao agradável, de exercer a sua posse, de dizer :

- Agora sim és toda minha, já não poderás dizer que não meu amor, porque finalmente foste, finalmente és.

E estavam nisto, neste pé, ela contrapondo que ele se excedera. Não era uma questão de emoção mas sim de excesso, além dela não ser uma coisa, um objecto, e muito menos dele, fora isso que sentira, era isso que lhe doía mais que a dor que a magoara, a submissão sofrida, pressentida primeiro e sentida depois.

- Nem penses repetir, isto foi muito para além do tudo querer e tudo dar, e não, não  e não, não fiquei com vontade nenhuma de repetir, nem sei se, para o final, não terias mesmo ultrapassado as nossas intenções, foste bruto pronto, com intenção ou não foste bruto, sentiste estar a magoar-me e não paraste.

- És um animal, besta, és uma besta, não o esperava de ti.

Há três semanas que ela não lhe telefona, 3, nem deixa mensagem, lá para 2043, dois mil e quarenta e três, pensou ele, terá 68, sessenta e oito anos e a andropausa terá tomado conta dele.

- Talvez ela tenha razão, talvez eu tenha sucumbido à fúria do devaneio, talvez a tenha magoado, talvez só mentalmente, mas que interessa agora ?

- Não vou ficar aqui, está tudo a sair, talvez regresse a New Bedford, talvez.

- Talvez a tenha mesmo perdido.
- Perdi, aposto.

- Há três semanas que ele não me telefona, 3, nem deixa mensagem, melhor assim. Só queria que estes pesadelos me largassem. Ainda bem que ele nem dá sinal, talvez seja melhor assim, é melhor assim.

- Preciso de ar, de ar e de distrair-me, e de distanciamento, não vou ficar aqui, está tudo a ir embora, talvez regresse a Bringhton-on-Sea, talvez, talvez o tenha mesmo perdido, será melhor que sim, é talvez melhor sim.

- Talvez o tenha mesmo perdido.

- Perdi, aposto.





http://youtu.be/86ZrusgWnqk

NOTA: Os vídeos, entretanto retirados da circulação pela MGM, eram do filme "O Último Tango Em Paris" com Marlon Brando e Maria Schneider.