domingo, 26 de julho de 2015

259 - ARRANJA-SE EMPREGO * Parte 5 …….......…

              
Parte 5 e última O CONTRATO SOCIAL

Entremos de cabeça na quinta e última explanação sobre a área de formação que temos vindo abordando nos textos anteriores com um pedido de desculpas meu. Este verão, o calor e as temperaturas, que não se faziam sentir tão ásperas desde há 85 anos atrás, especialmente aqui no Alentejo, ou a cerveja, com muita saída e provavelmente sujeita a menos tempo de fermentação podem estar na origem do meu esquecimento e consequente descuido.

Seja como for ainda vamos a tempo de acudir à coisa, até por não se tratar de nenhuma desgraça irrevogável, ao indicar-vos a bibliografia esqueci-me citar e recomendar-vos como leitura deveras imprescindível (aliás, como a primeira), um livrinho já com uns anos mas que toda a gente parece ter esquecido, esquecido o livrinho e o assunto, desde governantes a deputados, ex-governantes e ex-deputados de vários quadrantes, políticos em geral, jotas e jotinhas em particular. Logo um livrinho que para eles deveria funcionar como uma Bíblia, trata-se da obra ímpar de Jean-Jacques Rousseau, “O Contrato Social”, no fim do texto deixo um link de um ficheiro em PDF e poderás colher a obra para leitura sem gastares um tusta.

Sim, porque há que ter em conta que o Contrato Social, um direito natural, funciona como um direito adquirido, e não pode ser sobrecarregado com obrigações que este povo tem cumprido sem contrapartidas. Respeitar compromissos não pode ser uma via de sentido único, só de cá para lá, de lá p’ra cá exige-se no mínimo reciprocidade. Até porque só chegámos onde chegámos por também tu seres um camelo, tu e a cáfila de dez milhões que anda por aí pavoneando a ignorância, quer sejam da situação quer sejam da oposição. Admito que por estar resguardado de ti no conforto deste mundo virtual posso arriar-te a valer não é meu artolas ? E já agora dou igualmente razões à tal recalcitrante de merda, que as aproveita todas para me tratar abaixo de besta, tratar e lá no íntimo chamar…

Deves lê-lo com atenção porque, se não sabes deverias saber que há muito tempo todos falham em relação a ti, o que te autorizará (não sou eu quem concede nem tem que conceder autorizações), a que possas tomar, confiada e justamente, com perfeito conhecimento de causa as opções que entenderes. Por mim torná-lo-ia leitura obrigatória nas fantochadas das universidades de verão que os partidos promovem, ao menos sempre aproveitariam alguma coisita. Colocada que está a questão, e as desculpas, importa não deixarmos arrefecer a vaca…

Para hoje ficáramos de abordar a questão crucial das relações sociais e humanas, portanto limitemo-nos à matéria de reflexão, ás amizades, e para despachar o assunto e arrumar de vez a questão terás que saber distinguir as amizades umas das outras e, concomitantemente (mais uma palavra cara ó Xarabaneka, por vezes tenho que te dar razões para teres razão nas tuas cóleras né ?) as suas subtis implicações e articulações, já que neste particular a subtileza conta, e muito. Vamos, para facilitar, dividir as humanas relações em quatro items, não esqueças estarmos a fazê-lo de um ponto de vista profissional e tendo em atenção sobretudo os resultados e os rendimentos, faço questão que comeces por aqui a pôr à prova o teu sangue frio. Deste modo teremos:

Amizades pessoais,
Amizades por interesse,
Amizades que são contactos,
Amizades profissionais,
E as amizades que não interessam a ninguém…

Pois comecemos precisamente por estas já que só passados alguns anos maioritariamente as reconhecemos, convindo estar atento desde já. Claro que existem sempre aquelas que, de tão evidentes podemos logo evitar de início, ou colocar à parte, à margem, logo à partida. Contudo é geralmente somente após alguns anos que bem as conhecemos, classificamos e arrumamos na prateleira das desinteressantes, das inconvenientes, das prejudiciais ou das incómodas ou até mesmo perigosas. Deves agir em conformidade mas sem dar cavaco, isto é sem fazeres alarde da atitude tomada para com tal pessoa (s), não esqueças que quanto menos souberem a teu respeito melhor para ti, “o segredo sempre foi a alma do negócio”. E quem sabe se não será vantajoso fazer-lhes uma visitinha anónima e secreta ? Quem sabe se não nos poderão ser úteis mais tarde ? Infelizmente haverá sempre quem apesar de tudo para nada disso interesse, ou compense…

As amizades por interesse podem ser piores que uma lapa e não te largarem. Confio que saberás lidar com elas, porque eu queria referir-me às outras, àquelas que, por teu interesse deves manter ou fazer, entre essas não faças distinções, em especial no campo politico, mantém-te neutro (a) e aproveita todos os convites e festas e tudo que te permita entrar, observar alvos potenciais a fim de ponderares se poderão um dia valer a pena… Esses amigos podem apresentar-te a outros amigos e assim ingenuamente manter-te num circuito interessante do ponto de vista profissional e da rentabilidade. Apenas uma nota breve, amigos à direita têm tendência a habitar casas mais recheadas e mais ricas, ainda que também melhor protegidas. Amigos à esquerda acumulam mais tralha e livros e menos valores, mas atenção, entre esses alguns há a quem a vida permitiu ser tão nababos quanto os anteriores e, por vezes, até acumulam mais que os primeiros, mais valor e mais exibicionismo, e por norma descuram muitíssimo a segurança, é gente que faz parte de uma certa elite caviar, de uma determinada nomenclatura, e que vale muitíssimo a pena visitar…

Quanto às amizades que são contactos, são um tipo de amizades que devem ser cultivadas, procuradas e mantidas por razões profissionais. (razões profissionais serão amizades profissionais). São das mais difíceis de obter e como tal devem ser tratadas com lealdade e jamais lhes deves dar a mínima razão para pensarem o contrário. Neste mundo confiança e lealdade são valores inestimáveis, insubstituíveis, terás isso sempre em conta. Nunca procures saber pormenores sobre essas amizades, contenta-te com o que te disserem ou que que souberes, jamais faças perguntas desnecessárias, inconvenientes ou impertinentes, jamais as confrontes com o que quer que seja. Se não confias não lhes apareças, não as solicites. De igual modo mantem, tanto quanto possível ante elas a tua privacidade e os teus segredos. São necessárias e úteis estas amizades, mas também podem ser denunciantes ou bufos, informadores, o “seguro morreu de velho”, fala pouco e ouve muito, cinge-te ao assunto que a elas te levar e mostra-te sempre agradecido. Se o resultado desse contacto for de louvar, se for bem sucedido, demonstra quanto ficas agradecido, faz-lhe uma oferta surpresa, um ramo de flores, ou um perfume (as mulheres adoram), uma garrafa de bom vinho, ou de bom uísque, são lembranças que têm muito significado para quem as recebe.

O grande problema deste tipo de amizades é arranjá-las, serve-te de todos os meios e de toda a gente, simula se necessário seres voluntário de uma qualquer organização de paz e visita-as nas cadeias, leva-lhes cigarros, ganha a confiança dessas amizades, oferece-te para porta-voz delas para a família e amigos que estejam “cá fora”, desse modo ganharás a sua amizade e confiança, o novelo desenrolar-se-á a partir daí, e tu tens necessidade de contactos, de receptadores, de informadores do meio, quem para os quadros ? Para o ouro, a prata, o estanho, as porcelanas, os automóveis ? Existe uma economia paralela e um mundo subterrâneo que vale a pena explorar, fica atento aos jornais, aos programas de Tv, às reportagens, e concluirás que, ao contrário do que dizem o crime compensa, nem precisarás licenciatura, nem licença, nem subsídios de desemprego, nem esmolas, nem cunhas, nem padrinhos, só precisarás ser esperto, inteligente, diligente, observador, calmo, paciente, cuidadoso, simpático, popular q.b. e comprar uma pata de coelho para porta-chaves… Muita sorte meu amigo, e não esqueças que a sorte protege os audazes…

Aproveitarei este parágrafo para te falar das amizades profissionais ou cúmplices. É verdade que podem projectar e potenciar os negócios, multiplicá-los imenso, por dez, por cem, ou por mil, poderão ajudar bastante, mas também podem ceder num momento de fraqueza e fazerem com que te atirem cinco, dez ou quinze anos para fora de circulação… Tudo tem um preço, pondera bem antes… Idem para namoradas ou até esposas, que considerarei amizades pessoais e quanto menos souberem de ti mais vantagens acumularás. O seguro morreu de velho não esqueças. Alega fazeres parte de uma brigada de agentes descaracterizados das forças paramilitares ou da nossa secreta, e habitua-te a fazer cair na conta dela, ou na comum, mensalmente, uma importância certa, à guisa de salário, tens que construir e manter uma fachada, fá-lo de modo profissional e convincente… Mantém as amizades pessoais tanto quanto possível a leste da tua vida, é um favor que lhes farás, a elas e a ti mesmo… 

Boa sorte.





sábado, 25 de julho de 2015

258 - TODA A MULHER É ÚNICA .............................


              Não há duas mulheres iguais, nem as gémeas o são, nasceram a horas diferentes, por vezes com segundos de diferença, além de que terão tido ao longo da vida experiências diversasdiversas dores, vivências e alegrias esculpindo nelas caracteres e personalidades próprias.

Contudo, todavia mas porém cada uma das mulheres deste mundo cultiva uma peculiaridade que sobressai aos nossos olhos, ou ao nosso coração, e que a torna diferente das demais. Podemos dizer nesse caso que essa mulher é única, é única nesse particular, nesse aspecto, nessa peculiaridade, e é única para nós que a olhamos, porque tal como a questão que o meu amigo Cainha aqui levantou há uns dias, observador e observado influenciam-se mutuamente, interagem a ponto de um poder modificar o outro. Logo, o que eu vejo na faceta que tal objecto da observação me mostra outros poderão não ver, e até talvez vejam nele perspectivas que eu não lobrigara. Portanto, também a mulher objecto de observação (não mulher objecto), será em determinado momento e para quaisquer indeterminadas pessoas um ser único, uma pessoa única, uma mulher única entre os quatro biliões de mulheres que compõem este planeta. Não, não sendo um fenómeno, não deixa de ser coisa fenomenal.

É neste quadro, ou sob esta perspectiva, que todas as outras qualidades que essa mulher possa possuir, e os defeitos ou deméritos, passam também a ser para esse mesmo observador, aspectos secundários, menorizados, aspectos aos quais jamais dará importância, pelo menos não lhes dará importância suficiente para ofuscar o que nela vê de único. Enquanto ela mantiver a peculiaridade que aos olhos dele a tornou única, manter-se-á única, perdida essa particularidade todos os méritos se perdem com ela. Perdido o encanto, diria então que perdeu a graça, ou deixou de ser engraçada, já que neste mundo mais vale cair em graça do que ser engraçado, como todos bem sabemos.

Esta retórica filosófica de hoje nasceu à mesa do café, pois logo cedinho o sol aqueceu como na Grécia e as cervejas escorreram goela abaixo colmatando uma canícula que não se sentia há mais de 80 anos, assim gritava o cabeçalho do jornal que o Amadeu Coelho vinha arvorando na mão mas, fosse qual fosse a tirada, de nada teria valido ao Amadeu já que de imediato alguém que o conhece bem lhe atirou:

- Não venhas com merdas porque qualquer que seja o assunto não te sentas aqui na mesa sem primeiro mandares vir uma rodada, já te conheço suficientemente bem, e nem sou nenhuma das tuas mulheres…

Estava entornado o caldo, não porque a Amadeu Coelho fosse bígamo, que o não era, verdade que tivera várias mulheres, ia na quinta, mas diga-se em abono do desgraçado que apenas uma de cada vez. O caso é que o facto de o Amadeu já ter sido casado tantas vezes lhe pesava, ele era daqueles que não se contentava com o que numa mulher a tornasse única, para ele todas seriam únicas, e nesse particular as quereria a todas só para si, ainda que a malta o castigasse amiúde com picardias do género;

- Tu não podes ser bom, pois por onde tens parado todas têm corrido contigo.

Ao que ele contrapunha buscar e continuar buscando enquanto a saúde e a idade lho permitissem, a mulher ideal, que, sem êxito, há tanto tempo procurava sem que a encontrasse. Embora de poucas falas a Carmelinda nunca perdia a ocasião de lhe atirar à cara:

- Nas Caldas, manda fazer uma de barro e a desejo nas Caldas. (Caldas da Rainha, apresso-me a esclarecer antes que vossas senhorias dêem outro rumo à conversa e que ela não tinha, ou tinha). E rematava emborcando de uma vez a caneca, ou o copo, dependendo do que tivesse à frente, levantando-se e atirando ao Amadeu já de abalada:

- Olha ó perfeitinho, já agora paga a conta, para que pelo menos uma vez na vida alguém te veja a cor, aposto que nem as mulheres por ti tidas a viram meu Coelho de merda…

Nunca havia discussão, por muito que o Amadeu ficasse a espumar e vermelho de raiva a Carmelinda sumia-se num instante pelas escadas do prédio, paredes-meias com o café. Consta-se que certa vez tendo ele ficado sozinho na esplanada ela lhe atirara um alguidar de água acima, a verdade é nunca se ter apurado de que andar a trovoada caíra.

A questão da mulher única, única entre os quatro biliões delas que o mundo carrega tem muito que se lhe diga, estudos demográficos e estatisticos reduzem esse mundo por vezes a uns escassos milhares ou escassas centenas, quando não meras dezenas… Está provado que escolhemos a mulher única geralmente no nosso mundo, e o nosso mundo é a nossa cidade, a nossa vila, a nossa aldeia, e por vezes o nosso bairro, a nossa rua, escola, sala de aulas, a turma, o escritório, a fábrica, ou o café frequentado, e mesmo aí nesse circunscrito universo, fazemo-lo geralmente dentro do nosso escalão social, cultural ou económico. 

Não há duvida que os predicados da mulher única ficam agora circunscritos a uma galáxia de possibilidades ou escolhas muito mais reduzida, mas igualmente o olhar delas sobre nós, que pudendo recair noutra dimensão provavelmente lhes daria também a elas a hipótese de encontrar alguém com muitos mais pergaminhos, alguém com mais interesse ou interessante que nós para ser mais claro. Que isso nos sirva ao menos para cultivarmos a modéstia, haverá por aí bué de milhares de homens por quem as nossas queridas e únicas mulheres nos poderiam trocar sem pensar duas vezes. Vale-nos o facto do amor ser cego, ou cegar… Parece que com o Amadeu elas abrem os olhos bem cedo e se metem a milhas, alguma qualidade escondida ele terá que a malta ignora…

São tantas as coisas que perante nós poderão fazer de uma mulher única como mulheres há neste mundo, há gostos para tudo, dos olhos profundos ao nariz arrebitado, da covinha no queixo aos seios empinados, ao sinal na face, ou ao cabelo, penteado ou despenteado. Pessoalmente gosto de mulheres modestas, minimamente cultas (muito cultas não, geralmente ninguém dá conta delas, nem na cama são grande coisa, sei do que falo, tive uma assim),* mas há quem as adore pretensiosas, e até dominadoras. Como disse há gostos para tudo e desde que isso não prejudique ninguém, nem nos mate, tudo bem…

O meu amigo Ramires, que enterrámos o ano passado e sobrevivera apenas dois anos à morte da extremosa esposa, faleceu devido à ausência dela, todos nós o sabemos. A amiga Mavilde ia muito além do papel da devota esposa do saudoso Ramires, a Mavilde era mãe dele e sem ela sentiu-se perdido. A terna Mavilde dava-lhe colinho, e mama, não era segredo para ninguém, provavelmente o Ramires já a elegera pelos seios fartos, talvez lembrando-lhe a mãe, sei lá, essa senhora não a conheci eu, este cenário é coisa que imaginamos e até já discutimos todos à mesa do café, e quando digo todos refiro-me à roda de amigos (e amigas). Temos de comum e pacífico que a primeira vez que a Mavilde lhe terá dado ordens após a mama conseguiu o pleno, dois em um, tornando-se para o Ramires a mulher única, a mulher dos seus sonhos, seios fartos, mãe autoritária, epicentro de segurança. Ela morrera de acidente coitada, uma distracção e caíra no poço do elevador da Misericórdia, mas ele morreu de saudades, da falta dela, e todos sabemos quanto e durante tantos anos ela o fizera bem feliz.

Não se casou o Cesário com a Martinha por se ter apaixonado ao vê-la fazer bolos ? Não resistiu ao cheirinho, nem ao chocolate, ou aos morangos com chantily, há pelo menos duas décadas que se enfarinham mutuamente, e sempre felicíssimos aqueles dois !

A sensualidade tem razões que a razão desconhece, agora não, e nem o faço por uma questão de respeito, mas sim porque mudei, as pessoas com os anos mudam, vá lá, concedo que o faço também para a não recordar, nesse aspecto ela fora única, e não posso dizer que a dezena de anos casados não tenham sido de amor e felicidade, a coisa ficava entre nós, não extravasava, a Rorinha adorava gritar, guinchar e falar mal, sim, largar palavrões, abusar do vernáculo. Quando na cama transmutava-se, e transmutava-me a mim. Faleceu numa ocasião dessas, com uma arritmia que a fulminou. Fui muito feliz com a Rorinha, o senhor lhe tenha em descanso a alminha. Não a teria trocado por nada nem por ninguém, mas o apelo do Senhor falou mais alto…

Gosto da que tenho agora, com quem me dou maravilhosamente, com quem embirro casualmente, que me azucrina, a quem espeto alfinetadas, pico, e com quem me zango de vez em quando. É girinha, mais para o pequeno que o grande, adoro-lhe sobretudo os cabelos, os olhos, os lábios, o sorriso, é divertida e alegre qb, e uma boa amiga, sendo sobretudo terna, amorosa e querida. Soube tornar-se numa mulher única, e atura-me, o que não deve ser nada fácil, se bem me conheço.

E vocês que têm de único para oferecer ?
   
* Nota: este parêntesis não se destina a contemplar as minhas amigas que amiúde me sarrazinam a cabeça com críticas descabeladas, aliás, algumas nem perceberiam a piada.



terça-feira, 21 de julho de 2015

257 - ARRANJA-SE EMPREGO * Parte 4…............…


                Agora, que já te vais familiarizando com a coisa, é chegada a altura de dar um avanço na dita e o momento p'ra fazermos um suponhamos. Supõe que tens a formação efectuada e que, mau grado o 9º, ou o 12º ano, ou alguma licenciatura que tenhas não te servem para nada. Ainda tentaste um mestrado, de seguida um doutoramento, igualmente para nada. Neste pais não tens a mínima hipótese de saída profissional, ainda por cima teimas não aderir a um partido… E emigrar não queres… Serás como eu, que sou teimoso e entendo esta terra minha, dos portugueses, e não acho justo que justamente os outros, os estrangeiros, sejam quem nela tem maiores oportunidades e nível de vida… Eles compram tudo e não nos deixam nada…

Olhamos para os Salgados, para os Oliveira e Costa, para os Rendeiro, para os Dias Loureiro, para os Lima e tantos outros e perdemos a fé na justiça. Há muito conclui que nesta terra vale a pena ser sério, sobretudo se esperarmos um lugarzinho no céu. Por isso deduzo que farás as tuas contas, como eu fiz as minhas, cujo resultado foi ainda acreditar nesta democracia. Ela terá também uma oportunidade p'ra mim, assim eu queira, assim eu saiba, assim eu resolva os problemas de consciência que, desgraçadamente me afligem a moleirinha. Toda essa gente que atrás citei, ou não tem problemas ou não tem consciência, ou nenhuma das duas. No tempo de Salazar era tudo mais fácil, nem essa tal gente teria ousado, seriam chamados à pedra de manhã e atirados para o Aljube ou Caxias à tarde, e antes que piscassem um olho os bens estariam confiscados. Agora é diferente, temos democracia e temos justiça, e leis, e buracos, e virgulas, e legalismos processuais que permitem a quem tenha dinheiro eternizar os processos até à prescrição, ou até que os netos morram de velhos…

Subtil, disfarçada, camuflada, a luta de classes aí está para te tornar servo da gleba de novo.  A escolha é tua, sim ou sopas ?

Meio mundo a foder o outro meio mundo, desejas ficar por cima ou por baixo ? Faz como o Catroga que soube escolher bem … Ele e tantos, desde a 1ª República que não se via nada assim…

Continuando o nosso suponhamos, fizeste as tuas contas, fizeste a tua opção, fizeste a tua revisãozinha moral e constitucional, e supondo teres concluído que a democracia jamais se ajustará a ti, irás tu ajustar-te a esta democracia. Muito bem, ou muito mal, já que se há alguém que não deve meter prego nem estopa sou eu, que me devo manter a leste, não influenciar, não meter o bedelho, nada de intromissões, serás tu, terás que ser tu sozinho (a) quem terá que ultrapassar pruridos, se inda os houver.

Pois bem, vamos supor que os ultrapassaste, que leste com atenção o primeiro, segundo e terceiro textos desta série, alegadamente estarás disposto (a) a ir em frente, então entremos noutros campos, o do equipamento pessoal de auto-ajuda e o das relações pessoais e humanas, qualquer deles como verás, igual e extremamente importante para o teu desempenho e futuro, para o teu sucesso, para o aproveitamento de todas as tuas potencialidades. Vamos debruçar-nos sobre o equipamento primeiro por ser atar e pendurar, como no fumeiro, num instante despacharemos esta parte, a outra exigirá mais tempo e atenção.

Começarei pelo primordial, óculos de sol que te permitam ver sem que ninguém se aperceba para que lado ou para onde estás olhando, para disfarçadamente poderes olhar de viés… Bloco-notas, tomar nota é essencial, em muitos casos pode ser a pedra angular de um resultado, deverás observar qualquer situação muito bem antes de agires, não o faças sempre às mesmas horas nem a partir dos mesmo locais, já há dois séculos Darwin se referia e explicava a coisa aludindo à riqueza infinita da variedade, portanto varia, varia para que ninguém te estranhe e ou te denuncie, varia o local, as roupas, as horas e se possível o carro ou a mota, mas varia muito.

Vivenda, apartamento, condomínio, escritório, fábrica ? Aponta tudo muito bem, quantas pessoas, a que horas partem, a que horas voltam, quantos carros, marca, cor, modelo, se estacionam sempre no mesmo local, se frente à casa ou na garagem, voltam ao almoço, um, os dois moradores, nenhum ? Como são as portas, as janelas, existe quintal, portas e janelas nas traseiras, quem são os vizinhos, quais os seus hábitos, a que horas o carteiro costuma aparecer, existem cães ? Este questionário, que pode e deve ser constantemente melhorado e tão extenso quanto possível e as circunstâncias o permitirem e aconselharem nem é o primeiro passo, mas dar-te-á milhares de informações e poderá permitir-te laborar às claras, sem pressas, sem stress, portanto com menos risco e maior proveito. Disse o segundo passo porque o primeiro deverá abranger o “quem” ? Quem observar, quem eleger para fulcro da tua atenção ?

Se tiveres veia voyeurista escolhe gajas boas, ou machos musculosos, eu não tenho que discriminar, se tiveres outros motivos ou intenções então os teus alvos terão naturalmente que ser outros, deduzo eu. Eu que somente uma vez, e há muitos anos espreitei uma vizinha no banho, mas calma, fazia-o porque ela sabia, ela deixava, ela incentivava, e até abria a janela da casa de banho e afastava os cortinados mal acabava de me acenar e dar os bons dias. Eu fui seduzido é verdade, mas não posso dizer que tenha sido enganado, primeiro porque o produto era de primeira, e em segundo lugar porque quem acabou por casar com ela e manter-lhe os gastos caros foi o capitão Evaristo, meu vizinho, que avançou apesar dos seus sessenta e muitos, e que ainda ontem vi, aliás vi os dois (ela amparava-o carinhosamente), saindo do escritório de advogados de Honório & Otário, ali à travessa da Mangalaça.

Mas enfim, sê justo (a) e democrata, nem tudo servirá nem será eticamente indicado para alvo da nossa atenção, ainda que haja mulheres que pela sua beleza a suscitem, ou gajos bem apresentados e que a mereçam, montados em Ferraris mas com salários em dívida a centenas de trabalhadores. Nunca esqueças quão efémera é a beleza, até porque gajas boas haverá sempre, centra-te na justiça, essencialmente na justiça redistributiva, como o Robin os Bosques, ou o Zé do Telhado, para que não digam que excluo a nossa literatura.

Após esta fase de observação e selecção de alvos, sobre a qual muito mais poderás aprender em manuais de treino militares, passemos ao equipamento de uma forma rápida e geral, superficial, pois a prática e as necessidades que sentires em cada ocasião te aconselharão a ir melhorando esse arsenal, até por não haver muitas situações iguais, como concluirás. Já tens óculos de sol, bloco-notas, pois arranja também binóculos bons, anti reflexo, e se possível uns que te permitam tirar distancias e tirar fotos, já estão no mercado uns digitais, ainda caros, mas um must !  Gravam e fotografam tudo, até fazem pequenos vídeos como os telemóveis e gravam as observações verbais que lhes queiras adicionar ! Depois e genericamente, luvas finas de algodão, há baratas em qualquer hipermercado, atenção, nunca as uses mais que numa ocasião e tem cuidado a desfazer-te delas, como aliás do bloco-notas etc etc etc… Todo o cuidado é pouco, assegura-te que essas provas sejam mesmo destruídas.  

Continuando, uma dúzia de ténis discretos e baratos cuja sola seja sempre desigual, também não devem ser utilizados mais que uma vez, destrói-os sem complacência depois de utilizados, se usares sempre os mesmos qualquer perícia e observação atenta será capaz de provar em quantos e quais os lugares onde passaste ou estiveste…. Um aparte, usa o cabelo curto, (caem menos) e os bolsos tanto quanto possível vazios, tal reduzirá as hipóteses de, inadvertidamente deixar pistas nos locais visitados. Nunca abandones ou atires fora um lenço onde cuspiste, te assoaste ou limpaste, temos tendência a atirá-los fora, quer para o lixo quer para a sanita, e mesmo nessas, nunca urines ou defeques quando estiveres a trabalhar, nem que puxes dez vezes o autoclismo, o ADN agarra-se a tudo, e nunca o vemos…

E finalmente o estojo, deverás compor um com várias ferramentas, um canivete suíço e um apalpa folga adaptados, um busca polos daqueles com fio entre o ânodo e o cátodo (normalmente trazem um fio de 20 a 30 cm), fio que substituirás por outro de 2, 3 ou 5 metros de alcance. Uma ventosa e um bom corta vidro de diamante, digo bom porque os baratos acabam por sair caros… e nunca cortes o vidro do mesmo modo pois isso acabará como sendo uma “assinatura” que te identificará. O modus operandi já tem mandado a baixo resultados muito bons…Habitua-te a usar e a levar roupas justas e discretas, roupas que não prendam os movimentos nem se prendam deixando comprometedores bocados… até um fio nos codilha… as coisas falam... Podes até ter fardas, dos serviços de gás, de electricidade, dos telefones, das águas, não esqueças o boné, cuja pala deve recair sobre o rosto, como não deves esquecer os emblemas dessas entidades e o uso de uma ficha/questionário elaborada por ti e para recolha de informação.

Tais adereços permitir-te-ão entrar nas residências em quaisquer altura em que os ocupantes lá se encontrem, e assim poderás “ver” os equipamentos e, claro, aproveitares para observares outros pormenores, tranca-portas, alarmes, outros familiares que também habitem a casa, gatos, quadros, castiçais, bibelots, porcelanas, pratas, guarda-jóias, estanhos, terás que treinar o olhar até se tornar fotográfico, tens bons argumentos para seguir canalizações, torneiras, tomadas e fios eléctricos, de telefones e cabo, chuveiros e esquentadores, desculpas que te permitirão deambular por toda a casa e, mal saias, registar as peculiaridades no bloco-notas antes que te esqueças do que viste. Atenção a esse bloco, dar-te-á muito, mas também te pode dar uns bons anos de arrelias, o bloco ou imagens que fiquem nos binóculos, telemóveis, máquinas fotográficas ou pc’s. Aprende a limpar tudo, mas a limpar mesmo e não só apagar.

O resto são trivialidades, um alicate, uma chave de fendas forte, ou várias, uma gazua não pois daria muito nas vistas, em vez dela um desmonta pneus preferencialmente usado fará melhor, passará despercebido, e sempre podes alegar ter sido esquecido dentro do carro por alguma oficina onde tenhas estado, uma pequena lanterna de foco fraco e concentrado também será de muita utilidade e não chamará a atenção a partir do exterior, o que para já completará o nosso estojo, a vida e a prática te aconselharão melhor que eu a torná-lo mais e mais completo e bem apetrechado. Ah ! Uma marreta de mão e um punção serão muito uteis para sacar canhões de fechaduras…

Por hoje é tudo, já estou a adivinhar a tal gaja a espumar pelos cantos da boca, na nossa próxima e última aula abordaremos a complexa questão das relações sociais e humanas sob variadíssimas perspectivas, é a parte que geralmente toda a gente adora. Incluindo eu.

* http://mentcapto.blogspot.pt/2015/07/256-arranja-se-emprego-parte-3.html


segunda-feira, 20 de julho de 2015

256 - ARRANJA-SE EMPREGO * Parte 3 ……......…


Parte 3
Ainda a loja não abriu e já começaram a chover criticas, que sou arrogante, que sou convencido, que armo aos cágados, que intimido, que não me despacho com o assunto. O pessoal pode ser do piorinho, nunca comentam em público, fazem-no pelas costas, pela calada, ora se se tratasse de engates e negócios de cama eu ainda perceberia o secretismo, até o recomendaria, mas não sendo o caso só entendo a coisa como cobardia, cobardia de fazerem como eu faço, exponho-me, e qual o problema ? Meia dúzia de ignorantes chamarem-me convencido ? Ok ta bem, eu aguento, com isso eu posso, com isso e com muito mais !

Mas voltemos à vaca fria que esta malta do secretismo é como aqueles tais que toda a gente conhece, empata fodas, nem fodem nem deixam foder… Antes desta polémica estava eu meditando ter aprendido tarde ser a vida curta. Não fosse já ter ultrapassados os cinquenta, daqui a meia dúzia de anos serão já sessenta, enveredaria por esta carreira sem a menor dúvida ou hesitação. Agora é tarde, uma fístula num joelho não me deixa correr, e uma hérnia inguinal obriga-me a usar funda p’ra segurar um tomate, ou andaria sempre pendente, a badalar, a incomodar, a atrapalhar. Sinceramente não me estou vendo um profissional de sucesso e elevado potencial com os tomates pendurados, o que seria pior que pendurado pelos ditos. 

               A formação e carreira que recomendo destina-se inequivocamente a malta nova, coisa que aposto já toda a gente terá percebido. Quando muito transmitir-lhes-ei a minha experiência de cinquentenário bastante vivido, mas isso é coisa à parte, não será pága e nem consta no curriculo.

Tenho que me concentrar no que interessa porra, hoje estou a afastar-me demasiado, tudo por causa daquela gaja maluca que está sempre a recalcitrar, sempre do contra, tomara que o marido a emprenhe outra vez, ou o marido ou alguém com tomates já que estávamos falando disso, com três filhos restar-lhe-á decerto muito pouco tempo para me azucrinar a cabeça, ou ainda me verei a participar dela às autoridades por assédio moral, ou moralista.

Claro que as conversas são como as cerejas que se comem umas atrás das outras, falou-se em autoridade, autoridade leis, leis códigos, e claro enquadramentos legais, mecanismos legais, formalismos legais, acusação, defesa, prova, contraprova, contraditório, todo um mundo onde quem não se saiba mover ou que o não entenda sairá sempre a perder. Também constitui preocupação minha a cobertura legal da tua actividade. Estudarás alguns elementos do nosso Código Penal, Cível e Criminal, o que só te dará mais bagagem, mais conhecimentos, mais à vontade, mais auto controle, mais segurança, mais confiança e sobretudo tolerância, paciência e sangue frio no exercício da profissão, outros códigos, como o Comercial, por exemplo, não interessam de todo nesta formação.

Esta minha preocupação prende-se com o facto singular de te querer preparado para reagir a toda e qualquer situação, se fores apanhado (a) numa situação inesperada como vais reagir ? Debaixo da razão ou da emoção ? E vais disparar, como fez o cabo Hugo Ernano contra um bandido desarmado ? (a quem por infelicidade matou o filho). Também tu puxarás de uma carabina contra uma mosca ? Também tu irás arranjar-te problemas a ti mesmo (a) desnecessariamente ? E optarás por andar armado (a) ou desarmado (a) ? Há todo um conjunto de normas, regulamentos, leis e medidas que estipulam quem, como e quando, ou em que casos é lícito usar uma arma, e como foi ela usada ? Como defesa ? Como meio de ataque ? O portador tinha licença de uso e porte de arma ou não ? De múltiplos factores dependerá a condenação e a pena, geralmente nestes casos pesa muitíssimo em desfavor a nossa ignorância. Bem, a ignorância pesa sempre, mas nalguns casos pode fazer a diferença entre pena nenhuma, pena suspensa, liberdade condicional ou uma pena dura. Giro não é ? O cabo Hugo Ernano que o diga que não deve achar agora graça nenhuma ao facto de ter infringido levianamente o regulamento de uso e porte de arma por um militar, no caso paramilitar… Eu diria que foi vitima de uma má formação, talvez até péssima, e, é notório que a cabeça também não o ajudou.

Aposto que irás achar graça ao eclectismo das matérias a abordar, aposto que aos poucos te sentirás mais completo (a), mais seguro (a) de ti, mais informado sobre e acerca do mundo em que te movias, moves e moverás. Aposto que passarás a ver com outros olhos muitas coisas que não te suscitavam o menor interesse, e outras que pura e simplesmente nem entenderias e das quais por isso te alhearias, na vida somos como as policias, que só sabem o que lhes contam, a frase não deve ser entendida literalmente mas tem muito de verdade, sendo um aspecto sobre o qual na formação nos debruçaremos detalhadamente, pois quem, ou o que poderá contar imensas coisas à policia abrange um vasto leque de situações, atitudes e comportamentos, já para não falar em provas materiais, as quais, submetidas a uma qualquer perícia, falam pelos cotovelos, contam coisas, e podem ser determinantes no resultado de uma investigação. 

A vida não é como a vês nos filmes, os filmes que vês é que são como a vida, é preciso não confundir as coisas, e sobretudo estar atento. O sucesso ou insucesso de quaisquer acções pode ser decidido por uma beata deixada no local, uma mijadela dada ou uma escarreta atirada com desdém. Uma pegada, uma dedada num copo ou numa garrafa, numa maçaneta de porta, numa torneira, num vidro, são coisas que contam e falam muito. As coisas são como são, e quem procura acha, tal como quem espera sempre alcança. As coisas não são aleatórias, aleatório pode ser sim o pensamento que te passa pela cabeça, e uma cabeça distraída, ou ignorante, ou mal formada, terá razão de queixa de tudo e tenderá a afirmar que tudo e todos estão contra ela, quando na generalidade dos casos, somente de si se poderá queixar.

Prevenir, precaver, terá que, a par do seguimento das normas de higiene e segurança no trabalho, ser uma constante a transformar em modo de ser e de agir. Capice ? Espero que aos poucos te estejas embrenhando no espirito da coisa, porque a coisa não se articula bem com paternalismos ou moralismos serôdios, antes pelo contrário, exigirá de ti uma atitude fundamental, sólida, estruturada, atrever-me-ia a dizer que eticamente irrepreensível. Tudo se resume a uma questão moral, e terás que estar preparado (a) para quando necessário te substituíres neste capitulo ao próprio Estado, que fala, fala, fala, mas não faz nada, não cumpre. Basta olhar em redor e observar como o Estado redistribui a pouca riqueza que o país produz.

Deixo essa avaliação e apreciação a cada um de vocês. A cada um e até àqueles que nunca tiveram trabalho nem nunca terão, nem tiveram RSI nem nunca terão, que já tenham tido, ou não tido subsidio de desemprego mas que nem isso voltarão a ter, e àqueles que nunca conheceram outra situação que não o desemprego, os contractos a prazo de quinhentos euros ou a precaridade. Deixo esse julgamento aos jovens, às mães e pais que nunca o serão e que jamais constituirão família, ou um lar, a menos que fujam daqui …

Deixo isso a vomecês que eu detesto imiscuir-me na política, hoje é domingo, a cerveja ta da cor do sol e o sol queima como estes grelhados que já fumegam na brasa, venha mais uma dúzia para a mesa, loirinhas, fresquinhas, e a espumar c’a malta já se está a babar….

(continuará num próximo texto)  

P.S. – E para a tal personagem recalcitrante de que vos falei ao principio, saia um balde de merda bem, provido, e com gelo !






domingo, 19 de julho de 2015

255 - FRAGRÂNCIAS DE ONTEM E DE HOJE ...…..

              
             Parei a mota no lugar a elas destinado e, ao levantar a cabeça p’ra retirar o capacete quedei-me pasmado, olhando a loja em frente, a fachada e o fundo, um sorriso empático dançando numa boca tinta de vermelho e, assim como que pisando alfombra ou levitando numa nuvem, senti a ilusória frescura do jardim de Hespérides enquanto na minha mente um filme antigo era rebobinado e o passado lembrado como caindo a conta-gotas.

... «Kermesse de France, Phragrancias de Europa para a mulher ideal, assim mesmo, com ph, montra em vidro negro biselado a dourado, decerto da mesma idade,  Paris, loucura, anos vinte, Casa phundada em 1927, ... ta explicada a coisa, a coisa e o estilizado novecentista de uns lábios e de umas pernas no vidro da montra e cujo significado demorei  séculos a entender, ... os lábios retintos de vermelho da velhinha, teria sido bailarina ? aprumada, arranjada, linda, já não há velhinhas assim, um dia plof e a loja para trespasse, mais uma…» * ...

Rejubilei, e quando acordei mirei tudo com redobrada atenção, já que assistia in vivo à ressurreição de um passado, agora sem os limos nem as cores esverdeadas que os náufragos e os mortos invariavelmente arrastam ou trazem agarrados a si.

Depeniquei-me propositadamente p’ra me confirmar acordado, pois se tratava de caso único nos anais do esoterismo, cujo karma decerto atrevidamente me convocara para lhe testemunhar a aura e lhe espalhar a palavra, o conhecimento e a luz delas emanadas. Saibam portanto os eborenses e outros habitantes deste mundo que a “Kermesse de France” * não morreu, está viva, vivinha da Silva, ou da Costa, mais linda que nunca e recomenda-se, passai palavra ou copiai e partilhai este edital.

«Kermesse de France, Phragrancias de Europa para a mulher ideal» * Não tem já a singeleza dos antigos dizeres, ou biselados dourados, mas mantém as prateleiras preenchidas de aromas de encantar, filhos dos mais famosos narizes do mundo, segundo tive ocasião de constatar.

Não fora convidado mas não me fiz esperar, de capacete na mão, c’a boca aberta de deslumbramento, deixei-me levar, deixei-me entrar, recordar, mirar, medir, comparar, embevecer e conquistar. Há menos folhetos agora, menos desperdício de papel, logo mais árvores e mais natureza, há modernos telefones, computadores, programas, tábua de Excel e formação. Há ali muito marketing e muito profissionalismo, sites, forte presença nas redes sociais, campanhas, equipamentos, demonstrações, vendas, agressividade, produtividade. Nada parece ter sido deixado ao acaso.

Enquanto a cidade continua afundando-se, na gruta de Trofônio, ali assiste-se à ressurreição dos mortos, ao pulsar da vida, latejando, lutando, persistindo. A loja mudou de donos, compreensivelmente de marcas, mas não mudou de ramo, provavelmente nem de clientes, certamente dentro de poucos anos poderá dar-se ao luxo de comemorar o seu centenário.

Encostado ao balcão eu remirava tudo, uma cliente foi simpática, longa e exemplarmente atendida pela Marléne de France que, debitando conselhos, olhando o PC advertia-a para a vantagem das campanhas, atenciosa, solicita, paciente. Tudo isso eu vi, numa inusitada deferência de onde somente me restou ajuizar do conhecimento personalizado tido da cliente, que amavelmente foi convidada a visitar e a voltar à loja, e da enorme preparação exigida por tão paciente quão profissional atendimento.

Ao fundo dessa loja outra abelha obreira mexia e completava a larga gama de ofertas da colmeia, enquanto eu, esquecido da exposição do José Cachatra onde inicialmente a intenção me levara naquela manhã, ali jazia embasbacado, de máquina fotográfica na mão, preparado pra captar a alquimia do presente, olhando a sorridente Marléne de France, parecidíssima com a velhinha guardada nas minhas velhinhas memórias precisamente quando eu um catraio e ela velhinha coisa nenhuma … «ainda hoje recordo tudo menos a mulher ideal, que nunca conheci, se me gravou na mente quando do meu exame de acesso à escola preparatória e nunca mais, ... casei com uma santa mas a mulher ideal nunca, ainda hoje sonho conhecê-la, não passa de um sonho, já nessa época a Europa só sonhos, e a única verdade que lembro é a mesma senhorinha linda que desde esse exame segurava  o leme ao balcão da loja, magra como um fuso e elegante que nem bailarina de can-can» *

E eu esperando o alinhamento dos chacras a fim de disparar a máquina e aprisionar para a posteridade o espírito, a essência da coisa, coisa de que afinal me esquecia, tão enfronhado quão distraído estava de mim e da coisa em si que quando acordei pedi à Cátia de France um perfume, “Jardim de Évora”, somente para dar à minha presença maior peso e solenidade, tndo todavia recebido um serviço completo e, hoje sei que tal perfume encerra essências alentejanas e mediterrânicas , nasceu em Chartres, França, a capital do perfume, tendo sido lançado após geminação das duas cidades.

Meia hora mais tarde, conversando com alguém que encontrara à saída da exposição do Cachatra, era-me dito ter a cidade concorrido a verbas dos Fundos Comunitários Europeus, ou da Fundação Luso Americana Para o Desenvolvimento, c’o fito de levantar e reparar o piso de quase todas as calçadas e ruas da velha urbe, velhas de séculos e, mais coisa menos coisa obra para uns dez anos ou mais. A fonte era suspeita, mas a minha esperança na recuperação do nosso querido burgo levou-me a acreditar. Secalhando nada acontece aleatoriamente ou por acaso, secalhando terei mesmo razões para crer no inacreditável.

Na mudança do século os astros parecem ter-se conjugado de modo especialmente desfavorável para Évora, a cidade definhou abrupta e visivelmente com más vibrações desde então. Alimento esperanças que a ressurreição esteja aí, para que, tal como quando eu gaiato, possa rejubilar como no passado e voltar a ver em cada dia novas lojas e empresas florescendo como cogumelos. Agora encerram diariamente a um ritmo alucinante, e não é nenhuma miragem.

Recordo ainda a abertura das oficina do Xico dos Pombos e do Espingardeiro, até a do Pássaro Gago, numa ruela apertada e que depois foi passada ao Picaró, como lembro o tugúrio na rua do Muro de que o Z.L. Zurzica (infelizmente deixou-nos há bem pouco) transformou numa empresa de eleição, ali mesmo ao lado estava o industrial mais simpático que conheci, Varela Tenório de sua graça e pessoa nos antípodas do correctíssimo senhor Abêbora, em cuja oficina no Lº. de S. Domingos andávamos de patins, tão comprida era.

Secalhando será verdade que, de cinquenta em cinquenta anos o alinhamento dos planetas oferece, ou permite que tal conjugação seja a espoleta de mudanças nesse sentido, e secalhando a morrinha que tomou conta da cidade principie cedendo e aquela loja seja o primeiro sinal de mudança, de regeneração, de resiliência.

Dantes vinha gente de Lisboa apostar aqui, o Graça, o Guerra, que com ajuda do Fernando Maudslay e do Carreira deram mais vida àquela empresa que ritmo hoje presenciamos numa feira. Depois, mais abaixo, o Rodrigues e o sô Manel mais o Tremezinho deram um empurrão valente na ajuda à agricultura, e não só eles, os irmãos Silva atingiram a órbita sideral por esses dias, lançaram-se nos tractores Hanomag, furgões comerciais, ceifeiras Laverda, tal como o Peleiro (a quem muitos por ouvirem mal chamavam Poleiro), que desposou o Liberato e em vez de peles se puseram a vender Toyotas a toda a gente. 

Raro era o dia em que meia dúzia de novas empresas não fossem inauguradas, alguém que o tente agora e verá os trabalhos em que se mete, pagamentos por conta, taxas, taxinhas, derramas e regulamentos, não há Município que não caia em cima do desgraçado, até o Estado, que já não vive à custa de quem pode, agora complica a vidinha a toda a gente sem excepção, é mais democrático. E dentro dele a constelação ASAE, um estado dentro do estado. Tornámo-nos um país enleado nas suas próprias leis e contradições, de tal modo que a iniciativa em vez de aplaudida acaba por ser combatida.

Antigamente qualquer um amealhava uns tostões, aventurava-se por sua conta e abria uma empresa, agora mal ganhará para comer quanto mais para juntar poupanças, isto se não estiver dependente da sopa dos pobres… Ganhámos, em Portugal acabámos com todos os capitalistas, agora mendigamos investimento a estrangeiros e qualquer dia seremos todos metecos deles. Os que “matámos“ eram certamente capitalistas, mas eram os nossos capitalistas. Não imagino, mas será que ser escravo do capital estrangeiro é um outro luxo ?…

Deve ser verdade que a democracia nos fica curta nas mangas, o pior é que está a matar-nos, mas ao contrário do que eu mesmo imaginara, esta loja sobreviveu à hecatombe que sobre este país se abateu, é que, sabem, nasceu há mais de cem anos sob um outro astral…