sexta-feira, 23 de outubro de 2015

282 - NUDISMO EM SINES ??????????????????? ...


           Nós queríamos vê-las, não tanto porque isso tivesse alguma particular importância, essencialmente matar-nos-ia a curiosidade. Nem era eu o único sedento por descobrir o que teriam elas de especial que fizesse aquele grupinho dos grandes babar-se e gargalhar sempre que alarvemente  se juntava. Invariavelmente eram cercados pela garotada e pela rapaziada, ávida de os ouvir, mor das vezes sem os entender…

Houvesse esperança e paciência para esperar que no fim da conversa as mulheres viriam forçosamente à baila, nunca vi nenhum daqueles grupos dispersar-se sem que assim não fosse e sem que dissensões que eu então não entendia conduzissem à dispersão dos grupos de galhofeiros.

As viagens eram difíceis, nem melhoraram de ano para ano, ao camião eram adaptados uns bancos corridos de tábua e que se estendiam a todo o comprimento da caixa de carga, quatro filas. O toldo acarretava a desvantagem de concentrar os gases de escape, pelo que a tosse e os vómitos eram coisa normal e nos punha a brigar por ficar numa ponta. Uma vez chegados e as tendas grandes montadas depressa a rotina se instalava e a vila deixava de ter segredos para nós.

Naquela manhã dois ou três de nós esquecemos a praia e ultrapassámos o farol velho, um parque de caravanismo, o pinhal e a extensão das dunas, para nos quedarmos entre as rochas da praia do norte que nem areia tinha, mas tinha ouriços e estrelas-do-mar, caranguejos, peixes coloridos e por colorir, rochas e rochedos, algas, lismos e um mar verde cor de jade lindo lindo lindo, onde a espuma da rebentação, envolvendo-nos, nos abraçava e isolava num mundo impar de fantasia em que nem sede nem fome nos vinham à lembrança. Mais que uma vez bebemos água do mar e comemos lapas cruas, como se fossem ostras…

De sandálias, botas ou ténis pendurados ao pescoço pelos atacadores calcorreávamos quilómetros, explorando a maré vazia e sem darmos pelo tempo passar até que na volta, repentinamente aquela extensa rede de arame, ondulando pelas dunas e a perder de vista, alta, malha miúda, pontilhada de sinais e avisos em três línguas, convidando os mais afoitos a afastar-se e vincando a privacidade do local. Foi o suficiente para nos captar a atenção e prender ao lugar, expectantes por conhecer o mistério escondido por tanto sinal e tanto aviso. Só faltavam os cães. Quase em uníssono lembrámo-nos de uma conversa dos grandes ouvida umas noites atrás à volta da fogueira, e em coro exclamámos:

- É o parque de nudismo !

O castelo abrigava as tendas do vento frio soprado pelo mar naquelas noites de Agosto, mas durante dia e em especial à tarde concentrava o calor sendo quase impossível mantermo-nos ameias dentro. Quem conhecer o castelo de Sines achá-lo-á bonito, lindo, um dos mais belos e de onde se estendia a vista por maravilhosa paisagem que o mar ternamente afagava. Agora, com as obras do porto toda essa magia se foi, mas naquela altura era o paraíso na terra.

Junto à única saída do castelo todas as manhãs o mercado dava vida e cosmopolitismo ao lugar, e à tarde, aos sábados e domingos as matinés do Cine Vasco da Gama e do Cine Esplanada entretinham a gaiatagem, olhos nas fitas e comendo pevides, amendoins, maçãs caramelizadas ou pastilhas Pirata, ou pelas noites frescas, diariamente e sempre que não nos entretínhamos a deambular pela vila ou pelo magnifico jardim aberto e mesmo a jeito, à saída da  esplanada do cinema.

É curioso como recordo tudo isto mas nem uma cara dos que comigo corriam, brincavam e nadavam, lado a lado, ou sequer das largas dezenas que comigo acamparam naquela experiência de escuteiros da Bufa, perdão, da Mocidade Portuguesa, em que a cada dia uma dúzia de nós era escalada para faxina ajudando à mesa, a confeccionar as refeições, a descascar batatas ou a lavar hortaliças. Ainda hoje lembro o cheiro inconfundível do café com leite, ou antes do leite com café, os papossecos quentes barrados com uma margarina amanteigada e granulosa que deixava a língua esquisita e a travar. O que não recordo é quem, na dúzia de chuveiros e torneiras montadas a céu aberto junto à muralha tomava banho a meu lado, ou a meu lado lavava o prato do almoço ou do jantar.

Se não fosse por uns seixos muito redondinhos e acinzentados que se pintados de vermelho pareceriam medronhos nem lembraria o Clemente nem o Lourido, com mais dois ou três anos que eu e por essa altura conheci. Um faleceu há pouco, em Ponte de Sor onde escolhera viver, decerto de alguma cirrose mas isto já sou eu feito maroto a imaginar, Deus lhe tenha a alma em descanso. O outro dei com ele de caras há uns meses e pareceu-me um velho, abatido, barba por fazer, escondido e tiritando dentro de um robe maior que ele, mas, curiosamente, ostentado a mesma cara de menino com que quase há cinquenta anos o conheci, menino descarado que mijava mais longe que qualquer um e a tinha de longe muito maior que a de todos, pois que se puseram uma vez a disputar-lhe o tamanho despertando a curiosidade, a animosidade e atenção da malta toda que já se preparava para dormir, mas preferiu puxar dela antes que lhe chamassem maricas, apesar de muitos de nós nem conhecermos muito bem tudo para que aquilo servia. Aos curiosos e em especial às curiosas adiantarei que eu fiquei na média, o meu nem era o maior nem o mais pequeno, já então possuía, como hoje, um número de senhora, maneirinho, tamanho indicado para senhoras…

Mas por falar em curiosidade e voltando à rede aramada e ao seu mistério, toda aquela extensão perdendo-se de vista pelas dunas e espicaçando-nos a curiosidade debaixo de um sol abrasador, sem um único pinheiro ou arbusto onde nos abrigarmos, fez-nos palmilhar quilómetros na esperança, vã, de ver alguma mulher nua. Não vimos, e apesar de todos pela vida fora me terem garantido que as mulheres são todas iguais e quem viu uma ter visto todas, hoje sou capaz de afirmar que o não são. Começam logo por não terem todas a mesma profundidade no olhar nem o mesmo calor se nos abraçam.

São diferentes, muito diferentes, e por vezes essa diferença nem é subtil, é marcada e marcante. Cada uma é única, soltam gargalhadas distintas e mesmo que tenham as mesmas cócegas não riem do mesmo modo, e estendem a perna ou o pé de forma desigual. Nem dormem para o mesmo lado, nem gostam das mesmas coisas nem das mesmas posições. Há as que nos abraçam até que lhes sintamos o bater do coração e as que nem coração têm, há as que nos enlaçam com as pernas numa devoção que nos renova a esperança e solidifica a fé. Há as que beijam com sofreguidão e as que nos sugam a alma sem perdão. Há-as volúveis, ou com profundidade, como há as que corporizam a vacuidade em contraste total com todas aquelas que nos conduzem ao abismo.

As tintas esbateram diferenças no que à cor do cabelo concerne, mas Deus fez com que não pudessem disfarçar o sorriso, o rir, ou o bater das pestanas. Já não fumo, fumei quase quarenta anos e ia-me matando, e sempre detestei mulheres que fumem ainda que, depois de, adorasse puxar de um cigarro e fumá-lo de papo virado para ar, ficando ali falando com ela, de economia, história ou geografia… *

«O que eu gostava ouvi-la falar de economia … ou qualquer outra coisa, matemática, física, história, ou geografia… Estirado, pés fora da cama, inalando indolentemente um cigarro, debaixo da manta curta.

Tu falavas, eu ouvia, fosse história, ou geografia o que tu dizias, à pressa, como sempre, como tudo, como se o vagar pudesse acabar-se um dia, ou eu, a quem a tua conversa seduzia, como feitiço que sobre mim caísse e revolvesse numa inquietação obscena.

Amavas focar a geografia, contares-me dos lugares exóticos onde em puritanos sonhos tu nos vias, e eu, nostálgico, sorria e, numa ternura impaciente, desatava-te os laços e lacinhos, por vezes com os dentes.

Recitavas pela enésima vez a história da economia, a beleza dos números, ah ! Mas não de todos ! Repreendias-me com sarcasmo :

 - Apenas números grandes ! As deduções e induções, as tendências, as projecções ! ……………….

Emergias. Sorriso afivelado, cantos da boca babados, seios pendurados, divertida, maquiavélica, diabólica, demoníaca :

- Acabou-se a matemática a álgebra e a trigonometria !

Incapaz de travar-te as investidas, desejoso de aparar-te as manhas conhecidas, para depois ficar ainda ouvindo-te, molengona, falando de economia, história e geografia. Há anos te recordo em cada anfiteatro, em cada seminário, workshop ou auditório» *

Quem diria.

* http://mentcapto.blogspot.pt/2014/05/189-o-que-ela-adorava-falar-de-economia.html

                       

terça-feira, 20 de outubro de 2015

281 - VAI FAZER SOL ??????????? .............................


A maravilha que a internet pode ser, constituir, sensibilizou-me esta semana com a publicação de um vídeo inédito dos Quatro de Liverpool, cujo link não poderia deixar de vos disponibilizar no fim da página. É verdade que foram excepcionais, um ainda o é, e salvo erro dois são ainda vivos, o baterista Ringo Starr e o vocalista Paul McCartney.

Naturalmente vi o vídeo do princípio ao fim, mas não foram as musiquinhas, que estou fartito de ouvir desde que era gaiato, que me despertaram a atenção e me quebraram a inércia aos neurónios que de imediato se puseram aos pulos não parando a tarde inteira e até me ter agarrado ao pc a desbobinar a arenga que aqui vos deixo hoje.

O que me deixou os ditos verdadeiramente aos pulos foram antes o tempo e as circunstancias em que o fenómeno ocorreu, já Garcia Lorca nunca desapossava do homem as circunstâncias em que se movia, foi portanto o contexto em que o fenomenal fenómeno ocorreu e teve lugar que me ocupou as meninges, terão sido aquelas quatro personagens únicas ?

Evidentemente que o não foram, mas tiveram a sorte, que lhes atirou para o colo o proveito e o mérito de uma carrada de circunstâncias sem as quais jamais teriam ultrapassado o anonimato. Verdade que eram naturalmente muito bons no que faziam, até porque as circunstâncias e em especial a sorte, só bafejam quem esteja preparado para as ou a receber. Um pouco como a coragem, ou a heroicidade, que somente protege e beneficia os audazes. (Ao contrário deles, Portugal desperdiça oportunidades há quarenta anos).

Aqueles quatro pacifistas, ironia das ironias o destino fez com que um deles tivesse morrido com um tiro no peito, foram os primeiros grandes beneficiados do facto de a GB ter vencido a II Grande Guerra. O esforço tecnológico colocado pela ilha para vencer o conflito mundial, em especial a invenção do RADAR, o tal tubo de raios catódicos que desaguaria na televisão, e os desenvolvimentos propiciados pelas ondas hertzianas, vulgo rádio, com as válvulas a serem substituídas por transístores, seriam fulcrais como trampolins do seu merecido e reconhecido sucesso.

É certo ter havido grande disponibilidade e muitíssima gente disposta a vê-los e a morrer por ouvi-los, ao contrário do que acontece comigo, que canto muito bem mas pareço não alegrar ninguém, os milhares que enchiam os estádios eram jovens a quem a fúria de viver animava e almejavam vestir a irreverência que os quatro corporizavam, esquecidos que estavam os serviços fúnebres das gerações anteriores.

A ilha, ou melhor a GB, já durante a I Guerra Mundial perdera os jovens de duas gerações, e, quando ser recompunha, a II Grande Guerra rouba-lhe ingloriamente outras duas gerações, pelo que a seguir ao conflito a ilha, a par dos EUA, foi um dos dois pontos do mundo onde outras e vantajosas condições se aliaram causando o fenómeno posteriormente conhecido entre nós como baby boom. Democracia e desenvolvimento económico dominaram a variável que hoje conhecemos como “confiança do consumidor” e foram pais de milhões de bebés encantadores por toda a Europa e USA, um pouco do que inversamente acontece agora entre nós, cuja democracia e economia de sucesso ditaram o gelado inverno demográfico em que nos atolámos e que nem a maravilha do último ajustamento ajudou a derreter.

Ora após o baby boom havia uma catrefa de jovens sedentos por que lhes ocupassem os tempos livres e lhes segredassem coisinhas românticas ao ouvido, e, não casualmente, existiam já prenhes de êxito e disseminados por todos os lares, rádios, nessa época designados por “galenas”, coisa que tinha que ver com a antena e o ajustamento das frequências emitidas. Mas, ainda que a preto e branco, já pontificava a televisão, que havia de preencher a toda esta gentinha a tal avidez nada comezinha quando não uma surpreendente histeria. Milagrosamente violas e guitarras eléctricas, tal como amplificadores, sintetizadores e “distorcedores” de som ampliariam de modo inaudito a valência dos espectáculos ao vivo, levando a juventude ao delírio. A invenção do fonógrafo, então já desenvolvidíssima para o suporte em disco mais ajudou à festa.

Diria que se conjugaram as condições ideais, fulcrais, necessárias e fundamentais para que o anonimato ou o mero conhecimento limitado e localizado da música daqueles quatro, tivesse sido ultrapassado e as suas melodias difundidas pelo mundo com maior sucesso e rapidez que os bips do Sputnik. Toda a causa tem efeito, e todos os condicionalismos ou circunstancialismos ditam e moldam os nossos gostos usos e costumes, tudo é fruto de algum determinismo.

Sherlock Holmes, Agatha Christie, Poirot, Fantomas, e outros grandes autores e personagens literários tiveram a sua época num período em que as massas não chafurdavam na vacuidade da Tv a cores ou das rádios FM. Esses quatro sortudos tiveram a sua época no tempo das preciosidades, e não no do consumismo desenfreado de CD’s a pontapé ou da miséria dos mídia actuais cuja função mais parece ser a de embrutecer-nos. Emílio Salgari ou Júlio Verne não teriam sucesso hoje que o pessoal pensa que sabe tudo, já viu tudo e acredita que sim, que assim é. Os quatro do bando, não confundir com o bando dos quatro, tiveram a sua época, tal como Ágata Christie Sherlock Holmes e outros tantos tiveram a sua época no mundo da leitura, da imprensa, dos livros, quando a imprensa e a edição eram rainhas e sinónimo de verdade, confiança e cultura. Depois passou-se para a época em que sabemos tudo e todos somos cultos, letrados, instruídos e aperaltados pelas estatísticas, pela normalizadora, Orwelliana e mistificadora varinha de condão das estatísticas. Está para mim mais que visto ter a escola pública falhado, o ministério, a escola e bué de professores que nelas pontificam, ganhando demasiado para o bem pouco que sabem. 

Mas esses foram tempos atrasados, sem progresso, tempos da conquista dos pólos, de Roald Amudsen e Robert Falcon Scott, de Herman Melville e da caça à baleia branca, Moby Dick, foram os tempos das descobertas de novos mundos e espécies, de Charles Darwin, de Jean Baptiste Lamarck, de Mendel, dos bandeirantes, dos Mapas Cor-de-rosa, de Angola à contracosta, do pioneirismo na aviação, na electricidade, de Mr. Hyde e Mr. Jekill, de Frankenstein, do cinema mudo que nos havia de gritar a plenos pulmões, das Neves do Kilimanjaro, das Vinhas da Ira, de Doutor Jivago, foram os tempos do Expresso do Oriente, das 20.000 Léguas Submarinas e da Viagem ao Centro da Terra. Nem séculos mais tarde a conquista da Lua arrebanharia tantos curiosos.

Já então se sabia tudo, sabíamos tudo, Freud e Einstein haviam mostrado tudo, e a volta ao mundo depois do Titanic fazia-se em muito menos de oitenta dias.

Mas os quatro de Liverpool beneficiariam também da Revolução Russa de 1917, das influências de Marx e do Manifesto Comunista, do advento das correntes socialistas e sociais-democratas (não confundir com as nossas), dos debates à volta de Pierre Joseph Proudhom e do que É a Propriedade, do bom selvagem de Rousseau e do seu Contrato Social. À época destes quatro cavaleiros do apocalipse o lazer estava instituído bem como a jorna de oito horas diárias, os tempos de esclavagismo da Revolução Industrial estavam enterrados, o lazer exigia novas respostas, criando novas oportunidades, novos hábitos, novas indústrias, novos empregos, novas necessidades, novos nichos de mercado como se diz agora, e de todas estas circunstâncias os quatro beneficiaram em cheio pois estavam à hora certa no local certo, tivessem estado na Africa do Sul ou em Portugal e teriam morrido incógnitos, por cá temos até o mau hábito de foder a maioria das poucas oportunidades que milagrosamente nos aparecem.

Paulatinamente o som e a imagem foram destronando dos jornais os folhetins diários que gente séria escrevia e outras gentes igualmente circunspectas liam religiosamente pois eram publicados e avidamente devorados apaixonadamente dia a dia. Relatando, quando não inventando histórias, a imaginação e a ficção não tinham limites, descreviam odisseias, sagas, aventuras, epopeias, descobertas, avanços científicos, apresentando-nos o presente enquanto simultaneamente nos preparavam para o futuro.

Paradoxalmente hoje, tanta cultura ameaça remeter-nos de novo para as cavernas, endeusámos a ligeireza do vácuo, da vacuidade, até na música estamos muito longe das miríficas letras e acordes dos quatro de Liverpool, e, por este andar, temo que não demore que recolhamos de novo às grutas de Lascaux, Altamira e de Matera, aos saltos, aos grunhidos, aos monossílabos, gesticulando em redor de uma qualquer fogueira e arrastando-as de novo pelos cabelos.

Aquele vídeo, este vídeo, fez-me pensar, deu-me conta da enorme incompetência e estupidez que nos rodeiam, nunca imaginara tal gigantismo. Brutos, incongruentes, inconsequentes, incultos, pouco menos que analfabetos, selvagens... Nem no tempo da  outra  senhora eu vira tamanha desgraça.

           Vai fazer sol ? Não sei, só sei que quer à esquerda quer à direita a ignorância a estupidez e a boçalidade tudo carregam de cores negras...

            Ob-la-di, ob-la-di, ob-la-dá……………………………..




                       

terça-feira, 13 de outubro de 2015

280 - MEDOS, QUEM NUNCA OS CALOU ?..............


           Patranhas. São tudo patranhas. Fugi porque senti medo. Ninguém me preparara para aquilo. Nem ao menos me avisara, e eu era demasiado novo.

E agora ? Que faço ?

Ruborizado, o coração batendo numa cadencia frenética, a mil “rotações” por minuto, todo eu suando, cheio de suores frios, o tacto embotado, os olhos na ponta dos dedos devido à escuridão, os dedos tentando ver tudo, desvendar tudo, entender, perceber, fazer um juízo que me dissesse como proceder a seguir, mas não, a excitação cegava-me mais que a escuridão toldando-me o raciocínio. Senti-me cercado, aprisionado, e ao não vislumbrar uma saída senti medo.

E agora ? Que fazer ?

E não me ocorria resposta nenhuma. O tempo esgotava-se tanto mais depressa quanto mais a situação que se me oferecia me prendava, e assustava.

As voltas que o mundo dá, de nós quatro naquela tarde só eu resto. O Pereira morreu há uns anos, nem lembro já de quê, acho que de overdose, a Fati, sua mestra e fiel companheira faleceu há uns trinta anos, talvez mais, talvez nem tantos, quem a recorda já ? Esclerose múltipla lembro-me de ouvir dizer. Dessa tarde resto eu, com os cinquenta passados, eu e quem sabe se a Lili, que nem vejo há mais de trinta anos, trinta ? Bem mais. Será viva ainda ? Não, minto. A memória trai-me. Ela e a mãe deram-me boleia uma vez. Uma directa, numa sexta-feira, de Vale de Zebro a Évora, a mãe vendia cosméticos, era agente ou representante de uma qualquer marca, e o carro tresandava a pó de talco e a cremes variados.

Não as reconheci quando estendi o polegar ou nem o teria feito. Depois da minha fuga, assustadíssimo diga-se em aval da verdade e para não ser mal interpretado, não nos viramos mais.

Nem recordo tão pouco se bati com o portão da garagem ao sair ou se o fechei devagar, recordo simplesmente que a luz forte do sol naquela tarde me cegou, a mim, que vinha cego da escuridão, a mim, a quem a escuridão assustara e somente com a ponta dos dedos conseguira ver alguma coisa.

Eu teria o quê ? Dezasseis, dezassete anos ? Não sei bem e nem interessa, estava habituado a que as primas fizessem tudo, me conduzissem, me serenassem, me acalmassem se prestes a explodir, lembro ainda a voz sussurrada da Lurdes, acalma-te, vai devagar, pára um bocadinho, não acabes já, temos o dia todo, controla-te. Mas isso era diferente, com ela era diferente, com elas era outra coisa, com elas iria até ao fim do mundo, aquilo eram pormenores, mas o caminho ? Quem me ensinava o caminho ? As peculiaridades e as particularidades do caminhar ? Como pisar ? Como avançar ? Como reagir, e mais importante ainda, como agir ? Que esperar ? Que fazer ?

Com a Miquelina tudo fora sempre fácil, fácil demais, com ela, que depois teimou que lhe chamassem Michele, e com quem, brincava aos pais e aos filhos, que me deixava ver a dela se eu lhe mostrasse a minha, nunca passei dos rudimentos da coisa, nessa altura éramos inocentes demais, jovens demais, nem os problemas eram os pormenores, os problemas viriam a colocar-se mais tarde quanto à abrangência, quanto ao contexto. Entre as primas, os dois ou três anos de diferença que levavam de avanço de mim, no máximo quatro, naquela idade uma diferença enorme, não permitia que me atrevesse a colocar em causa a sua autoridade, limitava-me a cumprir, a cumprir e a esforçar-me, como qualquer bom aluno, mais a mais adorava as lições.

Há coisas para as quais ninguém nos prepara, nem pai nem mãe, daí ter ficado assustado com o contexto, com a abrangência e a escuridão, com a situação. Já nessa altura a Lili cheirava a cosméticos, e pintava as unhas de vermelho vivo, as dos pés também, e virava ou revirava as pestanas com um alicate próprio, especial, e mal saía do liceu pintava os lábios do mesmo vermelho vivo das unhas, talvez por isso não lhe estranhei o sabor, por lhe adivinhar a cor mesmo no escuro, ainda hoje sei de cor o sabor do vermelho, de outras cores nem tanto mas do vermelho sim, é um sabor adocicado, e se demorasse a língua nele, macio, escorregadio, deslizante. Inda alimento uma especial predilecção pelo vermelho, não sei, ficou-me apesar da escuridão uma sensação agradável a emanada do vermelho, dizem ser uma cor quente, e confirmo, quentíssima, sei-o porque lhe toquei levemente com a ponta dos dedos, na boca entreaberta, primeiro no lábio superior, depois no inferior, quentes, macios, escorregadios, e quando me tragou o dedo mudei de mão, procurei-lhe o lóbulo da orelha no sombrio negrume dessa tarde quente, a veia sobressaindo do pescoço, lembro-a como se fosse hoje, ambos arfando, numa pressa despida de urgência, um vagar comprometido apressando-nos, os meus olhos chispando na ponta dos dedos como dois vaga-lumes, os seios duros, empinados, de bicos turgidos, nunca mais esqueci, os beijos doces, a boca doce, além de vender cosméticos a mãe fazia bolos para fora, fora ela quem fizera o bolo de anos para a Tininha da Nau, outra que não vejo há quase quarenta anos, depois da morte do Zé Pica a família desapareceu daqui, trespassaram o café e desapareceram, iam casar dizia-se, um acidente estupido digo eu, e não foi o único porque passadas semanas morreria o Neves, quase no mesmo local. Estive para comprar a mota de um, depois a do outro, mas desisti, estavam amaldiçoadas. Estariam ?

Ninguém nos prepara para coisa nenhuma, ninguém, a mim ninguém me preparou e na altura fulcral embatuquei, nem pai nem mãe nem ninguém me dissera vez alguma que o meu corpo era uma máquina complexa e poderia acontecer nem eu, um dia, lograr dominá-lo. Eu sabia como proceder quando a morta se afogava, ou não pegava, ou quando enratava, não desenvolvia, ou se ia abaixo, mas com a Lili de nada me serviu toda essa sabedoria, pois que, quando até com as pontas dos dedos via, nem era já eu que o fazia por nem saber no momento o que fazer e a inusitada situação me deixar a tremer, afónico e a tremer, apesar de entender todo aquele calor abrasador e os dedos lépidos escorregando-lhe para as virilhas tal o meu tremor, todo eu possuído por uma atrapalhação atrapalhada, e o pânico sentido ao senti-la molhada explicaram uma desorientação tal que me levou a beijar-lhe solenemente as unhas encarnadas, como quem perante uma rainha se baixa e beija em devoção, como inda hoje de quando em vez faço na igreja em oração.

Nem pai nem mãe nem irmão nem amigo ou vendilhão me falara e preparara alguma vez p’ra tal turbilhão e, quando na mesma escuridão que me embotava o espirito a Fati e o Pereira pareciam planar, quebrei, incapaz de respirar, de pensar, de ajuizar, de agir, tendo sido então que, tomado de um furor viril, tomei febril decisão final e que durante anos carreguei às costas como um animal, até que a entendi, até que me entendi. Foi fatal.

Na sombra escura ergui-me atabalhoadamente e vesti-me, e sem mais dali parti. Só muitos anos depois admiti ter fugido dela e me arrependi, temi as consequências, a verdade, para além de todas das desculpas com que tantos anos me enganei, foi que fui eu que fugi, fugi de mim. A desenvoltura dela face à minha inexperiência e atrapalhação assustara-me.

E agora ? Que fazer ?

Não encontrando a resposta soçobrei, e, ferido no meu orgulho, ferido mas não abatido, fugi. 

Claro que, como com muitos de nós acontece a resposta certa veio depois, muito depois, mas não viera na hora, nem na hora certa nem cinco minutos depois, cinco minutos ter-me-iam salvado de mim, cinco minutos teriam bastado para superar o meu bloqueio, mas irremediavelmente nem cinco minutos me foram concedidos.

Durante os dias e semanas que se seguiram evitei passar na avenida dela, furtei-me a aparecer nos sítios que ela frequentava temendo encará-la, encará-la seria confrontar-me comigo mesmo, com as minhas insuficiências, que nessa época e por esses dias estavam muito longe ainda de terem sido ultrapassadas.

Que poderia eu ter-lhe dito ? Que deveria ter-lhe dito ? Como confessar-lhe a minha incapacidade para lidar com a situação ? A minha cobardia ?

Providencialmente o destino veio em meu auxílio, o destino ou a desdita.

Do outro lado do mundo, na Venezuela, um garboso oficial de marinha dos seus vinte e poucos anos atravessava a zona portuária de Maracaíbo quando, do alto de um guindaste um contentor se soltou indo por ali abaixo e esmagando-o. Teve morte imediata esse saudoso eborense. Não me recordo já dos pormenores, se o corpo voltou, se foi enterrado cá, sinceramente não me consigo recordar, o que recordo com dor e com um envergonhado alívio é da família enlutada e destroçada, e o facto da própria mãe, e da Lili, sua irmã, ambas de negro, terem deixado de vez a cidade. Até hoje. Obrigado e perdão Lili, poupaste-me a um vergonhaço.

Poupei-me a um vergonhaço, mas não a um peso na consciência. Uma vez mais aprendi demasiado tarde. Tem sido o azar da minha vida esta aprendizagem tardia de tudo. Só muito mais tarde vim a ler Stendhal e a perceber, a entender e aprender com ele que “…o momento mais desejado para um namorado, a primeira intimidade com uma nova conquista, pode tornar-se o seu momento mais angustiante… “

Até a ler comecei tarde demais…………………………

             https://pt.wikiquote.org/wiki/Stendhal





quarta-feira, 7 de outubro de 2015

279 - CONTAR COM OVO EM CU DE GALINHA

                             

Ao contrário do que, por muita gente e demasiadas vezes é falsamente propalado, a verdade sobre o que foi dito na sede, e até que alguém tivesse aconselhado todos a calarem-se não foi o apregoado:

 “ E o que farei eu agora merda ? “

pois alguém se empenhara em burilar o desabafo espontâneo que o senhor doutor largara alto e bom som, levantando-se irado com a situação, aliás, não fora esse desabafo ia eu dizendo, e confirmo e reafirmo e se preciso for juro pela saúde e alminha destes dois que a terra há-de comer e viram, e ouviram, presenciaram a coisa, tal e qual como muitos outros que agora negam, com medo de retaliações negam, ou temem cair no desagrado do senhor doutor, ele mesmo atenuando as coisas posteriormente quando, na altura do desabafo, só não atirou um valente murro ao televisor por este estar demasiado alto, aliás tão alto que o senhor Fernando que era baixinho e funcionava como controlo remoto dos patrões tinha alguma dificuldade em lhe chegar.

Portanto, ainda que passados tantos anos importa certamente repor a verdade dos factos ainda que eu nem pressuponha ficar a coisa para a história, até por ter para mim que a história não perde tempo com minudências nem com gente menor, contudo a verdade é a verdade e só nos ficará bem cultivá-la, é uma questão de carácter, ou de personalidade, quer sejam estas duas ou não uma e a mesma coisa.

Portanto, custe o que custar e doa a quem doer, o desabafo que o senhor doutor largou já lá vão tantos anos, deixando todos boquiabertos dado o pouquíssimo tempo decorrido até àquele momento e desde que fora empossado em funções, foi segura, precisa e exactamente:

- Já estou fodido ! E que merda de coisas vou eu agora conseguir fazer caralho ?!

Há quem diga que terá esboçado o gesto de mandar involuntariamente a mão ao chão e pegar num cano imaginário para atirar-lho a cima, acima dele, dele do outro que acabara de se demitir, ou simplesmente ao televisor, como se o televisor fosse culpado da caricata situação engendrada, ou das repercussões que tal tsunami provocava. O televisor, qual mensageiro, limitava-se a ser veiculo de noticias, como o senhor doutor, alguns o diziam baixinho, seria meramente o veiculo de alguém, ou de alguns, mas todos nós sabemos como o português adora a má língua e eu juraria tratar-se de torpes insinuações provenientes de invejosos, que sempre os há, coisa que como sabemos abunda em qualquer parte e acompanha qualquer situação.

Na verdade, embora hoje todos garantam que sim, nem acho que a maioria tenha ficado boquiaberta, já que o resultado do acto eleitoral que ditara as sortes do senhor doutor fora em simultâneo o azar do senhor engenheiro e, na altura, todos, unanimemente, aceitaram que naquelas condições por muito que o homem sonhasse, e mesmo que Deus quisesse seria muito difícil que a obra, qualquer obra, nascesse e, neste capitulo lembro-me de na altura ter ficado mesmo ligeiramente confuso, estariam a referir-se a obras sem duvida, mas obras do senhor engenheiro ou obras do senhor doutor ? E a confusão instalou-se até hoje, apesar do desabafo do senhor doutor ter sido bastante explícito. Eu não tive duvidas, ainda que alguém as tivesse semeado com cuidado, o mesmo cuidado com que recomendou a todos que burilassem o desabafo espontâneo do senhor doutor, cuidado em que colocou todo o seu peso institucional e sobretudo toda a sua autoridade.

A realidade, e a memória não me falha, é que tal sugestão foi acatada como se de ordem de cariz superior se tratasse, e naquelas mentes cumpridoras e sobretudo militantes o desiderato, digo o desabafo, terá de imediato sido apagado nas suas mentes. Com certa gente não se brinca. Com certas coisas ainda vá que não vá mas…

Daí que hoje, passados que são tantos anos, resulte extremamente difícil promover uma incontestável reconstituição dos factos, ainda que os que religiosamente devotavam ao senhor doutor uma admiração excessiva, diria que a roçar a submissão, o seguidismo, sejam incomparavelmente muitos menos, aposto que bem poucos, ou quase nenhuns.

Já tentei e bem tentei, mas a minha tentativa de abordar os acontecimentos foi como esbarrar contra uma parede, melhor, abordar os factos. Reconhecer a verdade seria para a maioria daqueles que os presenciaram reconhecer quanto se enganaram, reconhecer que contribuíram para um bluf que acabou por não honrar ninguém, trazer proveito a muito poucos e desiludir-nos a todos. Permitir que a questão fosse abordada seria admitir o empenho geral de todos, na altura, empenho colocado em apostar no cavalo perdedor, ora ninguém de bom grado aceita de ânimo leve as suas fraquezas, e muito menos dará a mão à palmatória quanto aos seus erros.

Eu mesmo não estou certo que estas palavras e esta procura da verdade não venham a ser veementemente desmentidas, em especial por aqueles que, quanto à situação específica que aqui se aborda, precisamente mais mentiram.

Um consolo ao menos me restará sempre e não me abandonará nunca, e esse ninguém poderá desmenti-lo, era realmente, ou foi realmente um cavalo perdedor, e desde aquele desabafo quer queiram quer não quer gostem quer não gostem o entusiasmo dissipou-se-lhe completamente, até por ter sido atingido na sua vaidade, o terramoto sofrido em todo o país roubara-lhe o protagonismo da vitória que, fora de portas nunca foi apreciada ou sequer aplaudida por quem quer que seja, aliás, tivesse sido, o que muito lhe custou a engolir.

Pelo menos na parte que me toca nunca mais o vi que não como um cavalo cansado, sem fulgor, sem chama, sem ideias (bem, ideias para a cidade na verdade, descontando uma certa demagogia nunca teve) e se duvidas houver que se consulte o portfólio das obras que promoveu e, tirando um ou outro erro menor e uma ou outra asneira de dimensão superior nada mais lá encontrarão.

Aliás, o silencio que posteriormente se fez à sua volta, o facto de ele próprio ter desaparecido completamente de cena induzem à percepção de que não há nem honra a defender, nem princípios pelos quais lutar, enfim, nada que lembrar, e curiosamente nem é visto entre os amigos, palavra polémica já que não lhe conhecia rede de amigos (alguns maledicentes apontam-lhe rede de interesses, uma vez mais invejas), todavia nem uma mínima preocupação na manutenção dos seus apoios, militantes ou simplesmente seguidores, como se o próprio fosse o primeiro interessado em ser esquecido e deixado em paz.

Realmente aposto que ninguém gostaria de ver algumas polémicas que originou, ou alimentou, reeditadas ou tão pouco desenterradas. Fim inglório para quem tão certeira e premonitóriamente largou o mais espontâneo e genuíno desabafo que na vida conheço.

Quanto mais tempo passa mais a razão dá razão a ele mesmo, que largou o desabafo talvez num momento de profunda introspecção, mas vá lá a gente saber o que pensa alguém, em especial quem esteja contando com o ovo no cu da galinha da vizinha.

O tempo é grande juiz, conselheiro, professor, congratulo-me por o tempo que tudo esclarece ou enterra me ter dado carradas de razão. Aquilo não era um castelo de cartas nem era nada. Hoje observo as coisas com maior distanciamento e confirmo a justeza das minhas observações e das apreciações e julgamentos que então intui e fiz, e que prematuramente nos levaram de um afastamento progressivo a definitivo.

O senhor doutor e os que o rodearam só pensaram neles e exclusivamente neles. Não havia um plano, um projecto, uma ideia, não havia coesão, solidariedade, amizade. Havia decididamente um grupo de interesses e de interesseiros que monopolizava e manipulava os demais. Era tamanha a vontade de fazer prevalecer os desejos de alguns, tão fundo o fosso cavado, a desestruturação provocada que o disfuncionamento criado ganhou tal dimensão e modo que a união primitiva, inicial, um fenómeno social quando visto a esta distancia, não se repetirá nos próximos vinte ou trinta anos, que serão passados a patinar, patinar até que a geração que viveu a coisa esqueça os protagonistas e a grosseria e desconsideração para com esta cidade.

Quanto ao senhor doutor ninguém sabe dele, foi tanta a burrice feita que é suposto ter vergonha de aparecer. Para ser franco nem sei como a coisa aguentou tanto tempo. Bem, na verdade não aguentou, não aguentou mas deixou mossa, deixou mossa e cavou uma desunião muito funda e uma desilusão ainda maior.

Não, as pessoas ali não são números, senti que não eram números, eram pretexto, eram meio para que alguém alcançasse alguma coisa, mas não minha gente, não se iludam, ali as pessoas não contam, estou cada vez mais certo de nunca terem contado.

Ali as pessoas não são números, são algarismos… Verdadinha.  




segunda-feira, 5 de outubro de 2015

278 - Parabéns PAF e obrigado !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! ......


Com a verdade me enganas poderia ser logica e legitimamente um mote apodado à recém-vencedora coligação PAF. Fartos de quarenta anos de conversa de meias tintas os portugueses prendaram-na, apesar dos tantos defeitos que quotidianamente lhe apontavam. Lá terão pensado e quem os não tem ? …

Brindaram quem apesar das quedas, dos tropeções, do amadorismo, da carolice, do improviso, da falta de jeito e de habilidade, da estultícia, das desculpas esfarrapadas, das justificações atabalhoadas, da falta de profissionalismo, da xico-espertice, apesar disso tudo dizia eu, os portugueses gostaram que lhes falassem verdade e se lha não falaram pelo menos assim lhes terá parecido.

Aos mais sensíveis direi, em abono do seu conforto moral, que Hitler também chegou ao poder ganhando eleições e nem por isso ficou mais bem visto na história, como sabemos, portanto consolem-se, ganhou a PAF, que não é nazi que até é rapaziada portuguesa na mesma, diria mais são portugueses que têm também uma palavra a dizer, e não temos todos ? Esta república das bananas ainda não é uma confederação. 

Na realidade nem podemos acusar a PAF de ter ganho as eleições, a PAF ficou à frente nas eleições que o PS perdeu. Bem, a esquerda soma mais deputados, embora na prática isso não sirva para nada, nem de consolo a ninguém. Quanto a António Costa e o PS, os grandes perdedores, não perceberem em devido tempo (e passou muito) que com a queda no buraco negro da crise muita coisa mudara, entre elas a percepção que os portugueses passaram a ter da política e dos políticos. Antes da queda no astronómico e negro buracão a PAF dificilmente ganharia ao PS umas eleições.

Eles, Costa e o PS, não perceberam que o tempo das favas contadas se acabara, que o tempo do clubismo perdera viço, e nesse aspecto a campanha do PS foi desastrosa, pessoalmente senti-me melindrado com aquela forma de fazer campanha, como quem gere uma claque de futebol, debitando sound bites e frases feitas a torto e a direito, prometendo, ameaçando, e retirando para as trincheiras como se tudo fosse uma guerra e tudo tivesse que ser comentado, contestdo ou contrariado.

Estava visto ter o tempo desses modos passado. Acrescento que mau grado os sound bites e frases pré fabricadas o PS esqueceu não ser virgem, nem isento de culpas, faltou-lhe autoridade moral e a cada frase feita e por ele atirada ao ar poderia contrapor-se-lhe o seu contrário, e o seu contrário apontava o dedo ao PS.

Faltou ao PS autoridade moral para falar como falou durante a campanha, a menos que já tivesse pedido desculpa aos portugueses por nos ter trazido ao buraco negro. Ora se há coisa que os portugueses sabem é quem nos arrastou para tamanho buraco, e já nem vale a pena apontar culpas a Cavaco e à sua destruição do tecido económico nacional às mãos da CEE, está demasiado longe essa época e não foi na altura contrariado pelo PS, aliás por ninguém, e nem vale a pena bater em Durão Barroso que fugiu, porque para batermos nesse teremos que bater primeiro em Guterres, que fugira primeiro. Santana Lopes nem menciono, tal o desastre… a esse incluo-o nos desastres naturais que uma nação está sujeita a sofrer… Mas voltando a Guterres, o tal que fugira, então não era precisamente quem o PS adoraria ter na calha para PR ? Depois que esperavam digam-me lá ?

Que tentem fazer de mim parvo é uma coisa, que eu aceite sê-lo já é outra muito diferente topam ? Não me levaram com essa como não me levam com a flausina da Maria de Belém. 

Na verdade e apesar da trapalhice do governo não nos ter tirado de lá, por não querer ou não saber, sublinho o não saber, faltou ao PS admitir a sua parte no buraco e no mínimo pedir desculpa ao país. Não o fez, tentou passar sem se queimar sobre assunto tão candente e não passou, levou os votos da claque clubista e nem esses garanto que tenha levado todos. Costa pode não ter culpa, mas à sua derrota não é alheia a constante indefinição do PS, há quarenta anos a fingir que faz sem fazer, há quarenta anos alimentando uma politica de NINS, nem sim nem sopas, antes pelo contrário, nem a malta almoçava nem o pai morria, desta vez teve uma trombose, lixou-se.

Presunção e água benta cada um toma a que quer, há coisas do foro da psicologia que marcam muito fundo, há coisas a nível da legislação que são o que são, e são para cumprir, e coisas ao nível da ética e da moral em que cada um toma o que quer nem obedecendo nem tendo que obedecer a quaisquer enquadramentos legais. Espero que os votos sumidos do PS para beneficio de outras áreas da esquerda sejam pronuncio perene de manutenção fundamentada, embora nem acredite em tal, tal beneficio parece-me muito mais fruto de uma circunstancia especifica e circunscrita no tempo que capacidade de manter, proteger, acarinhar e fazer crescer. Se for como penso tenho pena, decerto teremos pena, contudo todavia mas porém, acuso o toque, em todas, e sublinho em todas, as entrevistas que vi, li e assisti dadas por responsáveis das nossas esquerdas, foi sintomática a ausência de abordagem aos modos do país fazer dinheiro.

Dá-me sempre a ideia de julgarem ser esse o nosso menor mal, quando é precisamente o nosso maior handicap, dá-me sempre a ideia de gente que com facilidade ordenaria ao Banco de Portugal que imprimisse notas e notas, ou se considerem felizardos a quem o dinheiro caia do céu resolvendo todos os nossos problemas. Desse-lhes a volta que der para eles um quadrado só tem três lados, e o quarto lado é ignorado, o das empresas, dos empresários, como se fossem entidades abstractas que constituíssem um mundo à parte, um mundo de metecos a quem bastasse ordenar que trabalhassem, que fizessem o que deviam fazer, pagassem impostos e ficassem quietinhos e caladinhos. Quando muito a nossa esquerda aceita trazer à colação pequenos empresários, pequenos industriais, pequenas e médias empresas, pequenos produtores, pequenos negócios, como se estes pela sua dimensão fossem tocados pela virtude e aos outros aos maiores, aos grandes, lhes tivesse acometido a lepra, a peste, o pecado.

A incapacidade da nossa esquerda em incluir na equação este lado do quadrado, apesar de se tratar de portugueses, lado tão hostilizado o dos nossos empresários/ investidores que têm sido abatidos ou substituídos por pretos, angolanos, ou amarelos chinocas, lado em que qualquer dia não restará quem queira investir além de mafiosos caucasianos.

Têm alguns amigos meus da chamada esquerda radical alvitrado terem contribuído para a vitória da PAF as “dificuldades” na votação desta vez levantadas aos emigrantes, e concedo-lhes razão. A PAF tanto lhes dificultou a vida como outros anteriormente lha tinham facilitado no sentido de se banquetearem com os seus votos. Contudo acrescentarei que para governar, dentro da legalidade, é preciso ter votos, ter deputados, e ser governo, o que a PAF conseguiu e a esquerda não, PAF que não podemos acusar de nesse item ter transgredido a legislação, que ela estava em condições de legitimamente produzir, como outros noutros tempos a produziram de sentido contrário.

Claro que ética e moralmente a situação pode ser criticável ou condenável, mas isso não a torna ilegal. Sabe-se que presunção, água benta, moral e ética, por enquanto cada um toma a que quer. O mito da superioridade moral da esquerda, das nossas esquerdas, incompatíveis entre si e inúteis, obriga-me por pudor a ficar calado quanto a essa pretensa superioridade pois não nos faltam na história exemplos de esquecimentos e atropelos seus pelo que nos dizem ter de mais querido. A tal ética e moral que apregoam, cai por terra com a reeleição desta PAF que, curiosamente, é também constituída por portugueses, mau grado terem sido e serem ignorados existem, e parece que contam, e que cada vez são mais. Apesar de enorme perda de votos obteve a PAF um resultado notável, um natural desgaste de 4 anos em que todas as reformas que deviam ter sido feitas não o foram, as que foram ficaram-se pela rama e os sacrifícios exigidos sobretudo e injustamente às classes abaixo de si.

Quanto aos emigrantes que atrás citei, deixem-se estar e fiquem bem, pois neste cantinho nem o povinho ainda sabe o que quer ou fazer escolhas com tino.

Já aqui tinha confessado a minha admiração pelo facto de o PS, apesar de tanta contradição que encerra, ir mantendo continuadamente bons registos em eleições. O tempo acabou por me dar razão, e talvez esta derrota sirva para que inicie uma autocrítica profunda, uma catarse que o conduza de novo à sua pureza matricial (de matriz). Há males que podem vir por bem, dizem até que Deus escreve direito por linhas tortas, e Constança Cunha e Sá, que tem a boca de esguelha, exortou ontem mesmo na Tv. os jovens turcos do partido a não se deixarem comer pelos velhos do Restelo.

Ainda a ética, o modo como Costa afastou Seguro, no mínimo deselegantemente, decerto não lhe granjeou votos e, apesar de eu não apreciar Seguro, foi por aí que perdeu o meu voto. As atitudes dão, mas também tiram votos, no saber geri-las é que está a sabedoria. Aproximo-me dos cinquenta, não sou nem jovem nem idoso, nada tenho na favor ou contra uns ou outros, mas Costa ter enchido num dos últimos dias da campanha o palco com velharias, a quem na altura chamei a brigada socialista do reumático, perdeu-o certamente. Quem é que, especialmente entre o eleitorado mais jovem iria apostar naquelas velharias ? Não tinham elas por acaso sido a brigada responsável, culpada por nos deixar cair no buracão ? Toda aquela gente está fadada, está tocada pelo destino, aquela gente é culpada de quarenta anos de mentiras, de défices escondidos debaixo do tapete, culpada de cumplicidade, culpada de ter pactuado, de ter calado.

A estratégia escolhida de olhar para o lado e fingir não ver o buraco, a atitude estulta de fingir nada ter que ver com esse buracão, a táctica de o ignorar pura e simplesmente como se nada tivesse que ver com ele ou o buraco nem existisse foi-lhe fatal. Claro que foi a PAF e o autocarro das esquerdas quem na hora derradeira nos empurrou para o buraco, quem nem admitiu o PEC IV, quem foi a Bingo e viu saírem-lhe as contas furadas, mas o que estava em jogo era a paternidade do buraco, ser filho incógnito caiu muito mal… o resto não passou de habilidades de parte a parte.

Costa devia ter partido da culpa para o perdão, mas não, partiu do esquecimento manhoso para a apoteose das favas contadas. Os portugueses não lhe perdoaram.