terça-feira, 19 de julho de 2016

363 - O FUTURO ESTÁ EM COIMBRA, E ÉVORA ?


…. o Instituto Pedro Nunes, IPN, que cumpre agora 25 anos, nasceu da Universidade de Coimbra e ajuda a fazer a ligação entre a investigação, a universidade e o tecido empresarial. Vive dos seus próprios recursos, que vêm dos seus laboratórios de investigação tecnológica (que desenvolveram 150 projectos nos últimos 3 anos e apoiaram 300 empresas), de uma incubadora (que apoia a criação de empresas e as acompanha até aos 4 anos), de uma aceleradora (para empresas com mais de 5 anos e que já se afirmaram no mercado mas precisam de captar capital para crescer) e da área de formação………  

E por cá ? Como é ? Onde vamos ? Quando chegaremos ? Perguntei eu logo aos meus botões…

Pois por cá continuamos discutindo o sexo dos anjos…


* Nicolau Santos, Semanário Expresso, 15-07-016, Caderno de Economia
* http://expresso.sapo.pt/opiniao/opiniao_cem_por_cento/2016-07-15-O-futuro-esta-a-ser-criado-em-Coimbra

segunda-feira, 18 de julho de 2016

362 - HÉRCULES C–130 ABNEGAÇÃO, BLUFF ?


Depois de largamente noticiado nas redes sociais que dois dos tripulantes do Hercules C – 130 teriam saído e voltado a entrar corajosamente na aeronave acidentada, numa atitude de honrosa e exemplar abnegação para salvar um terceiro elemento, acto que os levou a perecer na tentativa, a Força Aérea Portuguesa FAP desmentiu sábado passado tal lucubração. Expresso * de 16-07-2016, 1º Caderno, página 22.

Porém a FAP admitiu que a aeronave faria parte de um conjunto de seis em que, apenas e regulamente duas delas voariam devido a falta de verbas para prover à sua manutenção. Adiantou ainda a mesma fonte que os aparelhos não têm a aviónica actualizada, e que os sistemas de voo, de comunicações, de navegação, vigilância e segurança se encontram obsoletos, pelo que as aeronaves se encontram proibidas de cruzar os céus europeus pelos corredores aéreos principais, ou normais, sendo obrigadas a socorrer-se de rotas alternativas. (o equivalente a caminhos municipais ou a veredas, aditamento meu).

 A notícia adiantava que a FAP estaria na contingência da venda de uma dessas seis aeronaves para assim custear a actualização das cinco restantes, operação avaliada em 29 milhões de euros e a ser efectuada até ao ano de 2030.

Acrescento eu que o governo não tem money para actualizar os cinco velhinhos Hercules C – 130 mas equaciona porém a aquisição de vinte ou trinta moderníssimos Embraer KC – 390 … 

             Uns pândegos estes nossos governantes… 



361 - MORREU MÁRIO SOARES ...............................


Dentro de alguns dias os mídia de todo o mundo divulgarão profusa e abusadoramente a notícia do falecimento de Mário Soares, sobre quem tecerão os maiores encómios, o mais pequeno dos quais será o de, na esteira daquilo a que temos assistido de há anos para cá, darem ao avôzinho o epíteto de pai desta nossa peculiar democracia.

O nome de Mário Soares, mais concretamente da fundação que tem o seu nome foi envolvido* no esquema conhecido como “Panama Papers” o que nada me admira e só confirma a proposição corrente de que Deus está em toda a parte, e Mário Soares já esteve… Não será por acaso que A. Costa se apressa a homenageá-lo ** Mais depressa eu acredito que esteja com receio que o velhote lerpe e não tenha tempo de o medalhar com a distinção que, segundo ele julga, o defunto merecerá.

Haja limites para as loas, pois se este país se encontra no estado lastimável que todos sabemos, tal se deve em grande parte à lógica soarista que desde o início foi inculcada nas leis, nas instituições, nos hábitos partidários, sem que Álvaro Cunhal tivesse conseguido travá-la, Cunhal, outro culpado, já não está entre nós e não é de bom tom desancar num falecido. Nem o malogrado Sá Carneiro teve tempo para tal feito, como sabemos deixou o país órfão, o seu partido, e a todos nós… 

Foi essa lógica soarista do confronto, radicalizadora e polarizadora, intriguista, oportunista e aparelhística, sem oposição ou contra poder que a enfrentasse, instaurada, instalada e disseminada entre nós que aqui nos conduziu, aqui ao buraco onde estamos metidos e de onde essa mesma lógica jamais nos tirará. Tudo nesta democracia tem o seu cunho pessoal, portanto na nossa desgraça inscreve-se também o seu nome ...

Bem se pode dizer que Salazar nos governou quarenta anos mas Soares nos desgovernou outros tantos, com a agravante, ou desvantagem, de tal desiderato se reflectir negativamente neste lastimoso país por mais outros tantos e fatais quarenta anos. No mínimo.

Há gente que mais valia nem ter nascido… 




domingo, 10 de julho de 2016

360 - A PRAIA DAS MIL MARAVILHAS ...................


Chutou-lhe a areia para cima deliberadamente, ela acabara de espalhar o bronzeador e a areia colou-se-lhe à pele enfurecendo-a. Era um velho hábito dele, hábito velho e detestável, era isso e o abominável "lontra" com que a mimava sempre que a via estendida na toalha. Ano após ano e invariavelmente, miminhos como esse e banhos de areia sucediam - -se mal principiavam as férias e até ao fim destas, por vezes até muito depois, até o bronze desaparecer e os dias de praia serem esquecidos.

Os inspectores e investigadores isolaram a zona encostada à arriba e marcaram, assinalaram, numeraram e fotografaram cada pormenor encontrado nesse fatídico lugar, areia ensopada foi recolhida e guardada em sacos à prova de contaminação, e a algumas pegadas encontradas no lugar foram tirados moldes numa massa que mais parecia gesso. Outros indagaram ou interrogaram pescadores tardios que ainda por ali cirandavam, talvez presos à curiosidade mórbida que sempre anima os pobres de espirito e os mais simples.

Dizer que lhe custava aturá-lo seria mentir, ele aborrecia-a é certo, mas não a demovia de se sentir bem consigo mesma, sentia-se bonita, sabia-se bonita, e saber-se vista, olhada, admirada e apreciada era um prazer que guardava só para si, ser e sentir-se desejada ou cobiçada era o seu supra sumo, o seu segredo máximo, sabia perfeitamente nunca ter tido um corpo tão esbelto, apesar das gémeas, considerava-se mesmo no apogeu e aproveitava o que vivia como sendo o auge, o culminar de uma ambição que alimentava desde jovem.  

Magotes de curiosos foram gentil e friamente afastados pelos inspectores, e quando estes não conseguiram dar conta do recado veio um contingente da GNR estabelecer a ordem. A zona protegida, isolada, era uma área considerável, e só a ausência de provas permitia ou forçava a admitir tal não se dever à participação de animais na ocorrência. Era o costume, javalis, gatos e cães vadios deambularem esfomeados por ali, mas a cena apontava para um ritual de sadismo espontâneo cuja acção se divisava, ou adivinhava, mas da qual só o resultado era visível. As diversas partes do corpo foram colocadas uma a uma respeitosa e criteriosamente em sacos individuais e igualmente classificadas, tendo sido anotado em cada uma delas com pormenor e num mapa detalhado do local, o sítio onde fora encontrada.

Indubitavelmente fora usado um objecto afiado e cortante, ouvira alguém a um dos inspectores, ao mesmo que desabafara;

- Quem fez isto sabia o que fazia, sabia onde cortar.

Algumas vezes se haviam zangado por ela se expôr assim aos olhares alheios, ela argumentando não ser a única e ser dona do seu corpo, ele que olhasse em volta e reparasse, mais de metade das mulheres naquele recanto da praia faziam topless, que aliás era bom para a saúde. Ele ripostava entre dentes, contrariado ou ciumento, chutando-lhe areia para cima mal via a lontrinha estendida na toalha, seminua e oferecida aos olhos de toda a gente. Nunca passaram daí, mas já por várias vezes ambos tinham terminado as férias antes do tempo devido ao amargo da coisa…

O golpe começara nitidamente na púbis e só a resistência do externo travara a lâmina. O tronco estava aberto como o de um porco, ou duma rã, daquelas que dissecávamos nas aulas de ciências naturais quando éramos gaiatos e às quais cortávamos a cabeça, os braços e as pernas pois a malta gramava vê-las mexer apesar de decepadas. Naquele momento lembrei a professora Georgete Marcão inspeccionando, explicando, cabelo arranjado, unhas tratadas, bata branca desabotoada na frente, o fio de ouro pendendo repousado sobre os seios, hirtos, espetados, duros, volumosos q.b. e, contrastando, a cintura adelgaçada por um cinto larguíssimo e uma fivela ainda maior. 

Os seios foram os primeiros a ser guardados, grandes mas apesar de tudo ainda gelatinosos, cheios de areia, meticulosamente cortados e atirados cada um para seu lado. Agora flácidos mais pareciam duas próteses de silicone. As pernas inteirinhas dos pés à anca, bonitas ainda, cada uma com a respectiva nádega, o modo como estavam cortadas indiciava que quem o fizera sabia o que fazia, o inspector tinha razão, o meliante sabia o que fazia e onde cortar, e fê-lo com calma, com tempo, circunstância ou detalhe que conduz a outra não menos despicienda dedução, a vitima não estrebuchara, não dera luta, portanto o pescoço terá sido o primeiro a ser cortado, cerce, com um golpe limpo, terá sido um golpe único, porém fica a dúvida.
Mesmo de longe consegui observar que a vitima usava o cabelo curto, curtinho, curtíssimo, onde e como lhe teria ele pegado, agarrado, ele ou ela, digo o homicida, como terá subjugado a vitima para aplicar o golpe sabendo-se-lhe a testa oleada e escorregadia devido ao bronzeador ?

Há mistérios que, por mais que a gente pense, por mais que a gente os reconstrua ou tente reconstruir a cena jamais lograremos esclarecer. A uns cinquenta passos e onde a verdura já se mantinha estava montado uma espécie de altar improvisado, maçãs, símbolo do pecado, flores, velas, terá sido um qualquer rito a ditar a sorte da desgraçada ? Espalhadas um pouco aleatoriamente meia dúzia de embalagens ou saquetas de Durex acusavam nitidamente a tentativa de terem pretendido ser abertas, poderia residir nelas a chave do mistério e guardarem as impressões digitais do assassino, decerto que a ter havido sexo não fora consentido, teria havido estupro, a vítima fora violada e somente a autopsia diria se fora esventrada ainda viva ou depois de morta.

A proximidade a que me encontrava facilitou-me a apreensão do ocorrido, mas mexeu muito comigo, à noitinha tentei fazer a minha gelatina preferida que contudo não me saiu como sempre, mas mesmo com isto na cabeça, isto a cena de praia macabra, e fazendo as limpezas em simultâneo, acabei de descobrir porque me saíra mal a gelatina… é que entre uma coisa e outra vou fazendo outras e depois meto os pés pelas mãos, mas afinal sabem porquê, porque me falhou desta vez a gelatina ?

Sabei então porque me saiu mal a gelatina, porque liguei o forno no máximo e ele só pode estar a 160º ! 

Ele há coisas... 

quinta-feira, 7 de julho de 2016

359 - O ESBIRRO EMBIRRANTE ...............................


A mota atormentava-me e em simultâneo assustava-me. Toda aquela parafernália de campainhas e luzinhas fazia-me temer uma paragem nada agradável devida a falta de combustível. E depois como seria, não era coisa que se levasse às costas, pelo que apontei-a logo à Mobil, onde cheguei, adivinhem, lembram-se daqueles filmes do 007 em que ele desligava a bomba no último segundo e o marcador digital da espoleta nos indicava que o fizera no derradeiro 0, 007 milissegundo antes da coisa ter ido pelos ares ? Pois bem, mas eu afinal cheguei à bomba, de gasolina ressalvo, e depois de atestar verifiquei que o depósito afinal (outra vez afinal, o jogo de ontem fez-me mal, ou o jogo ou as mistelas) ia eu dizendo que afinal ainda lá teria gasosa para uns cinquenta quilómetros pelo menos, os japoneses não são nada exagerados, devem ter ficado com traumas e complexos após Fukushima. Aposto.

Atestei e fui pagar, o Ludovino, gentil como sempre, ofereceu-me uma linda bola de praia que presto ofereci a uma criancinha ranhosa que andava por ali e eu, para corresponder à empatia perguntei-lhe pela brasileira, a brasileira não é a Brasileira do Chiado, mas uma beldade tropical que lhe tem arruinado a vida e a saúde, o posto de gasolina é o último negócio de família que, por causa dela, ou apesar dela ainda não trespassou, vai morrer feliz o Ludovino, novo e feliz, mas quem a conheça reconhecer-me – á razão, a mim e mais ainda ao Ludovino, há coisas que nos fazem acreditar na beleza da natureza, na finalidade positiva da vida, que nos enchem de devoção ambientalista, e estávamos nisto, filosofando, quando pelo canto do olho topei o freguês que se seguia preparando-se para pagar e não fui capaz de me suster;

- Foda-se ! Você é policia ó amigo ! Ou é ou foi ! Multou-me há quarenta anos por causa d'uma merda de uma mijinha às duas da manhã ! Nunca mais esqueci essa cara ! Você não pode ser bom homem ! 

E era verdade, era ele, e era policia aliás estava aposentado. Eu nunca esquecera aquela cara de buldogue, e disse-lho, fora em 1974, não recordo o dia exacto mas foi entre o 16 de Março e o 25 de Abril, o Café Portugal fechava às duas da manhã, a malta ficara-se na conversa, que nos levou até ao início da rua Gabriel Victor do Monte Pereira onde, apertado, dada a hora tardia e o escuro de um pequeno cotovelo que a rua fazia, dei dois passos e aliviei-me da cerveja que me atormentava a plenitude do pensamento e me desassossegava o intelecto e a dialéctica.  

Nem sei de onde eles apareceram, eram dois, andavam acossados desde a intentona de Março e eu, eu e todos os cabeludos, éramos decerto gente da oposição, ou da oposição ou dela simpatizantes, e não se enganavam.

- Mas onde queria você que eu me aliviasse com o café fechado homem ?

Ontem, então, como hoje, não havia, nem em quantidade e muito menos em qualidade, casas de banho públicas que satisfizessem, e já que estamos em maré de filosofias e retóricas adianto-vos duas coisinhas, por um lado uma vez houve em que a brasileira quase me convenceu a tornar-me vegan, e por outro, outro lado não se percam, posso assegurar-vos que muitíssima coisa não mudou absolutamente nada desde então neste país e algumas até mudaram para pior, para bem pior ou muito pior depois do 25 de Abril.

Resumindo, penalizou-me em setenta e cinco escudos, o que à época e por uma mijinha foi um dinheirão ! Multado por indecente e má figura. Talvez agora o Ciríaco, o Pereira e a Ana compreendam melhor o gozo que me dá mijar em todo o lado e sempre que posso, é a minha luta, é uma tara, um complexo, uma vingança cuja divida se encontra ainda muito longe de me estar paga na totalidade.

O polícia, de canadianas e arrastando o esqueleto lá abalou num mata-velhos a chiar de ferrugento. Sobreviveu ao 25 Abril, decerto se adaptou, reformulou, eu não vos disse que quase nada mudou ? Nem a merda nem as moscas, só mudou a retórica, a dialéctica, a demagogia, que passou a ser feita à maneira *…