quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

409 - FALEIRO, CÉU, O PROBLEMA É O HOJE ......

            

No mesmo dia em que o sociólogo e pensador Zygmunt Bauman num artigo brilhante (1) designa por trampa as redes sociais, o meu amigo Faleiro posta uma frase bombástica que por algum motivo o terá tocado “A mente não suporta ser nada” (2) e, ainda que num repente me tenham acudido à memória as palavras de José Mário Branco proferidas no longínquo ano de 79 (3) palavras que por si só seriam uma completíssima resposta ao seu desabafo inconsequente, perderei todavia mais tempo e paciência com ele que a Céu, que no seu entender, no entender dela, muito lhe deve.

Percebo o Faleiro, tem tido azar na vida é o que é, e a Céu nem foi o primeiro desses azares, depois de juras juradas deixou-o de mãos atadas e abalou para as Arábias com um enfermeiro artolas todo ele ai não me toques, que assinara um contrato fartote mais parecido ao dum treinador. Ela continua a jurar-lhe amor e envia-lhe postais ilustrados de arranha-céus desmesurados onde diz ser ascensionista e poliglota. 

        - Sempre teve queda para línguas, diz-nos o Faleiro, saudoso e cheio de remorsos por agora o lambidinho ser o enfermeiro… 

           Na realidade a Céu era bióloga, tinha tirado um mestrado que lhe abrira as portas de um hospital veterinário onde havia quinze anos dava banho e penteava cãezinhos, e estava quase nos quarentas... Azarenta ela e azarento este Faleiro, festa de arromba em 2000 por ter acabado o curso em primeiro, engenheiro de correntes fortes, porém com tanta sorte na vida que nunca fez mais trabalhos que ligar dois zingarelhos e substituir-lhe os fusíveis. De empreiteiro em empreiteiro todos lhe ficaram devendo, nem tendo direito sequer ao desemprego de lei, pois os patrões nem salários pagavam quanto mais as habituais contribuições sociais. Um deles inda ia ajudando e no Algarve emprestando um chalé que por lá tinha, mas também esse p’ra comer o dito teve que vender e o Faleiro lá ficou uma vez mais a arder…

 - Não faz mal ! Dizia ele, - De qualquer modo afinal eu já nem dinheiro tinha para apanhar um comboio que até lá me levasse… E hoje podemos dizê-lo, é mais um frustrado engenheiro, e nunca soube o que era dinheiro. Por amor por aqui ficou, e quando ela abalou estava com quarenta anos, sem folgo para aventuras, um revoltado, um rebelde, um insubmisso, insurrecto, delinquente reincidente mas sobretudo um demente, e um problema valente…

O problema contudo reside todo no facto de, para o meu jovem amigo Faleiro “as coisas” se passarem totalmente lá fora, lá fora do seu âmbito pessoal, lá fora no virtual, eu disse “no”, no virtual, lugar onde ele concebe agora a realidade e a luta, uma vez que, a julgar pelas suas palavras, posições e atitudes é um tipo resignado, ele mesmo o diz e confessa, admitindo inconscientemente que “de geração em geração estamos a perder direitos, qualidade de vida e aos poucos se foi chegando onde ele chegou” tendo desistido de ser quem é, de ser algo ou alguém, de ser alguma coisa na vida. A culpa será portanto do tempo e da história, do passado, que é como quem diz, dos outros.

Não faço ideia de como ele assumiu ou alguém lhe implantou tais coisas na cabecinha mas está solenemente enganado, errado. A génese do problema que o afecta, e que afectará centenas de milhar de jovens no país, é que ela a génese das suas queixas, não radica no passado nem nos outros, radica no presente e nestes, nestes que agora governam, põem e dispõem as peças no xadrez inclusive ele, Faleiro, ele e todos os jovens que amocham e calam, preferindo levar a luta para as redes sociais onde matam e esfolam de modo fútil e inconsequente.

O meu amigo Faleiro está portanto muito pouco preocupado ou interessado no porvir, estará mais resignado, até por desconhecer, por nem ter vivido o passado nem naturalmente o conhecer muito bem, desconfio que nem muito mal, portanto, para usar uma palavra que tão cara lhe é, dir-lhe-ei que o tempo não volta atrás, mas que é uma pena já que o que nos espera no futuro, futuro que começou ontem, nem é nada de bom nem nele se perspectivam moldes de cativar a juventude, juventude que para melhor ser erodida e iludida se mantém agora até aos quarenta anos e não tarda muito que oficialmente se seja jovem até aos cinquenta…

Obviamente um regresso ao passado é tão absurdo quanto um salto para o futuro e os problemas com que a juventude hoje se debate não existiam há quarenta anos, senão vejamos:

A)   Há 40 anos ninguém precisava tirar uma licenciatura para vender sandes no McDonalds ou sentar-se a uma caixa registadora num híper. Há 40 anos os jovens tinham bué de saídas profissionais onde se realizarem e onde darem forma aos seus sonhos, desde logo uma guerra em três frentes, corrijo digo quatro frentes para ser mais exacto, e onde através do ingresso num dos ramos das forças armadas podiam alimentar vaidades pessoais e egos, nos Comandos, Pára-Quedistas ou Fuzileiros qual destes corpos o mais aguerrido, o mais famoso, reconhecido ou prestigiado. Existia a justa perspectiva de atingir-se a glória através de um qualquer acto de heroísmo, de reconhecimento pelos pares, de exemplo de bravura, nem que fosse a título póstumo, uma medalha de latão honrosamente atribuída à família num dia de cerimonial militar capaz de comover a pátria, os amigos e os presentes.

B)   Nem era precisa muita sorte para sobreviver às guerras do ultramar, guerras que tanta celeuma costumam levantar. Foram das guerras menos mortíferas que a história mundial regista e de tal modo foi empolada a questão à sua volta que houve grupos de historiadores relutantes em admitir a classificação de guerra apesar das tentativas de Salazar. Inclusive na ONU o nosso problema no ultramar nunca logrou alcançar essa atribuição, essa categoria, embora fosse reconhecido que o país sofria agressões cuja classe ou natureza apontavam todavia para meros incidentes, inda que se pautassem por uma inegável e pontual mas continuada violência. Israel que mantinha um qui pro quo idêntico com a Palestina nunca viu ser-lhe reconhecido direito a usar a designação “guerra”, até por não haver no caso de Israel, tal como no nosso não havia, declarações de guerra trocadas, nem dois países directamente envolvidos no nosso caso pois no caso de Israel a Palestina nem era reconhecida como nação. Era simplesmente uma região e a ONU nunca fez mais que atirar para cima de Israel com resoluções que jamais seriam cumpridas. Quer num caso quer no outro os contingentes de capacetes azuis da ONU nunca foram mobilizados por oficialmente não existir uma guerra declarada. De concreto sabe-se que na nossa “guerra” do ultramar faleceram em treze anos perto de oito mil militares, metade deles em acidentes de viação, acidentes com armas ou de outras quaisquer índoles que não directamente devido a esse tão reclamado estado de guerra.

C)   A título meramente informativo e comparativo adianto que a guerra de independência da Argélia conduziu à morte de 250 mil combatentes de ambos os lados em apenas sete anos de confrontos, e que a guerra civil de Angola (4), quase trinta anos, incluindo a decisiva, fratricida e morosa batalha de Cuíto Cuanavale, a batalha mais prolongada no continente africano desde a IIGG, fez tombar cerca de 500 mil africanos. A duração e o morticínio de outras lutas ou outras guerras poderá ser avaliado com um simples clique, vão ao Google ou à Wikipédia. Quanto ao resto cada lado de um conflito terá sempre os seus heróis e os seus mártires, que mui evidentemente para o lado contrário nunca passarão de párias...
  
Mas enfim, esqueçamos a guerra, quem quisesse ficar por cá poderia igualmente armar-se em herói e abraçar uma carreira de contestatário ou subversivo, granjeando dessa forma, mais tortuosa contudo admitamos, o mérito que perseguisse. Bastaria ter a felicidade de ser arrebanhado e bater com os costados no Aljube, em Caxias ou Peniche, e desde que assim fosse o sucesso entre os seus pares estaria garantido. Portanto, de um modo ou de outro, a favor ou contra, o futuro estaria sempre assegurado, dois casos paradigmáticos e bem conhecidos vos vou apontar, o Major Valentim Loureiro (o batateiro)  e Manuel Alegre (o poeta), ambos exemplos de abnegação e luta pela democracia, ou contra ela, e que resultaram em soluções diferenciadas mas igualmente proveitosas e nada despiciendas.  Aquilo não era uma guerra, era um modo de vida de onde todos tiravam proveito e quando não puderam tirar, zangaram-se e deram uma golpada, fizeram uma revolução, a revolução do 25 de Abril, cujo custo vais pagar com três palmos de língua fora porque os vampiros que lá estão agora são trinta vezes piores que os senhores que lá estavam anteriormente.
  
Entre ser contra ou a favor dessa guerra eu não teria duvidas, o que não quereria era ser ser moço de recados, criado às ordens, porteiro ou segurança, venha o diabo e escolha qualquer destas situações pois nenhuma delas oferece o mínimo prestigio ou o mínimo futuro, E é tão mauzinho o futuro que temos pela frente que nem podemos sequer mandar um patrão para o caralho e dar o salto para outro no dia seguinte, ou no mesmo dia, today simplesmente não há empresas nem patrões. Esta nossa democraciazinha com esta paz…zinha de merda e sem rupturas que se mantém a balões de oxigénio não interessa a ninguém, a não ser a uma dúzia de privilegiados que dela têm beneficiado como nunca. Com uma divida nacional impagável, nem nos próximos duzentos anos vamos ter uma folgazinha para aliviar o cinto ou os costados.
  
Será caso para dizer antes a morte que tal sorte, por isso amigo Faleiro, mata-te e acaba com o sofrimento porque de resto, por mais sonhos ou aspirações, desejos e ambições que acalentes, todos os requerimentos que metas nos próximos cem anos simplesmente não terão provimento. Nem cabimento. Posto isto toma e embrulha ó Faleiro porque a coisa não vai acabar bem, é impossível que acabe bem. Nem a Céu vem, nem do céu tu esperes o que quer que seja, conforma-te ou revolta-te, luta meu grande incréu…






terça-feira, 10 de janeiro de 2017

408 - A MÁSCARA DE MPINGO ..............................



Depois do espanto e de olhá-la profundamente quedou-se olhando-a, remirando-a demoradamente até que um estremecimento a denunciou, assustara-se e levara involuntariamente as mãos ao peito persignando-se, como se no ritual duma crença em que eu sabia não acreditar ou cresse pudesse protegê-la.

Encontrei-a um dia destes quando visitava a exposição “Vantagens e Desvantagens da História para a Vida” no Fórum da Fundação Eugénio de Almeida, reconheci-a não só pela cicatriz e pela “pinta” mas sobretudo quando parou petrificada ante a exposição duma máscara negra africana em madeira de mpingo, jacarandá africano ou pau-preto. Não a via há mais de trinta anos, vira-a em Durban por volta de 75 ou 76 pois os pais chegaram a morar ao lado de uma vivenda onde vivi uns meses. Ela era então uma criança de uns doze ou treze anos  a quem eu fazia umas festas na cabeça sem lhe ligar grande importância.

- É tudo uma questão de fé, disse-me a páginas tantas. – Ainda recordo o meu pai distribuindo ordens, lugares e munições pelos homens deitados no interior de janelas e portas, o paizinho ajeitando o chapéu para que a aba o protegesse do raiar do sol, os homens praguejando, a neblina matinal confundindo-se com o fumo que os casões e os celeiros ainda largavam e por cima do cheiro a fumo o odor nauseabundo dos animais e dos pretos mortos e inchados, abandonados à sua sorte ia para alguns dias pois ninguém arriscava abandonar a segurança dos fortes alicerces da casa mãe.

Mpingo dissera o pai ao arrancá-la da cara do matulão estendido ao comprido na soleira da porta, lábios secos encolhendo em volta da boca cujos dentes o inchaço parecia querer expelir das gengivas, a barriga aberta por um zagalote, as tripas espalhadas empestando a atmosfera de um cheiro fétido.

Pau-preto, como os pretos que ela assustada guardara e apertara contra o peito como fazia com a boneca Carmina, também ela preta, ambas desandando para a casa grande onde as mulheres rezavam e choravam pedindo a intercedência de Deus a fim de levar os pretos para que se salvassem os brancos.

Olhei-a consternado.

- Além disto pouco mais recordo daqueles dias duma infância vivida em sobressalto. Nunca mais vi o paizinho vermelho de raiva como naqueles dias. Ainda o recordo bramindo:

- Bala de branco não mata preto, ai não mata, devem ter aprendido a lição os cabrões, não enterrem nenhum, deixem-nos ficar a apodrecer ou a servir de pasto à bicharada.

E não os enterraram, as cruzes ao fundo do jardim tinham todas nomes brancos, Eulália, Laura, Elsa, Ludovina, Natércia, Florindo, Metrogos, Fonseca, Marco, Rocha, Gervásio, Pacheco, Santos, Palma, Rolo, Desidério, Pimenta, Pessanha, e uma cruz pequenina da cadela Violeta que por vingança tinham degolado com uma catanada. Uma cruz maior, na qual enrolaram o terço com o qual andava sempre rezando, movendo os lábios numa ladainha que não serviu de remédio nem de consolo a ninguém, foi feita a preceito para a irmã Esperança. Mas decididamente o deus dela não estava olhando os brancos naquela hora fatídica.

Durante a viagem a Carmina perdeu os cabelos primeiro, uma perna depois e ao fim de tantos dias caminhando debaixo de sol acabou por perder a cor. Quando o primeiro camião da fila tocou o claxon anunciando Durban estar à vista e a viagem a chegar ao fim, deixei-a cair devagarinho pela janela do carro mal me senti ensanguentada e alarmando tudo e todos com um ferimento que parecia ter escapado ao mais atento e pôs os nervos da mãezinha em franja até ter acabado por sossegar e me acalmar também a mim explicando-me a natureza coisas.

- É a menarca, disse para o meu pai.

E foi o último episódio da minha vida em que sangue me poria em polvorosa. Custei a adaptar-me à escola em Durban, o monhé que dava as aulas não tinha a paciência da irmã Esperança e pela primeira vez na vida desejei enterrar alguém e esquecê-lo. Nesse ano ainda os meus pais conseguiram falar por telefone com a família na Covilhã e rumámos à metrópole, metade da minha vida foi passada em viagens, se não foi é o que sempre me parece, ou fugindo de uma coisa ou correndo para outra.

De volta a Lisboa, de que não me recordava minimamente, senti pela primeira vez ser indesejada. Para onde quer que nos virássemos éramos vistos como tendo peste, ou lepra, os pretos não gostavam de nós e fugimos deles, mas como fugir dos brancos, e para onde ? Em três ou quatro anos arrolei meia dúzia de namorados, não suportei nenhum e admito que fiz tudo para correr com todos eles. Todos com a boca cheia de solidariedade mas incoerentes entre o dizer e o fazer, nem lá a ignorância das gentes preenchia um décimo do que por aqui vi, ainda se vê. Cidades atrasadas, gentes atrasadas, ruas e ruelas tortas e tortuosas, tenho saudades das mentes libertas e dos espaços livres das cidades das colónias e de Durban. Aqui sou culpada, ainda não percebi bem de quê ma sou culpada, o remédio é usar uma máscara, é isso, fingir, ouvir, concordar, e depois fazer como quiser, esta gente é incapaz de tolerar seja o que for. Poderei um dia tirar a máscara mas já não sou a criança de há vinte ou trinta anos, Mudei muito, mudaram-me, a máscara garantiu-me a sobrevivência, lá fora a estupidez continua a mesma, contínua igual.

A conversa prosseguiria dias depois na sua casa em Cano, Casa-Branca, Sousel, terra onde o marido, veterinário, refez a vida e lhe repôs a calma numa alma torturada havia demasiado tempo. Puxou de um baú de onde retirou a máscara que o pai tinha arrancado do rosto de alguém diante dela naquele dia fatídico. Virou-a para mim e recomeçou o diálogo que interrompêramos dias antes:

- O óleo espalhado no corpo não evitou a bala do branco, nem o óleo nem as máscaras, mas a mim salvou-me a máscara que afivelei, salvou-me da estupidez e das incongruências destas gentes. Simbólicas as máscaras por vezes, quer sejam ou não irei restaurar a que tenho em casa e herdei do paizinho, passá-la a óleo e expô-la na sala, jamais deitarei fora esta máscara, não, não vou voltar a guardá-la, foste um herói paizinho, recordar-te-ei sempre como um herói, contra os pretos lá, contra os brancos cá, contra os preconceitos de toda a gente e em toda a parte. Quanto à minha máscara jamais a tirarei. Culpada, incapaz, todos somos considerados incapazes, só porque alguém se recusou a negociar a paz, só porque alguém não acautelou, não recorreu à diplomacia, não nos protegeu naqueles dias, nos dias em que todos sabiam o que iria acontecer e em que aconteceu. Só não soube quem não quis, só não sabia quem não queria, por que não nos defendeu quem nos convidara a ir ? África sempre foi dos africanos, como a Europa dos europeus e as Américas dos americanos. Angola era nossa, Angola não era nossa, e o que é nosso agora ? Uma dívida que vai durar duzentos anos a ser paga ? Nada, não temos nada, está tudo nas mãos das Tríades Chinesas, de Fundos Anónimos, de Mercados Invisíveis, os pretos quando quiseram lutar pela libertação ainda tinha a nossa cara para apontar mas se nós quisermos lutar agora pela independência a quem vamos apontar ? A quem ? Com o quê ? Quando ?  Como ? Que gente de trampa esta, que miséria de povo, gente de merda, este país dá-me nojo, só gente estúpida, corrupção e corruptos, e ninguém lhes mete as tripas ao relento… Expulsa de um lado, atirada para o outro, é assim que me sinto desde 74, mas que culpa tenho eu ? A quem fiz mal ? Quem foi o animal que assinou e selou o meu destino ?  Quem ?

E tu Diogo cala-me essa cadela e muda-me já a merda da televisão para o canal Disney que já não posso com a trampa do funério, e faz o que te digo ou desaparece-me da frente.

Desapareceu...

MÁSCARA  *

Depus a máscara e vi-me ao espelho. —
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha.

* Álvaro de Campos, in "Poemas"

TABACARIA  **


Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

** in Tabacaria /Álvaro de Campos (F.P)




sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

407 - MARCELINO - PRESENÇAS E NOVIDADES

     
Tomei um banho e perfumei-me, até porque o velhote é segurança num hipermercado e já fica feliz com o meu cumprimento e sorriso, com um cheiro a lavado e um toque de perfume até vai ao céu. Arrumei a casa para estar limpa quando as meninas chegarem. Depois já sei que vai andar toda fodida. Gosto de arrumações e de asseio. Agora arranjar-me toda, bem produzida e perfumada e sair para um bar ver divorciados isso não... Foi coisa que não fiz, que nunca fiz, nem me mexeria para ir ver divorciados”. Isto ouvi eu na mesa atrás de mim enquanto de pé tomava a bica ao balcão. Queria apressar-me e ter tempo e vagar de admirar e ver uma expo que há muito me suscitava a curiosidade e que o dia de sol, convidativo, compelira a tirar a mota da garagem e a fim de fazer caretas ao estacionamento. 

Há cerca de quinze dias, mais precisamente no dia 15 de Dezembro, visitei na Biblioteca Pública de Évora e disso dei conta, uma desejada exposição do pintor Marcelino Bravo, artista e pessoa que em casa apreciamos e admiramos, sobretudo a sua particular visão do Alentejo e temáticas afins, cousa que este eborense magistralmente reproduz com traços e cores peculiares e inconfundíveis. *

Mas deparei com um Marcelino Bravo fora dos carris** quero dizer descarrilando dos temas a que eu estava habituado e esperava ir encontrar, quer dizer, eu vou explicar. Digamos que metade da instalação era ocupada por temas normais, habituais nele, Alentejo & Cª, o busílis é que a metade restante apresentava telas inovadoras, diferentes, sem título nem tema, aleatórias, de uma corrente anormal ou inusual nele o que me confundiu.

Nem sei se ele conhece os novos caminhos que está a trilhar, pensando bem, retiro o que disse, claro que conhecerá e saberá o que está a fazer, eu é que o não sei, nem lhe conheço os planos, nem tão pouco estou por dentro da sua mente e digo mente porque os novos quadros apresentados são uma coisa da psico, um abstraccionismo psicadélico que esteve em moda há umas boas décadas e geralmente fruto de mentes provocadas, excitadas, estados mentais alterados, coisa que não me pareça ser o caso do nosso amigo Marcelino Bravo. Ele lá saberá das suas razões, e eu confio num eborense que toda a vida conheci ponderado e circunspecto, todavia só agora me pronuncio por ter primeiro querido averiguar a fundo essa coisa dos abstraccionismos, em especial o psicadélico, e que para ser franco eu tinha muito enterrado ou esquecido na memória. 

É que a arte abstracta por sua vez e para complicar ainda se divide em três tendências, o vulgar abstraccionismo, há quem o designe por corrente lírica, expressiva ou informal (Fig 1) e do qual para melhor vos situardes darei os exemplos de Kandinsky, Matisse, Francis Bacon (o artista), Paul Klee, Antón Lamazares, Requena Nozal, Pablo Picasso, Almada Negreiros, Júlio Pomar, Amadeo Souza Cardoso, José da Fonseca, Sandra Bravo e alguns outros mais. Mas deveremos invocar igualmente a corrente mais facilmente identificável do abstraccionismo, a geométrica, (Fig 2) cujo nome diz tudo, corrente de que poderíamos apresentar como representantes, Mondrian, Victor Vasarely, Julio Pomar, Maria Keil, Manuel Gargaleiro, José da Fonseca e Sandra Bravo. Para finalmente chegarmos ao tão, não diria contestado mas inusitado abstraccionismo psicadélico (Fig 3) retratado nas novas telas de Marcelino Bravo e cujos embaixadores chamo aqui, Alex Grey, Pouyan Khosravi, Keerych Luminokaya, Cameron Gray, Michael Garfield, Randal Roberts, Larry Carlson, Android Jones, Jonathan Solter, Matei Apostolescu, José da Fonseca e Sandra Bravo.****

Não esqueçamos jamais que o objectivo desta última corrente, a psicadélica, é caracterizado pela nossa percepção nela de aspectos desconhecidos, inusitados e duma criatividade que poderíamos considerar sem regras ou limites. Estudiosos têm demonstrado que o uso de drogas psicotrópicas expande os limites da mente, limites cujas expressões nos são dadas por essas experiências (alguns chamam-lhes alucinações), que provocarão mudanças de percepção, sinestesia (sentir várias sensações em simultâneo) experiências cujos estados nos darão a pintura psicadélica. Decididamente e a menos que Marcelino Bravo ande a abusar das pastilhas para a tensão arterial não me consta, nem acredito que seja o uso ou abuso de drogas a origem do seu desvio ou desvario (sem sentido pejorativo).

É que isto da arte tem muito que se lhe diga, Van Gogh não cortou uma orelha? Outros não fizeram melhores ou piores figuras ?  Talvez tenham reparado ter eu ali atrás alguns nomes repetidos, não foi erro nem engano, é que raramente um pintor, ainda que exímio numa tendência, não tentou por desfastio, motivos económicos ou capricho meter uma perninha numa outra qualquer corrente ou tendência… há milhares de casos desses, daí que Marcelino Bravo tenha todo o direito de fazer uma incursão fora do seu habitat natural.*** Na realidade eu fui lá há quinze dias e, chocado como fiquei, decididamente não estava preparado, reneguei as novas telas, a que nem dei atenção e nem sequer fotografei, tendo preferido deliciar-me com as restantes. Contudo a consciência levou-me a reconsiderar e anteontem, dia 28, voltei lá para as olhar com atenção a essas novas telas e temas, nova corrente e tendência, e devo dizer que felizmente essas mesmas telas denunciam desde logo o autor, pois continua a observar-se o mesmo cuidado exímio na pintura, mantem-se inegavelmente o mesmo traço, é inequivocamente o mesmo ambiente e decididamente M.B. socorreu-se das mesmas cores a que nos habituara sem fugir um milímetro da sua matriz habitual. Contudo, a haver heresia, e quanto a mim houve, circunscreveu-a à temática de cada tela e aí confesso a minha inabilidade, incapacidade e sobretudo falta de autoridade para sobre essas manifestações altamente subjectivas me pronunciar.

Para mim nada como o velhinho dois e dois são quatro e a arte abstracta ou abstraccionismo é entendida como um modo que não representa objectos próprios da realidade concreta, como uma flor, um pássaro ou uma paisagem, mas ao invés disso compõe com traços e cores uma realidade que faz surgir a partir das experiências estéticas vividas. Também há quem a designe por arte moderna em oposição aos movimentos anteriormente vividos na pintura, dou o exemplo de oposição ao impressionismo inicial ou primitivo e às amorfas naturezas mortas. No inicio do século XX, escolas como o cubismo e o futurismo mais não foram que perseguições duma abstracção absoluta e buscaram sintetizar os elementos da realidade natural, transmutando-a em obras que estilizavam e projectavam a ideia e o conceito do mundo concreto fugindo à mera imitação desse mesmo "concreto observado".

Porém quanto ao psicadélico por onde M.B. enveredou dizem os entendidos serem os aspectos artísticos projecções de mentes (afectadas ou não) e na bibliografia especializada expressões como arte psicadélica ou lisérgica (oriunda de alucinações, como por exemplo ver ou criar na mente algo irreal, como um elefante cor de rosa com pintinhas) referem-se em concreto ao movimento hippie de contracultura dos anos sessenta e ao recurso a drogas psicotrópicas (entre as quais o LSD estava então muito em voga) capazes de alterar os estados de consciência. Ou isso ou uma psicose ou transe originado por êxtase religioso, ora simplesmente não acredito em nada disso, nem tão pouco que M.B. ande a sonhar ou abusando das pastilhas Rennie. Entrou numa de experimentalismo foi o que foi, com todo o direito de o fazer e quem não gostar que meta na borda do prato.  E já agora Bom Ano Novo a todos nós. 













   

Fig 1 Abstracionismo informal, Henri Matisse , fim de dança
Fig 2 Abstraccionismo geométrico, Piet Mondrian, rectângulos
Fig 3 Abstraccionismo psicadélico, Alex Grey, cabeça luminosa












Para que melhor me possais entender deixo-vos algumas telas de M.B. e testemunho do seu peculiar estilo, em cima telas estilo antigo e em simultâneo e em baixo exemplares da nova tendência, a fim de que possais avaliar e comparar a diferença a que aludi e me chocou.
**** Por três vezes aludi aos artistas Sandra Bravo e José da Fonseca, eu explico, em primeiro lugar não existir parentesco algum entre eles e M.B. em segundo lugar tratar-se de jovens artistas eborenses a quem a dimensão do meio em que orbitam e do universo de apreciadores que os rodeiam  jamais lhes possibilitar atingir a dimensão que as suas potencialidades deixam antever, o que lamento. Recomendar-lhes-ia uma mudança temporária para um dos bairros de Paris a fim de ganharem o prestigio que jamais alcançarão cá dentro (santos da casa não fazem milagres como todos sabemos), poderiam optar entre Montmartre, Ile de France, Marais, ou Saint-Germain-des-Prés, nem precisariam de muito tempo, duas ou três décadas seriam mais que suficientes.  






segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

406 - O QUE É O CAPITAL ? * ....................................


Diariamente zumbem-me aos ouvidos as novas, novas de novidades, sejam elas boas ou más, sobre o populismo e o avanço da extrema-direita, o avanço do capitalismo, do capital como diz o Honório, ou dizem quaisquer outros e, mor das vezes olho os meus interlocutores e interrogo-me sobre quanto entenderão eles de capital, do capital, e se saberão mesmo o que seja isso do Das Kapital, a sua génese, a sua etimologia, a sua história. A origem da palavra remonta ao latim caput (cabeça). Nos primórdios o adjetivo capitalis designava "o que está acima dos outros, o principal, o dominante" Como ainda hoje observamos ao afirmarmos ser algo de capital importância, ou quando falamos nos sete pecados capitais, e quando chamamos capital à cidade em que fica a sede do governo. Do Classicismo ao Feudalismo passando pelo Renascimento e até aos nossos dias a palavra nunca perdeu o seu significado semântico, antes o ganhou ou enriqueceu  sendo por isso importante sabermos o que significa capital e capitalismo.

Porque esta coisa do capital, do capitalismo e do capitalista não provoca unicamente turbulência na minha mesa do café, desde o homem das cavernas, do homem pré-histórico aos nossos nebulosos dias o conceito tem navegado de modo truculento, turbulento, e a sua evolução tem-se processado de modo assaz complexo, contudo em contrapartida é hoje um conceito claro para toda a gente muito embora nada pacifico e de síntese pouco consensual por pouco conhecida e demasiado recusada ou ignorada.

Digamos que a palavra ou concepção andou de boca em boca sempre conotativamente ligada a situações de poder, de capacidade, de privilégio, permitindo ascensão ou elevada posição e inerentes benefícios. Deste modo a função exercida assentava sobre situação de capital importância no meio, ou na sociedade em que se movimentasse, conferindo a quem dela fruísse dividendos, benefícios, ascendência, vantagens ou favores tal qual hoje uma pessoa ou empresa se detiver capital ou a maioria do capital ou mesmo somente um capital considerável, uma posição, uma quota em determinado património, financeiro, imobiliário, ou qualquer outro meramente físico. (hoje tb é reconhecido e atribuído valor à propriedade intelectual).
O sortudo de posse duma cota destas poderá capitalizar um capital de esperança considerável, pôr e dispor, dar ordens, fazer-se obedecer, investir, empreender, ordenar, fazer. Assim ascenderam a posições elevadas D. Afonso Henriques por exemplo, que teve um papel capital na fundação do reino de Portugal cuja primeira capital como sabemos foi a cidade de Guimarães, por ser dali que emanavam as ordens, por ali estar sedeado o poder, o passado, o presente e o futuro. Devido a isso muito antes de haver dinheiro muitas cidades adquiriram um estatuto de capital importância histórica, acontecendo que mais tarde se tornaram capitais de reinos ou de nações, tendo-se algumas transformado em capitais de zonas económicas como por exemplo a City de Londres, cumulativamente capital do Reino Unido, da Grande Bretanha e de Inglaterra.

Interessa sobretudo relevar o facto de a palavra capital ter igualmente percorrido ao longo dos séculos um caminho ligado ao poder, religioso, politico, militar e económico, o que acontece desde os tempos remotos da caça e recolecção, das trocas directas e da rota da seda, do nomadismo, tendo ganho força com o sedentarismo e o aparecimento da escrita, a evolução do conhecimento, o desenvolvimento da cultura, o aparecimento da moeda, de tal modo que antes dela, moeda, já existia todavia quem beneficiasse de um capital de crédito, isto é alguém em cuja palavra se podia acreditar. Esta confiança ou crédito eram honras obtidas em redes de organizações civis pela confiança compartilhada entre as pessoas, era fruto de sua própria interacção social, do seu comportamento e atitudes. Assim por exemplo nasceu na história a história de D. Egas Moniz (de Riba Douro), de cognome o Aio (1080-1146) ** Atitude nobre a deste Egas Moniz, por ser a verdade uma particularidade hoje em dia muito depreciada, dado que os nossos políticos como sabeis dizem uma coisa num dia outra no outro, afirmando uma coisa e simultaneamente o seu contrário, desbaratando irremediavelmente algum capital de crédito de que porventura alguma vez tivessem beneficiado, ponto de honra capital a que não dão o menor valor mas que D. Egas defendeu e garantiu, como deveis saber, com o pescoço. Continua porém cousa de importância capital nos nossos dias.

É portanto capital que honra, virtude, verdade, mérito, responsabilidade e competência voltem à nossa ideia e práxis políticas ou estaremos mais condenados que réu forçado a submeter-se à pena capital. Temos portanto que lançar mão do capital de honra e do sonante, do cabedal, da narda, sendo primordial e de capital importância para o nosso desempenho e vivência, sobretudo se se pretende ou sendo-se líder, ou empreendedor, já que paulatinamente e ao longo de séculos, senão milénios, quem passou a liderar pessoas e moeda, investimentos, foi a vanguarda que dispusesse destes meios e que concomitantemente passou a ser designada por capitalista pois reunia massa crítica e fazia uso e aplicação quer do capital pessoal quer do capital possuído e desta forma se foi forjando o método que, sobretudo a globalização iniciada com as descobertas portuguesas no séc. XV tornou modo, regime, sistema, sistema que especialmente nos últimos séculos se disseminou ou espraiou global e generalizadamente por todo o mundo.

Podemos perguntar-nos sobre ou acerca desta difusão generalizada e quase monopolista que a história nos responderá; não aconteceu por milagre, aliás aconteceu ao serem espalhados p’lo mundo os vícios e os defeitos, e já agora para sermos coerentes e sinceros também as qualidades do próprio ser humano que o tinha gizado a ele, sistema capitalista, capital global, assente no capital, sonante, de poder, de pressão, de repressão, de medo, de violência, de vantagens e desvantagens, por elites, por vanguardas, quantas vezes bem-apessoadas de “cabedais” mas mal preparadas cultural e formalmente. No fundo o sistema limitou-se a acompanhar e reflectir o próprio homem, daí também a universalidade da sua aceitação, da preferência que lhe foi concedida e a facilidade de difusão verificada.

O homem é egoísta, o sistema também, o homem é avaro, o sistema também, o homem é ambicioso, sonhador, dominador, o sistema permite-lhe sonhar, o homem é um carrasco, o sistema pode sê-lo, o homem é um predador ? o sistema bem no-lo mostra e demonstra, o homem é perdulário, samaritano, ambicioso, caridoso, filantropo, o sistema também, no fundo o “homem” carrega uma série de peculiaridades que a mole humana assimilou como caracter, como personalidade, e entre os exemplos dessas peculiaridades encontramos a bondade e a nobreza mas também a cobiça, a soberba, a preguiça, o altruísmo, a cegueira, a estupidez, a perfídia, a prepotência e a avidez. No cristianismo, os pecados capitais são aqueles que são o princípio (a cabeça) de outros, sendo eles a luxúria, a gula, a preguiça, a avareza, a ira, a inveja e a vaidade. Aceitarão que se puxasse pela cabeça certamente arranjaria mais uma ou duas dúzias de adjectivos deste jaez.
        E não há nem houve outros sistemas ? Claro que houve, há e haverá sistemas diferentes, opostos, antagónicos, contudo o capitalismo foi-se sobrepondo naturalmente a uns e tem conseguido sobreviver a outros. O próprio capitalismo não é todo ele igual, tem nuances, vertentes, pode ser social democrata, social cristão, apelidar-se de socialismo democrático, soluções que vingaram sobretudo no norte e centro da Europa e na américa do norte e algumas delas muito invejadas, ou ser um regime democrático musculado, autoritário eficiente e rico como em Singapura, ou disfuncional, pobre e desigual como em Portugal. Como oposição pudémos observar a URSS, uma experiência de comunismo ou socialismo duro falhada e que degenerou no capitalismo selvagem que agora grassa, temos ainda o exemplo de Cuba e de outra economia centralizada, da Coreia do Norte, do Vietnam, de mais dois ou três sem grande significado como poderá ser a Argélia, Angola, a Venezuela, sistemas que não parecem vir a perpetuar-se ou a agradar a uma maioria. Propositadamente deixei para o fim a China comunista a qual para não soçobrar como a sua congénere URSS, abraçou o capitalismo dando origem à expressão “um país dois sistemas”, direcção centralizada de cariz comunista, beneficiando simultãneamente das vantagens do centralismo na planificação e das inerentes ao funcionamento duma economia nitidamente capitalista.
     Basta que nos lembremos nem tão pouco a democracia clássica grega ter considerado cidadãos os escravos para imaginarmos a elasticidade ou plasticidade do conceito de democracia… Karl Marx na sua teoria, a chamada doutrina marxista, explica como o investimento capitalista na força de trabalho resulta na apropriação da mais-valia desse trabalho. “O Capital” (“Das Kapital”, em alemão) o livro de Karl Marx, pormenoriza todo o modo de apropriação usado no sistema capitalista. Infelizmente Marx é pouco lido entre nós, mesmo entre as pessoas ditas de esquerda que aliás na sua grande maioria desconhecem ser esta obra, dedicada à crítica da economia política, a primeira de uma trilogia do marxismo de que Marx só conseguiu acabar o primeiro volume enquanto vivo. Os dois outros volumes foram posteriormente editados pelo colaborador e amigo Friedrich Engels.

Significa tudo isto ser o capitalismo o melhor sistema ? Não foi isso que disse ou pretendi. Deixarei para vossa apreciação, ao sabor do vosso desejo. Essa escolha ficará à vontade de cada um dos leitores. Limitei-me a aflorar coloquial e historicamente alguns factos que a história regista e são verdadeiros. A expansão generalizada e global do capitalismo é uma realidade, como a escravatura o foi, como a exploração do homem pelo homem o é e foi desde os tempos mais remotos e pré-históricos aos nossos dias quaisquer que sejam os regimes que vigorem ou vigorassem. A avidez é inerente ao homem, os excessos por ela e por ele provocados que a história regista são igual e lamentavelmente uma triste realidade. 


* O Capital - Tomo I - Karl Marx, 364 páginas, Edições  Avante, Lisboa 1990.

* O capital no século XXI, Thomas Piketty, 912 Páginas Edição Temas e Debates, Lisboa 2014.




terça-feira, 13 de dezembro de 2016

405 - SINES – CAIA em segunda classe ida e volta sff


Reza a nossa história que, quando Dom João II subiu ao trono, cerca de 1481, se ter queixado de seu pai pois este só lhe deixara as estradas do reino, as estradas de Portugal. De um modo exagerado terá dito que praticamente todo o país estava nas mãos das classes nobres, de um modo actual diremos até as estradas estarem nas mãos de parcerias público-privadas, isto é nas mãos da pouco nobre banca. Dom João II tudo fez para tornar mais forte e incontestada a sua autoridade de rei, nós por cá aguentamos como muito bem profetizou há anos Fernando Ulrich.

Actualmente vai por aí grande alarido nos jornais em especial nos alentejanos, relatando a previsão do governo, não passa ainda de uma previsão mas o berreiro é tamanho que mais parece o anúncio da inauguração da obra, gritaria relacionada com a intenção, repito para os mais distraídos, a intenção de avançar com a construção da ligação ferroviária entre o porto de Sines e Caia na fronteira espanhola, perto de Elvas.

Segundo o ministro respectivo, que nem sei quem seja pois desabituei-me de perder tempo com eles; -“este projecto irá dar competitividade ao porto de Sines “. O que o ministro não diz, e os jornais não perguntam nem alardeiam nem esclarecem, é que o porto de Sines já não é nosso, aliás já pouca coisa o será, há muitos anos que um grande operador de contentores de Singapura, uma empresa de dimensão mundial tomou conta do dito cujo.

O itinerário deste percurso será, mais uma vez tiro as palavras da boca do ministro; -“de importância estratégica para Portugal, pois potencia o tráfego e blá blá blá rebéubéu pardais ao ninho” pois é ouvir todas as Tvs e as rádios ou ler os jornais que todos papagueiam a mesma ladainha e não vos vou massar ou maçar ou massacrar com a lengalenga do novo. * Nem sei até que ponto a teimosia na construção do contestadíssimo terminal de contentores do Barreiro tem que ver com a perda de Sines mas vou estar atento.

O que o ministro não disse, nem a comunicação social em geral, é que há alguns anos, quando da assinatura do contrato de concessão Portugal se comprometera a realizar essa ligação ferroviária dentro de um prazo curto, e definido, prazo esse que se fez velho e foi sucessiva e progressivamente adiado e ultrapassado. Contudo, todavia mas porém, os singapuros, cujos olhos estavam a ficar redondos de nada verem de promessas cumpridas, assentaram os pés na parede e prepararam-se para coice duro, que é como quem diz ameaçaram levar Portugal aos tribunais internacionais competentes e exigir deste exaurido país uma indemnização compensatória de perdas e danos na ordem dos triliões, o que finalmente fez acordar o governo de serviço que outro remédio não teve que ajoelhar-se e ir ao castigo.

 Agora prometem-nos tudo e mais alguma coisa, especialmente potencialidades, mas também plataformas, melhoria de capacidades, competitividade internacional, alargamento da influência do Alentejo, vantagens das acessibilidades internacionais, organização em rede, corredores azuis, lógicas de articulação e complementaridade, logística big super plus, economias e eficiências de escala e conjugadas ou o contrário… Aldrabões, não passam de uns aldrabões e vendedores de banha da cobra a quem os singapuros finalmente meteram na ordem e a quem chegou repentinamente a pressa, como quem abala de calças na mão e, na aflição para não se esborretearem todos traçam linhas a torto e a direito, por cima de Évora e tudo que o progresso vem aí ao virar da esquina e não se pode pará-lo nem perdê-lo muito menos encalhar em pequenos pormenores ou ligeiras minudências.

Recordo-vos que o projecto data de 2003 e fora acordado na XIX Cimeira Ibérica da Figueira da Foz, tendo sido reafirmado nas subsequentes cimeiras mas nunca levado a sério e muito menos cumprido, embora fizesse parte do “Eixo Prioritário Nº 16, Sines, Algeciras, Madrid, Paris” eixo primordial da Rede Transeuropeia de Transportes do Corredor Atlântico. O escarcéu levantando em relação ao que vai agora ser finalmente cumprido não é uma ideia nova, é aliás bem velha e o planeado vai finalmente cumprir-se visto termos levado um valente chuto no cu, não tivesse sido assim e teria ficado para as calendas como ficou e vai ficar por muitos anos o celebérrimo TGV.

É óbvia a falta de transparência com que tudo é feito e tratado na nossa peculiar democracia, democracia onde tudo corre mal e os ricos ficam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres, onde os governantes clamam por imigrantes e emigrantes como clamam por mais nascimentos quando afinal se deve à sua proverbial estupidez o simples e visível facto de passados quarenta anos estamos literalmente pior que à data do bambúrrio do 25 de Abril. A prova disso é que de superavit passámos a dever muito, devemos demais, temos menos vergonha e mais burlas, menos futuro mas mais indiferença, menos moral e mais egoísmo, menos ética e mais ignorância, menos dinheiro e mais pobreza, menos PIB e mais miséria, menos emprego e mais arbitrariedade, menos esperança mais prepotência, menos riqueza e mais oportunismo, menos gente mas mais estupidez, menos oportunidades e mais oportunistas, menos empresas estatais mas mais corrupção, menos lucros e mais roubos, menos país e menos dignidade, mais divida e mais desigualdade.

Decididamente esta democracia não só está a matar-nos como nos fica caríssima e, quer o aceitemos quer não, é um dos grandes fiascos das gentes portuguesas, um bluff, um engano, um falhanço espectacular, um caso grave de incompetência e irresponsabilidade, uma autêntica mistificação, vivemos numa simultãneamente completa ausência e necessidade de equidade, será caso para perguntar se o fascista seria mesmo o outro…