segunda-feira, 4 de setembro de 2017

457 - CARROSSEL MÁGICO * by Maria Luísa Baião

             

Para que o dia fosse um daqueles dias de encantar só faltava mesmo aquela coisa que logo pela manhã vi no ar. Um homem, sim, um homem passeando um carrossel, que com uma guita segurava pela mão. Girafas, zebras, cavalos, grilos, golfinhos, serpentes, peixes, tantos peixes que o dia num repente ficou mais parecido com um aquário. Tudo girando em montão, tudo tomando asas tal como um balão, fugidio caso lhe largassem a guita.

Eu marchava pela praça vogando ao sabor dos pensamentos quando esbarrou comigo um elefante azul e orelhudo. Tamanhas orelhas fizeram-me recordar uma entrevista dada vai já talvez para três anos a José Faustino, da Rádio Diana. Engraçado que, nessa entrevista, lembro-o tão bem, eu era só orelhas e cuidados. Engraçado como não aproveitei as oportunidades que cada pergunta encerrava. Senti-me empurrada, parecendo que alguém ou algo queria arrancar de mim, ou arrancar-me dali, tal foi a sensação quando uma mastodôntica baleia branca, perseguida por uma orca malhada, me atirou passeio fora. Então pouco à vontade na política, então pouco à vontade no protagonismo obtido com a vitória numa freguesia tão difícil, remeti-me, qual caracol, para dentro de uma concha protectora, o que hoje considero ter sido exagerado.

Olha ! Lá vai uma andorinha ! Será primavera já ? Sabem que se diz serem elas as mensageiras de Deus ?

Que me perdoe o José Faustino se aquela entrevista lhe não rendeu o esperado, temi que procurasse sangue e burilei as respostas tanto quanto pude. Tanto que, ouvida hoje, me pareceria não ser eu ali sentada frente a ele e àquele microfone.

Céus! Isto hoje está impossível ! vejam-me só quantos cavalos-marinhos aqui na praça !

Mas creio não ter estado mal apesar de tudo e penso que, melhor que eu, os governos tidos ao longo desse período responderam a muitas das interrogações (provocações?) que o José Faustino me atirou acima e que, qual nora esforçada, tentava arrancar de mim com uma fateixa.

Essa zebra deve ter pensado que a não vejo, ela que se cuide, já por aí vi tigres de Benguela, op ! Mais um tropeção bolas ! Que mar encapelado, só mesmo aos leões-marinhos apetece brincar ! Larguem-me os pés seus malandros, por favor !

Uma questão teimava andar à volta da diferença entre ser de esquerda ou de direita, fugi-lhe um pouco à resposta claro. Um leão da savana olhou-me intimidativo, parece o José Faustino conduzindo o interrogatório. Hoje não se é de esquerda nem de direita foi o que pensei para comigo, é a verdade, e em concomitância lhe respondi furtando-me a uma resposta directa.

Olha que lindo cavalo branco ! E que crina bem cuidada !

Hoje não teria fugido a essa pergunta como então fiz, ter-lhe-ia dito frontalmente que não me inscrevo nessas marcas, que estou acima delas, e sou pelas pessoas, pelo social, pelo progresso, pelo bem-estar, pela qualidade de vida e que, se alguma diferença existe entre forças políticas essa diferença está na razão e no fazer, exacto, especialmente no fazer.

Um pinguim avança para mim aos tropeções, só mesmo a ele achamos graça se aos tropeções.

Portugal, Évora, o país, a região, precisam de acção, precisam que por eles se faça alguma coisa, tudo. Lá aparecerá quem faça, como apareceu quem não tivesse feito.

Que lindos estes peixes, confundem-me com uma das deles por me verem soltando bolhinhas da boca !

Parecemos todas, ou somos todas (os) treinadores de bancada. Não há nenhuma, nenhuma de nós que não saiba o que deve ser feito para que isto se endireite. Pois façamos. É só fazer. Não é tão difícil como parecerá à primeira vista, é só fazer, é só ter vontade, é só compreender, é só arranjar motivação, de sobra, para os amigos também. E fazer. E sorrir. E dar despacho. E procurar a resposta. E achar a solução. E voltar a sorrir, satisfeita com mais um problema resolvido, um obstáculo ultrapassado. É copiar o exemplo. É dar o exemplo. É exigir o exemplo. 

Crocodilos do pântano levitam por cima de mim, corri para o homem da guita, quis comprar-lhe um bilhete para o carrossel, não mo negou, apenas me impediu por ser adulta. Mas foi simpático, atirou-me um sorriso de tamanho paquidérmico, com tal força que me desarmou. Mas não me quebrou o sonho, nem me atirou um não à primeira, disse-me que sim, mas…

             - “gostaria muito, teria até muito prazer nisso, seria mesmo boa publicidade para mim, mas a senhora veja, é já crescida, os animais não aguentam”.

Retruquei-lhe com a lábia mais sabida que tinha à mão, disparei-lhe um dos meus sorrisos/gargalhada, uma palmada nas costas, como fazem os homens, bebemos uma bejeca e ali mesmo lhe paguei todos os balões do carrossel, que distribui pelas crianças, correndo mais doidas que eu com aquele zoo inesperado.

E foi belo, enquanto as cervejolas frescas gorgolejavam goela abaixo era ver a miudagem circulando, contornando árvores e nuvens, subindo e descendo, até o contentamento os fazer voar céleres direitinhos a casa. Que cheiro a bolacha americana ! Onde ? Que desejo de matar saudades !

Os vendedores de balões nunca me desiludiram. Desculpa lá Faustino se nesse dia te troquei as voltas, é que não estava à vontade com uma joaninha avoa avoa que me tinha calhado em sorte. Abraços.


* Escrito a uma quinta-feira, ‎dia 10‎ de ‎Novembro‎ de ‎2005, ‏‎pelas 22:44:02h e publicado por esses dias no " Diário do Sul ", coluna " Kota de Mulher "

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

456 - VIEIRA E A SOPA DE PEDRA DE ALMEIRIM



               Não posso deixar de dar conta do prazer encontrado na leitura dos sermões do padre António Vieira, nado em Lisboa nos idos de Fevereiro do ano da graça de 1608, à Rua dos Cónegos, o que terá parecido um prenúncio a muita gente e não somente a mim que, através do conhecimento da sua biografia, e bibliografia, me surpreendi com o que já há muito sabia mas cuja espectacular dimensão nunca apreendera de imediato.

O padre António Vieira, aproveitando a então recente globalização iniciada pelos portugueses, os quais havia pouco mais de cem anos tinham dado novos mundos ao mundo, tornou-se um globetrotter de nos fazer inveja, numa época em que nem navios paquetes, nem cruzeiros, nem aviões e nem sequer balões dos que dariam a volta ao mundo em oitenta dias ou a tal Passarola do confrade Bartolomeu de Gusmão, que nasceria somente na década em que Vieira se finaria.

É notável e extraordinário quanto este jesuíta palmilhou, digo viajou, numa época em que só cascas de nozes, muita fé, um bom estômago e espírito de aventura permitiam tais viagens, mas a verdade é que pelo seu percurso o sabemos num ano em Lisboa, n’outro deles no Brasil, designadamente na Baía, novamente em Lisboa, depois Paris, Haia e Roma para daí voltar ao Brasil e retornar ao reino, à metrópole, donde partirá de novo p’ra terras de Santa Cruz, para no Maranhão vir a ser preso, expulso e recambiado para Lisboa devido ao facto de ser jesuíta.

Perseguido também em Portugal refugia-se no Porto e em Coimbra, esclareça-se que a Companhia de Jesus, ganhara grande ascendência no país e não só, digamos que a todos os níveis, o que acontecera paulatina e principalmente após a nossa independência do domínio filipino em 1640. Esta peculiar Companhia de Jesus abarcara claramente o domínio das influências na Corte, punha e dispunha nas Missões nas Américas e no oriente, dava cartas no ensino, era a vanguarda da cultura intelectual da época, o que como ainda hoje aconteceria despertou a desconfiança de governos e despoletou rivalidades n’outras ordens religiosas e no clero em geral. As condições criadas viriam a acicatar a antipatia pombalina para com os jesuítas, o resto da história já a sabemos, levou à sua expulsão do reino, sua dela, companhia. 

Foi em Coimbra que veio a ser julgado pela edição do livro “Esperanças de Portugal, Quinto Império do Mundo “ o que lhe valeu ser privado do direito de pregar, oralmente ou por escrito, e para sempre. Como podemos ver calar o pio é moda vinda do antigamente. Quanto a mim reconheço ter finalmente compreendido donde veio o Quinto Império a que aludia Fernando Pessoa, e não deixo de vos fazer notar que já em 1665, Portugal, o quinto império do mundo, não passaria de esperanças, aliás coarctadas, pelo que acrescentarei de minha lavra a certeza de que vivemos de esperanças há séculos…

“Quando é alto e régio o pensamento,
súbdita, a frase o busca
                e o escravo ritmo o serve “  *

Habituado a viajar e às representações diplomáticas o padre António Vieira faz-se deslocar a Roma como quem vai ali ao Samouco, a fim de pedir ao Papa Clemente X a absolvição da pena injusta a que fora condenado e a sua reabilitação perante a inquisição portuguesa, o que milagrosamente consegue, vencer o santo Oficio. Entretanto em Roma conhecera a Rainha Cristina, da Suécia, que o fez seu pregador e o convidou a ser seu confessor, convite que Vieira humildemente declina. Regressado a Lisboa vindo de Roma cedo parte novamente para o Brasil cuja costa cabotou ao longo da sua longa vida, pregando os seus sermões, tendo vindo a falecer na Baía aos 18 de Julho de 1697 com 87 anos.

Não posso deixar de frisar quão me surpreendeu a vida deste homem, culto e viajado numa época em que quaisquer destas qualidades eram difíceis de encontrar em alguém. Encontro-me lendo, com prazer, os seus “Sermões de Roma e Outros Textos” que as mais de quinhentas páginas desta sua obra encerram. Como devem calcular são os sermões de um padre mas não de qualquer padre, nem tão pouco de quaisquer sermões, são os sermões de Vieira, do padre António Vieira que, ao longo dos séculos se ergueram a um púlpito inimaginável e impressionante pela qualidade da sua oratória, da sua gramática, da sua retórica e da sua lógica.

Ao invés do tal livro de WHM que tanta celeuma causou pela barbaridade do conteúdo, este sim, este livro do padre António Vieira deveria ser de leitura obrigatória num qualquer programa escolar que se preze pois, ao contrário de “Eurico o Presbítero” este não obriga a ânsias nem vómitos, coisa que leva muito boa gente a nunca mais pegar num livro o resto da vida, ficando a abominar Alexandre Herculano. Pelo contrário os sermões escritos por este padre num português de qualidade impar, ajudam-nos a aperfeiçoar a linguagem e a argumentar e contra-argumentar, isto é a expor e a defender o pensamento e as ideias, os nossos pontos de vista, ajudando-nos a ordenar as ideias, a pensar.

Certamente já vos tereis interrogado acerca da razão pela qual vos trouxe hoje esta arenga e a verdade é que, não o parecendo tem porém a ver com a célebre “sopa de pedra” de Almeirim. A net distribuiu fartamente um anúncio que me sobressaltara ao vê-lo na TV, “Festival da Sopa da Pedra e do Petisco 2017” tal e qual, e todos parecem ter ficado satisfeitos com a obra parida. Tive oportunidade, na net, de lhes chamar a atenção para tão clamoroso erro pois na verdade os organizadores deveriam ter escrito “Festival da Sopa DE Pedra e do Petisco 2017” mas debalde e, curiosamente ia sendo incinerado numa fogueira.

É surpreendente que dos organizadores do certame à gráfica que imprimiu os folhetos, acabando na TV que passou os anúncios ninguém tenha dado por tão crasso erro, ou pelo menos tenha sido assaltado pela dúvida e puxado de uma gramática ou dicionário, ou simplesmente tirado a dúvida junto de alguém mais conhecedor da nossa língua. Antigamente gráficas e redacções acoitavam um designado "revisor" que evitava estes desastres, agora só se pensa em reduzir pessoal e poupar... 

Veio-me então à memória e a propósito uma piada que há poucos dias iniciou a corrida nas redes sociais:

- Estás mais gordo, devias ir para o ginásio.
- Eh pá ! E tu devias ir para a biblioteca.
- Não percebi.
- Lá está…

É tudo por agora, e se forem a Almeirim comam uma saborosa sopa de pedra, sopa delas, das boas e ignaras gentes de Almeirim, e não da pedra, de qualquer pedra, preciosa ou não.


             * Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

455 - A CUNHA * by Maria Luísa Baião ......................


Quando no início da década de oitenta, na companhia de um casal amigo, visitei pela primeira vez Paris, nunca julguei que uma cidade me deslumbrasse tanto. A cada esquina, em cada rua, Paris dava jus ao nome de cidade luz. Mesmo que muitos o não queiram ou aceitem, é ali o umbigo do mundo. Muitas cidades visitara e visitei depois, nenhuma me causou uma impressão idêntica à dessa cidade linda, na sua pluralidade de surpresas e contrastes.

Em Paris está (in) escrita a história do mundo, nas suas gentes, monumentos, museus e, mais difícil de observar, como odor sentido no ar, a ambiência constante que cada cenário invoca em nós. Guardo religiosamente uma fotografia de um facto aparentemente sem importância, hoje talvez submerso no pulsar da cidade, que mais não é que a memória de um mural gigante, pintado por artista ou artistas indígenas, cônscios do palpitar dessa capital cultural do mundo, a sua cidade. Na faceta lateral de um prédio enorme, posta a descoberto pela demolição do seu vizinho do lado por mor da ampliação de uma praça ajardinada, um mural intitulado “ Il’s on fait le XX siécle “.

Com 30 x 30m, ou mais, surgiam-nos em catadupa as relevantes figuras que nesse século e neste mundo, nele tinham tido alguma preponderância. Cientistas, literatos, astronautas, nobéis, heróis, políticos e gente simples que por feitos extraordinários se distinguira. Não me acudiu à memória qualquer um que tivesse sido esquecido.

Representando Portugal, lá estava Salazar, como Franco, Mussolini, Hitler e Estaline. Não estava Gorbatchov, não chegara ainda o seu tempo, e, se desde então até hoje eu tivesse que acrescentar algum dos nossos, não esqueceria Saramago e Bagão Félix, um comunista excelso, coerente e lúcido, ao lado de um cristão-democrata ilustre, eminente e humanista.

Os franceses celebram o mundo, altruístas, talvez porque realizados, sem complexos etnocêntricos ou patrioteiros, cientes que não será por engrandecerem outros que lhes calhará nódoa na lapela. Nós por cá, denegrimo-nos com um fervor maior que Nelson na célebre batalha de Trafalgar, que lhe deu a vitória mas viria a custar a vida.

Caem ministros, zangam-se ex´s e comadres por causa de cunhas, imaginem, por causa de uma cunha ! Coisa tão banalizada entre nós, com séculos de prática corrente e que um dos ministros, pelo menos ao nível do seu ministério, se preparava para, timidamente, generalizar. Era um bom princípio, partindo dessa generalização meio legalizada, outros, mais corajosos, coerentes e necessitados dessa prática ancestral deveriam aproveitar a oportunidade para institucionalizar a cunha, legalizá-la, democratizá-la, popularizá-la, regulamentá-la, já que, pese embora a sua ancestralidade, não é ainda a Magna Carta.

E, quando por toda a Europa comunitária se luta pela individualidade e especificidade cultural de cada nação, que outra coisa, que não a cunha, nos identificaria mais face a outros povos e culturas?

Um ministro pretendeu brindar outro sem que lho tivessem pedido? Mas que acção fará mais feliz um português que o privilégio de distribuir cunhas à esquerda e à direita mesmo que lhas não peçam ? E que admiração se um outro ou o outro, pediu para a filha uma cunha ? Mas não vive o país todo à espera disso ? Quantas mães de família não rememoram pelo menos uma vez na vida o seu cardápio de conhecimentos e influências ? Não se dirigem ao tio, que é sobrinho do filho de, que por sua vez é amicíssimo de fulano que trabalha com beltrano, o tal que é superior hierárquico de sicrano, precisamente o filantropo a quem a cunha deverá ser finalmente endereçada, devidamente embalada, não esquecendo a garrafinha de Visqui pelo Natal, ou o borrego pela Páscoa ?

Que coisa temos mais genuinamente nossa ? Como resolveríamos nós os nossos excessos burocráticos sem esta maravilha que é a cunha ? Já produziu a física por acaso algo mais simples e eficiente que este mero plano inclinado ? Esta alavanca que move o mundo ? Claro que não ! Haja portanto coragem e coerência. 
    


* Escrita segunda-feira, ‎28‎ de ‎Novembro‎ de ‎2005, ‏‎17:07:22 – publicada no Diário do Sul em … (?)

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

454 - A HERANÇA INESPERADA * by Luísa Baião...


Conhecera-o há mais de vinte anos quando, duas vezes por semana era destacada em serviço para o Centro de Saúde Mental ali aos Canaviais. Ele há muito lá vivia, qualquer perturbação que não recordo nem me lembro de alguém conhecer para ali o atirara, como a tantos outros e outras. Cada um constituía uma personalidade muito própria, muito marcada, com a qual era necessário saber lidar particularmente e por vezes parecia-me só à hora das refeições concertarem ideias. Outras vezes nem nessa ocasião o conseguiam.
  
 Tratei-o e conheci-o durante bastante tempo, não era violento, bem pelo contrário, atencioso por vezes em excesso. Alimentava dois sonhos, que alguém lhe passasse um cheque em branco, coisa que pedia a qualquer um, o outro o de um dia casar comigo, de quem gostava muito.
  
Claro que segura e educadamente sempre lhe fui refreando as ilusões, e penso até que sem o ter alguma vez magoado. Era casada e pronto, ele tinha que ter isso em atenção e esquecer-me, e esqueceu. Esquecia por esse dia, porque no dia seguinte ou na semana seguinte voltava à carga. E eu torneava-lhe a questão sempre do mesmo modo. Nunca houve qualquer problema entre nós, era inofensivo estava medicado e as manias foram posteriormente evoluindo para que lhe oferecesse bonés, que adorava, porta-chaves, bandeiras ou camisolas, fossem de que partido ou clube fossem, coisas que me sobravam e com as quais exultava a tal ponto que se foi esquecendo do casamento, e eu também claro, com tantos doentes para tratar, cada um com a sua singularidade, excentricidade ou fantasia, foi coisa natural.
  
Estive posteriormente muitos anos sem o ver. A minha “comissão” no Centro de Saúde Mental terminara, ou fui substituída, não recordo nem interessa à história verídica, de hoje. Somente volvidos mais de dez ou quinze anos o voltei a encontrar. Uma visita a um Lar de Recolhimento onde parentes meus, gente afastada, estica os dias como tantos outros, e, entre esses muitos outros, ele. Mais velho, mais abatido, mais doente, o que não obstou a que de imediato me tivesse reconhecido, manifestado uma alegria imensa e lembrado as prendas que eu costumava levar-lhe. Foi o reinício de uma série de pedidos que mensalmente lhe satisfiz e nem me custaram praticamente nada. Talvez o mais caro tenha sido um rádio portátil, adquirido no mercado das terças-feiras por uns míseros cinco euros e que mais que isso me veio posteriormente a custar em pilhas, já que invariavelmente se esquecia de o desligar.

 Vi-o envelhecer a olhos vistos e muito rapidamente apesar de bem cuidado e tratado. Se a pessoa não quer, quer parecer-me mesmo que a velhice se acelera, tomando por vezes os contornos de um estado galopante. Devido a razões pessoais estive durante três ou quatro meses sem visitar esse Lar. Quando por fim retomei as visitas fui recebida à chegada com excessiva e inusitada reverência e alguém, muito contrito, lá me disse balbuciante que esse meu amigo havia falecido há umas semanas. Acrescentou pormenores sobre os seus derradeiros dias e horas, tendo-me informado que num grande saco de plástico preto ficara para mim algo que ele fizera questão de apartar antes de se finar, com pedido expresso para que o saco e respectivo conteúdo me viessem a ser entregues. Ali estava o saco, ali estava eu, guardei-o na mala do carro e só em casa o abri. Lá se achavam o rádio, um relógio barato, pilhas consumidas, bonés, camisolas e praticamente todas as lembranças que lhe tinha oferecido desde a primeira hora. No meio de tudo isto uma carta, num muito branco envelope, com o meu nome no exterior, escrito por alguém que não ele pois sabia há muito ter perdido a faculdade da escrita e quase a da fala, embora esta tenha sido recuperada com alguma facilidade desde os seus primeiros tempos de internamento em Évora. Curiosa abri o envelope, dentro dele talvez o que todos os psicólogos e psiquiatras por quem passou ao longo dos anos, e muitos, que o acompanharam, tenham desejado saber. Datada de 1976, escrita em caligrafia muito certinha e bonita, sem que contudo fizesse a mínima menção ao nome de quem quer que fosse, uma carta de amor já amarelada pelo tempo**, talvez nunca enviada mas dirigida a alguém que certamente muito amara e, cujo amor, a julgar pelo conteúdo, nunca fora correspondido.
  
Hoje sei, não só por filmes e romances, como o amor pode ser fulminante ou consumir uma vida inteira. Que mulher teria sido aquela tão amada assim ? Quem teria sido ela ?

Qual a história dele que, no fundo não terá sido nem mais nem menos que um complemento ou prolongamento da vida que vos acabo de contar e cuja parte sei, porque a conheci, tão atribulada, curta e dolorosa foi. Por razões que entenderão não transcreverei essa carta, mas garanto-vos que embora escrita por uma mão masculina, nada fica a dever em magnificência à bela prosa de Florbela Espanca.

O amor, qual potestade, geralmente constrói, mas também pode destruir vidas. Persignei-me e, perturbada, desejei sinceramente paz à sua alma. 

* Nota: Provavelmente este texto foi escrito numa ‎terça-feira, ‎3‎ de ‎Outubro‎ de ‎2006, ‏‎pelas 11:01:36 h

** (não para mim pois em 1976 nem sonhava vir a fazer serviço nesse Centro de Saúde Mental).


quarta-feira, 16 de agosto de 2017

453 - Ó ROSINHA OLHA A SNRa. MARQUESA !!!!







Há uns dias para responder com exactidão a questão que se me deparara e não querendo desiludir um amigo, embrenhei-me nos cartapácios de história tendo a dado momento sido casual e inadvertidamente confrontado com o deslumbramento de Leonor. Expectante estaquei, fiquei ali parado, seduzido, fascinado, encantado, na realidade pasmado, imaginando-me também eu passível de ser acometido e tomado por tais alumbramentos, êxtases, entregas e paixões.

Certamente outros que não os que agora me prendem, seduzem ou conquistam, a variedade de escolhas à disposição seria bem menor, como menor seria o leque de oportunidades ou possibilidades de realização, sobretudo sendo-se mulher (não estou a ser machista ó Mariazinha marquesa de Índigo), como teria sido o caso de Teresa de Ávila (1515 – 1582), a propósito e na sequência de cuja consulta vim a lembrar-me de uma outra mulher de peso, ou contrapeso, Leonor d’Almeida, porque nem crente nem devota, ao invés de Teresa de Ávila, mais conhecida entre nós como Santa Teresa de Jesus, nascida Teresa Sánchez de Cepeda y Ahumada, carmelita que viveu o auge do misticismo católico, o mesmo misticismo que mais tarde pesaria à nossa forçada penitente, a boa Leonor de Almeida, de todos conhecida por Marquesa de Alorna, cuja vida daria um filme, um livro já deu, a Rosinha adorará lê-lo de certezinha seja ou não escrito pela Stilwell. Este a que me refiro devemos agradecê-lo à escritora Maria João Lopo de Carvalho que em nada fica atrás da Isabel a não ser no abecedário e no arquivo.

Maria João Lopo de Carvalho trabalhou magistralmente o romantismo e a penitência de que se revestiu a vida da nossa boa D. Leonor de Almeida, Marquesa de Alorna, que “escrevia poemas à secreta luz da lua enquanto ouvia o espaço incerto das raízes do seu tempo sentindo em si o motim e depois o desconcerto”,* ou seja, uma avalanche de alumbramentos, êxtases, entregas e paixões, enfim, de emoções insatisfeitas cujo sentir plasmou na poesia, mau grado as condições em que escrevia, e sem querer fiz poesia, o que só prova que a respeito de inspiração também eu terei os meus dias…

Teresa de Ávila começou por ser uma noviça carmelita, católica, vindo a acabar os seus dias rodeada de misticismo tendo sido canonizada ainda no século XVI, o século em que viveu, e somente quarenta anos após a morte. Não estarão desligados da sua ascensão aos céus e na hierarquia católica os factos importantíssimos atribuídos à sua actuação durante a Contra Reforma, numa Castela ou Espanha doentiamente católica. Naturalmente foi nesse contexto que obtiveram protecção e divulgação as suas obras sobre a vida contemplativa através da oração mental, nesta época de caça às bruxas, íncubos e mafarricos somente alumbramentos, êxtases, entregas e paixões místicas eram aceites, fenómenos de que os seus leitores eram alvo ou se diziam possuídos. Não havendo cinema, na ausência de internet, faltando-lhes o Facebook, o Twitter e o Instagram que restava à populaça que não o misticismo ? Interessante notar que Miguel Cervantes e o tal D. Quixote de La Mancha viveram por esta época.

O cerne do pensamento místico de Santa Teresa era a ascensão da alma em quatro estágios. O primeiro - "oração mental" o segundo - "oração de silêncio" o terceiro - "devoção de união" e o quarto - "devoção do êxtase ou arrebatamento" Santa Teresa foi uma importante autora da oração mental e detém uma posição entre os autores da teologia mística única. Em todas as suas obras relata as suas próprias experiências e, ajudada por uma profunda perspicácia e capacidade analítica, explica-as de forma claríssima. A sua definição de "oração contemplativa" foi aproveitada pela Igreja Católica que a integrou no Catecismo: "Oração contemplativa, é nada mais que uma partilha íntima entre amigos; significa dedicarmo-nos frequentemente tempo para estar sozinhos ou com quem sabemos que nos ama". Escritas com fins didácticos, as suas obras encontram-se facilmente na literatura mística da Igreja Católica destinadas a difundir a fé e a devoção entre os crentes. Devido à sua actuação na luta desenvolvida pela Contra Reforma foi-lhe dada a oportunidade de reformar profundamente a Ordem Carmelita sendo considerada co-fundadora da nova Ordem dos Carmelitas Descalços. E quanto à nossa boa Leonor de Almeida, a nossa marquesinha de Alorna que podemos dizer ?   


Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre 1750-1839 foi uma nobre e poetisa portuguesa conhecida nos anais da poesia por "Alcipe". De sangue azul, era filha de D. João de Almeida Portugal, segundo marquês de Alorna e quinto conde de Assumar família perseguida pelo Marquês de Pombal sob acusação de parentesco aos Távoras. A família de Leonor de Almeida foi acusada do empréstimo duma espingarda a um dos conjurados e Leonor foi encerrada como prisioneira com a mãe e a irmã no convento de São Félix em Chelas, de 1758 a 1777, aos 8 anos de idade, tendo o seu infortúnio durado dezoito anos, dos 8 aos 27 anos. Leonor fora claramente malfadada ao nascer e teve além disso uma infância atribulada, os avós maternos executados barbaramente, o pai preso e encarcerado na Torre de Belém e no forte da Junqueira, todos devido a suspeitas de envolvimento no crime dos Távoras.

 Na morte de el-rei D. José, sua filha, e futura rainha D. Maria I, mandou finalmente libertar os prisioneiros do Estado. Durante esses dezoito anos de cativeiro Leonor não deixou contudo de receber uma educação esmerada e uma formação completíssima, além dos custos do cativeiro soube estudar e dedicar-se a trabalhos artísticos e literários, entre outras actividades que lhe são conhecidas sabe-se que Leonor se entregou à pintura e se dedicou à enfermagem, tendo trabalhado como cozinheira e organista do convento. Conhecia várias línguas, desenhava e pintava admiravelmente, possuía vasta instrução científica, e o seu carácter era apesar de tudo afável, amenizando com meiguice e candura as amarguras da mãe e de outros desditosos e desditosas. A audácia de ter afrontado a ira do Marquês de Pombal tornaram-na digna, considerada e respeitada.

Moralmente desgastada saiu do convento e da clausura somente aos vinte e sete anos, demasiado e psicologicamente afectada para que sua poesia pudesse ser um risonho passatempo, o que todavia não obstou a ter escrito quase toda a poesia na prisão Convento de Chelas. Apesar das circunstâncias deixou-nos um legado de composições poéticas interessantes, com uma expressão romântica, demonstrando uma superior e romântica sensibilidade, sobretudo se tivermos em conta as atribulações a que a vida conventual e de cativeiro a obrigaram. Duas mulheres que a história resguardou, uma por ter vivido à custa do misticismo católico, escrito uns livros de orações e um catecismo, e a outra por ter sofrido as agruras da clausura religiosa, publicado obras de mérito cientifico, poetisa de se lhe tirar o chapéu e não me admira ter sido sempre avessa a crenças a fé e a devoções, de crente ou devota Leonor nunca deu mostras. 

 A sua longa vida de nobre dama de corte e de poetisa foi todavia ricamente preenchida, e vivida, quer em Portugal quer no estrangeiro, era dama da Ordem da Cruz Estrelada, da Alemanha, valendo a pena ler com vagar o livro de Maria João Lopo de Carvalho e dar atenção à sua biografia e bibliografia. Leonor de Almeida contaria perto de noventa anos quando foi visitada pelo Marquês de Fronteira, acabara de chegar do estrangeiro e mal D. Maria II a soube entrada em Lisboa como prova de apreço concedeu-lhe de imediato a banda da ordem de Santa Isabel, e renovou-lhe os títulos de 6.ª condessa de Assumar e 4.ª marquesa de Alorna por decreto de 26 de Outubro de 1833.

Faleceu tão formosa e tão segura senhora a 11 de Outubro de 1839 no Palácio de Fronteira, propriedade do Marquês de Fronteira, aproveitando eu para vos confessar ter o último destes marqueses, D. Fernando de Mascarenhas* igualmente Conde da Torre, sido meu professor das cadeiras de Teoria da História, bom tipo, gordinho baixo e simpático mas que me deixou perplexo e em vacilante mais de uma hora, eu chegara atrasado à primeira aula, ficando em dúvida se seria um ou uma professora, tinha uma voz de falsete (não tem que ver com falsidade) e um cabelo encaracolado lindo e louro encimando rubicundas bochechas, inda que não fosse essa a razão pela qual lhe chamavam o Marquês Vermelho. Mas voltemos à nossa boa Marquesa de Alorna pois em mim não corre sangue azul nas veias, para vos dizer que faleceu vinte dias antes de completar 89 anos de vida, tendo demonstrado invulgar longevidade para essa época. Foi sepultada no dia seguinte em jazigo particular, no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, onde poderemos chorá-la. 

* Maria Teresa Horta – Poésis – Lisboa, D. Quixote, pág. 217