Em boa verdade nunca sei se devo
dizer algo ou ficar calado, salvo raras excepções acabo por ser preso por ter cão
ou preso por não ter. Tu tens o teu modo, a moda da boquinha de achegã com que
me calas, eu não tenho mais que receio das falas que possa dizer. Expostas estas razões espero que compreendas
porque não sinto confiança, temo até por vezes, avançar com conversa que te
possa aborrecer, aliás é mesmo tudo uma questão de confiança, senão vejamos;
Sempre
senti confiança em ti, e acreditei que a tinhas em mim, todavia, desconheço o
motivo porque, agora, nem conversa de facto, e até mesmo quando por telefone,
foges ou afastas a conversa sempre que ela toma determinado rumo, como falar-te
de amor. O facto de nem uma inocente bica tomar-mos, nem poder ver-te no teu
lugar de trabalho, tudo atitudes das quais resulta um afastamento completo de
ti e por ti provocado, são exemplos flagrantes do que afirmo. Aceito tal, mas
não compreendo.
Amor
significa sempre entrega, dar-se ao outro. Só pelo sacrifício se conserva o
amor mútuo, porque é preciso aprender a passar por alto os defeitos, a perdoar
uma e outra vez, a não devolver mal por mal, a não dar importância a uma frase
desagradável, etc. Por isso o amor também significa excedermo-nos, fazer mais
do que nos é devido. Mau grado, temo exceder-me e aborrecer-te, por isso tantas
vezes me coíbo... Por causa do tal “ser preso por ter cão e preso por não ter”.
Para
partilhar é preciso dar. Dar é a chave do amor. Apesar de raramente termos
consciência disso, não há dúvida de que a necessidade mais profunda do ser
humano é dar-se. Às vezes, quando o desejo me impele, porque o meu amor é
espontâneo, quantas vezes ensaio explicar-te que, amar-te, significa escolher
entre muitas hipóteses amar-te a ti, é
decidir conscientemente por ti, amar-te a ti, se assim não fosse, o meu amor
não passaria de emoção, de superficialidade, ou até de egoísmo, e não aquilo
que é na sua essência profunda, um sentimento que me tolhe. Para mim, amar-te é
dizer sim do fundo do meu próprio ser, ajudar a descobrir e conquistar a
plenitude que nos faça felizes; e tudo isto mediante a entrega de tudo o que
sou, posso, desejo, sonho... e necessito.
Daí
que a dação do corpo e da alma seja a expressão natural duma rendição total
enquanto pessoa. Porque o meu corpo sou eu, não é uma coisa externa, um
agasalho ou uma máquina que eu uso, mas sou eu próprio. Precisamente por isso,
o amor autêntico é para mim entregar-me totalmente, sempre, o que faço perante
Deus, minha testemunha.
Deverias ter a coragem para te abrires comigo, sem medo. Tens andado a fugir... de ti, de mim e da felicidade. Os namorados que se vêem e se falam têm a felicidade do amor; os que vivem separados têm duas felicidades: a do amor e a da esperança. Quando se quer bem a uma pessoa a presença dela conforta. Só a presença basta, não é necessário mais nada.
Durante
anos dei-te todo o meu amor, mais não era possível, durante anos tiveste toda a
confiança em mim e deste-me todo o teu amor, do qual nunca duvidei. Se durante
anos tanto demos um ao outro, que se passa agora para passares de um extremo ao
outro ?
Amar é
darmo-nos. É não pensarmos somente em nós. É não querermos saber somente dos
nossos gostos, do nosso bem-estar, do nosso descanso, dos nossos projectos, do
nosso futuro, é também vermos as necessidades, o sentido e a plenitude da
existência do outro. Quanto mais dermos de nós, quanto mais nos doer o amor,
mais alegria teremos. E mais paz.
Acredita
que quanto mais amares, mais amada serás.
Prometi
a mim mesmo que um dia serias minha, cumprirei a promessa que, perante Deus e a
mim próprio fiz, assim haja oportunidade para que a cumpra, nem que seja, dada
a idade que nos anima, numa velhice infrutífera e senil, à qual chegaremos
perdendo todas as oportunidades de mutuamente nos fazermos felizes, ainda que
de forma mitigada.
Até
lá, veja-te ou não, basta-me que te saiba viva e que as maravilhosas
recordações que de ti tenho não morram para mim ou comigo. É para mim cada vez
mais claro que em assuntos de amor são os loucos quem tem mais experiência.
Sobre o amor não perguntemos nada aos sensatos, os sensatos amam sensatamente,
o que equivale a nunca terem amado.
O amor
não se rouba nem se compra. Não há amor verdadeiro, e portanto feliz, senão
entre pessoas que dispõem livremente de si próprias para se darem uma à outra.
Frequentemente
nos enganamos a respeito da natureza do amor, o que significa a mais espantosa
das perdas. É uma perda eterna, para a qual não existe compensação nem no tempo
nem na eternidade, a privação mais horrorosa, que não é possível recuperar nem
nesta vida... Nem na vida futura que o catecismo promete !
Também
erro, e errei, e um dos meus maiores erros foi não te ter amado ainda mais, não
te ter mimado ainda mais, lamento-o, e por isso peço que me perdoes, isso e
todos os aborrecimentos que te tenha causado. Mais uma razão pela qual não
entendo que provoques o meu afastamento, com base num facto que sempre me foi
inerente, o facto de ser comprometido. Nunca tal facto teve a mais pequena
importância para ti, porquê agora ?
É tudo
uma questão de confiança, e de esperança. E se não perdi a confiança em mim, se
continuo a saber o que quero e porque o quero, a verdade é que a esperança se
desvanece paulatinamente, a verdade é que por qualquer razão ignota, aos
poucos, tens vindo a matar a esperança que ainda resta em mim, e pouco faltará
para que a mates de vez.
O amor
pode tantas vezes viver de amáveis ninharias, ninharias essas que tu mesma
propositadamente recusas. Não brinques, não é fazendo boquinha de achegã que me
convences....




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