Como
tão bem sabes, sempre te amei, e continuarei a amar, disso não tenho a menor
dúvida, é superior a mim. Ainda vivo de recordações da tua voz meiga, quente e
doce, recordações que guardarei sempre comigo e jamais se desvanecerão. Não
conhecerás o verdadeiro amor a não ser por aquilo que te ofereço, o amor é uma
atitude, não um afecto passivo; é um acto de firmeza, de afirmação, não de submissão
ou fraqueza...
É dar
mais que receber, e, neste item, tudo que me for possível te darei, e há muito
prometi a mim mesmo dar-te e dar-me por completo. Jamais confundas amor com
paixão, que, após os primeiros momentos, poderá desaparecer. O verdadeiro amor,
o verdadeiro carinho, cresce na medida em que estejamos mais unidos, por
partilharmos mais e mais e mais.
Recorrentemente
lembro os momentos maravilhosos que passámos, o teu carinho e meiguice
naturais, o teu cheiro de mulher, madura e linda, a sensação da tua pele sedosa
e macia, pormenores que tanto te enriquecem e te tornam, em simultâneo,
irresistível para mim. Vivo do amor que te dedico e dessas inolvidáveis
recordações que teimas agora tornar banais ou mesmo apagar.
Tens tu abordado algumas vezes o facto de nos vermos cada vez menos, o que não deixa de corresponder à verdade. Contudo sinto-me no dever de algumas explicações te dar, já que se por um lado é para mim um prazer ouvir-te, falar contigo, também não é menos verdade que me sinto muitas dessas vezes como sendo para ti um incómodo o momento em que te ligo ou apareço.
Ou
estás fazendo qualquer coisa, ou estás a chegar, ou a partir, ou o sítio onde
estás não é conveniente para atenderes, tens muito que fazer, ou pouco, ou
nada, enfim são muitas as razões para sentir que te estorvo, o que não quero
nem desejo, mas no que és hábil a transmitir-me.
Não
raras vezes culpas-me e na verdade já sou que evito as conversas, para mim,
ouvir-te já basta, saber que ali estás, do outro lado do telefone, que ainda
existes, que estás viva, conta muito. Mas também não raras vezes ficas calada,
não dizes nada, não ajudas na conversa, desconversas, perdes-te, propositadamente
ou não mas perdes-te na conversa, e esqueces o principal para perderes tempo
com o acessório, o que me coíbe de adiantar o que quer que seja, por vezes até de
falar, poisos dois dizendo o que quer que seja acabamos por nada dizer ou nada
ouvir ou compreender, mais me parecendo na maioria dos casos não desejares
conversa nenhuma.
Mas o
fulcro da questão é saber porque entre nós os telefonemas são por um lado cada
vez mais raros, e por outro lado cada vez mais longos, e estranhos, por reagires,
nem sempre, mas por vezes, das formas evasivas e irredutíveis que descrevo… Claro que
não me sinto bem, nem à vontade, por isso espaço as chamadas, ou as torno mais
curtas, para que te não mace.
Expostas
estas razões espero que compreendas por que não sinto confiança, temo até por
vezes, avançar com conversas que te possam aborrecer, aliás é tudo uma questão
de confiança, senão vejamos;
sempre
senti confiança em ti, e acreditei que a tinhas em mim, todavia, desconheço o
motivo por que, agora, nem conversa de facto, e até mesmo quando por telefone,
foges ou afastas os temas sempre que eles tomam determinado rumo, como dizer-te
que te quero cá, aqui, ou quanto te amo. O facto de nem uma inocente bica
tomar-mos há meses , nem ver-te tão pouco, atitudes que resultam num efectivo e
completo afastamento de ti e por ti provocado, são exemplos flagrantes do que
afirmo. Aceito tal, outra alternativa não me é sequer oferecida mas não
compreendo, ou prefiro nem compreender….
Amor
significa sempre entrega, dar-se ao outro. Só pelo sacrifício se conserva o
amor mútuo, porque é preciso aprender a passar por alto os defeitos, a perdoar
uma e outra vez, a não devolver mal por mal, a não dar importância a uma frase
desagradável, a ser tolerante e compreensivo, etc. Por isso o amor também
significa excedermo-nos, fazer mais do que nos é devido.
Mau grado, temo exceder-me e aborrecer-te, arrancar-te da tua aldeia indígena nem pensar, férias nem lembrar.... Aposto que um dia, um dia qualquer, no dia em que calhe, S. Pedro olhará para nós com um sorriso cínico nos lábios….

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