A CONDESCENDÊNCIA NO AMOR …
Tenho
sido paciente contigo, porque o amor deve ser paciente, bondoso, porque não
deve constituir inveja ou ambição, arrogância ou soberba. Não busco os meus
próprios interesses, não me irrito, não guardo ressentimento pelo mal sofrido,
não me alegro com a injustiça.
Mas
regozijo-me com a verdade, tudo desculpo, em tudo creio, tudo espero, tudo
suporto. Assim tenho procedido, e julgo que bem, apesar de não sentir da tua
parte a mínima correspondência ou conformidade. Prezo a tua amizade, mais
prezaria que o teu amor, que já conheci e senti, fosse tão verdadeiro como
então o entendi e no qual acreditei mas do qual agora duvido.
Hoje
interrogo-me, ter-me-ás amado de verdade ? Ou fui para ti um capricho que
serviu e atenuou outras dores que então viveste ? Nada, nada me convence que o
teu amor por mim, tão exuberante quanto desinteressado não fosse verdadeiro. Na
verdade nele acreditei e ainda hoje sou capaz de o jurar. Nunca terias ido tão
longe se esse amor não tivesse correspondido à verdade e a um desejo e vontade
própria. Porquê agora a recusa ou contradição, melhor seria dizer oposição
deste mesmo amor que te dedico e que, ao contrário do que possa parecer, em
nada diminuiu, mas em muito se fortaleceu e aumentou, porquê ? Por que me
contradizes há três anos de modo sistemático ? Que raiva é essa ?
Teimas,
já por várias vezes o deste a entender e assim o percebi, em testemunhar a
amizade que me tens, não somente agradeço essa amizade, como a retribuo e muito
prezo. Todavia, esse tão nobre sentimento que agora acentuas e queres tornar
exclusivo da nossa relação, foi, se me não engano, o primeiro a manifestar-se
mal nos conhecemos, e recíproco. É sem dúvida alguma um sentimento nobre, que
também me esforço por alimentar para que não percamos, e tão velho quanto o
nosso conhecimento. Mas, se colocares algum empenho na memória, recordarás que
em muito e há muito o ultrapassámos, fomos mesmo muito longe, tão longe quanto
o amor entre nós o permitiu.
Esse
sentimento original, a amizade, pelo menos assim o creio hoje, transformou-se,
no que me diz respeito, num amor exacerbado que te dediquei e ainda dedico, o
mesmo não penso já no que a ti respeita, daí a confusão de que te dou conta,
daí a incompreensão que te exponho e para a qual não encontro razão de ser ou
explicação.
E,
porque eu sou aquele que conheceu uma Mulher, e a amou, e ama, exorto-te a que
me compreendas e, de forma lógica, me expliques as razões do teu afastamento,
do teu alheamento, da tua oposição, da tua negação à reciprocidade.
O amor
tem razões que a razão desconhece, nem eu sei por que me apaixonei assim por
ti, de forma tão arrebatadora, tão penosa e hoje incompreendida. Amo-te, e isso
basta-me para me preencher os dias, agora de um modo tão doloroso, senão cruel,
e que tanto me magoa.
Penso
em ti, do levantar ao deitar não faço nem farei outra coisa senão pensar em ti,
é um tormento inconcebível para quem esteja por fora da questão, e uma questão
que não posso partilhar com quem quer que seja, com ninguém.
Prezo
imenso a tua amizade por mim acredita-me, não é porém, a amizade que procuro
porque essa já há muito a demos como certa. A minha amizade por ti será, no
mínimo, tão grande e preciosa quanto a tua, até aqui nenhum de nós tem dúvidas
ou ilusões. Que me negues um amor que vivemos, (não só eu vivi) sem que para
tal me tires as penosas dúvidas que acalento é que não suporto, e mais uma vez
pergunto, porquê ? E porquê a tua tão forte e tão acirrada oposição ou negação
à reciprocidade ? Porquê ?
Perceberás
assim o enorme vazio em que a minha vida se tornou, sem ti, sem esperança, sem
amor e sem carinho, resta-me arrastar os dias como se outro fito não tivesse
que ver passar o tempo, coisa que vai sendo para mim, e devia ser igualmente
para ti, algo que nos começasse a preocupar, na medida em que, repito, se o que
não vivermos, agora, talvez não vivamos nunca.
Sei
nada mais ter para te dar neste momento que amor, carinho, felicidade e
promessas, as promessas que atrás citei e penso ter, repito de novo, esperança
e oportunidade de um dia, não muito tarde, cumprir, porque assim o desejo,
porque sou homem de palavra, mas sobretudo porque te amo e é contigo que o quero
fazer, repartir os nossos últimos dias. Não me tires a esperança, não me tires
o sonho de te ter de novo nos meus braços, te abraçar, inalar o teu perfume,
mimar e beijar. Preciso que me alimentes este amor e esta paixão, sem isso tudo
deixa de ter significado para mim, tudo, o presente e o futuro, e tu serás
decerto o meu futuro, terás que ser o nosso futuro.
Esta
vacuidade que teimas não preencher arrasa-me, destrói-me a cada dia que passa,
não aguento mais esta incerteza, não suporto mais este vazio que me sufoca,
antes nada que este sofrimento atroz que me dilacera a todo o momento, com o
nada, pelo menos sei com que contar.
Por
isto, por tudo isto, sê sincera, diz-me que reciprocidade é para dividir e
cumprir, diz-me que poderei contar contigo, que poderei sonhar contigo, que
poderei conduzir a minha vida em direcção a ti, diz-me que temos futuro, que
esse futuro é possível, porque neste momento, mais que tudo, preciso ter alguém
e algo em que acreditar.
A
esperança adquire-se, ou alimenta-se. Chega-se à esperança através da verdade,
pagando o preço de repetidos esforços e de longas penitência e paciência, por
vezes de uma longa espera. Para encontrar a esperança é necessário ir além do
desespero. Quando chegarmos ao fim da noite, encontraremos a aurora e a
felicidade.
A
esperança não é um sonho, mas uma maneira de traduzir os sonhos em realidade.
Nunca se dá tanto como quando se dão esperanças. Os desejos da nossa forma de
vida formam uma cadeia cujos elos são a esperança. A esperança é um empréstimo
que se pede à felicidade. Quem tem algo por que viver é capaz de suportar
qualquer forma de vida, quem tem uma promessa em que acreditar, e a promessa de
reciprocidade é das mais importantes, pode, com relativa felicidade, esperar.
Todavia
sem reciprocidade, ou sem esperança, nada se concretiza, nada se acalenta,
morremos, estiolamos como uma flor sem água. É o que se passa comigo. Debalde o
amor que te tenho, vejo a esperança fugir a cada dia que passa, e nada, nada,
nenhum sinal que a alimente.
Que se
passa na realidade contigo ? Quantas vezes me pergunto o que se passará
contigo, e porque me afastas de ti quanto mais de ti preciso. Por que temes o
amor, e mais precisamente o meu amor ? Que tem ele para te merecer tanto
receio, tanto medo, tanta repulsa, tanto nojo ?
Tens
nada, quando poderias contar com tudo, com o meu eterno e incondicional amor.
Que fiz eu ? Que fiz eu que não prometer-te que sempre te amarei mesmo que o
não queiras nem desejes? Por que matas em ti, e em mim, um amor que foi lindo,
que para mim se tornou inolvidável ?
E
porquê ? Jamais compreenderei esse porquê.
Morre
comigo, aos poucos, uma esperança terna e risonha que acalento há tantos anos,
sinto-me sem forças para dar corpo a este ensejo que aos poucos tens vindo a
matar em mim, sem que saiba o que fazer, sem nada poder fazer ?
Compreendo
perfeitamente que amor e desejo são coisas diferentes. Nem tudo o que se ama se
deseja e nem tudo o que se deseja se ama. Amar não é apoderar-se do outro para
completar-se, mas dar-se ao outro para completá-lo. Não ser amado é uma simples
desventura, a verdadeira desgraça é não saber amar.
Tenho-te por uma mulher adulta, segura de
ti, de carácter forte, uma personalidade muito vincada e, embora compreenda que
passaste por uma experiência medonha, marcante e negativamente avassaladora,
traumatizante mesmo, a qual aceitei e compreendi, não percebo porque, passado
mais de três anos, forças (ou finges) uma não recuperação que somente te
prejudica e em nada te beneficia.
Também
sofri com isso, recuperarei, faço por recuperar, só não recuperei a tua
confiança. Porquê não sei. Se pretendes que me afaste de ti di-lo de vez,
afastar-me-ei, para sempre se assim o quiseres, mas não me peças que me afaste
quando cada vez te quero mais e mais, nem me peças que aceite ser colocado numa
prateleira, a par de um outro homem que conheceste.
Vivo
da esperança, e, neste contexto, como pensas que aceitei ouvir-te dizer que
ainda tremes ao veres quem tanto te vilipendiou ? Que ainda tens dúvidas quanto
ao facto de ser capaz de amar ou não, parecendo que sim, que o amor em ti ainda
perdura. Creio que sim porque o senti, porque senti que amas, senti que tal é possível.
Sei
muito bem quanto a vida tem sido para ti, em simultâneo, parada e turbulenta,
ou sem uma razão para a viveres ou no alto de inenarráveis preocupações e
privações medonhas que te destroem, e lamento sinceramente tais factos.
Todavia, se pensares bem, não será difícil encontrar a quem atribuir as culpas.
Com um sentido de oportunidade que não posso deixar de considerar infeliz, é
precisamente quando mais alimento esperanças e sonho com o futuro a teu lado,
com o facto de poder um dia passear contigo de mãos enlaçadas ou de braço dado,
na tua terra, apresentar-te aos amigos e conhecidos como namorada, noiva, ou
chamar-te perante todos minha esposa, ser precisamente nesse momento que me
atiras à cara com os mais desoladores miminhos, a indiferença e o alheamento. Só
tu, simplesmente tu. Arrogante, altiva, insolente e presumida…
Não há
palavras no mundo que expressem a dor deste amor desfeito, o momento de ruptura,
o tamanho da dor vazia e surda que me rasga a alma e paralisa a vida. O chão
cai. Um buraco negro sem fim e fedorento engole-me. A dor anímica é lancinante.
E choro. No travesseiro, solitário, no chão, no banho. Parece não ter fim na
nossa mente, nãpo se sumir dela a pessoa culpada deste amor desfeito, não há o
menor vislumbre de uma luz no fim do túnel. Não há túnel. Só escuridão. E na
escuridão não há caminhos, só estagnação.
O amor
desfeito não leva somente o corpo que me dava alegria. Leva a alma que passeava
de mãos dadas com a minha durante os
pensamentos, os planos futuros. Leva um pedaço da história da vida que parece
não ter modo de voltar. Leva o olhar cúmplice que dividia comigo os sentidos do
mundo. Estou órfão de amor. Estou com um amor desalmado, pedaços meus estão
ficando para trás e não posso fazer nada.
Estou
impossibilitado de dar sentido ao mundo, mundo completamente sem sentido e
dispensável. O amor desfeito olha para mim e diz: “Pronto, fiz a minha parte
na tua vida, dei o meu contributo”, e lembra-me que percorreu a parte da
sua estrada no meu caminho. Por isso não posso odiar o amor desfeito. O amor
desfeito deve ser amado pelo mundo que me mostrou, pelos espaços que me abriu,
pelos sonhos que desenhámos juntos. Este amor desfeito tem os seus feitos
registados no livro universal do amor. As coisas ruins, bom...essas esquece !
As boas, essas devem ser vividas e lembradas com carinho. Aquela pizza, aquele
dia, aquele perfume, aquele beijo, aqueles momentos... Como era perfeito o amor
desfeito.
Terminando
e deixando as pieguices, o essencial é que te mantenhas sempre uma pessoa
digna, em relação a ti, em relação à tua família, e, desejo-o ardentemente, em
relação a mim, porque te conheço, porque te amo, porque quero alimentar os
projectos que em relação ao futuro nunca porei de parte inda que já nem
acredite neles.
Tudo
isto porque quero acreditar que me amaste como eu te amei, e tanto te amei, e
amo, que compreendi e perdoei uma acção na qual não intervi, para a qual não
colaborei e acerca da qual, dada a brutalidade do corte que então impuseste,
nem tempo tive para te pôr de sobreaviso.
Humanamente
discorrendo, há coisas que só aprendemos depois de por elas termos passado, a
experiência é a soma dos nossos erros. Jamais desesperes, mesmo perante as mais
sombrias aflições da vida, pois das nuvens mais negras poderá cair água límpida
e fecunda.
Nunca
serás uma mulher acossada pela indiferença, em primeiro lugar porque, quer
queiras quer não, estará aqui sempre um homem que te ama, em segundo lugar
porque a beleza que te anima nunca deixará ninguém indiferente à tua presença.
Deus
sabe quão grato Lhe estou por ter-te conhecido e amado.

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