segunda-feira, 28 de outubro de 2024

821 – PODERÁ DAR-SE SENTIDO AO MUNDO ?

 


                                          A CONDESCENDÊNCIA NO AMOR …

 

Tenho sido paciente contigo, porque o amor deve ser paciente, bondoso, porque não deve constituir inveja ou ambição, arrogância ou soberba. Não busco os meus próprios interesses, não me irrito, não guardo ressentimento pelo mal sofrido, não me alegro com a injustiça.

 

Mas regozijo-me com a verdade, tudo desculpo, em tudo creio, tudo espero, tudo suporto. Assim tenho procedido, e julgo que bem, apesar de não sentir da tua parte a mínima correspondência ou conformidade. Prezo a tua amizade, mais prezaria que o teu amor, que já conheci e senti, fosse tão verdadeiro como então o entendi e no qual acreditei mas do qual agora duvido.

 

Hoje interrogo-me, ter-me-ás amado de verdade ? Ou fui para ti um capricho que serviu e atenuou outras dores que então viveste ? Nada, nada me convence que o teu amor por mim, tão exuberante quanto desinteressado não fosse verdadeiro. Na verdade nele acreditei e ainda hoje sou capaz de o jurar. Nunca terias ido tão longe se esse amor não tivesse correspondido à verdade e a um desejo e vontade própria. Porquê agora a recusa ou contradição, melhor seria dizer oposição deste mesmo amor que te dedico e que, ao contrário do que possa parecer, em nada diminuiu, mas em muito se fortaleceu e aumentou, porquê ? Por que me contradizes há três anos de modo sistemático ? Que raiva é essa ?

 

Teimas, já por várias vezes o deste a entender e assim o percebi, em testemunhar a amizade que me tens, não somente agradeço essa amizade, como a retribuo e muito prezo. Todavia, esse tão nobre sentimento que agora acentuas e queres tornar exclusivo da nossa relação, foi, se me não engano, o primeiro a manifestar-se mal nos conhecemos, e recíproco. É sem dúvida alguma um sentimento nobre, que também me esforço por alimentar para que não percamos, e tão velho quanto o nosso conhecimento. Mas, se colocares algum empenho na memória, recordarás que em muito e há muito o ultrapassámos, fomos mesmo muito longe, tão longe quanto o amor entre nós o permitiu.

 


Esse sentimento original, a amizade, pelo menos assim o creio hoje, transformou-se, no que me diz respeito, num amor exacerbado que te dediquei e ainda dedico, o mesmo não penso já no que a ti respeita, daí a confusão de que te dou conta, daí a incompreensão que te exponho e para a qual não encontro razão de ser ou explicação.

 

E, porque eu sou aquele que conheceu uma Mulher, e a amou, e ama, exorto-te a que me compreendas e, de forma lógica, me expliques as razões do teu afastamento, do teu alheamento, da tua oposição, da tua negação à reciprocidade.

 

O amor tem razões que a razão desconhece, nem eu sei por que me apaixonei assim por ti, de forma tão arrebatadora, tão penosa e hoje incompreendida. Amo-te, e isso basta-me para me preencher os dias, agora de um modo tão doloroso, senão cruel, e que tanto me magoa.

 

Penso em ti, do levantar ao deitar não faço nem farei outra coisa senão pensar em ti, é um tormento inconcebível para quem esteja por fora da questão, e uma questão que não posso partilhar com quem quer que seja, com ninguém.

 

Prezo imenso a tua amizade por mim acredita-me, não é porém, a amizade que procuro porque essa já há muito a demos como certa. A minha amizade por ti será, no mínimo, tão grande e preciosa quanto a tua, até aqui nenhum de nós tem dúvidas ou ilusões. Que me negues um amor que vivemos, (não só eu vivi) sem que para tal me tires as penosas dúvidas que acalento é que não suporto, e mais uma vez pergunto, porquê ? E porquê a tua tão forte e tão acirrada oposição ou negação à reciprocidade ? Porquê ?

 


Perceberás assim o enorme vazio em que a minha vida se tornou, sem ti, sem esperança, sem amor e sem carinho, resta-me arrastar os dias como se outro fito não tivesse que ver passar o tempo, coisa que vai sendo para mim, e devia ser igualmente para ti, algo que nos começasse a preocupar, na medida em que, repito, se o que não vivermos, agora, talvez não vivamos nunca.

 

Sei nada mais ter para te dar neste momento que amor, carinho, felicidade e promessas, as promessas que atrás citei e penso ter, repito de novo, esperança e oportunidade de um dia, não muito tarde, cumprir, porque assim o desejo, porque sou homem de palavra, mas sobretudo porque te amo e é contigo que o quero fazer, repartir os nossos últimos dias. Não me tires a esperança, não me tires o sonho de te ter de novo nos meus braços, te abraçar, inalar o teu perfume, mimar e beijar. Preciso que me alimentes este amor e esta paixão, sem isso tudo deixa de ter significado para mim, tudo, o presente e o futuro, e tu serás decerto o meu futuro, terás que ser o nosso futuro.

 

Esta vacuidade que teimas não preencher arrasa-me, destrói-me a cada dia que passa, não aguento mais esta incerteza, não suporto mais este vazio que me sufoca, antes nada que este sofrimento atroz que me dilacera a todo o momento, com o nada, pelo menos sei com que contar.

 

Por isto, por tudo isto, sê sincera, diz-me que reciprocidade é para dividir e cumprir, diz-me que poderei contar contigo, que poderei sonhar contigo, que poderei conduzir a minha vida em direcção a ti, diz-me que temos futuro, que esse futuro é possível, porque neste momento, mais que tudo, preciso ter alguém e algo em que acreditar.

 

A esperança adquire-se, ou alimenta-se. Chega-se à esperança através da verdade, pagando o preço de repetidos esforços e de longas penitência e paciência, por vezes de uma longa espera. Para encontrar a esperança é necessário ir além do desespero. Quando chegarmos ao fim da noite, encontraremos a aurora e a felicidade.

 


A esperança não é um sonho, mas uma maneira de traduzir os sonhos em realidade. Nunca se dá tanto como quando se dão esperanças. Os desejos da nossa forma de vida formam uma cadeia cujos elos são a esperança. A esperança é um empréstimo que se pede à felicidade. Quem tem algo por que viver é capaz de suportar qualquer forma de vida, quem tem uma promessa em que acreditar, e a promessa de reciprocidade é das mais importantes, pode, com relativa felicidade, esperar.

 

Todavia sem reciprocidade, ou sem esperança, nada se concretiza, nada se acalenta, morremos, estiolamos como uma flor sem água. É o que se passa comigo. Debalde o amor que te tenho, vejo a esperança fugir a cada dia que passa, e nada, nada, nenhum sinal que a alimente.

 

Que se passa na realidade contigo ? Quantas vezes me pergunto o que se passará contigo, e porque me afastas de ti quanto mais de ti preciso. Por que temes o amor, e mais precisamente o meu amor ? Que tem ele para te merecer tanto receio, tanto medo, tanta repulsa, tanto nojo ?

Tens nada, quando poderias contar com tudo, com o meu eterno e incondicional amor. Que fiz eu ? Que fiz eu que não prometer-te que sempre te amarei mesmo que o não queiras nem desejes? Por que matas em ti, e em mim, um amor que foi lindo, que para mim se tornou inolvidável ?

 

       E porquê ? Jamais compreenderei esse porquê.

 

Morre comigo, aos poucos, uma esperança terna e risonha que acalento há tantos anos, sinto-me sem forças para dar corpo a este ensejo que aos poucos tens vindo a matar em mim, sem que saiba o que fazer, sem nada poder fazer ?

 

Compreendo perfeitamente que amor e desejo são coisas diferentes. Nem tudo o que se ama se deseja e nem tudo o que se deseja se ama. Amar não é apoderar-se do outro para completar-se, mas dar-se ao outro para completá-lo. Não ser amado é uma simples desventura, a verdadeira desgraça é não saber amar.

 


       Tenho-te por uma mulher adulta, segura de ti, de carácter forte, uma personalidade muito vincada e, embora compreenda que passaste por uma experiência medonha, marcante e negativamente avassaladora, traumatizante mesmo, a qual aceitei e compreendi, não percebo porque, passado mais de três anos, forças (ou finges) uma não recuperação que somente te prejudica e em nada te beneficia.

 

Também sofri com isso, recuperarei, faço por recuperar, só não recuperei a tua confiança. Porquê não sei. Se pretendes que me afaste de ti di-lo de vez, afastar-me-ei, para sempre se assim o quiseres, mas não me peças que me afaste quando cada vez te quero mais e mais, nem me peças que aceite ser colocado numa prateleira, a par de um outro homem que conheceste.

 

Vivo da esperança, e, neste contexto, como pensas que aceitei ouvir-te dizer que ainda tremes ao veres quem tanto te vilipendiou ? Que ainda tens dúvidas quanto ao facto de ser capaz de amar ou não, parecendo que sim, que o amor em ti ainda perdura. Creio que sim porque o senti, porque senti que amas, senti que tal é possível.

 

Sei muito bem quanto a vida tem sido para ti, em simultâneo, parada e turbulenta, ou sem uma razão para a viveres ou no alto de inenarráveis preocupações e privações medonhas que te destroem, e lamento sinceramente tais factos. Todavia, se pensares bem, não será difícil encontrar a quem atribuir as culpas. Com um sentido de oportunidade que não posso deixar de considerar infeliz, é precisamente quando mais alimento esperanças e sonho com o futuro a teu lado, com o facto de poder um dia passear contigo de mãos enlaçadas ou de braço dado, na tua terra, apresentar-te aos amigos e conhecidos como namorada, noiva, ou chamar-te perante todos minha esposa, ser precisamente nesse momento que me atiras à cara com os mais desoladores miminhos, a indiferença e o alheamento. Só tu, simplesmente tu. Arrogante, altiva, insolente e presumida…

 


Não há palavras no mundo que expressem a dor deste amor desfeito, o momento de ruptura, o tamanho da dor vazia e surda que me rasga a alma e paralisa a vida. O chão cai. Um buraco negro sem fim e fedorento engole-me. A dor anímica é lancinante. E choro. No travesseiro, solitário, no chão, no banho. Parece não ter fim na nossa mente, nãpo se sumir dela a pessoa culpada deste amor desfeito, não há o menor vislumbre de uma luz no fim do túnel. Não há túnel. Só escuridão. E na escuridão não há caminhos, só estagnação.

 

O amor desfeito não leva somente o corpo que me dava alegria. Leva a alma que passeava de mãos dadas com a minha  durante os pensamentos, os planos futuros. Leva um pedaço da história da vida que parece não ter modo de voltar. Leva o olhar cúmplice que dividia comigo os sentidos do mundo. Estou órfão de amor. Estou com um amor desalmado, pedaços meus estão ficando para trás e não posso fazer nada.

 

Estou impossibilitado de dar sentido ao mundo, mundo completamente sem sentido e dispensável. O amor desfeito olha para mim e diz: “Pronto, fiz a minha parte na tua vida, dei o meu contributo”, e lembra-me que percorreu a parte da sua estrada no meu caminho. Por isso não posso odiar o amor desfeito. O amor desfeito deve ser amado pelo mundo que me mostrou, pelos espaços que me abriu, pelos sonhos que desenhámos juntos. Este amor desfeito tem os seus feitos registados no livro universal do amor. As coisas ruins, bom...essas esquece ! As boas, essas devem ser vividas e lembradas com carinho. Aquela pizza, aquele dia, aquele perfume, aquele beijo, aqueles momentos... Como era perfeito o amor desfeito.

 

Terminando e deixando as pieguices, o essencial é que te mantenhas sempre uma pessoa digna, em relação a ti, em relação à tua família, e, desejo-o ardentemente, em relação a mim, porque te conheço, porque te amo, porque quero alimentar os projectos que em relação ao futuro nunca porei de parte inda que já nem acredite neles.

 

Tudo isto porque quero acreditar que me amaste como eu te amei, e tanto te amei, e amo, que compreendi e perdoei uma acção na qual não intervi, para a qual não colaborei e acerca da qual, dada a brutalidade do corte que então impuseste, nem tempo tive para te pôr de sobreaviso.

 

Humanamente discorrendo, há coisas que só aprendemos depois de por elas termos passado, a experiência é a soma dos nossos erros. Jamais desesperes, mesmo perante as mais sombrias aflições da vida, pois das nuvens mais negras poderá cair água límpida e fecunda.

 

Nunca serás uma mulher acossada pela indiferença, em primeiro lugar porque, quer queiras quer não, estará aqui sempre um homem que te ama, em segundo lugar porque a beleza que te anima nunca deixará ninguém indiferente à tua presença.

 

Deus sabe quão grato Lhe estou por ter-te conhecido e amado.