terça-feira, 9 de junho de 2026

851 - QUANDO ME DISSERAM QUE MORRERAS

 



Quando me disseram que morreras busquei ávido um regaço onde chorar, senti em meu redor o ar em falta e, antes de procurar uma cadeira, vieram-me à memória em supetão tempos idos em que era eu quem dava o colo, afagava o rosto e consolava os que se iam aos poucos, devagar, lembrando as mães, as esposas, os seus amores, enquanto devagar, devagarinho, a lividez os conquistava e o frio os levava de mansinho.

 

E agora, que eu tanto precisava, não encontrei um regaço, um colo onde chorar pois tu não estavas, nem tu, nem tu, nem tu. Também tu quase sem avisar foras embora, sem ruído, como se temesses que sobre ti caísse a atenção, deixando-me de mãos a abanar, sem chão firme e capaz de pisar. Foi só mais um abanão. Quando de um inda não me refizera, qual tapete que ainda não voltara a sentir sob os meus pés, outro empurrão me atira para o interior de um furacão.

 

Foi neste tempo e nesta estrada, nesta encruzilhada, sem saber ainda qual rumo tomar que a notícia me tolheu como um tornado, pareceu-me até que a terra deixara repentinamente de girar. E então, como quando eu era a força do trovão, tive que fazer das tripas coração e bastar-me a mim mesmo no meio dessa escuridão. Sim, foi quando o mundo e tudo e todos deixaram de me interessar.

 

Tudo é dor e saudade, tudo é escuridão sobre os caminhos sem luar, sob as sombras que tornam as noites perigosas,  no meio das vozes sem falas da noite, de todas as noites, invernosas, como se fossem os tristes dias de Outono e pouco ou nada importassem as rezas, ou esta minha voz tão rouca e magoada.

 

Os dias esses, sem calor, em que os meus olhos sonham ver-te uma vez mais, ver-te sorrir, ver novamente esse teu sorriso ingénuo, mais não conseguem todavia que intuir a tua imagem de cera escorrendo-me entre os dedos, fazendo-me acordar desta miragem construída de segredos e murmúrios em que avanço p’ra ti, os braços abertos e, dolentes as mãos sentem-te e sonham-te em teu derradeiro descanso, enquanto eu nunca mais tive um sonho a que não devesse chamar vero pesadelo. 

 

Meus olhos não são mais que dois olhos velhos dum pobre velho perdido, chorando... Chorando as tuas memórias carinhosas que os dias descoram libertando uma névoa leve fugindo entre os meus dedos como água em clepsidra, forjando gota a gota, lágrima a lágrima um oceano, um mar amigo e bom onde eu finalmente possa dormir, descansar deste pesado sonho, dando-me um espaço e um suave embalar quando morrer, p’ra que feitas as orações finais seja enterrado de mansinho no nosso mar de pesadelos e de roxos crisântemos e agora, que eu precisava, não encontrei um colo onde chorar pois tu não estavas, nem tu, nem tu, nem tu.………

 

                       CONTINUA …………………..