Quando
me disseram que morreras busquei ávido um regaço onde chorar, senti em meu
redor o ar em falta e, antes de procurar uma cadeira, vieram-me à memória em
supetão tempos idos em que era eu quem dava o colo, afagava o rosto e consolava
os que se iam aos poucos, devagar, lembrando as mães, as esposas, os seus
amores, enquanto devagar, devagarinho, a lividez os conquistava e o frio os
levava de mansinho.
E
agora, que eu tanto precisava, não encontrei um regaço, um colo onde chorar
pois tu não estavas, nem tu, nem tu, nem tu. Também tu quase sem avisar foras
embora, sem ruído, como se temesses que sobre ti caísse a atenção, deixando-me
de mãos a abanar, sem chão firme e capaz de pisar. Foi só mais um abanão.
Quando de um inda não me refizera, qual tapete que ainda não voltara a sentir
sob os meus pés, outro empurrão me atira para o interior de um furacão.
Foi
neste tempo e nesta estrada, nesta encruzilhada, sem saber ainda qual rumo
tomar que a notícia me tolheu como um tornado, pareceu-me até que a terra
deixara repentinamente de girar. E então, como quando eu era a força do trovão,
tive que fazer das tripas coração e bastar-me a mim mesmo no meio dessa
escuridão. Sim, foi quando o mundo e tudo e todos deixaram de me interessar.
Tudo
é dor e saudade, tudo é escuridão sobre os caminhos sem luar, sob as sombras que tornam as noites perigosas, no meio das vozes sem falas da noite, de todas as noites,
invernosas, como se fossem os tristes dias de Outono e pouco ou nada importassem as
rezas, ou esta minha voz tão rouca e magoada.
Os dias
esses, sem calor, em que os meus olhos sonham ver-te uma vez mais, ver-te
sorrir, ver novamente esse teu sorriso ingénuo, mais não conseguem todavia que
intuir a tua imagem de cera escorrendo-me entre os dedos, fazendo-me acordar
desta miragem construída de segredos e murmúrios em que avanço p’ra ti, os
braços abertos e, dolentes as mãos sentem-te e sonham-te em teu derradeiro descanso,
enquanto eu nunca mais tive um sonho a que não devesse chamar vero
pesadelo.
Meus
olhos não são mais que dois olhos velhos dum pobre velho perdido, chorando...
Chorando as tuas memórias carinhosas que os dias descoram libertando uma névoa
leve fugindo entre os meus dedos como água em clepsidra, forjando gota a gota,
lágrima a lágrima um oceano, um mar amigo e bom onde eu finalmente possa
dormir, descansar deste pesado sonho, dando-me um espaço e um suave embalar
quando morrer, p’ra que feitas as orações finais seja enterrado de mansinho no
nosso mar de pesadelos e de roxos crisântemos e agora, que eu precisava, não
encontrei um colo onde chorar pois tu não estavas, nem tu, nem tu, nem tu.………
CONTINUA …………………..