Quando
calha, vulgo inesperadamente, nem sempre mas de vez em quando, quando me
aproximo duma janela ou de avental ando a cirandar pela cozinha, vejo-os, gosto
de os ver, não que se escondam, ou que se furtem às vistas. Não, nada disso, simplesmente
partem ou chegam, ou procuram o abrigo de uma sombra para o carro, uma oportunidade
ou espaço vago junto ao passeio, um modo de ficarem mais próximos da entrada e
pouparem o bebé a esta calorina.
Ela,
jovem, alheia aos compridos cabelos que a toldam de sereia, sorri, sorri
sempre, nunca dei por ela que não sorrindo, de olhos brilhantes e vivos, boca
ingénua de quem ainda sonha, ou mais não tem ainda que sonhos, e linda.
Ele igualmente jovem, de ar limpo, cabelo aparado, cabeleira poética, porte atlético, humano, sério, brioso, confiante, um homem já, riso comedido, sorriso franco, alto qb, um Adónis em potência, a coisa promete.
Pelo
menos comigo e a minha Luisinha prometeu, Prometeu abençoou-nos, promessa que
durou anos e anos, décadas. Desde imberbe e quando eu na minha mota azul,
cabelo p’los ombros, barba despontando, sério e brioso, confiante, quase homem,
me entreguei num compromisso para a vida confiante, ainda sonhando, e com muitos,
muitos sonhos nesse momento alinhavados, quase quase todos cumpridos.
Ele
acciona o start do carro brilhante de novo (brilhando como os sonhos?), ela
sorri cúmplice e, colocado o bebé no lugar, entra ligeira e álacre rumo a uma
qualquer “Lagoa Azul”.
Eu
fico, vendo-os partir, e volto a sonhar com o teu rir Luisinha, com o teu
gargalhar feliz, com o brilho dos teus olhos, tu ágil como uma sereia, sim
enquanto viva foste sempre uma sereia, e um sonho lindo.
Gosto
de os ver sim, porque neles me revejo, e com eles rememoro, e me iludo de um
tempo que não volta mais e jaz na minha mente como se 1 de Novembro todos os
dias e eu, depositando flores numa lápide imaginária, imagino o passado remoto
como estando presente e tendo ainda futuro, pois muitas vezes o melhor que
conseguimos da vida são os enganos e ilusões a que nos entregamos, que
prolongamos e revivemos, como se não houvesse hoje nem amanhã, apenas um
passado que ao mínimo pretexto nos convoca, provoca, trai e ludibria, sabendo
ser precisamente isso que dele esperamos e nada mais que isso.
Desembaraçada,
ela apeia-se com elegância, sacode por vezes os cabelos com um gesto airoso,
estudado,
tal qual tu, estudante
ainda, dona de casa cedo e por obrigação, leviana nos tempos livres como acto
de libertação e independência da mulher democrática que já eras, que sempre
foras e continuaste sendo.
Foram
tempos engraçados, o bambúrrio da revolução, a libertação dos tabus, a
afirmação do ser, do sermos, o princípio do fim. Tempos lindos, tempos de
liberdade vera, com os quais passados pouco mais de quarenta anos
conseguiríamos rebentar, por facilitismo e laxismo. Ainda bem que partiste e
não viste, não vês, não presencias o suicídio desta democracia pela qual tanto
lutámos, lutaste.
Ele, com um toque desinteressado atira com a porta
do carro, não atira, fecha-a. Certamente acredita que haverá um tempo para ele,
para eles, oportunidades para eles, para todos, engana-se mas não sabe, como eu
me enganei sem o saber e só acordei passados tantos anos e, quando era
ineludível que não avançávamos, mas recuávamos dois passos por cada um dado em
frente.
Era
jovem e acreditei, como não acreditarão eles que vivem um sonho que eu próprio
já vivi ? Que talvez calcorreiem os mesmos caminhos e as mesmas ruas que já
percorremos ? Juntos contra o mundo acreditam ter forças para tudo enfrentar, como
nós enfrentámos, portanto deixai-os sonhar como eu sonhei, como nós sonhámos,
não sabíamos nada, não sabem nada, será melhor assim…
Ainda hoje não sei nada, e saberei cada vez
menos. Sei, lembro-me bem, que ela me tirava o sono, me tirava o sono e me
tirava do sério, a terra parecendo o céu, os minutos horas, o presente algodão
doce e o futuro cor-de-rosa, lilás, fúcsia, polvilhado de estrelas e promessas,
num imenso tapete alcatifado que se sumiu repentinamente debaixo dos deixando-me
sem chão quando menos dei por isso.
Piso
com cautela o caminho que percorro agora, olhando criteriosamente para onde
ponho os pés por não ter onde me agarrar, me segurar, tu eras o meu porto.
Avanço
tacteando, apalpando, tal qual um cego, vivendo de lembranças e memórias inda
vívidas em mim, contudo cada dia mais difusas, apagando-se aos poucos.
Por
isso gosto de vos ver, de vos ver vir, de vos ver ir, de vos ver chegar, de vos
ver partir.
Lembram-me eu, lembram-me ela, lembram-me nós.
São um espelho cujos reflexos recebo como um negativo que na tina os cristais,
óxidos, soluções alcalinas, metol, hidroquinona e haletos revelam, libertando
sonhos e recordações, fecho os olhos, respiro fundo e então visões.
Absorvo
essas emanações e tantas outras, de tiossulfato de sódio, de ácido acético
glacial, d’ácido cítrico e de sulfito de sódio, não mais que eflúvios capazes
de projectar na minha mente um diáfano holograma, monocromático ou colorido do
melhor que em mim fixei.
Embora
os jornais pintem os dias futuros de um escuro indizível, a esperança
sobrepõe-se á mais ténue crença e, dois passos em frente um passo atrás,
avançamos tão confiantes quanto o equilibrista no arame que os astros seguram e
o destino estica, dando tensão á vida e ao viver que com alegres cores pintamos
na tela do futuro, alheados da firmeza, ou falta dela, em que o cavalete
assenta os pés na terra.
A LAGOA AZUL
https://www.youtube.com/watch?v=eq7M89rpSCA
MELODY
https://www.youtube.com/watch?v=1B8a99J0bMU
VERÃO
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