sexta-feira, 1 de maio de 2026

847 - O VIZINHO BOM, OS VIZINHOS BONS .....

 


  

Quando calha, vulgo inesperadamente, nem sempre mas de vez em quando, quando me aproximo duma janela ou de avental ando a cirandar pela cozinha, vejo-os, gosto de os ver, não que se escondam, ou que se furtem às vistas. Não, nada disso, simplesmente partem ou chegam, ou procuram o abrigo de uma sombra para o carro, uma oportunidade ou espaço vago junto ao passeio, um modo de ficarem mais próximos da entrada e pouparem o bebé a esta calorina.

 

Ela, jovem, alheia aos compridos cabelos que a toldam de sereia, sorri, sorri sempre, nunca dei por ela que não sorrindo, de olhos brilhantes e vivos, boca ingénua de quem ainda sonha, ou mais não tem ainda que sonhos, e linda.


  Ele igualmente jovem, de ar limpo, cabelo aparado, cabeleira poética, porte atlético, humano, sério, brioso, confiante, um homem já, riso comedido, sorriso franco, alto qb, um Adónis em potência, a coisa promete.

 

Pelo menos comigo e a minha Luisinha prometeu, Prometeu abençoou-nos, promessa que durou anos e anos, décadas. Desde imberbe e quando eu na minha mota azul, cabelo p’los ombros, barba despontando, sério e brioso, confiante, quase homem, me entreguei num compromisso para a vida confiante, ainda sonhando, e com muitos, muitos sonhos nesse momento alinhavados, quase quase todos cumpridos.

 

Ele acciona o start do carro brilhante de novo (brilhando como os sonhos?), ela sorri cúmplice e, colocado o bebé no lugar, entra ligeira e álacre rumo a uma qualquer “Lagoa Azul”.

 

Eu fico, vendo-os partir, e volto a sonhar com o teu rir Luisinha, com o teu gargalhar feliz, com o brilho dos teus olhos, tu ágil como uma sereia, sim enquanto viva foste sempre uma sereia, e um sonho lindo.

 

Gosto de os ver sim, porque neles me revejo, e com eles rememoro, e me iludo de um tempo que não volta mais e jaz na minha mente como se 1 de Novembro todos os dias e eu, depositando flores numa lápide imaginária, imagino o passado remoto como estando presente e tendo ainda futuro, pois muitas vezes o melhor que conseguimos da vida são os enganos e ilusões a que nos entregamos, que prolongamos e revivemos, como se não houvesse hoje nem amanhã, apenas um passado que ao mínimo pretexto nos convoca, provoca, trai e ludibria, sabendo ser precisamente isso que dele esperamos e nada mais que isso.

 

Desembaraçada, ela apeia-se com elegância, sacode por vezes os cabelos com um gesto airoso, estudado,

 

tal qual tu, estudante ainda, dona de casa cedo e por obrigação, leviana nos tempos livres como acto de libertação e independência da mulher democrática que já eras, que sempre foras e continuaste sendo.

 



 

Foram tempos engraçados, o bambúrrio da revolução, a libertação dos tabus, a afirmação do ser, do sermos, o princípio do fim. Tempos lindos, tempos de liberdade vera, com os quais passados pouco mais de quarenta anos conseguiríamos rebentar, por facilitismo e laxismo. Ainda bem que partiste e não viste, não vês, não presencias o suicídio desta democracia pela qual tanto lutámos, lutaste.

 

 Ele, com um toque desinteressado atira com a porta do carro, não atira, fecha-a. Certamente acredita que haverá um tempo para ele, para eles, oportunidades para eles, para todos, engana-se mas não sabe, como eu me enganei sem o saber e só acordei passados tantos anos e, quando era ineludível que não avançávamos, mas recuávamos dois passos por cada um dado em frente.

 

Era jovem e acreditei, como não acreditarão eles que vivem um sonho que eu próprio já vivi ? Que talvez calcorreiem os mesmos caminhos e as mesmas ruas que já percorremos ? Juntos contra o mundo acreditam ter forças para tudo enfrentar, como nós enfrentámos, portanto deixai-os sonhar como eu sonhei, como nós sonhámos, não sabíamos nada, não sabem nada, será melhor assim…

 

 Ainda hoje não sei nada, e saberei cada vez menos. Sei, lembro-me bem, que ela me tirava o sono, me tirava o sono e me tirava do sério, a terra parecendo o céu, os minutos horas, o presente algodão doce e o futuro cor-de-rosa, lilás, fúcsia, polvilhado de estrelas e promessas, num imenso tapete alcatifado que se sumiu repentinamente debaixo dos deixando-me sem chão quando menos dei por isso.

 

Piso com cautela o caminho que percorro agora, olhando criteriosamente para onde ponho os pés por não ter onde me agarrar, me segurar, tu eras o meu porto.

 

Avanço tacteando, apalpando, tal qual um cego, vivendo de lembranças e memórias inda vívidas em mim, contudo cada dia mais difusas, apagando-se aos poucos.  

 

Por isso gosto de vos ver, de vos ver vir, de vos ver ir, de vos ver chegar, de vos ver partir.

 

 Lembram-me eu, lembram-me ela, lembram-me nós. São um espelho cujos reflexos recebo como um negativo que na tina os cristais, óxidos, soluções alcalinas, metol, hidroquinona e haletos revelam, libertando sonhos e recordações, fecho os olhos, respiro fundo e então visões.

 

Absorvo essas emanações e tantas outras, de tiossulfato de sódio, de ácido acético glacial, d’ácido cítrico e de sulfito de sódio, não mais que eflúvios capazes de projectar na minha mente um diáfano holograma, monocromático ou colorido do melhor que em mim fixei.

 


Embora os jornais pintem os dias futuros de um escuro indizível, a esperança sobrepõe-se á mais ténue crença e, dois passos em frente um passo atrás, avançamos tão confiantes quanto o equilibrista no arame que os astros seguram e o destino estica, dando tensão á vida e ao viver que com alegres cores pintamos na tela do futuro, alheados da firmeza, ou falta dela, em que o cavalete assenta os pés na terra.


                                            “ CARPE DIEM ”



 A LAGOA AZUL

https://www.youtube.com/watch?v=eq7M89rpSCA


MELODY 

https://www.youtube.com/watch?v=1B8a99J0bMU


VERÃO 42

https://www.youtube.com/watch?v=oYu6HtUxRJs