Por toda a casa se ouvem as flores
adossadas ás paredes ou em vasos,
pendendo ou sobre a mesa da varanda
alegres e alarmadas com a Primavera
c’os dias de sol, acalmia e paz
como numa tela,
enquanto sobre a mesa, esquecidos
ou descansando
os pinceis dela
as cores, as alegrias, matizes e motivos
exuberantes uns, esquivos outros,
uns ditando o rumo outros traçando destinos e
agora
a hora do sol no vértice
sucumbiriam de tristeza essas alegres flores
que alimento célere p’ra que não percam o viço
a alegria, o sorriso e o tino como perdi o meu
num Outono velho triste que esforço por esquecer
e não esqueço
como nunca esqueço o pequeno regador verde
na varanda, sempre cheio, sempre presto
presto a não deixar morrer as flores
p’ra que floresçam, vivam e alegrem os passantes
e os caminhantes, visitantes e cuidadores que
com tanto desvelo as mimam, para que vinguem
e se ergam
para que ditem um futuro com a cor das suas pétalas
rosadas, esbranquiçadas, esverdeadas
p’ra que se ergam em pé, erectas sobre os caules e,
confiantes
enfrentem o presente e o futuro
radiosas, quais anjos celestes e
prestes prestes ordenem de novo o mundo
o futuro, o presente, o dia, o devir
esse devir onde o nada é e tudo se transforma
mudança persistente, transmutação dos seres numa miragem
numa passagem, de incoerente inconstância
para a transformação e afirmação contínua das suas
existências,
como tal
havemos de plantar mais flores e regar mais vasos
Vou agora mesmo guardar numa caixa, pincéis, cores, telas
diversas,
miragens, sonhos, quimeras, fantasias, alucinações, ambições,
devaneios,
ilusões, metas, intenções e visões já que,
por agora,
nos resta olhar os castelos de vento, que tanto confundem
e nos fazem tomar as nuvens por Juno.
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Pintura a óleo sobre tela de linho pintado à mão, original de TudoQuadros

