terça-feira, 29 de julho de 2014

199 - UM JIPE EM PRIMEIRA MÃO...


Não, ali na Lagril que nem para lavar automóveis precisavam de gente. Recostou-se à beira da montra e ficou olhando o jipe nas bombas, tão igual ao que tivera que entregar meses atrás.

O motor ronronava enquanto a dona, numa fila para pagar aguardava vez. Viu as chaves na ignição e repentinamente sobressaltou-se, antes mesmo de saber porquê.

Havia muita luz, mas fora isso tudo se mostrava sossegado e sem balbúrdia. Percebeu porque se sobressaltara e estremeceu de novo. Olhou em volta, não viu câmaras de vídeo e avançou devagar, fez-se até mais alto que era, engrossou o peito e avançou a mão para a porta como se a viatura fosse sua, sentou-se ao volante, ajustou o banco, rodou a chave, engrenou a primeira e saiu dali devagar sem acender sequer os mínimos. Olhou o espelho pela enésima vez e não viu alarde ou surpresa, tendo sido quando ligou as luzes e enfiado na via principal que o suor o alagou e um tremor e excitação o tomaram.

Acelerou, mas logo lembrou os cuidados a ter para não dar nas vistas, tornou à faixa da direita e seguiu em frente, simplesmente em frente, sem saber onde ir.
Poucos quilómetros adiante uma zona sem luz de movimentada área de serviço convidou a paragem, olhou o nível do combustível, estava quase cheio, por ali não tinha que preocupar-se, mas impunha-se cogitar depressa no agir, onde ir, para quê, para onde, respostas que de momento não tinha.

E repentinamente um salto !!

Na consola uma luz acendia-se ao mesmo tempo que a campainha de um telemóvel tinia estridente e desenfreada esmagando-o com o sobressalto acutilante que a realidade impunha.

Nem meia hora passara ainda sobre a sua precipitada atitude, no entanto juraria que vivera mais nesses minutos ou nessa hora que em toda a sua vida. Respirou profundamente e devagar, e expirou assobiando como que para se compenetrar de si mesmo, como que para descer à terra.

- Recapitulemos, pensou.

Puxou o travão de mão e mirou tudo em redor, a temperatura do óleo, o nível do combustível (outra vez) a quilometragem total, e mentalmente fez as contas à que percorrera, premiu o botão respectivo nos manómetros e meteu reset.

- Pudera eu fazer o mesmo à minha vida, pensou. Começar tudo do princípio.

Recordou o momento crucial da sua existência em que deitara tudo a perder. A empresa desmembrada e uma opção tomada havia muito mais de vinte anos que agora se reflectia na sua carreira, no seu modo de vida e no seu comportamento. Na sua atitude.

A vaidade perdera-o, atrevera-se mesmo a gozar com os colegas que na altura, e ao invés dele, aceitaram a inclusão na função pública, enquanto ele preferira a liberdade e o proveito de uma carreira privada.

Hoje estava arrependido e bem arrependido, a crise e falências em catadupa tinham atirado com ele para o desemprego, a ele e a muitos mais a quem a vergonha impedia de encarar o mundo, o mundo e os antigos colegas, agora no auge de uma carreira no funcionalismo público, sem sobressaltos, segura, livre do espectro do desemprego que o consumia.

- Recapitulemos, o que está feito está feito, vamos pensar com calma, vamos ver e depois se verá o que fazer em seguida.

Ouvira que em segunda mão um jipe daqueles podia valer quarenta mil euros ou mais. Não reparara na matrícula mas pelo formato dos farolins não teria sequer três anos. Sem estar recheado tinha contudo os extras essenciais, mais um ponto a favor, e ele precisava urgentemente de dinheiro.

A luz do telemóvel mal se apagara para logo se acender de novo, a maldita campainha esfrangalhando-lhe os nervos. Não iria atender, seria alguém em busca da dona, ou ela mesma tentando contactá-lo.

- Desligo ? Não desligo ? atendo não atendo ?

- Porra que me podem localizar pelo telemóvel !

Era um Galaxy, valeria usado no mínimo cem a cento e cinquenta euros, mas não hesitou. Desligou-o sem atender atirando-o para cima de uma camioneta carregada de sacas de cimento que começara a pôr-se em movimento. Expirou fundo e procurou acalmar-se, olhou os bancos incluindo os de trás e a chapeleira, abriu o porta-luvas e caíram no tapete uma data de objectos.

Soltou o cinto debruçando-se para os apanhar. Uma caixa com óculos de sol que pareciam caros. Uma escova de cabelo cheia deles, loiros, um sutiã vermelho Triumph Beauty-Full Charm tamanho 38, levou-o ao nariz, estava usado, num estojo de unhas frascos de verniz e acetona, uma caixa de pastilhas Mercilon quase cheia, uma que parecia de rebuçados Yasmin vazia, e, ao puxar uma embalagem blister fechando uma calcinha de cor púrpura, decerto tipo tanga a julgar pelo design na embalagem, veio arrastada uma calcinha preta rendilhada e amarrotada.

- Tê-la-á a dona abandonado e abalado sem calcinha ?

O GPS foi tocado sem querer e ligou-se, assinalava o percurso percorrido indicando 37 quilómetros, através dele conheceu todo o percurso que a loira fizera até à estação de serviço em que a vira.

- Ah ! Então era chique a loira !!

- Mora num bairro chique. Já lá estive, tenho um ou dois amigos lá.

Pelo tacto analisou a bolsa da porta do condutor, uma velha carteira escondia fotos encarquilhadas pelo calor ou pelo tempo, mirou e remirou uma a uma com cuidado. Confirmava-se a impressão dada pela escova, era loira a dona.

- Olhos verdes ou castanhos ?

Não dava para perceber.

-  Teriam as loiras sempre os olhos verdes ? Certamente que não.

Na neve, na praia, junto ao jipe com um farol ao fundo, num jantar de amigos.
- Algum daqueles seria o marido ? Seria casada a loira ?

Belos pés, gosto do vermelho das unhas, agora posando num aquaparque, devia ser alta, forte e alta, é boa, ta madura pensou. Comia-se, pensou para si mesmo enquanto à memória lhe acudia a fábula da raposa e das uvas, bom peito, e fechou a velha carteira guardando-a no bolso interior do blusão.

- Mulheres agora não. Nem pensava em mulheres desde que…

- E agora que fazer ?

O jipe daria bom dinheiro, dinheiro de que tanto precisava, mas como ?

- Como fazer ? Onde ir ? Dirigir-se a quem ? Onde ?

Trabalhou mentalmente durante algum tempo todas as variáveis possíveis e imaginárias. Não encontrou solução. Não sentiu fome, antes o espectro da desolação aproximando-se.

Em peças valeria menos, mas como fazer ? Desmontá-lo ? E vender as peças a quem ? Onde ? Um beco afunilava-se-lhe na frente. Não conhecia quem quer que fosse ou pudesse dar cumprimento ao ímpeto que o tomara. Não era assim nos filmes, e tinha visto bastantes.

Encontrara cigarros no porta-luvas entre os bancos, acendeu um, uma repentina tontura e apagou-o enraivecido. Doía-lhe a cabeça, estava ali há horas, decerto a matricula do jipe já seria procurada, por enquanto não tinha soluções mas também não tinha problemas, ou melhor pensando tinha somente o do emprego, e já não eram poucos os que daí lhe advinham, avançar para a cidade era arriscar, arranjar mais.

Pela primeira vez em muitos anos invejou os colegas da função pública, bom horário, boas folgas dias de nojo feriados e licenças, nem aguentavam metade do que passara para cumprir objectivos, metas, cotas de mercado, sofrendo a pressão de chefes e patrões, enquanto eles tinham o fim do mês certo chovesse ou fizesse sol, com crise ou sem ela ao fim do mês o pecúlio estava certo, nem precisavam fazer nada, a maior parte deles nem faziam que bem via quando tinha que se dirigir a qualquer serviço ou repartição, nem precisavam chatear-se, e rememorava tudo quanto tinha sofrido e aguentado até ao dia em que o despediram.

Pensou na esposa e voltou a invejar a vida pacata e apagada dos funcionários públicos, até falta de ambição lhes invejou.

Desnorteado e sem saber onde ou a quem rumar rodou a chave na ignição, engrenou a primeira e saiu dali devagar sem esquecer ligar os mínimos, meteu-se a caminho era noite alta já.

Devagarinho acercou-se da estação de serviço onde a aventura começara, olhando e observando com atenção passou frente à montra onde um funcionário o olhou desinteressado, estacionou o jipe, apagou as luzes devagar, deixou as chaves na ignição saiu sem bater a porta e rumou a casa…