Pintura - trabalho do artista eborense
José da Fonseca - sprays s/k-line,
70x100cm
Alguns amigos fizeram chegar até mim o eco da sua
incompreensão, o seu desagrado e até o seu protesto pela minha aparente falta
de jubilo e solidariedade para com o cante alentejano, que ora foi considerado
pela ONU património cultural imaterial da humanidade a nível mundial.
Pois bem, deixai que vos esclareça, porque na
realidade só aparentemente tal desiderato não me sensibilizou, aliás se não
tivesse sensibilizado nem me teria sequer pronunciado, o que fiz, e que
justificou as vossas apreensões e repreensões.
Evidentemente, como alentejano que sou (e nem conseguiria
deixar de o ser mesmo que quisesse) todo o meu orgulho vai para esse facto, sejam
ou não alentejanos todos os que o festejam e comemoram. Na verdade o cante nem é
a única expressão musical tradicional no Alentejo, aliás é mais genuína do
Baixo Alentejo que do Central ou do Alto. Coexistiram sempre outros géneros e outras
adaptações entre nós. Mas o cante tem uma característica repetitiva e um andamento
lento e pejado de abundantes pausas que caracterizam e identificam a sua natureza
monótona, e isso é exclusivo e peculiar ao nosso cante.
Na essência não posso deixar de me orgulhar, o cante é
sobretudo tradição, e sendo tradição é memória, e sendo memória é testemunho, e
sendo testemunho é história, e a
história faz-se com fontes, de que o cante é ampla e vera prova. Sendo precisamente
a história a minha primeira licenciatura, terão que anuir existir motivo justo
e forte para que na essência eu esteja de alma e coração com o “cante”, ele é
transmissão do sentir do povo alentejano desde muito antes da reconquista cristã,
há quem o situe na era recuada dos mercadores gregos e fenícios, ou com a
presença romana neste canto da península, ou o ligue à proverbial indolência dos
árabes que daqui corremos.
Com a reconquista cristã e as vastas terras ou propriedades dadas em aforamento, foral ou enfiteuse, os coutos de homiziados, as doações a ordens religioso militares, todos estes processos jurídicos geraram grandes, extensas e vastas propriedades, ou herdades, como as que por aqui abundam e tão contestadas foram quando do 25 de Abril de 74. (poderão googlar todas estas expressões, eu estou a citar de cabeça e não dou explicações à borla)
Com a reconquista cristã e as vastas terras ou propriedades dadas em aforamento, foral ou enfiteuse, os coutos de homiziados, as doações a ordens religioso militares, todos estes processos jurídicos geraram grandes, extensas e vastas propriedades, ou herdades, como as que por aqui abundam e tão contestadas foram quando do 25 de Abril de 74. (poderão googlar todas estas expressões, eu estou a citar de cabeça e não dou explicações à borla)
O cante é sobretudo o sentir de um povo subjugado à
terra e aos senhores dela, um povo servo da gleba, e que encontrou no lamento
que o cante expia a fórmula para a sublimação da sua raiva e submissão, o cante é o deixar cair dos braços, é a recusa à luta, o cante mais não é que a expressão da frustração de um povo e da dor do seu martírio, da sua
exploração, do seu jugo (ver “jugada” no Google) e dessa aceitação calada e
conformada.
O cante é portanto mais que um lamento e muito mais que uma mera cantata nostálgica, o
cante é sentimento, é resignação, o cante é geografia peninsular, é sociologia, psicologia,
economia, história. Mas reviremos ligeiramente o prisma e vejamos a questão de
outros ângulos ou perspectivas, comecemos por quem se outorga poder, autoridade
para conceder tais bulas, a ONU.
Na ânsia de protagonismo nem o “imaterial” escapa à
sanha açambarcadora da ONU, tal significa também mais postos de trabalho, mais
emprego, em primeiríssimo lugar para burocratas carecidos de objecto justificativo
dos chorudos vencimentos, despesas de representação e de custos, e outras que
nunca deixam de se atribuir a si mesmos. (um pouco à imagem da UE).
Mas, e o cante ? Voltemos de novo a ele, será que
antes de toda esta caricata nomeação era mal aceite ? Mal visto ? Mal divulgado
? Mal protegido ? Não me parece, e a marosca mais me soa a homenagem que os
seus defensores lograram atribuir aos próprios. O cante não tinha nem tem mais
nem menos valor por isso, o cante nunca esteve proibido de exibição, adoração ou
exploração comercial, (agora a propósito das casas de cante à imagem das casas
de fado, e cuja demora não entendo, deviam ter sido criadas há trinta anos ou
mais) o cante é o mesmo e é igual, diferente somente a perspectiva sob a qual muitos
de nós o olham agora, agora que galardoado e guindado a património mundial e
nos parecerá edifício majestático que urge abençoar, das fundações aos píncaros.
Sucede que eu já reconhecia o valor intrínseco do
cante, muito antes desta reverência inusitada (e incompreensível para mim) que
nos últimos dias lhe tem sido atribuída, mas com a qual contudo me solidarizo.
As manifestações de que o cante tem sido alvo roçam o
oportunismo, e temo até que o seu uso, que já era exagerado e despropositado tantas
vezes, se torne agora um recurso a que deitar mão de forma insidiosa. Por dá cá
aquela palha e ao mais pequeno descuido, ou motivo, tomem lá com um grupo,
tomem lá mais uma sessão de cante, trate-se de visita de um embaixador, da
inauguração de uma escola ou da comemoração de quaisquer efemérides. É que já há
muito município que o faz, já o fazia e crescerá a tendência a fazê-lo agora
reiteradamente “já que nos está proporcionar um momento de reconhecida cultura”…
mais que certo irem fazer do cante pau para toda a obra.
Meus queridos amigos, talvez comecem finalmente a
perceber a razão pela qual pareço não morrer de amores pelo cante, sim, estou já
saturado, para além de ser um individuo extrovertido e conciliar-me mal com o carácter
tímido, intimista ou fechado do cante. Na realidade o cante é tudo que eu não sou,
daí que reconheça o seu valor mas não me identifique minimamente com o fenómeno.
O cante é lamúria, queixume, é submissão, é aceitação,
julgo que já o dissera aqui. O cante não é um hino à luta, o cante não é
protesto, o cante é testemunho de muito mais que oitocentos anos de sofrimento. Outros povos já
se teriam erguido e lutado, o alentejano não, e factos como o de Catarina Eufémia
são heróicos mas são pontuais, são aventuras, nem uma batalha são quanto mais
uma luta, uma guerra, nem mudaram nada. Esperarem que morra de amores por este
cante é manifestamente exagerado para mim, jamais seria capaz.
Este cante é sinónimo de solidariedade na resignação,
não é nem nunca foi um grito de Ipiranga (vai ver ao Google). O cante tautológico
que a esquerda nos oferece é o ideal de subjugação que o capitalismo idealizou,
apreciou e com que sempre sonhou, talvez por isso no Alentejo não sejamos
capazes de modificar a situação, talvez nunca tenhamos lutado por outros
objectivos com o fervor depositado agora em conseguir este desiderato
imaterial, talvez nunca tenhamos sido tão solidários uns para os outros, ou
para outros fins igualmente comuns, talvez só agora que se tratou de louvar
tamanha tontice, mas enfim, depois de ver isto já estou preparado para o pior… não
se terá perdido tudo…
Se estou com o cante ? Oh ! Sim ! Com certeza ! Mas
que fique no seu cantinho, como tem estado, e onde tem estado, prefiro outros hinos,
outros cantes, de exaltação à luta e à vitória, de glória e advento da justiça
sobre injustiças de séculos… Foi esta atitude conformada que o cante testemunha
e transmite que a ONU distinguiu e reconheceu, e os mídia se esfalfaram a
transmitir, contudo não tive o prazer de ver escrita nem uma palavra sobre o significado
profundo do cante, ou seja, rejubilam-se e levam a que os outros rejubilem
também, mas sem que saibam bem do quê, o rebanho seguirá a cabeça da manada…
Detenhamo-nos nalgumas pérolas da nossa imprensa :
Estamos em festa
Salvaguardámos a tradição
Reconhecimento importantíssimo
Garantido o nosso património imaterial
Estamos de parabéns
Grande alegria da população
Grande motivo de orgulho
Tornámo-nos dignos da maior apreciação
O mundo orgulha-se de nós
Emocionante para os alentejanos
Um dos maiores ganhos…
Visibilidade internacional
Reforço de identidade
Ligação à comunidade
Oitenta por cento dos alentejanos nem saberão alinhavar
três palavras sobre a génese e história do cante, mas garantidamente foram
preparados para emprenhar pelos ouvidos…. Uma tristeza…
Enorme vitória, grande vitória
Glorificação de um sonho, de uma utopia
Conseguimos
Eu diria que só não conseguimos tirar o Alentejo do
mapa da região mais pobre e desertificada de Portugal. Francamente é pouco,
francamente é triste.
Contudo faço minhas as palavras e os desejos do Turismo
do Alentejo, assim Deus as ouça…
* NOTA IMPORTANTE: Este texto é uma súmula bem
resumida e espremida, retirada de uma tese elaborada por mim em colaboração ou
parceria com a minha saudosa colega e esposa, Maria Luísa Baião, no terceiro
semestre da cadeira de Antropologia sob a batuta do falecido Dr. Francisco Ramos.
Corria o ano de 1983 e o tema deste texto, o Cante Alentejano, veio a ser
considerado pela ONU Património da Humanidade no dia 27 de Novembro de 2014, o
texto tem a data de 28 do mesmo mês e ano. Teria sido impossível “despachá-lo”
tão depressa não me tivesse eu (a responsabilidade do texto é portanto só
minha) socorrido da extensa, profunda e trabalhosa tese a que aludi. Estou-vos falamndo de qualquer coisa como muito mais de 100 páginas dactilografadas, incluindo a transcrição de dez cassetes áudio, cada uma delas referente ao estudo de um dos principais grupos de Cante entre os muitos que povoam o(s) Alentejo(s), tese que foi merecedora da elevada classificação do dezoito valores (18).