domingo, 21 de dezembro de 2014

215 - UM CAFÉ, UMA MESA, UMA ESPLANADA...

                                        

Enquanto mirei e remirei as páginas da revista o Sezídio confirmou-me que sim, tinham reduzido o tamanho das letras, e sem óculos já lá não iria. A Dolores ofereceu-me prontamente os dela mas recusei, um homem deve resguardar o orgulho, fosse eu visto com aquelas armações cor de rosa cheias de brilhantes e teria pela frente dois ou mais anos de luta para restabelecer a auto-estima. 
     
Maldissemos o economicismo exagerado dos nossos dias e desenterrámos Gutenberg (1398-1468) e o dia em que colocou os olhos numa velha prensa de esmagar uvas, pois não lhe terá ocorrido o rol de transformações que a sua atitude induziria e o mundo sofreria mor dessa sua idéia maluca. A prova ? Ali estava eu enrascado e lendo só os títulos…

A Cármen aproveitou e desatou a língua, que até aí os livros, lindos mas raros, manuscritos, iluminados ou animados por belas ilustrações, eram coisa rara de se ver e fora do alcance do comum mortal. Ele, Gutenberg, fora claramente o percursor, ou seja, foi quem no-lo deu, ou libertou, todo este mar de informação em que soçobramos. Disse ela aproveitando o ensejo, era bibliotecária na universidade e passavam-se semanas sem que lhe ouvíssemos um suspiro que fosse.

Criou os tipos e os caracteres, alinhou-os, entalou-os e pressionou-os contra uma folha de papel, espremeu-os com a velha prensa do lagar das uvas e obteve num só mês, mais livros do que aqueles que os monges tinham copiado nos últimos duzentos anos. Afirmou ela abrindo os braços solenemente e sorrindo. Tinha bons dentes e ninguém diria já ter festejado os cinquenta.

Logo o Couto, que trabalhava numa gráfica nos adiantou que aquela iluminada ideia acarretara um mar doutros problemas, que a racionalização do tamanho da folha de papel e o seu aproveitamento ditaram letras cada vez menores, que os padres e frades de cada paróquia, por norma gente entradota, sofreram as primeiras vicissitudes às mãos da miopia. Contudo, atalhou o Neves, de pronto e como os de Olhão, os vidreiros da ilha de Murano, em Veneza, há muito conhecedores das propriedades das lentes logo ali viram, disseminado entre os milhares de religiosos e velhos da Europa, um mercado nada despiciendo e vá de produzirem em profusão umas meias esferas de vidro, a modos de meias lentes, que deslocadas ou arrastadas por cima das pequenas letrinhas as ampliavam até atingirem a dimensão de um rato fareleiro se necessário fosse. Uma espécie de lupa primitiva e sem cabo.

O Francisco atalhou, aflito e temendo que se lhe acabasse o tempo, quase sem voz, quase incapaz de respirar, vá lá, adivinhem, sim, trabalha aqui no bairro, na Óptica Marilux, atalhou ele que, apercebendo-se desse facto, os italianos, golpistas e oportunistas desde a Roma antiga, como sempre, aproveitaram para inventar ou criar os primeiros óculos, industria que ainda hoje dominam a nível mundial, confirmando que as descobertas são como as cerejas ou como as conversas, atrás de uma vem sempre outra melhor ainda.

- É ou não é Rui ?

E puxando da bomba da asma inspirou fundo, fechou os olhos e recostou-se. Bem, o Rui, tal como eu, pasmava de ouvi-los.

Terá sido pouco tempo depois que um holandês, melhor será dizer flamengo (nessa altura ainda não havia Holanda, confirmou o Bastos) um flamengo experiente fabricante de lentes, apresentou a descoberta casual, acidental ou estudada, desculpem mas não sei explicar-vos os pormenores, do primeiro microscópio de que reza a história. Na verdade sei somente que se tratou de uma casa reputada no ramo das lentes havia muitos anos, e onde, colocando uma lente à frente de outra, fazendo-as convergir ou divergir, no essencial constataram o aumento exponencial das coisas mais ínfimas, mostrando na ocasião ao mundo um outro mundo, micro, até aí ocultado ao ser humano que pela primeira vez viu e se espantou com o universo das bactérias e micróbios. E nisto olhou com olhos de carneiro mal morto a Cármen, como que pedindo a anuência dela ao que dissera. Cá para mim não restavam dúvidas, aqueles dois andavam enrolados era o que era.  Vendo-a sorrir o Bastos continuou.

Desconheço ter este flamengo alinhado as lentes de modo convexo côncavo, convexo convexo, côncavo convexo ou côncavo côncavo, sei que as alinhou e que ganhou com isso rios de dinheiro. Todavia decerto não foi esse o incentivo que, anos mais tarde, levou um outro italiano a dar-lhes alinhamento tão diferente que longe de ter visto bactérias lobrigou Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno, e nem imagino que mais terá conseguido ! Imaginem as voltas que a partir daqui não terão dado a óptica a biologia, a microbiologia e a astronomia ! Ah ! E também o fabrico de papel.

- E evidentemente as tintas os lápis e as canetas borrachas etc. etc. e tal … Atirei eu que ainda tinha que cuidar de comprar pão e com pena minha teria que ir-me embora, de modo que balbuciei, como que introduzindo o fim à conversa:

- Uma mente preparada vê antecipadamente o passo seguinte e desbrava o futuro dando que fazer ao presente pessoal. Improvisar é aqui, neste cantinho à beira mar plantado. Por isso mesmo, nessa sequência lógica outros surgiram posteriormente nessa esteira, Nicolau Copérnico por exemplo, (1473-1543), cuja teoria lançou com base em observações suas e em muito matutar de cabeça que os descobrimentos portugueses despoletaram por todo o mundo, e mundo nessa altura era quase só a Europa, mas sem provas que fundamentassem o seu modelo do universo. (Heliocêntrico, teorizava o Sol no centro do sistema solar).

      Copérnico somente aprofundou essa visão como a mais susceptível de verdadeira se comparada com o clássico modelo Ptolemaico que defendia o modelo Geocêntrico. (A terra no centro). Quisesse ele mais e teria que fazer como os portugueses, esses sim, mudavam o mundo do avesso mas davam provas do que diziam com o seu experiencialismo. Foi ou não foi rapaziada ? 

- Tinhas que vir ao de cima com a tua mania que és esperto e sabichão. Bem malta vou almoçar, ou vamos almoçar que pelo menos eu não estou para aturar o Umberto, este gajo é uma seca.

- E não é que se foram todos ?