Nos brancos
e alvos azulejos da parede da cozinha, onde eu preguiçosa e indolentemente me
encostava enquanto tomava o pequeno-almoço, cirandavam duas pequeníssimas
formigas a um palmo uma da outra. Que buscariam ? Por onde teriam entrado ?
Apesar de mastigando uma sande de manteiga e queijo “Terra Nostra”, daquele em
bola, vermelho, dos Açores, apesar disso estendi a língua e molhei nela a ponta
do indicador para assim melhor as agarrar. Pousei-o sobre uma das desgraçadas
formigas, apanhei-a e papei-a. Depois fiz o mesmo à outra e dei paulatinamente
continuidade ao pequeno-almoço.
Na
Tv uma data de choramingas faziam o funeral e choramingavam (desculpem-me a
redundância) as recentes mortes na Quinta do Conde, como se não fosse da nossa
natureza matarmo-nos uns aos outros por dá cá aquela palha. Somos um povo e um
país desestruturado, disfuncional, mais sugado por quarenta anos de democracia
que por idêntica fatalidade em igual período de Salazar e Caetano.
Somos
incapazes de impor a nossa vontade, aliás nem se nos conhece vontade e tudo que
saia do rame-rame habitual já é romper com o marasmo, marasmo que é para nós
uma fórmula de estabilidade e progresso, todavia achámos sempre risível a
divisa de Salazar "Revolução na continuidade”, ou seria de Caetano ? E
seria assim tão ridícula ?
Temos
é queda para estes folclores, funerais e coiso e tal, a catarse da malta, colectiva,
o fortalecimento da coesão do clã, quero dizer dos corpos da GNR e da PSP, das
corporações representadas tenham levado estandarte ou não, de todos os “Quinta
Condenses”, dos cães, parece ter sido um cão o detonador da cena marada,
adorei, confesso que adorei ver todos aqueles lorpas na Tv, acho eu que lorpas,
contra meu costume até comi uma sande a mais, entretido que estava com a coisa,
com o folclore. Mas pensando bem, antes os da Quinta do Conde, porque a malta
de Sesimbra é trinta vezes pior. São marados, deixam os barcos a apitar virados
para terra na altura em que a procissão passa na marginal e rebentam com os
tímpanos ao maralhal.
Recordei
logo ali que mais sentido e mais bonito que aquilo só os esporádicos funerais
de um ou outro motard, ou padre motard, com a maralha toda acelerando as motas,
rodando devagarinho, nesses momentos adoro estar entre eles, snifando o cheiro
dos escapes, o odor da gasolina sem chumbo, mais vivo, mais activo, com menos
depósitos, não ultrapassa 130 gramas de CO2 por km e permite uma queima mais
limpa, melhores acelerações e respostas mais rápidas à aceleração, uma delicia.
Mas
é isto que a malta curte bué pá, a cena marada, o cota preso, a esposa
coitadinha que não suportava o ladrar do cão, os manos que se foram desta para
melhor por causa de uma pêga neurótica, nada disto teria sucedido se ela
tivesse que governar a vidinha, lavar escadas ou atacar licenciosamente na
estrada para o Montijo em vez de uma vida de ociosidade e novelas.
Isto
não vi nem ouvi na Tv, mas imagino eu tentando não me afastar da verdade dos
factos, até por haver ali muito romantismo, o marido provou ser homem dos sete
costados e provou amá-la como ninguém, pois nem matou o cão mas os chulos que o
alimentavam e se calhar incentivavam a ladrar à lua, exasperando a pobre e
citada esposa, sublinho o se calhar, pois eu gosto de ser objectivo e detesto
afastar-me da verdade das coisas sem as devidas cautelas, precauções e avisos à
navegação, isto é aos que ainda têm paciência de me ouvir, quero dizer ler.
Contudo
admito que o façam por comodidade, param e recomeçam quando querem, abandonam se
o desejarem, e nem têm que abrir a bocarra, o que resulta extremamente
convidativo se atendermos a que o tuga na generalidade detesta debates,
discussões, diálogos e tudo que o faça pensar, contestar, contrapor, afirmar,
deduzir, induzir, conduzir (no caso um argumento, ou uma temática, uma
afirmação, uma ideia), o tuga é comodista e bem pensante, e bem mandado já
agora, pois adora obedecer, ao chefe, ao patrão, ao director, ao presidente, ao
vereador, ao assistente, ao lente, ao doutor, ao engenheiro, e até ao
taberneiro, ao académico, coisa que faz lépido e nunca céptico.
No
fundo, raros tugas têm ideias próprias e convicções, usam as alheias por ser
mais cómodo e como tal vivem atafulhados de contradições… O tuga raramente se
engana e nunca tem dúvidas (tem dividas) por isso somos um país de encantar, um
país de purguesso, moderno, desenvolvido, o tuga tem ideias feitas,
alavancadas, bem fundamentadas, por isso está servido e já nem discorre, já não
regateia, já não discute, nem debate, nem chateia.
Duvidas?
Experimenta partilhar numa qualquer rede social um qualquer pensamento profundo
ou um ditirambo e repara como a malta se alheia, contudo, se lá colocares um dichote,
um piadão alarve junto de uma poia de merda os comentários e os likes caem como
moscas. Queres melhor exemplo ?
O
tuga é sabichão, o tuga não aceita um não, e se aceita é porque rola em
circuito fechado, no circuito vicioso dos sim, seja académico seja familiar
seja de amigos. Um estranho jamais lhe dirá um não, pois o tuga nem lhe estende
a mão, mantem-no fora da conversa, fora do circuito impresso do que interessa,
e ao tuga pouca coisa interessa, o tuga adora chafurdar na merda e foge do
confronto sério como gato de água, ou então circunscreve-o, aos acólitos, aos
apaniguados, aos irmãos e aos cunhados, é endogamia pura, disse-o já por várias
vezes, e isso mata, e além de matar não ata nem desata, e a kultura ? Kultura vem
de kolt ? Se lhe falam de kultura na melhor das hipóteses o tuga puxa da
pistola.
O mundo
oscila, a Europa abana, o país deu uma cambalhota completa, e o que nos dizem
as sondagens ?
- Tudo
como dantes Quartel General em Abrantes !
E se
ainda tens dúvidas vai chatear a tua tia. Vou almoçar. Almoçar e papar mais umas
formigas se por lá aparecerem. Afinal quantas cada um de nós terá já comido sem
se aperceber ? Um dia destes até vi na
National Geographic um bicharoco qualquer, robusto, cheio de saúde, e que só
comia formigas. E então ? Soltai a língua. Agitai os neurónios, sacudi os
miolos, usai os axónios !
- Eh eh eh eh eh eh eh ! A Super
Bock a copo diz ele, continua a melhor !
Diz ele, o Honório…