quinta-feira, 10 de agosto de 2017

451 - GATOS PRETOS, GATOS BRANCOS by Maria Luísa Baião * texto integral

   

Também eu sou testemunha… pesa-me a memória com tanto testemunho. Mais um oráculo…

Fui criada desde menina entre tabernas, à rua de Machede a do Xico Fofa, das favas e batatas fritas, que adorava e cujos pacotes em papel pardo ostentava com orgulho desafiando a inveja das amigas. Do outro lado do quarteirão, à Mendo Estevens, a do velho Patrício, acerca de quem, só crescida soube ser o apelido que lhe coubera em sorte, porquanto pensava para com os meus botões ser ele patrício de todos quantos se lhe encostavam ao balcão. Em cima desse balcão me punha meu pai, qual boneca, dançando ao ritmo das vozes e lamentos que os homens soltavam.

Ali, no Farrobo, onde passei a meninice, já então existiam oráculos, um deles de tal ordem, que por inconveniente toda a gente evitava mudando de passeio. Dava pelo nome de Perna-de-pau, e nem me lembro dele lúcido nem falho das razões que então os homens escondiam, de que só falavam em surdina e que somente o poeta ousou gritar, lá de longe, de Argel. Também o Perna-de-pau muitas vezes exigia a decifração dos seus ditos, não que fosse menos que António Aleixo, não lhe apanhara fora o jeito de emparelhar as palavras. E havia sempre gatos pretos nas janelas.

Então sucedia descer a Mendo Estevens ruminando os significados do que ele dissera, acabando a rua destrinçando os nós de cada uma das suas homílias, para quedar-me muda e surda, vendo os homens que na espartaria do senhor Gaudêncio atavam os nós das redes/camas, sem que nunca tivessem logrado desatar os das suas vidas. Ainda hoje o senhor Gaudêncio, apesar de metade de nós não fazerem já a mínima ideia do que seja uma espartaria, ostenta com um orgulho que lhe louva as origens, encimando o estabelecimento junto à Praça do Geraldo, “Espartaria e Cordoaria Gaudêncio”, para mim o homem que consubstanciou o primeiro e mais notável choque tecnológico a que assisti, quando substituiu, com visão e engenho, o esparto, o linho e o sisal pelo nylon.

O Farrobo era um mundo à parte. A história estuda da urbe a judiaria e a mouraria, a sociologia devia estudar o Farrobo, onde conviviam lado a lado, subsistência e alegria. E lembro-me tão bem de gatos brancos nas janelas. Ali vida era sobrevivência tecida em filigrana. Pouco mais avançámos desde a chegada dessa tecnologia aos mouros da cordoaria. Em miúda decifrava eu os odores se calhava passar à taberna do Carranca, e entretinha-me, adivinhando e ordenando por intensidades, as ervas com que compunha os ramalhetes que lhe garantiam casa cheia, rememorando tudo quanto minha avó Joaquina me ensinara.


Fui um destes dias à igreja, saí dela lembrando as revistas de encher o olho da papelaria do senhor Manuel, Papelaria Angola, capas de revistas e vitrais, não vi a diferença. Gatos pretos, gatos brancos, são iguais. Bom homem o senhor Manuel, Deus lhe tenha a alma em descanso. Uma vida dedicada a vender sonhos, da Crónica Feminina ao Corin Tellado, depois da Maria e do Século Ilustrado. Encheu de sonhos as raparigas da Pró-têxtil, depois Melka, que nunca vestiram uma camisa digna desse nome nem encheram a barriga. Mas emprenharam de sonhos, o melhor para quem vê recusada a vida. O soalho da igreja, o mesmo cheiro a lavado na relojoaria do senhor Cabral, ali à Porta Nova. Sempre remendando as horas sem nunca ter tido uma de sorte para si. Sempre amável, sorridente, sempre com um olho proeminente virado para os mecanismos, outro para os ciganos. Sempre pobre e sempre contente. De vez em quando caía-lhe o olho de ver e fazia que nos não via. Pausa, algumas palavras simpáticas para nós, e o soalho sempre lavado, sempre exalando aquele odor a madeira molhada de que ainda hoje gosto. Talvez por ter sido simpático, talvez pelos despertadores ciosos dos momentos programados, talvez pelas campainhas e caixas reluzentes de alguns que também vendia fiados. O tempo a prestações, hoje nem o tempo a estações. Nem vai havendo gatos, nem pretos nem brancos.

E a Drogaria Bacharel? Que o saudoso senhor Silva deixou ao empregado mais fiel? Tão fiel que está hoje como sempre. Ah ! Falta-lhe agora a máquina de dar pontos nas meias de vidro, falta, pois não faltara, ele mesmo tivera o cuidado de pegar nessa senhora, nessa colega, p’ra juntos remendarem as próprias vidas, casaram e foram muito felizes, ainda são. Meias que ninguém hoje remenda, remenda-se a vida quando e se ela tiver remendo. Mas nesses tempos os jardins tinham peixinhos, livros, por vezes música e orquestras no coreto, a data nos canteiros, cerzida a flores e amor de jardineiros. Tudo eram testemunhos, oráculos, nem uns nem outros os tempos hoje consentem. As gentes já não sentem como dantes. Éramos um país de marinheiros, hoje nem de navegantes. Os primeiros porque verão o seu testemunho sempre adiado pelas circunstâncias, os outros porque as errâncias se viraram de novo para as Franças, as Espanhas, e nós, apesar de tudo, com tanto mar.

Mas como a ele voltar se não há ir? 

 * Publicado in DIÁRIO DO SUL - Coluna “Kota de Mulher” Outubro de 2005 by Luísa Baião


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