O pino
do Verão não impediu que nuvens negras me toldassem horizontes. Valeu-me a
esperança à minha alma agarrada, e o saber bebido em tantas fontes quantos os
anos que carrego. Cheguei a ver-me só, perdida na terra do sol que me ilumina,
me dá vida. Poeiras ameaçaram tornar-me também a mim pó, uma e outra vez, como
em pó se tornara velha e querida amiga que uma vez me dissera, uma única vez;
- Vou ali
- Vou ali
mas não voltou...
Curti
mágoas, bastantes águas correram por baixo de tantas pontes que não sei, que
pensei jamais tornar a ver. A vida volvida uma ferida. Que Inverno este que
para mim chegou tão cedo, tão cedo e tão frio. Gelou-me o coração sentir
somente o seu bafio. Estio que se prolongou em mim ainda que amenizado p’los
arautos da fiança. Os incêndios lavrando em montes e serras e eu noutra guerra.
Vi santos, anjinhos, orei, ouvi sinos, chorei, toldei sonhos que tinha,
desesperançada já de me devolverem vida minha.
Saudades
sofri sem estar ausente, arfar o peito, pulsar a corrente de vida em mim,
temente Deus quisesse que assim fosse. Poderia ter sido. E passei horas
inteiras, sem ter olhos para chorar, numa cadeira prantada, sonhando passado e
futuro e, para mim, ali sentada, não havia presente, dia, noite ou madrugada, o
mundo do outro lado da janela. Um dia, outro dia, aurora após aurora, me lembro
agora, de ampulheta virada uma, duas, dez, cinquenta vezes e eu doida, ausente.
Alheia aos luares, subindo como que encosta após encosta sem achar o caminho ou
o fim à minha dor.
Até
que um dia, Deus seja louvado! Louvado seja ! Gritei eu. E nessa, e noutras
noites, até hoje, já vi, vejo de novo as estrelas no Céu e foram elas,
baixinho, num murmúrio, em surdina, que me prometeram ir viver uma outra vez.
Ó
quanto cismei, se é que cismava, basta um minuto, a vida nunca é eterna, agora
sei que o amei como não amava. E a vida foi-me sendo devolvida aos solavancos.
Alegria chorada afrouxou de novo o ritmo das lágrimas derramadas deixando-me a
alma descansada. Lentamente se esfumava essa trovoada de Verão que não quero
lembrar, sofrer, chorar. Óh ! Como é belo de novo o luar ! Esquecer os ais, deixar
de ver sobre a minha cabeça tais punhais.
Já
vou de novo, de vez em quando rindo uma e outra vez.
Arrumei
a cadeira dos meus prantos, o medo, as incertezas, desencantos, e já sonho de
mãos juntas viver a vida outra vez, recomeçar, tê-lo de novo nos meus braços.
Olvidei
quanto no meu peito me matava e, extenuada agradeci aos santos, agradeci-Lhe a
Ele ter-me ouvido quando pensava que me não escutava. Revivi memórias que te
contarei de novo, contar-te-ei escolhas que fiz, escolhas que fizeste, contarei
aos outros quanto contas para mim. Não adormeço já cansada, nem os dias
rompem em nevoentas madrugadas. Acordo repousada, irada com a vida mas não
magoada. Quem não teve já noites parecidas, padecidas ? E eu, que vivera soluçantes
os dias, ergo-me de novo exuberante e salto da cama contente. Quero esquecer
essas noites, esses dias, poços sem fundo, abismos, noites de mãos soldadas,
erguidas, suplicantes.
Não
ouço já sinos repicando, finados. Sinto o ar lavado, o coração batendo ritmado.
E vejo águas prateadas, no horizonte esperanças a que me agarro e pelas quais
choro. Esperança e choro quebram-me o desgosto. Vivi silêncios
inaudíveis, sofri até não ter olhos para chorar, sem perspectivas, a vida em
sofrimento e o futuro, o futuro outro tormento.
Sofri
saudades, sofri, sem estar ausente, arfou-me o peito, senti pulsar a corrente
de vida em mim, minha, temente que Deus quisesse que tivesse sido assim. Não
foi ! Filhos são mar de saudades, vida que nos agiganta. Mas a tristeza também
mata e não só se o pranto solta. Noites escuras, horas surdas, coração batendo
em descontrolo, a alma tão plena de amargura que nem a lua a desperta, a vida,
via-a deserta.
Meu
filho meu tesouro, no teu rosto a luz, o dia transformado em melodia p’rós sentidos, frescura
p'ra minha alma. Obrigado vida que me deste tanto, voltou-me de novo toda a calma,
submergiu-se o desgosto, galguei uma ponte ao ver de novo flores na tua alma, tornei a olhar as cores nos campos, e ver de novo no arco-íris vida.
Graças
a Deus conheço de novo a esperança e o seu encanto.
NOTA DO BLOGUE: * Escrito terça-feira, 12 de Setembro, cerca das 10:00h por Maria Luísa Baião. No início do verão de 2006 o nosso único filho sofrera um grave acidente de mota em 24 de Julho de 2006, fora operado de urgência ao fígado que ficara desfeito com o embate, e fora muito dificil e demorada a recuperação desse acidente.