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domingo, 31 de maio de 2026

850 - ABRAÇO ABRAÇO ABRAÇO ABRAÇO


        Não queria mais que um abraço de vez em quando, não que tal fosse suficiente, mas satisfaria, aplacaria o mal que esta saudade inspira, e mataria a necessidade, necessidade talvez seja exagero, digamos que vontade, desejo, seria uma coisa assim, digamos que medicinal.


                

Sim medicinal, atenuante deste sentimento poético e fantasioso, como no cinema, como nos romances, mas não quero de modo algum que vejam nisto uma fraqueza, uma cedência ao sentimento, nunca fui piegas, sou afectuoso mas não impressionável, um abraço seria apenas mero expediente, um modo de aliviar a ansiedade, de roubar ao espirito as tristezas que carrego.



Terei que ser condescendente comigo mesmo, certamente me compreenderão, não costumo deixar-me afectar por ares românticos, sou um homem com H grande, não um sentimentalão, não um romântico, antes um durão, porém incomoda-me aquela coisa, esta coisa, como uma comichão aflitiva no espírito, esta impaciência, esta perturbação que me faz sentir permanentemente tenso, como se na expectativa de um perigo iminente, como se eu próprio não passasse dum indivíduo indefeso perante algo que ignoro, que nem imagino,



mas contra o qual um simples abraço protegeria.


                 

Não me considero uma pessoa impressionável, pelo contrário, sou racional, calmo, tolerante, afectuoso, todavia por vezes comovo-me, uma comoção ante certas mágoas, uma ou outra aflição, coisas que me dêem pena, me provoquem angústia, coisas cuja inquietação me tire o sono, me carreguem os dias de melancolia.



Volto à minha, só te queria voltar a abraçar, a apertar entre os braços, um abraço que não fosse uma despedida, um abraço como uma fusão, um abraço libertador, prolongado, um abraço que deixasse as hormonas aos saltos, um abraço banhado de ocitocina, um que soubesse a felicidade e chutasse p’ra longe o cortisol, que me enchesse de paz, um abraço terapêutico.



Porque um abraço é um refúgio seguro, um lugar e um tempo onde jamais encontrei ou encontrarei a solidão. Em mim o abraço abeira-se do misticismo e do transcendente, o abraço confunde-me, o abraço sou eu e um outro. Gosto dum bom abraço. Aspiro sentir um abraço forte, pesado, dado com vontade, nos levante no ar e me sirva de lembrança sempre que precisar de um lugar para descansar.

Isso mesmo. Uma lembrança. Mais do que uma memória. Um batimento cardíaco.

 

Um abraço como o daria Lorena Trotsky

 

Um que não importe quanto tempo dure. Que seja o do encontro. Que seja até o da despedida. Que seja de verdade.

Não importa se o primeiro, o do meio ou o último.



https://www.youtube.com/watch?v=8H7kmUD6yrU

 

 Lorena Pronsky  - ABRAÇO

Um abraço que te ataca as costas e quebra os medos. Que tenha a magia de quebrar a solidão em partículas tão pequenas que você não possa mais, nem mesmo, ver o que sobrou no chão.

 Um abraço que te faça vibrar de espanto e te retribua de um sopro na vida. Milésimos de segundos onde você entende que a eternidade nada tem a ver com quanto tempo dura um momento, mas com a plenitude com que você está vivendo.

Um abraço, um olhar e um beijo nos olhos. Eu gosto de beijos nos olhos. Sinto que só quem não ama é incapaz de fechar duas pálpebras com a boca.

Eu já tentei. E eu sei o que estou dizendo.

Um abraço que se faça caverna em outro corpo que te proteja da tua respiração quando de tanto cansaço se transforma em vento.

Um abraço. Forte. Pesado. Com vontade. Que te levante no ar e te sirva de lembrança sempre que precisar de um lugar para descansar.

Isso mesmo.

Uma lembrança.

Mais do que uma memória.

Um batimento cardíaco.

Um abraço que destrua todas as mentiras anteriores, todos os versos confundidos com poesias, e que tire por um tempo, das rosas os espinhos.

Não importa quanto tempo dure.

Que seja o do encontro.

Que seja até o da despedida.

Que seja verdade. Não importa se o primeiro, o do meio ou o último.

Não tenho pretensões.

Só te peço um abraço que abra minha alma como um mapa, que me olhe e não fale. Que você me toque e me leia e eu tenha certeza, que esse abraço foi e será somente meu.

Um abraço, mas não qualquer um.

Aquele abraço.

Esse abraço.


Lorena Pronsky

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                                     /

https://www.youtube.com/watch?v=7SVQSIvES1s

 

 OS BEIJOS SÃO DADOS NA BOCA

 by Elsa Moreno


 Creio que os beijos são dados na boca

 porque é de lá que brotam as palavras.

 Se eu beijasse a ponta dos seus dedos

 estaria buscando uma carícia.

 

Se te beijasse a sola do seu sapato

 eu estaria buscando um caminho.


 Se eu beijasse suas pálpebras

 enquanto você está dormindo,

 estaria pedindo permissão

 para entrar em seus sonhos,

 mas estou beijando seus lábios

 porque quero ouvir minhas palavras saindo de você.

 

(Outra vez…)

 

Se eu beijasse a planta dos seus pés,

 Estaria buscando um passo em falso.

 Se eu beijasse a parte interna do seu cotovelo,

 estaria procurando seus cubículos.

 

Se eu beijasse sua sombra,

 eu não saberia o que busco,

 mas estaria tão perto...

 Se eu te procurasse esta noite, beijaria cada estranho

 até te encontrar.

 

(Outra vez…)

 

Se eu te beijasse,

 seria escorregadia sobre um lençol

 de carne que transborda e se expande

 pelas vigas da minha casa.

 

Escalaria escorregadia um muro fronteiriço

 entre a pele da carne que se injecta

 em uma estrutura impessoal chamada nome.

 

Estaria consumida antes mesmo de abrir os lábios

 se te beijasse e, não podemos fazer nada por esta morte,

 por esta morte…

 invocaria um cataclismo só ao pronunciá-lo,

 e por isso,

 por isso,

 me mantenho quieta,

 quieta,

 atenta,

 a par,

 alerta,

 alerta…


 por via das dúvidas…

 caso houvesse indício

 de encontrar o ponto médio entre os muros onde shhh…

 não machucar um ao outro,

 onde só percebemos

 até onde o beijo vai,

 antes que a raiva chegue.

 

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domingo, 11 de agosto de 2013

157 - .................. PANAVISION DREAM .....................




Por trás das pilhas e dos milhares de fardos de aparas de cortiça, debaixo de um alpendre mal enjorcado, o calhambeque. Nunca soube porquê mas só a buzina funcionava, roufenha, soando bem alto mas roufenha. O calhambeque só pó. Mesmo por dentro só pó. Uma D. Elvira sempre presente enquanto eu, brincando ao Zorro e ao Tonto, esporeava Silver na pradaria do quintalão, onde as pilhas e os fardos as montanhas rochosas…

 

Naquele Verão escolhera um chapéu de fita verde por me parecer mais fresca a cor, no início de cada ano a mãezinha comprava-me um chapéu de palha novo na loja do senhor Acácio. Eram milhares de chapéus de palha em pilhas, cada uma com sua forma cor feitio e número de chapéu, número, largura de cabeça, de criança a adulto, pilhas de vinte trinta chapéus e eu sentindo ainda o cheiro da palha nova, o cheiro da tinta nas fitas,

 

o cheiro a naftalina da roupa da cama arredada para baixo por ser Verão, um cheiro que se sentia intensamente por causa das portadas fechadas para evitar a luz e o calor e, embora as portadas fechadas e a penumbra, eu não dormia, cumpria a penitência da hora da sesta mas não dormia nunca, enquanto lá fora a esturrina queimava as montanhas rochosas e eu em cima de Silver perscrutando o horizonte, até que ela chegou,

 

pé ante pé, um dedo nos lábios outro nos meus, um silencio quente, abafado, nem o pregão dos negociantes de cortiça se ouvia, estariam na taberna onde hoje o Restaurante Flor da Pradaria, perdão, da Planície, e

 

nem o resfolgar das maquinas estendendo alcatrão nas ruas da vila se escutava, somente a respiração ofegante dela metendo-se na cama, colando-se a mim na penumbra silenciosa e tropical do quarto, eu fechando finalmente os olhos, não para dormir mas aspirando sem o menor ruído o perfume dela, o cheiro dela e o perfume que jamais esqueci, nunca mais, nos últimos quarenta anos de vida entrei em todas as perfumarias do mundo e nunca mais,

 

o cheiro sim, às vezes, muitas vezes, mas o perfume jamais, e sempre que na lembrança aquele odor no mesmo instante na memória ela, os seios fartos, redondos e cheios, túrgidos, os biquinhos duros e salientes, as auréolas grandes com sabor às da mãezinha quando eu pequenino, e, quando queria montar o Silver e abalar à desfilada pela pradaria e ir embora, ela

 

vais já, tá quietinho, quando acabarmos vais, e se fosse a mãezinha decerto me tinha logo dado soltura para ir brincar, ao principio tive medo e fiquei calado, mas depois, pelos dias fora já gostei, e ficava quietinho e caladinho até ao fim, ainda hoje se baixo as persianas e a penumbra no quarto ouço o arfar acelerado dela, sinto os beijos as mãos e os carinhos dela, eu crescendo em mim sem saber e depois já sabia, e

ao terceiro dia ainda ela se não esgueirara para a minha cama e já eu esquecera o Zorro, e o Tonto, e o Silver e as montanhas rochosas, a aventura aprendida e já tão desejada era outra por eu já a adorar e lhe conhecer os sítios onde ela se rendia e ofegava e tremia, e depois de tremer o abraço dela, o cheiro intenso dela, eu já não brincando nas montanhas rochosas mas brincando nas montanhas dela até conhecer de cor e salteado cada curva cada canto cada reentrância,

 

com o tempo aprendi onde tocar, a mão dela guiando a minha, mete aqui, faz assim, não pares, mais, faz mais, mais depressa, não pares agora, e em vez de matar índios e bandidos empenhava-me em cumprir o que dizia o xerife porque o xerife era ela e eu gostava fazê-la sentir-se bem comigo, primeiro, de sentir-me bem com ela depois,

 

porque depois também eu ofegando, também eu numa agitação em crescendo, também eu guiando a mão dela, também eu que embora não dissesse pensava faz assim, e ela fazia, não pares, e ela não parava, mais, e ela fazia mais, faz mais, e ela fazia muito mais, mais depressa, e ela mais e cada vez mais depressa, não pares agora, e ela sabendo sempre onde parar porque se não parasse a brincadeira acabaria,

 

e ao invés de matar índios e bandidos empenhava-me em cumprir bem o ordenado pelo xerife por gostar de fazê-la sentir-se bem comigo, primeiro, de me sentir bem com ela depois, porque ela me ensinou a parar,

 

jamais esqueci o cheiro dela, nem o meu cheiro, nem o perfume que jamais encontrei, e cada vez que um biquinho, uma auréola,

 

recordo-me dela, recordo aquelas férias e aquele Verão, aquele em que deixei de brincar ao Zorro e ao Tonto embora nunca mais esquecesse as centenas de pilhas de fardos de aparas de cortiça, o calhambeque cheio de poeira escondido na sombra do telheiro enjorcado, com a buzina roufenha e, ainda hoje se no tumulto do clamor do trânsito de qualquer grande cidade uma buzina roufenha

 

logo o pensamento na aldeia, naquele verão, nela, nas camionetas dos Farinhas, no cheiro a alfarroba, na relva fresca e na terra molhada do jardim nos fins de tarde e nas amenas e estreladas noites em que, contemplando-a mudo,

 

descobri que me fizera homem e, ainda hoje, de dedo nos lábios em sinal de silencio ou não, aprendi a guardar para mim todos os pensamentos todos os segredos, todas as memórias…

 ...