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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

202 - DAR A VIDA ... SE A NÃO PERDEREM ... by Maria Luísa Baião *


Se há exemplo de gente altruísta, abnegada, sempre disponível e pronta a ajudar o próximo, esse exemplo assenta de forma incontestada e singular nos Bombeiros, quaisquer Bombeiros. Desinteressados, parece não almejarem mais que a satisfação do dever cumprido e o reconhecimento social que todas sem excepção lhes devemos.

Há muitos muitos anos que, por força da minha actividade profissional lido com eles. Lidar é como quem diz, trabalho com eles e com eles privo, de tal modo que não deve haver no nosso concelho e nos concelhos limítrofes, bombeiro que não conheça e a quem não reconheça as qualidades que apontei. Somos quase uma família, tal a empatia que entre nós se gerou com o passar dos tempos e a miríade de situações criticas que partilhámos e haveremos de partilhar por certo no futuro.

Sei que em todos eles tenho um amigo, como eles sabem que podem contar comigo, pelo que muitas vezes funcionamos já sem necessidade de grandes explicações, cada um de nós cumpre o seu papel, não automaticamente mas profissionalmente, eficientemente, o doente está primeiro e os procedimentos assentam necessariamente nessa contingência.

É para eles que vai hoje o meu pensamento, tão só porque sempre dispostos a arriscar e dar tudo por qualquer de nós por nós disponibilizam, como Cristo, a dádiva maior, a vida... Se a não perderem.

Um desses homens bons nos deixou há dias, eborense, durante muitos anos radicado na vizinha freguesia de Azaruja, onde foi condutor da ambulância da Junta de Freguesia. Era para mim um homem bom, um soldado da paz, um Bombeiro. Nunca estando em paz com o mundo, mantinha-se contudo sempre pronto para acudir a qualquer mortal, espécie com a qual mantinha aliás uma relação ambígua de amor e recusa, que todavia jamais impediu o seu esforçado empenho e dedicação.

Falo-vos de Jerónimo Amaral, grande, barbudo, irónico e insolente, alma maior que o corpo, uma filosofia existencialista que foi limando ao longo da vida, vida que a todo o momento lhe apontava arestas, arestas que a sua dialéctica sui generis lá ia resolvendo, e cujo discernimento de forma muito própria se espelhava no seu espírito. Olhos vivos, o rosto sempre esboçando um sorriso afável, modos cativantes, e sempre armado duma vivacidade de criança ingénua que nos desarmava.

Nunca soube e jamais saberei porque me adorava, amor que sempre lhe retribui sem regatear e que se manteve mesmo depois de ter abandonado as funções de “bombeiro” e rumado a Évora, onde na rua de Burgos tinha há pouco inaugurado uma Galeria de arte e artesanato, sim, porque o Jerónimo era artista, da vida e da escultura em ferro, a partir do qual nos transmitia uma visão do mundo que tive ocasião, tempos atrás, de gabar nestas páginas.

É que uma vez Bombeiro sempre Bombeiro, por isso o Jerónimo nunca perdeu o seu carisma, nem a disponibilidade e simpatia desinteressadas que continuou a cultivar, por isso a sua morte tanto me magoou e pela primeira vez em muitos anos estou deveras zangada com ele, zangada e mui magoada.

Compreendi agora e só agora, nestes momentos de dolorosa reflexão, porque me tratava o Jerónimo por “Vizinha”, não por Luísa, não por Terapeuta, ou Terapeuta Luísa como habitualmente todos me tratam, ainda que não tenha vivido sequer perto de mim.

Eram a nossa maneira de ser e de pensar que estavam próximas e foi essa proximidade agora desvendada que me tocou o coração e que faz com que não possa perdoar-lhe o que nem sequer compreendo, a sua morte.

Tu que eras tão forte deixaste o mundo vencer-te ? Deixaste de lutar, perdida a esperança ? ou foi opção premeditada e modo de resolver um velho contencioso com este mundo que nem sempre podemos levar a sério ? Respeito a escolha, mas não posso passar sem criticar a solução.

Não havia outros caminhos ? Tu que tantos rumos apontaste e trilhaste, tu que tão bem sabias que o caminho se faz caminhando.

Que dor, que raiva que sinto, que pena.

Chorar-te-ei sempre.  


* By Maria Luísa Baião, sobre o suicídio de Jerónimo Amaral. Texto publicado no jornal Diário do Sul em 25-5-2001, coluna KOTA DE MULHER.