quarta-feira, 2 de julho de 2025

834 - A PSICOLOGIA DO ESQUERDISMO ...

               


     

PSICOLOGIA DO ESQUERDISMO

 

Um dos mais notáveis e certeiros diagnósticos do esquerdismo como fenómeno psicológico com que me deparei, em abono da verdade através do meu amigo Rodrigo Penedo já que sem a sua contribuição eu só conheceria metade da história.

E desconheceriaa história toda, pois a metade que foi muito badalada na altura pelos mídia não era precisamente a mais importante mas a que venderia mais jornais... Académico exemplar, Ted Kaczynski, que mais tarde viria a cair em desgraça, soube contudo diagnosticar, demonstrar e descrever a famigerada doença do esquerdismo. Passemos então a ele....

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          Sim Rodrigo, concordo ser indiscutivelmente o Manifesto do Ted Kaczynski a mostrar-nos a faceta multifacetada do esquerdista, o qual por natureza dissimulado é afinal e essencialmente um perturbado mental afectado por duas grandes tendências psicológicas: “sentimentos de inferioridade e afectação negativa durante o processo de socialização”.  


       Vejamos o brilhantismo analítico de alguns excertos da obra de Kaczynski onde o autor analisa a forma como a tara da inferioridade se manifesta no esquerdista:

  «Por “sentimentos de inferioridade” entendemos não só os sentimentos de inferioridade em sentido estrito, mas todo um espectro de características inter-relacionadas: baixa auto-estima, sentimentos de impotência, tendências depressivas, derrotismo, culpa, ódio a si próprio, etc. Defende o autor que os esquerdistas modernos tendem a ter alguns destes sentimentos (possivelmente mais ou menos reprimidos) e que os mesmos são decisivos para determinar a direcção do esquerdismo moderno. (…)

            Muitos esquerdistas, a grande maioria deles, identificam-se intensamente com os problemas de grupo que carregam a imagem de fraqueza (mulheres), derrotados (índios americanos), repelentes (homossexuais) ou inferiores. Os próprios esquerdistas sentem que esses grupos são inferiores. Nunca admitirão para si próprios terem tais sentimentos, mas é precisamente porque vêem esses grupos como inferiores que se identificam com os seus problemas, logo com eles.

          Atenção, não se está a sugerir que as mulheres, os índios, etc., sejam inferiores; está apenas a fazer-se uma observação sobre a psicologia esquerdista). (…)

Os esquerdistas tendem a odiar tudo o que tenha agarrado ou identificado com uma imagem forte, bom e bem-sucedido. Odeiam a América, odeiam a civilização ocidental, odeiam os homens brancos, odeiam a racionalidade. As razões que os esquerdistas dão para odiar o Ocidente e o resto não correspondem claramente aos seus verdadeiros motivos.

    Eles DIZEM que odeiam o Ocidente porque é belicoso, imperialista, sexista, etnocêntrico, etc., mas onde ou quando esses mesmos defeitos aparecem em países socialistas ou em culturas primitivas, o esquerdista encontra desculpas para eles, ou, na melhor das hipóteses, admite RESSENTIDO que eles existem; minimiza-os tanto quanto os ENFATIZA, muitas vezes exagerando imenso esses defeitos quando os mesmos aparecem na civilização ocidental.

        Assim, torna-se claro que esses defeitos não são o verdadeiro motivo do esquerdista para odiar a América e o Ocidente. Ele odeia a América e o Ocidente porque são fortes e bem-sucedidos.

    Palavras tão simples como “auto-estima”, “autoconfiança”, “auto-suficiência”, “iniciativa”, “empreendedorismo”, “optimismo”, etc., têm pouca relevância no vocabulário de esquerda. O esquerdista é anti-individualista e pró-colectivista. Quer que a sociedade resolva os problemas de cada um, que satisfaça as necessidades de todos, que cuide deles. O esquerdista não é o tipo de pessoa que tenha um sentimento interior de confiança na sua capacidade de resolver os seus próprios problemas e satisfazer as suas próprias necessidades. Ele é antagónico em relação ao conceito de competição porque, no fundo, se sente um falhado, um perdedor

       As formas de arte que apelam aos intelectuais de esquerda modernos tendem a ser subjectivas, ambíguas, a centrar-se na sordidez, na derrota e no desespero, ou então assumem um tom orgiástico, descartando o controlo racional, como se não houvesse esperança de conseguir nada através do cálculo racional e tudo de válido que nos restasse fosse mergulhar nas sensações do momento..

   Os modernos filósofos de esquerda tendem a rejeitar a razão, a ciência, a realidade objectiva e a insistir que tudo é culturalmente relativo. (…) O esquerdista odeia a ciência e a racionalidade porque estas classificam certas crenças como verdadeiras (ou seja, bem sucedidas, superiores) e outras crenças como falsas (ou seja, falhadas, inferiores). Os sentimentos de inferioridade do esquerdista são tão profundos que ele não pode tolerar qualquer classificação de algumas coisas como bem-sucedidas ou superiores e outras como falhadas ou inferiores.

Isto também está subjacente à rejeição, por parte de muitos esquerdistas, do conceito de doença mental e da utilidade dos testes de QI. Os esquerdistas são profundamente contra as explicações genéticas das capacidades ou do comportamento humano porque essas explicações tendem a fazer com que algumas pessoas pareçam superiores ou inferiores a outras. Os esquerdistas preferem dar à sociedade o crédito ou a culpa pela capacidade ou falta dela de um indivíduo. Assim, se uma pessoa é “inferior”, a culpa não é dela, mas da sociedade, que não a terá, como seria sua obrigação, educado correctamente.

     O esquerdista não é tipicamente o tipo de pessoa cujos sentimentos de inferioridade o tornem um fanfarrão, um egoísta, um rufia, um auto-promotor, um competidor implacável. Este tipo de pessoa não perdeu totalmente a fé em si próprio. Tem um défice profundamente intuído do seu sentido de poder e de auto-estima, mas ainda consegue conceber-se como tendo a capacidade de ser forte, e os seus esforços para se tornar forte produzem todavia o comportamento desagradável que lhe conhecemos e que a caracteriza.

       Mas o esquerdista está demasiado longe disso. Os seus sentimentos de inferioridade estão tão enraizados que ele não consegue conceber-se como individualmente forte e valioso. Daí o colectivismo do esquerdista. Ele só se pode sentir forte como membro de uma grande organização ou de um movimento de massas com o qual se identifica.

 


        Reparem na tendência masoquista das tácticas da esquerda. Os esquerdistas protestam deitando-se na frente dos veículos, provocam intencionalmente a polícia ou os racistas para que os maltratarem, etc. Estas tácticas podem muitas vezes ser eficazes, mas muitos esquerdistas utilizam-nas não como um meio para atingir um fim, mas porque PREFEREM tácticas masoquistas. O ódio a si próprio é uma característica da esquerda.



Pensamentos e reflexões extraídas da obra do insigne académico Theodore Kaczynski, no caso da sua obra “Industrial Society and its Future”, de 1995.


Todavia Theodore John Kaczynski não é flor que se cheire, licenciou-se na conceituada Universidade de Harvard em 1962, integrando de seguida o corpo docente da Universidade de Michigan onde obteve o seu mestrado (1964) e o doutoramento (1967) em Matemáticas, sendo-lhe atribuído o Galardão Myers Para Melhor Dissertação do Ano.

 

Apesar dos diplomas e de ter dedicado a vida fazendo ressoar o alarme quanto ao que considera o principal problema da humanidade: a omnipresente subjugação à força destrutiva do progresso tecnológico. Nos seus escritos articula uma extensa crítica ao "sistema tecno-industrial" antevendo as consequências catastróficas deste para a humanidade e para a biosfera, daí a autoria de A SOCIEDADE INDUSTRIAL E O SEU FUTURO....

 

Kaczynski nascido em 1942 em Evergreen Park, Illinois, foi um prodígio intelectual, ingressou na Universidade de Harvard aos 16 anos, onde se licenciou, tendo tirado o mestrado e doutoramento aos 24 anos na Universidade de Michigan, tendo sido aos 25 anos o mais jovem professor de Matemáticas na história da Universidade Califórnia Berkeley. Passados dois anos abandonou o ensino e mudou-se para uma área remota do Montana para concretizar a ambição pessoal de viver de modo autónomo e auto-suficiente, adoptando um estilo de vida sobrevivencialista, vivendo da terra e da caça durante cerca de vinte anos.

 

Tendo sido condenado a uma pena de prisão vitalícia pela campanha de atentados à bomba em que ficou conhecido como Unabomber, Kaczynski encontra-se encarcerado em regime de cela solitária numa Prisão Federal no Colorado desde 1998, onde continua contudo escrevendo ensaios tecnofóbicos.

 

Em 14 de Dezembro de 2021 e de acordo com Donald Murphy, porta-voz do Departamento prisional, Kaczynski foi transportado para o centro médico prisional FMC Butner, na Carolina do Norte. Murphy recusou-se a fornecer qualquer detalhe sobre a situação clínica de Kaczynski ou a razão pela qual foi transferido. No entanto, numa conversa por meio de carta, Kaczynski indicou estar sofrendo de cancro terminal e que a sua expectativa de vida seria de dois anos ou menos, mas isso nunca foi confirmado. Porém, na manhã de 10 de Junho de 2023, funcionários da prisão descobriram que Kaczynski tinha morrido em sua cela na cadeia da Carolina do Norte.

 

Obras

O Manifesto Unabomber

Industrial Society And its Future. The New York Times e The Washington Post, 1995. ISBN 0-9634205-2-6

A Sociedade Industrial e Seu Futuro. Editora Baraúna, 2014. ISBN 978-85-437-0127-1

Artigos e Ensaios

Morality and Revolution (Moralidade e Revolução), 1999.

Ship of Fools (O Navio dos Tolos), 1999.

When Non-Violence is Suicide (Quando a Não Violência É um Suicídio), 2001.

Hit Where It Hurts (Atinja Onde Dói), 2002.

The Coming Revolution (A Revolução que se Aproxima), 2005.

The Road to Revolution (O Caminho para a Revolução), 2005.

Coletâneas

The Road to Revolution. Éditions Xenia, 2008. ISBN 978-2-88892-065-6

L'effondrement du Système Technologique, 2008. ISBN 978-2-88892-027-4

Technological Slavery. Feral House, 2010. ISBN 978-1-932595-80-2

 https://pt.wikipedia.org/wiki/Ted_Kaczynski



quarta-feira, 18 de junho de 2025

833 - UMA IDA Á PRAIA, AVENTURAS E DESVENTURAS DE UM VIÚVO INEXPERIENTE ...

 



          Empurraram-me para isto, p'ra uma ida á praia ... Foi o que foi ...

          - Baião, tens que conviver, sair, bla bla bla...

          E francamente ou eu escolhia inscrever-me na “universidade” dos velhos, coisa que não suporto, ou alinhava com eles pelo menos uma vez numa das ida á praia, daquelas que o Grupo de Viagens GTI organiza (em tempos fui nalgumas viagens e foram óptimos passeios de grupo) ou os aturava o resto da vida pelo que anui e inscrevi-me numa dessas idas, mas nem tão pouco levei calções de banho…

          Tudo pk lá na ideia deles fiquei viúvo há relativamente pouco tempo e não posso continuar sozinho nem a isolar-me ou ainda viro eremita e bla bla bla bla… Aceitei, inscrevi-me, esperei o dia da ida e lá fui num belo autocarro daqueles a que só falta multibanco…  Para ser sincero ainda não tinha decorrido meia hora de viagem e já eu concluíra não estar preparado para estas coisas, nem para estas nem para ingressar na tal “universidade” dos velhos, nessa então muito menos !!

          Passeio pela vila ou cidade de Ericeira, bonita mas alcandorada numa falésia e com muitas escadas, ladeiras e subidas, tudo coisas demasiadas para velhos, e para novos, até p'ra mim que estou n meia idade, nem desci á praia…. Com tão excelsa companhia não me apeteceu matar a criosidade quanto a essa vila de contrastes, por isso apesar do passeio da manhã ser livre rumei a uma praça apinhada de gente, a maioria velhos, a maioria velhos de excursões como a minha mas oriundos das mais variadas zonas do país, a Ericeira tem mais turistas velhos num dia que ouriços tem o seu mar... E eu a pensar que o negócio dos "mata-velhos" tinha sido das melhores idéias que alguém tivera...

          Pelo que para afastar o calor entrei numa das gelatarias que me pareceu menos cheia, pedi um gelado de taça, que me saiu caríssimo, ia ficando sem os olhos e, sentei-me a comê-lo quando … snif snif snif …. Cheirava a merda que tresandava, não era o WC, confirmei, só podia ser um dos velhos ou velhas que por ali abundavam de bunda nas cadeiras em volta das mesas… portuga ? english ? franciú ? bosch ? marroquino ? tailandês ?? Fugi dali a sete pés nem acabei a merda do gelado….

 


          Depois rumámos ao autocarro que nos levou ao almoço, uma marisqueira daquelas que desistiram de fazer casamentos e baptizados por já não os haver mas que se reconverteu a dar almoços de marisco aos velhos turistas….. E ás tantas dou por mim a pensar : mas que faço eu aqui ? Que faço eu no meio disto tudo ?

          Cada mesa levava dez “turistas”, contei as mesas, eram à volta duns 600 os comensais, portanto muita gente de outros autocarros, de outras terras, e eu ali no meio daquele mar de gente velha, eu novo, 71 acabadinhos de fazer, novinhos, ainda a brilhar, e nem uma velha jeitosa, nem uma que valesse a pena levar a dançar, ou a apalpar, ou a engatar, uma coisa para o futuro que o amanhã a Deus pertence e eu tinha que satisfazer os cabrões que me meteram nesta alhada, que lhes vou dizer ? Que tenho má boca ? Que sou esquisito ?  Eu a fugir dos olhos gulosos delas, dos perfumes baratos de há 50 anos, dos fedores nauseabundos dos cremes da cara que me fizeram lembrar a minha avó Inácia que Deus tem à sua guarda há 40 e muitos anos….

          Sim porque havia música e músicos, de quinta categoria mas havia, eram todos cançonetistas de terceira, e o tal povo que Almada Negreiros tão bem categorizou;

          “ O Povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos.

          Coragem portugueses, só vos faltam as qualidades.”

 


          Havia música e mesas bem recheadas com tudo, e bem servidas, muita gente a servir, nada de esperas, fartura de tudo mas meu Deus eu estava rodeado de velhas e velhos, algumas mais novas mas ainda assim mais velhas que velhas… Eles idem, só grunhos, broncos, e parvos, até que desbastadas as entradas e o primeiro prato a mesa foi recheada de frutos do mar, do camarão mais pequeno á lagosta maior, da conquilha pequenita à vieira mais grandita, caranguejos, santolas... 

          Parecia a mesa das bacantes, quando repentinamente dou por eles todos levantados, de telemóvel na mão p’ra registar o momento, parece que nunca tinham visto marisco, ou comido marisco, impressionou-me a atitude, eu que nem aprecio nem um nem outro além de camarão, e eles numa atitude pasmada e generalizada, de todos sem falta focados no centro da mesa, no rei marisco, não neles, não uns nos outros, mas no ídolo do momento, no que lhes iria tirar a barriguinha de misérias, afinal o 25 de Abril valeu a pena, ali estão eles manducando o manjar dos ricos, é a igualdade prometida cumprindo-se ….

          E eu para com os meus botões, isto ainda vai demorar ? Felizmente a velharia cansa-se depressa e daí a pouco, todos felizes, todos de bandulho atolado de marisco, babando-se mas rumando, ainda que aos encontrões para o autocarro, eu olhando-os com pena e trocando sorrisos maliciosos com a guia, às tantas um piscar de olho, a coisa promete, a ela o espectáculo também a diverte…

        Quem sabe se nós um destes dias ireamos ver uma ópera, coisa fina, ou uma sessão de variedades no Estoril, ou quem sabe uma noite vendo as estrelas num dos programas do Dark Sky Alqueva, fica aqui o link caso vos interesse, 

          https://darkskyalqueva.com/

ela disse-me que têm programas muito variados e dessas coisas percebe ela, há casos em que o melhor é a gente deixar-se levar, o universo tem mistérios que a gente nem sonha nem sabe desvendar…. Além disso o meu futuro ta escrito na palma da minha mão garantiu-me ela, pelo que nem valerá a pena eu esbracejar não acham ????

 


          O pior foi mesmo o regresso, o autocarro no regresso cheirava mais mal que a tal gelataria, alguém estava borrado mas mesmo borrado, agora com aquelas cuecas para a incontinência cagam-se todos e só o cheiro sai de mansinho, mais nadinha de nada, mas olham todos uns para os outros sem que ninguém se descaia e é aí que está a piada…. Alguém viaja confortavelmente em cima de uma almofada de merda e nem diz nada…

          Depois, depois a toda hora caem, perdem-se, cada vez que o autocarro faz uma paragem na volta chegam atrasados, finalmente entram e depois ou antes de entrarem vomitam-se e mijam-se, se sentados e em andamento nunca se calam, nem sabem o que dizem nem dizem o que sabem, não têm maneiras mas têm suores frios, guincham e falam gritando desaustinadamente, palitam os dentes com a unha, desmaiam quando menos se espera, têm uma admiração mórbida por igrejas e santos, não sabem nada nem conhecem nada nem ninguém, que terão andado fazendo uma vida inteira ?

          Eis o que me espera, tou com 71 e para lá caminho… para lá do inferno …. Ainda não estou preparado para estas cenas…………….

 



HUMBERTO BAIÃO

AVENTURAS E DESVENTURAS DE UM VIÚVO INEXPERIENTE ...


domingo, 4 de maio de 2025

ESSA AVÓ QUE ME ENCONTROU by Luísa Baião*

 

                              Escrito sexta-feira, ‎8‎ de ‎Setembro‎ de ‎2006, ‏‎11:05h

        Perdi minha Mãe muito cedo, foi uma dor que ainda é, e que julgo me acompanhará durante toda a vida. Não só por isso, mas também, estreitei os laços que então existiam com meus avós, todos muito queridos, e que também já são para mim, infelizmente, saudosas recordações.

          Talvez por isso a Terceira Idade me sensibilize de forma marcante, ou talvez porque diariamente lido com essa classe etária, tão fragilizada quanto, por vezes, abandonada e tão carente de atenções quanto devedoras somos todas (os) das suas memórias.

          Não esquecerei jamais minha avó Narcisa, com quem aprendi a enfrentar o mundo e a não adiar problemas. Dormir descansada significava para ela não deixar para amanhã o que devia ser feito hoje. Era alegre como poucas pessoas nessa idade o eram, dela herdei certamente esta disposição que me anima mesmo nos momentos mais difíceis.

          De minha avó Joaquina herdei os genes da perseverança e capacidade de trabalho, ainda hoje relembro o seu exemplo, já velhinha mas sempre trabucando, o que lhe permitia ir manducando e estar em paz com Deus e consigo própria. Disputavam as duas a minha presença, pelo que os sábados eram alternadamente vividos com uma e com outra, que para o almoço me preparavam os melhores manjares.

 

            Muito jovem, recém casada, órfã e mãe, nunca elas se aperceberam, do ainda me culpo, não lhes ter dito em vida quanto as amava e lhes devia. Julgo que o sabiam, já que vivendo próximas, e ainda que almoçasse com uma delas, nunca olvidando a outra que, ciumenta, me cobria de beijos e me prodigalizava a ementa para o sábado seguinte.

          Os meus avós não me eram menos dedicados, nem eu a eles, já esqueci os seus sermões, mas não esqueci o espírito que em mim incutiram, o espírito da devoção, da honestidade da solidariedade, da honra pelo trabalho. Eram homens, muito me mimaram, mas era sobretudo com o meu jovem marido, homem como eles, que gostavam de conversar. E claro brincar com o nétinho, que os fazia babar e pouco maior era, à data, que um chorão.

          Rezar-lhes na campa não redime a minha culpa, por isso todos os idosos são para mim avós, os avós que já não tenho, os avós que queria ter, ainda. Por isso um dia destes, quando na rua João de Deus fui surpreendida por uma velhinha muito querida, não pude deixar de ver nela essas avós que recordo com amor e com saudade, por isso a sua presença me foi agradável, por isso me agradou que sem pudor se tivesse dirigido a mim que, com a pressa com que sempre ando a não via.

       Somos vizinhas, embora eu não o soubesse, está internada num lar ali ao Alto dos Cucos, Fontanas, e espera como quem desespera, que os dias se sucedam. O nosso encontro parece ter-lhe sido grato, parece ter-lhe insuflado vida, mal sabe ela quanta gratidão senti em mim por me ter procurado, por me ter tocado, e na verdade tocou-me de perto o coração.

          Sei ser para ela uma amiga por quem espera à sexta-feira, eu não espero, procuro, procuro a amizade e gratidão dessa e de tantas avós que há entre nós e a quem não devemos esquecer dizer quanto amamos, antes que seja tarde, porque o tempo é uma roda, uma roda que não pára.

 


         Mãe é Mãe, e ninguém substituirá na minha mente e na minha dor a sua memória, minhas avós sabiam-no decerto, já que nunca a procuraram substituir, muito pelo contrário, todas as suas atitudes, sem que o assumissem, foram no sentido de atenuar essa dor e não fazer-ma esquecer, o que hoje reconheço acertado. Recordo ainda com saudade os seus mimos, as suas carícias, as suas palavras de consolo, amparo e encorajamento. As minhas avós souberam sabiamente deixar intacto um espaço que jamais alguém ocupará no meu coração, o amor por minha Mãe que ainda venero com mágoa, com saudade, e sobretudo com uma ternura que o tempo apagará em mim.

          Se alguém me amou incondicionalmente foi sem dúvida essa Mãe que todos os dias lembro e ainda me dá forças, para lutar pela vida, por seguir-lhe o exemplo, que tão bem recordo. Como é grande a pena que sinto por não a ter comigo, tão grande como o esforço que diariamente faço para que se orgulhasse de mim se entre nós estivesse.

          A saudade não tem fim. 

 

 * By Maria Luísa Baião. Texto talvez inédito. 

   Escrito sexta-feira, ‎8‎ de ‎Setembro‎ de ‎2006, ‏‎11:05h


quinta-feira, 1 de maio de 2025

831 - ENCONTREI O AMOR DA MINHA VIDA ...

 



Se não foi uma catrefa de anos andou lá perto. Neste momento de dor e introspecção enquanto o corpo lhe desce à terra dou por mim olhando em redor as gentes que o acompanham acreditando conhecê-lo. Eu sim, digo tê-lo conhecido melhor que a família, melhor que quaisquer amigos que teve, e teve bastantes …

 

Foram muitos anos, muitos meses, muitos dias, muitas horas lado a lado, partilhando trabalho e conversas, sonhos e promessas, razões, esperanças e, por que não dizê-lo, também desilusões. Eram mais de oito horas por dia se tivermos em conta que, muito antes de Abril e muito antes dos nossos vinte partilhámos diariamente e juntos centenas de almoços em quaisquer dos muitos e bons restaurantes desta cidade.

 

Nessa altura podia-se e sobrava dinheiro ao fim do mês. Partilhávamos tarefas numa multinacional derivada da Exide inglesa e os salários nivelados com os da capital, condiziam com a dimensão desse empório comercial com agências e fábricas por todo o mundo. Por esses anos, ainda que não fossemos propriamente qualificados, a empresa era-o, o país era-o, a economia era-o, sendo o escudo uma das moedas mais fortes e mais seguras do mundo. Fora da empresa poucos amigos partilhávamos, ele frequentava tertúlias intelectuais em grupelhos de esquerda, eu pontificava em tudo que estivesse ligado às motas e nelas percorri o Alentejo primeiro e, anos depois muito mundo europeu.

 

O serviço militar, que cumpri com galhardia, separar-nos-ia, porém o bambúrrio de Abril se encarregou de nos voltar a juntar. Ambos contribuímos para evitar que a África austral se tivesse transformado num novo Vietnam. Eu soube-o sempre, ele e uma maioria, nunca acreditaram no que quanto a esse aspecto da questão lhes dizia e, como milhares de outros nunca soubera o que por lá estivera fazendo ou por que tal desiderato lhe, lhes aconteceu. Lembro com saudade um dia em que puxei dos galões e trouxe a Évora vários autocarros azulinho escuro cheios de marinheiros, quais gaivotas em terra e que haviam de infestar a Praça do Geraldo e o Arcada. Parceiro em Évora nesse dia ? Ele ! Quem mais poderia ter sido ?


Foi com ele que partilhei, partilhámos durante o PREC com Francisco Louçã, numa casa cedida à UDP e pegada à taberna do Pinto, a feitura de cartazes gigantes ? Eram lençóis pintados à mão e gritando palavras de ordem de que a revolução se alimentava e aos quais nos dedicávamos com fervor e fé. 


Foram tempos em que cada dia trazia uma surpresa, ou era o agrário/latifundiário Mendonça que encomendara um Mercedes último modelo na Lagril e se recusava a recebê-lo por a matrícula ser PC qualquer coisa, ou era o Orvalho da Rainha do Sul a exigir recibos manuscritos e mal paridos em papel pardo p’ra dar contas aos camaradas, ou o Mário Leitão, um reaça de primeira entoando o vozeirão e em quem vi as primeiras atitudes democráticas e disposição para lutar por elas e pela legalidade nesse tempo caótico em que os fins justificavam os meios e todos atropelavam todos, menos o amigo Leitão, qual penedo ou sentinela vigilante denunciando arbitrariedades e fazendo-lhes frente pois não suportava atropelo atrás de atropelo numa democracia que de tal só tinha o nome e que eram o pão nosso de cada dia …

 

Voltando ao Mendonça, que como muitos era considerado reaccionário, agrário, latifundiário, num tempo em que não se podia ser lavrador inquiro-me hoje, hoje que tudo pertence aos espanhóis, que a agricultura virou intensiva/extensiva em campos a perder de vista e não emprega ninguém, que têm inclusivamente improvisadas pistas de aterragem de onde partem e onde chegam sem dar cavaco a ninguém em pequenas avionetas, já não são reaccionários, nem agrários, nem latifundiários ? Não ! Agora são investidores, agricultores, nossos donos e os donos disto tudo e quem leva daqui os lucros da terra deixando-nos as taças e os títulos dos jornais; Alentejo um dos maiores produtores de azeite do mundo ! Esquecendo que a terra, os olivais, o azeite, os alentejanos e os lucros tudo isso é dos espanhóis ! Digam-me lá se não somos um povinho ceguinho e ignorante como nunca tínhamos sido !?

 

Era assim, e nós olhando e pasmando com o à vontade e simplicidade com que se levantavam estandartes que às escondidas eram pisados e repisados para fazer valer quaisquer doutrinas para as quais nitidamente não estávamos preparados. Eça tivera de novo mais que razão, ainda tem, a democracia ficava-nos e fica-nos curta nas mangas, hoje nem a conseguimos envergar tão encolhida torcida, retorcida, tão pisada quão repisada ela está.

 


Foram muitos os anos que partilhámos naquela multinacional capitalista onde além de um bom vencimento dispúnhamos de condições de trabalho invejáveis e sobretudo de um ambiente laboral inigualável, todavia era tanta greve e tantas as tempestades que o país ia vivendo e atravessando que o maná acabou-se, a empresa não fechou como milhares de outras mas encolheu, tendo ficado reduzida a vinte por cento do que era… Metemos ao bolso chorudas indemnizações, as leis do trabalho vinham ainda do tempo de Salazar e, com, umas décadas de casa, como ambos tínhamos, saímos no mesmo dia, cada um de nós com uma pequena fortuna no bolso. Não sei se no bolso, pela época ainda não havia a moda das transferências bancárias, nem multibanco, acho que nos pagaram em cheque.

 

Eu acabara o curso por essa altura, um curso que em parte agradeço a esse meu amigo que “tapava” as minhas ausências quando ia às aulas. Eu ia á noite e aos fds dar um jeitinho no trabalho que por esse motivo deixara atrasado mas, no Font office foi ele quem durante cinco anos sempre me tapou e me salvou. Tenho noção de que me prestou um inigualável favor. Tive oportunidade de, por diversas vezes lho lembrar e lhe agradecer. 

 

Foram tempos felizes num ambiente de trabalho memorável sem as preocupações que hoje assaltam todos os jovens e menos jovens, a precariedade, a injustiça nas classificações de categorias profissionais, a incapacidade de se construir uma carreira, nada disso, nessa época as leis de trabalho eram poucas mas claras, fiáveis, defendiam efectivamente quem trabalhava não havendo patrão que não temesse a IGT, Inspecção Geral do Trabalho. É caso para dizer que democracia e direitos laborais eram coisas daquele tempo, agora qualquer trabalhador é um escravo sem valor, sem dormir, sem dinheiro que chegue até ao fim do mês, nem para viver mínima e dignamente qualquer dia chegará se é que para muita gente esse dia não chegou já…

 

Foram anos em que a vida fluía e se vivia, tão bem ou melhor que agora e com muito menos preocupações, menos sobressaltos e menos impostos para pagar. Esta democracia está a matar-nos, já não somos ninguém, já nada é nosso, a não ser essa enorme divida claro … Dizia eu que a vida fluía, e no entretanto, apaixonado casei-me, encontrei o amor da minha vida, já esse meu amigo não poderia dizer o mesmo ainda que tivesse igualmente casado poucos anos depois. A intimidade da nossa amizade permitia-nos conhecer as forças e fraquezas de cada um. Por vezes penso, e acredito piamente que o conhecia melhor que a família. Foram muitos anos, muitas horas, muitas conversas, muitos assuntos, muitas confidências, muitos almoços, muita confiança mútua, muita amizade.

 

Fomos felizes enquanto colegas e amigos desde aqueles tempos tumultuosos em que vivi uma paixão assolapada e conheci o amor da minha vida, casara-me, ele casou-se penso que sem paixão nem amor e, a julgar pelas suas atitudes e comportamentos tê-lo-ia feito por necessidade e tradição social. Em momento algum senti que houvesse amor na sua vida, e bem precisava, aliás, quem não precisa ? Ter sentido ter ele vivido um casamento sem amor terá sido para mim o facto relevante da vida desse meu amigo e colega que mais me marcou, quanto a ele não sei, sei apenas ter deixado de ir dormir a casa da avó ou da tia, ali á rua da Azaruja e ter passado a fazê-lo algures, nunca soube bem onde, só muito tardiamente tive de tal conhecimento.

 

Após a saída dessa multinacional capitalista onde fomos tão felizes a vida nunca mais lhe sorriu, o país afogava-se numa crise de que ainda não saiu, a instabilidade, a precariedade no emprego davam descaradamente os primeiros passos sorvendo-o para uma dança macabra da qual nunca mais logrou sair, facto do qual culpava amigos de longa data, bem na vida, com tachos ou lugares cativos em municípios, ministérios, direcções gerais e regionais, delegações, a quem culpava de só o verem e convidarem para comícios, manifestações e arruadas ignorando infantilmente a situação dele, as aflições dele, a ansiedade dele, a insegurança, o constrangimento familiar etc etc etc …

 

Rápida e facilmente tracei um paralelo entre a sua situação e o pensamento dela resultante e o meu próprio pai, engajado desde longa data mas desiludido nos últimos anos de vida, senão mesmo até falecer com as promessas de Abril, com os amanhãs em que nunca ouviu cantar, com a democracia por cumprir. Tenho a certeza absoluta, o meu querido amigo e colega não morreu esquerdista, morreu traído, arrependido, desiludido. Já quanto ao meu pai apostaria igualmente, que também mas, ao contrário desse meu querido amigo, essa foi confissão que nunca me fez, contudo levou-me a deduzir e concluir ter morrido revoltado com as mentiras de Abril, com os políticos que Abril pariu, com a corrupção generalizada, o atraso endémico, o seguidismo cego, a partidarite saloia, o amiguismo sem pudor.

 

Morreu sem conhecer o amor esse meu amigo, nem o amor nem a solidariedade, nem a coesão popular que tanta influência tiveram na sua vida. É este o meu diagnóstico e opinião formal e final. Só quem não privou com ele, quem não conheceu o calvário que atravessou por o mano mais velho, o mano economista, o mano com quem entre 75 e 7 ou 79 passara os sábados trabalhando as escritas das cooperativas da zona de Arraiolos e que, como as demais, faliriam todas poucos anos mais tarde.

 

Foi principalmente esse mano quem lhe dissipou a fortuna que recebera quando, no mesmíssimo dia em que abandonáramos os lugares na tal multinacional capitalista a troco de chorudos cheques. Estávamos no inicio dos anos noventa, os telemóveis apareciam e seduziam, o mano mais velho, conhecedor e com olho para o negócio juntou os outros dois irmãos, o do meio e o mais novo, o meu amigo, juntaram capitais e esforços tendo iniciado um investimento e aberto uma loja de telélés, acreditando em quem lhes terá dito ser Évora uma terra de futuro. Claro engano que deitaria por terra o sonho dos manos e esturraria a massa empatada na coisa. Sem maçaroca, aliás com as mãos cheias de maçaroca queimada, sem emprego certo, regular, estável, sólido, sobrevivendo na crista da onda da precariedade esse meu amigo ouviria das boas em casa… Sem culpa, sem culpa, porque o mano tinha razão, o negócio era de futuro, somente se enganou na cidade e zona em que lançou as redes, ou âncora, uma cidade sem vida, um Alentejo sem mercado, tivesse-o feito em Lisboa ou em Setúbal e os três manos estariam hoje ricos.

 


Em Évora só o atraso subsiste e vinga, o atraso e o passado, é uma terra sem presente e sem futuro. A história dos telemóveis foi várias vezes aflorada entre nós, sei que o meu amigo acabou por compreender as limitações que conduziram à falência da ideia e ao esturro de muita massa, sei também que acabou perdoando o mano, os manos, tão crentes e inocentes na coisa quanto ele. O pior terá sido o que passou em casa, o pior terá sido falta de compreensão e solidariedade de familiares e amigos, o pior terá sido o engano em que Abril se transformou, o pior terão sido as tais promessas que passados cinquenta anos continuam por cumprir e um povo ignorante como nunca fora e que ainda festeja com esperança o descalabro em que caiu acreditando sem razão para isso e esquecendo que cinquenta anos não são cinquenta meses, são uma vida, esquecendo que em cinquenta anos a China de Mao, atrasada, se guindou aos píncaros depois de ouvir Nixon e Kissinger em 1972, enquanto esta nação velha de quase 9 séculos nos mesmíssimos cinquenta anos se atolou num buraco do qual nunca mais ou mui tarde e dificilmente sairá.

 

Razões tiveram o meu amigo e o meu pai para partir, ou partirem desiludidos, eu idem, assim partirei, e vós ?

Ainda acreditais que este torrãozinho tem futuro ?

Deixai-me rir …..

Ou fugir para a ilha !!!!  

















sexta-feira, 21 de março de 2025

830 - AMIGO, TANTA FELICIDADE IRRITA-ME... *

               


Olá meu caro amigo, bons olhos o vejam, tenho passado amiúde por aqui mas não há quem lhe ponha a vista em cima, você anda decididamente desaparecido.

 

Não que isso me incomode, para ser franco prefiro não o ver pois sempre que o vejo, em fotos ou vídeos claro, irrito-me, a sua felicidade irrita-me, tanta felicidade exaspera-me.

 

Saber que nem dá pelo dias passarem enquanto para mim cada um deles é um tormento, como se tivessem não 24 mas 48 ou mais horas e em que cada minuto é uma agonia sem fim à vista convoca a minha cólera.

 




Invejo-o, não há direito que uns tenham tudo e outros nada, é uma questão de equidade, de justiça, se a houvesse seria divina, igualitária, admirável, surpreendente, impossível. Mas não há e vivo permanentemente com uma sensação oculta mas inevitável, como uma ferida, ou como se tivesse simplesmente sido expulso do paraíso.

 

Um mesmo amor bate em nós, frémito inevitável do corpo criando em ambos a sensação de existir perceptível hoje e todos os dias, mas porém a tristeza atinge-me com violência inaudita enquanto a solidão me sufoca...


Pensei em falar contigo amigo, mas o amor que vives é-me impossível de suportar, fico sempre longe, enredado na minha teia de saudade e pergunto-me que ganharia se nos encontrássemos ?

 




Só agora descobri esse teu grande amor, essa paixão que não posso igualar mas somente invejar ou apostrofar pois vives esse amor entre braços e abraços, sensações que já não me são permitidas alcançar.

 

Que saudades de um abraço, nunca me arrependo por ter amado demais por isso tanto sofro enquanto fico aqui aguardando esperançoso as migalhas deste amor que me enlouquece, satisfazendo-me com simples recordações, com palavras que se vão apagando na memória quando o meu desejo seria estar com ela entregando-me a este amor que me vai sendo proibido até em meras lembranças.

 

Passo horas acordado lembrando os imensos momentos em que estivemos juntos, eu, ela, e esta imensa saudade sentida por não estar já a seu lado. Sinto-me um escravo deste amor impossível que me consome de dor todos os instantes, desta infelicidade com motivo e mistério que me tem sido tão absurdamente revelada.

 




Invejo-te tanto quanto te odeio meu amigo e espero que me perdoes a afronta, é que o amor também se alimenta de egoísmo e narcisismo, um amor para a eternidade assim o exige, quis enganar-me a mim mesmo acreditando que haveria juventude e amor para sempre, quero encontrar ainda um sentido para esta vida para além do saber que todos iremos morrer um dia e essa a única certeza que me resta.

 

O amor é uma ilusão sem a qual não posso viver, é um fenómeno da ordem dos céus e do espírito, não mais que uma demanda na Terra, um profundo desejo de vivermos uma paz absoluta. Daí haver quem sem quaisquer dúvidas ame o infinito, deseje o impossível, quem não queira nada e quem tudo deseje,  o impossivel e o possível, sim eu quero tudo, queria, porque amo algo "absoluto" e para mim sem dúvida infinitamente finito, sim quero tudo ou um pouco mais, se puder ser, ou até não pudendo ser...

 

O teu amor a tua paixão exasperam-me. Todo o amor tem que ter um não sei quê de impossível, de angústia, de saudade que mata, de verdade, de fazer doer o coração, de fazer perder a razão, de sofrimento e sacrifício, de redenção... É isso que te invejo meu amigo.

 




Como posso eu amar alguém sabendo ser esse amor impossível, não lhe poder dizer quanto a amo, como posso eu dormir e acordar pensando-a em sonhos tão perto de mim e não a poder abraçar, beijar, fazer um carinho sentir-lhe o cheiro do perfume, como amar tanto assim se não a encontro em lugar nenhum que não neste sonho lindo que alimento, neste amor impossível. Mas minh'alma sussurra-me que não desista nunca, segreda-me e faz renascer em mim a esperança de que é possível seguir um e mais um dia desejando-a, amando-a e, ainda assim, persistir no logro, no engano, na ilusão.

 

Como não te invejar, odiar e apostrofar meu amigo se é por este amor que passo os dias enganando-me, que me visto e deambulo sob o sol até que Deus me mostra o rosto dela e eu, sem saber o que me espera teimo nesta vida impossível que alimento com o ódio que destilo. 


Perdoa-me meu amigo, perdoa-me mas como te disse mas esse teu amor e essa paixão que vives exasperam-me, cegam-me, roem-me por dentro, dão-me vida, alimentam-me….  




* NOTA: Entre as muitas apreciações que este texto não deixou de ter escolhi ao acaso uma delas, a da minha amiga Ana R por me ter parecido que engloba magistralment o sentir de todas as outras ; 

" Bom dia. Embora no texto refiras muitas vezes a palavra inveja, creio entender este texto como um elogio, quase uma ode ao amor.

Um amor que agora não tens mas que percebes por já o teres tido. Será uma inveja boa, não de raiva.

Quando se tem um amor como o do Francisco não pode haver crítica, "apenas" raiva por não viver um igual e o desejo de ter um semelhante ou de o encontrar.

Eu entendi assim.

Bom Domingo para ti também."  

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OBSERVAÇÃO IMPORTANTE :

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DITO PELO DR MIGUEL CASTELO BRANCO no Facebook :

Alguma gente cheia de afectações intelectuais que se diz representante da "Academia" no hemiciclo parlamentar não me surpreende desde que recebi por incumbência rever duas dezenas de textos de senhores professores doutores, com toda a titulatura de pós-docs, coordenações científicas, prémios e aulas dadas nas europas e nos states, mas que cometem erros ortográficos palmares, desconhecem as concordâncias, os tempos verbais, as regras básicas de pontuação e se refugiam num indigno registo escrito pejado de marcas de oralidade, para além de uma pobreza vocabular própria de crianças de 12 anos, chegando alguns a cometer a proeza de escrever frases sem um único verbo.   (28-03-2025)


https://sicnoticias.pt/pais/2025-09-09-quase-metade-dos-adultos-portugueses-so-consegue-compreender-textos-curtos-revela-relatorio-da-ocde-f77a8dd5