terça-feira, 18 de agosto de 2026

855 - MONSARAZ – HISTÓRIAS E LENDAS ..

 




É com muito gosto e também com alguma emoção que vos apresento este livro, MONSARAZ – HISTÓRIAS E LENDAS, da autoria do meu conterrãneo e amigo Isidro Pinto. Este é um livro que revela não apenas um escritor talentoso, mas também alguém atento ao mundo, às pessoas e às suas contradições. E talvez seja precisamente por isso que estas histórias conseguem chegar tão perto de quem as lê.

 

O que mais me impressionou foi a forma como estes contos, apesar de serem diferentes entre si, conseguem deixar uma marca. Alguns fazem-nos sorrir, outros fazem-nos pensar, outros talvez nos deixem aquela pequena inquietação que permanece depois de fecharmos o livro. E isso, para mim, é uma das grandes qualidades da literatura: não termina necessariamente na última palavra de cada conto nem na última página do livro.

 

Monsaraz e o seu termo são uma terra e arredores que parecem ter sido feitos para criar e  fundamentar histórias. As suas muralhas, as suas ruas, as suas casas, o arrabalde, mas sobretudo a História e a paisagem, parecem guardar em cada canto a memória das suas gentes, e em cada um deles uma história à espera de ser contada.

 

E é precisamente esse património de memórias que o Isidro Pinto nos oferece neste livro onde a força das suas curtas histórias, a clareza da escrita com que as desenrola e sobretudo o cunho e a emoção das personagens, todas elas gentes da terra, gentes do seu convivio, são essas histórias dizia eu que nos cativam através do seu encantado talento de contador, enquanto as histórias, e não apenas uma ou outra,  se tornam o momento marcante da obra, motivo pelo qual e sem hesitar vos convido a todos a lerem com entusiasmo este livro.

 

Ao reunir estas histórias e lendas em livro, humorísticas umas, dramáticas outras, surrealistas algumas mas todas elas sobre a vida alentejana e “monsarense” o autor, o meu conterrãneo e amigo Isidro Pinto, que nasceu para as contar, faz muito mais do que escrever um conjunto de contos. Está  preservando uma parte da identidade de Monsaraz. Está a impedir que determinadas histórias, transmitidas de geração em geração, se percam ou deturpem com o tempo pois, como é sabido, quem conta um conto sempre lhe acrescenta um ponto...

 

Em boa verdade vos digo, há algo de particularmente bonito neste trabalho, estas páginas permitem-nos olhar para Monsaraz não apenas como o lugar extraordinário onde nascemos, ou que visitamos, mas como uma terra que tem voz, memória, personagens, mistérios e histórias. Ler estes contos foi, para mim descobrir uma outra dimensão de alguém que já conhecia. Há aqui imaginação, sensibilidade e, acima de tudo, uma capacidade muito bonita de olhar para as pessoas e para as pequenas coisas da vida e transformá-las em histórias que nos prendem.

 

Ao ler este livro, somos convidados a imaginar outras épocas, outras pessoas e outras vidas. E talvez seja essa a grande magia das lendas: nunca sabemos exactamente onde termina a realidade e começa a imaginação. Mas, no fundo, isso pouco importa. O que importa é que continuemos a contá-las, aspecto em que há muito vira no Isidro Pinto um autêntico mestre. Conheci-o já tardiamente e mor das caminhadas a pé de que ele é um dos melhores guias, ao ouvi-lo sempre que em cada caminhada um ou outro pormenor saía da banalidade, apercebi-me da sua veia literária e do seu cunho magistral para nos contar e esclarecer acerca do que quer que fosse. Em seu abono devo dizer que foi o único guia acerca do qual me apercebi do trabalho de investigação anterior a cada caminhada. Não é para todos....

 

Quero também destacar o carinho e a dedicação que estão por detrás deste trabalho. Um livro como este nasce certamente de muitas horas de pesquisa, de recolha de memórias, de conversa com pessoas e, sobretudo, de um profundo amor por Monsaraz e pela sua história. diria  mesmo ao Isidro Pinto que este livro é também uma forma de deixar uma marca. Uma forma de dizer que estas histórias aconteceram, ou talvez tenham acontecido — mas merecem sobretudo continuar a ser contadas. E é por isso que te quero deixar aqui os meus sinceros parabéns. Parabéns pelo livro, pelo trabalho e, acima de tudo, por teres escolhido preservar e partilhar uma parte tão especial da memória de Monsaraz, a minha terra, a nossa terra.

 

Que MONSARAZ – HISTÓRIAS E LENDAS chegue a muitos leitores e que, através dele, estas histórias continuem a viajar de geração em geração. E que Monsaraz continue, durante muitos e muitos anos, a inspirar escritores, contadores de histórias e todos aqueles que têm a felicidade de por lá passar. Parabéns, amigo Isidro. E muito obrigado por nos ofereceres estas histórias pois “enquanto houver alguém que conte as histórias de Monsaraz, Monsaraz continuará a viver também dentro de nós.”

 

Parabéns pelo livro e parabéns ao escritor ! Por tudo isto, quero felicitar-te, meu amigo. Publicar um livro é sempre um acto de coragem: é pegar numa parte de nós e entregá-la aos outros. E tu fizeste isso de uma forma que merece ser celebrada. Espero que este seja apenas um de muitos livros e que estas histórias encontrem muitos leitores dispostos a rir, a emocionar-se e, sobretudo, a deixar-se surpreender por elas.

 

Obrigado.



domingo, 16 de agosto de 2026

00854 - PARABÉNS MEU AMOR, E OBRIGADO ...

 



Se o destino o tivesse querido terias ou farias hoje, 16 de Agosto, setenta anos, uma idade bonita, linda diria eu, linda como eras, linda como sempre te vi, linda como te recordo, e nós completado no passado dia 9, há uma mera semana, cinquenta e um anos de casados.

 

Alguém não quis que assim fosse, o que tem que ser tem muita força, dizem, não me restando mais que recordar-te, lembrar-te, em cada dia, em cada coisa, em cada banco de jardim, em cada flor ou passarinho, em cada janela, rua, praça, travessa ou esquina por onde tantas vezes deambulámos dando largas aos nossos sonhos, pensamentos, projectos.

 

Por isso gosto de me arrastar de vez em quando por esses percursos, pois em cada um deles um pouco de ti, cheguei até à conclusão que nunca me fartarei desta cidade que percorro sem ver, que inebriado continuo a percorrer contigo e ainda, como dantes, só para ti ter olhos, por isso sorrio sozinho e para mim mesmo, como agora, como tantas vezes, surpreendido por passado tanto tempo anda me fascinares como antanho, ainda provocares em mim uma agitação incontida, emoções fortes, a ponto de por vezes me olhar cuidando estar embriagado, não estando.

 

Embriagado não, atingido sim, e deslumbrado com as reacções que em mim ainda provocas, diria que a tua lembrança é das poucas ou a única coisa que ainda me deixa extasiado, como se estivesse vendo o que não vejo, mas ante mim uma paisagem alegre como alegres eram os dias contigo, os passeios contigo, conversas sem fim, de mãos dadas a dar a dar, tão embaladas elas quão nós na metafisica que tantas vezes nos entretinhamos a esticar a testar, a ver se partia... 

E quem afinal partiu foste tu e eu aqui sózinho esticando a corda, bamba, laça, puxando-a devagar, na miragem de te encontrar na outra ponta, miragem que nunca consigo enxergar, nem ao menos distinguir com alguma clareza por mais pequena que seja, que fosse, cousa em que o sucesso nunca me foi visível, palpável, e vera contradição com tão reais memórias, com tão sólidas lembranças, tão veras e tantas vezes enganadoras pois por mais veras que sejam quando de braços estendidos para elas sempre me escapam entre os dedos como  água em clepsidra.

  

Resta-me hoje, como ontem e amanhã, recordar-te como recordo a cada dia, em cada momento, de olhos marejados lembrando quão feliz me fizeste e que talvez seja egoísmo todo este amor que guardo em mim achando pouco, querendo mais e sempre mais sabendo bem que desta vez, ao contrário do que sempre fizeste, não me poderás satisfazer, fazer a vontade, dar-me aquele abraço, o teu regaço, as tuas mãos, os olhos sempre sorrindo, a boca, essa flor que me matava a sede e que, quanto mais me saciava mais sede me provocava.

 

Soubeste sempre ser única, talvez essa tenha sido a tua maior qualidade, a tua maior virtude.

 

Parabéns amor, e obrigado por tanta felicidade que me deste.