domingo, 16 de agosto de 2026

00854 - PARABÉNS MEU AMOR, E OBRIGADO ...

 



Se o destino o tivesse querido terias ou farias hoje, 16 de Agosto, setenta anos, uma idade bonita, linda diria eu, linda como eras, linda como sempre te vi, linda como te recordo, e nós completado no passado dia 9, há uma mera semana, cinquenta e um anos de casados.

 

Alguém não quis que assim fosse, o que tem que ser tem muita força, dizem, não me restando mais que recordar-te, lembrar-te, em cada dia, em cada coisa, em cada banco de jardim, em cada flor ou passarinho, em cada janela, rua, praça, travessa ou esquina por onde tantas vezes deambulámos dando largas aos nossos sonhos, pensamentos, projectos.

 

Por isso gosto de me arrastar de vez em quando por esses percursos, pois em cada um deles um pouco de ti, cheguei até à conclusão que nunca me fartarei desta cidade que percorro sem ver, que inebriado continuo a percorrer contigo e ainda, como dantes, só para ti ter olhos, por isso sorrio sozinho e para mim mesmo, como agora, como tantas vezes, surpreendido por passado tanto tempo anda me fascinares como antanho, ainda provocares em mim uma agitação incontida, emoções fortes, a ponto de por vezes me olhar cuidando estar embriagado, não estando.

 

Embriagado não, atingido sim, e deslumbrado com as reacções que em mim ainda provocas, diria que a tua lembrança é das poucas ou a única coisa que ainda me deixa extasiado, como se estivesse vendo o que não vejo, mas ante mim uma paisagem alegre como alegres eram os dias contigo, os passeios contigo, conversas sem fim, de mãos dadas a dar a dar, tão embaladas elas quão nós na metafisica que tantas vezes nos entretinhamos a esticar a testar, a ver se partia... 

E quem afinal partiu foste tu e eu aqui sózinho esticando a corda, bamba, laça, puxando-a devagar, na miragem de te encontrar na outra ponta, miragem que nunca consigo enxergar, nem ao menos distinguir com alguma clareza por mais pequena que fosse, cousa em que o sucesso nunca me foi visível, palpável, e vera contradição com tão reais memórias, com tão sólidas lembranças, tão veras e tantas vezes enganadoras pois por mais veras que sejam quando de braços estendidos para elas sempre me escapam entre os dedos como  água em clepsidra.

  

Resta-me hoje, como ontem e amanhã, recordar-te como recordo a cada dia, em cada momento, de olhos marejados lembrando quão feliz me fizeste e que talvez seja egoísmo todo este amor que guardo em mim achando pouco, querendo mais e sempre mais sabendo bem que desta vez, ao contrário do que sempre fizeste, não me poderás satisfazer, fazer a vontade, dar-me aquele abraço, o teu regaço, as tuas mãos, os olhos sempre sorrindo, a boca, essa flor que me matava a sede e que, quanto mais me saciava mais sede me provocava.

 

Soubeste sempre ser única, talvez essa tenha sido a tua maior qualidade, a tua maior virtude.

 

Parabéns amor, e obrigado por tanta felicidade que me deste.