Se o
destino o tivesse querido terias ou farias hoje, 16 de Agosto, setenta anos, uma idade bonita, linda
diria eu, linda como eras, linda como sempre te vi, linda como te recordo, e
nós completado no passado dia 9, há uma mera semana, cinquenta e um anos de
casados.
Alguém
não quis que assim fosse, o que tem que ser tem muita força, dizem, não me
restando mais que recordar-te, lembrar-te, em cada dia, em cada coisa, em cada banco de jardim, em cada flor ou passarinho, em cada janela, rua, praça, travessa ou esquina por onde tantas vezes deambulámos dando largas
aos nossos sonhos, pensamentos, projectos.
Por
isso gosto de me arrastar de vez em quando por esses percursos, pois em cada um
deles um pouco de ti, cheguei até à conclusão que nunca me fartarei desta
cidade que percorro sem ver, que inebriado continuo a percorrer contigo e
ainda, como dantes, só para ti ter olhos, por isso sorrio sozinho e para mim
mesmo, como agora, como tantas vezes, surpreendido por passado tanto tempo anda
me fascinares como antanho, ainda provocares em mim uma agitação incontida, emoções
fortes, a ponto de por vezes me olhar cuidando estar embriagado, não estando.
Embriagado não, atingido sim, e deslumbrado com as reacções que em mim ainda provocas, diria que a tua lembrança é das poucas ou a única coisa que ainda me deixa extasiado, como se estivesse vendo o que não vejo, mas ante mim uma paisagem alegre como alegres eram os dias contigo, os passeios contigo, conversas sem fim, de mãos dadas a dar a dar, tão embaladas elas quão nós na metafisica que tantas vezes nos entretinhamos a esticar a testar, a ver se partia...
E quem
afinal partiu foste tu e eu aqui sózinho esticando a corda, bamba, laça,
puxando-a devagar, na miragem de te encontrar na outra ponta, miragem que nunca
consigo enxergar, nem ao menos distinguir com alguma clareza por mais pequena
que fosse, cousa em que o sucesso nunca me foi visível, palpável, e vera
contradição com tão reais memórias, com tão sólidas lembranças, tão veras e
tantas vezes enganadoras pois por mais veras que sejam quando de braços
estendidos para elas sempre me escapam entre os dedos como água em clepsidra.
Resta-me
hoje, como ontem e amanhã, recordar-te como recordo a cada dia, em cada
momento, de olhos marejados lembrando quão feliz me fizeste e que talvez seja
egoísmo todo este amor que guardo em mim achando pouco, querendo mais e sempre
mais sabendo bem que desta vez, ao contrário do que sempre fizeste, não me
poderás satisfazer, fazer a vontade, dar-me aquele abraço, o teu regaço, as
tuas mãos, os olhos sempre sorrindo, a boca, essa flor que me matava a sede e que,
quanto mais me saciava mais sede me provocava.
Soubeste
sempre ser única, talvez essa tenha sido a tua maior qualidade, a tua maior
virtude.
Parabéns
amor, e obrigado por tanta felicidade que me deste.





