Sim
medicinal, atenuante deste sentimento poético e fantasioso, como no cinema,
como nos romances, mas não quero
de modo algum que vejam nisto uma fraqueza, uma cedência ao sentimento, nunca fui piegas, sou afectuoso mas
não impressionável, um abraço seria apenas mero expediente, um modo de aliviar
a ansiedade, de roubar ao espirito as tristezas que carrego.
Terei
que ser condescendente comigo mesmo, certamente me compreenderão, não costumo
deixar-me afectar por ares românticos, sou um homem com H grande, não um
sentimentalão, não um romântico, antes um durão, porém incomoda-me aquela
coisa, esta coisa, como uma comichão aflitiva no espírito, esta impaciência,
esta perturbação que me faz sentir permanentemente tenso, como se na
expectativa de um perigo iminente, como se eu próprio não passasse dum indivíduo
indefeso perante algo que ignoro, que nem imagino,
mas contra o qual um simples
abraço protegeria.
Não
me considero uma pessoa impressionável, pelo contrário, sou racional, calmo,
tolerante, afectuoso, todavia por
vezes comovo-me, uma comoção ante certas mágoas, uma ou outra aflição, coisas
que me dêem pena, me provoquem angústia, coisas cuja inquietação me tire o
sono, me carreguem os dias de melancolia.
Volto
à minha, só te queria voltar a abraçar, a apertar entre os braços, um abraço
que não fosse uma despedida, um abraço como uma fusão, um abraço libertador,
prolongado, um abraço que deixasse as hormonas aos saltos, um abraço banhado de
ocitocina, um
que soubesse a felicidade e chutasse p’ra longe o cortisol, que me enchesse de paz, um abraço terapêutico.
Porque um abraço é um refúgio seguro, um lugar e um tempo onde jamais encontrei ou encontrarei a solidão. Em mim o abraço abeira-se do misticismo e do transcendente, o abraço confunde-me, o abraço sou eu e um outro. Gosto dum bom abraço. Aspiro sentir um abraço forte, pesado, dado com vontade, nos levante no ar e me sirva de lembrança sempre que precisar de um lugar para descansar.
Isso mesmo. Uma lembrança. Mais do que uma memória. Um
batimento cardíaco.
Um abraço como o daria Lorena Trotsky
Um que não importe quanto tempo dure. Que seja o do
encontro. Que seja até o da despedida. Que seja de verdade.
Não importa se o primeiro, o do meio ou o último.
https://www.youtube.com/watch?v=8H7kmUD6yrU
Lorena Pronsky - ABRAÇO
Um abraço que te ataca as costas e
quebra os medos. Que tenha a magia de quebrar a solidão em partículas tão
pequenas que você não possa mais, nem mesmo, ver o que sobrou no chão.
Um abraço que te faça vibrar de espanto e te retribua de um sopro na vida. Milésimos de segundos onde você entende que a eternidade nada tem a ver com quanto tempo dura um momento, mas com a plenitude com que você está vivendo.
Um abraço, um olhar e um beijo nos olhos. Eu gosto de beijos nos olhos. Sinto que só quem não ama é incapaz de fechar duas pálpebras com a boca.
Eu já tentei. E eu sei o que estou dizendo.
Um abraço que se faça caverna em outro corpo que te proteja da tua respiração quando de tanto cansaço se transforma em vento.
Um abraço. Forte. Pesado. Com vontade. Que te levante no ar e te sirva de lembrança sempre que precisar de um lugar para descansar.
Isso mesmo.
Uma lembrança.
Mais do que uma memória.
Um batimento cardíaco.
Um abraço que destrua todas as mentiras anteriores, todos os versos confundidos com poesias, e que tire por um tempo, das rosas os espinhos.
Não importa quanto tempo dure.
Que seja o do encontro.
Que seja até o da despedida.
Que seja verdade. Não importa se o primeiro, o do meio ou o último.
Não tenho pretensões.
Só te peço um abraço que abra minha alma como um mapa, que me olhe e não fale. Que você me toque e me leia e eu tenha certeza, que esse abraço foi e será somente meu.
Um abraço, mas não qualquer um.
Aquele abraço.
Esse abraço.
Lorena Pronsky
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OS BEIJOS SÃO DADOS NA BOCA
by Elsa Moreno
Creio que os beijos são dados na boca
porque é de lá que brotam as palavras.
Se eu beijasse a ponta dos seus dedos
estaria buscando uma carícia.
Se te beijasse a sola do seu sapato
eu estaria buscando um caminho.
Se eu beijasse suas pálpebras
enquanto você está dormindo,
estaria pedindo permissão
para entrar em seus sonhos,
mas estou beijando seus lábios
porque quero ouvir minhas palavras saindo de você.
(Outra vez…)
Se eu beijasse a planta dos seus pés,
Estaria buscando um passo em falso.
Se eu beijasse a parte interna do seu cotovelo,
estaria procurando seus cubículos.
Se eu beijasse sua sombra,
eu não saberia o que busco,
mas estaria tão perto...
Se eu te procurasse esta noite, beijaria cada estranho
até te encontrar.
(Outra vez…)
Se eu te beijasse,
seria escorregadia sobre um lençol
de carne que transborda e se expande
pelas vigas da minha casa.
Escalaria escorregadia um muro fronteiriço
entre a pele da carne que se injecta
em uma estrutura impessoal chamada nome.
Estaria consumida antes mesmo de abrir os
lábios
se te beijasse e, não podemos fazer nada por esta morte,
por esta morte…
invocaria um cataclismo só ao pronunciá-lo,
e por isso,
por isso,
me mantenho quieta,
quieta,
atenta,
a par,
alerta,
alerta…
por via das dúvidas…
caso houvesse indício
de encontrar o ponto médio entre os muros onde shhh…
não machucar um ao outro,
onde só percebemos
até onde o beijo vai,
antes que a raiva chegue.
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