Agora, passados mais de 7 anos sobre
a sua morte é que a memória me insta me convida me convoca a recordá-la como
nunca o fizera antes.
Não sendo desagradável não deixa porém de ser
estranho, parecendo mesmo que o destino me contraria propositadamente, através
da névoa com que carrega a sua imagem e lhe vai toldando as feições lindas de
que teimo não me desapegar.
Foram muitos anos, é muito ano, é
muito tempo, são contudo muito poucos os dias de que não me lembro mas,
tivessem esses dias sido maculados e mesmo esses lembrá-los-ia todavia como
algo de que por certo alguém nunca se arrependeria.
No outro lado da moeda os dias
felizes dos quais de vez em quando me vem um deles à memória e então, todo o dia
o lembro, te lembro, nos lembro, e lembro como por esses anos a felicidade era
norma e normalidade, quando agora essa mesmíssima constância mais não sustenta
que a saudade.
Como ao tripé de uma máquina fotográfica que
fixamos bem no chão, a fim de que a foto não saia tremida, também a saudade
assentou arraiais e não manifesta intenção de abandonar o local nos tempos mais
próximos pois quando parecia libertar-me do que em ti me prendia a atenção, o
intento, vago, sumiu-se como a água que nos foge entre os dedos e não
conseguimos segurar.
Culpa minha que não previ essa
eventualidade, habituado que estou ao analógico e ao digital, jamais lembrando
as lendárias e misteriosas ampulhetas, ou as clepsidras, onde a areia ou a água
se escoavam como se escoou esta oportunidade que deixei fugir como um tolo a quem
tudo chama a atenção e fustiga a curiosidade menos a sua tolice. Por isso
chorei mais tarde sobre o leite derramado como se tal me pudesse consolar,
tanto ou quanto nos conforta a chuva no molhado.
Tolice e excesso de confiança podem perder-nos, cegar-nos, mais a mais se lidamos com reagentes básicos que nem necessitam duma solução química complexa para entrarem em ebulição. Assim são, assim reagem os hominídeos, os primatas, são reacções, atitudes e comportamentos inatos, são reflexos automáticos, primários, geralmente com resultados que mais tarde viram arrependimento, quantas vezes sem solução.
Atitudes impulsivas e irreflectidas normalmente só nos ajudam em casos de perigo iminente, fora isso comportamentos impensados tornam-se mais destrutivos e prejudiciais do que podemos imaginar. Ele há gente que à mínima faz a trouxa p’ra zarpar.
A prática do diálogo, em especial o cultivo
nobre da retórica são os argumentos ou as armas que devemos utilizar numa
qualquer conversação, pois alimentam uma troca de impressões sadia, elevada, e
sobretudo baseada na racionalidade que a todos nós, e sempre, deve animar.
Constatei ao longo dos anos, ao longo
do tempo que sobre a retórica cai um estigma injusto, fruto da ignorância de
muitos, do preconceito errado de outros tantos, em especial de quem não usa a
cabeça, de quem não está habituado a cultivar pensamentos e juízos de valor bem
questionados antes de volverem palavra de ordem.
Disparar a primeira ideia que nos vem
à cabeça pode ser um tiro nos pés, ou um tiro que acaba saindo pela culatra, de
qualquer maneira será sempre o precipitado atirador a sofrer as mais pesadas penas
pela sua atribulada e impulsiva atitude.
Bem sei que é meu costume esticar a corda,
demasiadas vezes até partir, no entanto nunca permito que caia no esquecimento
o espaço livre para o diálogo e para a retórica, retórica que mais não é que a
arte de bem falar, ou a capacidade de persuadir o interlocutor, e persuadir ou
convencer não significa enganar, manipular ou ludibriar.
A retórica é a prática de um discurso
claro, bem estruturado, convincente, já que pretende sobretudo convencer,
influenciar, mas dentro do espírito grego clássico que somente entendia a
retórica ligada à “logos” ou lógica (verdade e simplicidade) ao “phatos” ou
ligação à emoção, ao discursar emotivo, vivo, e ao “ethos”, que ligava ou
comprometia o orador, o falante, ligando-se ao seu carácter, à sua
personalidade, que dessa forma beneficiava ou não de autoridade moral, á qual “pintava”
de ou com características que o creditavam, que à “priori” lhe atribuíam credibilidade.
O contrário que vulgo encontramos num fala-barato.
“O gesto é tudo” não anda desligado da oratória, da retórica, pois se falarmos com clareza e objectividade, a nossa postura, a linguagem gestual, não devem nem podem contradizer tudo quanto afirmamos.
P’lo menos foi de um modo coerente que
antes de se ir ela espalhou por toda a casa flores, dezenas de flores se podem
ver adossadas às paredes em vasos pendentes e sobre a mesa da varanda, alegres
e alegradas com a Primavera, com os dias de sol, a calmaria e paz, como numa
tela.
Passados anos, encontraremos sobre idêntica
mesa, esquecidos ou descansando, os pincéis dela, as cores, as alegrias e os
motivos, uns exuberantes, outros esquivos, uns ditando o rumo, outros traçando o
destino e, agora que chega a hora, a hora do sol no vértice, sucumbiriam de
tristeza essas flores alegres que alimento célere antes que percam o viço, a
alegria, o sorriso, como eu perdi o meu num Outono velho, triste, que desejava
esquecer e não esqueço.
Como nunca esqueço o pequeno regador
na varanda, sempre cheio, sempre presto a não deixar morrer as flores, para que
floresçam, e vivam e alegrem a vida dos passantes, dos caminhantes e visitantes
ou meros observadores que com tanto desvelo as mimam para que vivam, para que
ditem um futuro vivaço como a cor das suas pétalas, rosadas, esbranquiçadas, esverdeadas,
para que se ergam em pé, erectas sobre os caules e confiantes caminhem no
presente e no futuro, radiosas, quais anjos celestes e preste preste ordenem de
novo o mundo, o futuro, o presente, o dia, o devir, esse devir em que,
lembrando o mestre, o nada é tudo e tudo se transforma numa mudança contínua,
na transmutação dos seres, na passagem da sua imanente inconstância para a
transformação e afirmação continuas das suas existências.
Havemos e devíamos plantar mais
flores e regar mais vezes esses vasos que nunca esqueço e acabei agora mesmo de
regar e, já que estou com as mãos na massa, vou guardar numa caixa os pincéis,
as cores, as telas dispersas antes que este sol matreiro a tudo roube a cor
como o destino me roubou a esperança.


