sábado, 9 de maio de 2026

848 - “TRIVIUM” “LOGOS” “PHATOS” E “ETHOS”

 



Agora, passados mais de 7 anos sobre a sua morte é que a memória me insta me convida me convoca a recordá-la como nunca o fizera antes.

 

 Não sendo desagradável não deixa porém de ser estranho, parecendo mesmo que o destino me contraria propositadamente, através da névoa com que carrega a sua imagem e lhe vai toldando as feições lindas de que teimo não me desapegar.

 

Foram muitos anos, é muito ano, é muito tempo, são contudo muito poucos os dias de que não me lembro mas, tivessem esses dias sido maculados e mesmo esses lembrá-los-ia todavia como algo de que por certo alguém nunca se arrependeria.

 


No outro lado da moeda os dias felizes dos quais de vez em quando me vem um deles à memória e então, todo o dia o lembro, te lembro, nos lembro, e lembro como por esses anos a felicidade era norma e normalidade, quando agora essa mesmíssima constância mais não sustenta que a saudade.

 

 Como ao tripé de uma máquina fotográfica que fixamos bem no chão, a fim de que a foto não saia tremida, também a saudade assentou arraiais e não manifesta intenção de abandonar o local nos tempos mais próximos pois quando parecia libertar-me do que em ti me prendia a atenção, o intento, vago, sumiu-se como a água que nos foge entre os dedos e não conseguimos segurar.

 

Culpa minha que não previ essa eventualidade, habituado que estou ao analógico e ao digital, jamais lembrando as lendárias e misteriosas ampulhetas, ou as clepsidras, onde a areia ou a água se escoavam como se escoou esta oportunidade que deixei fugir como um tolo a quem tudo chama a atenção e fustiga a curiosidade menos a sua tolice. Por isso chorei mais tarde sobre o leite derramado como se tal me pudesse consolar, tanto ou quanto nos conforta a chuva no molhado.


Tolice e excesso de confiança podem perder-nos, cegar-nos, mais a mais se lidamos com reagentes básicos que nem necessitam duma solução química complexa para entrarem em ebulição. Assim são, assim reagem os hominídeos, os primatas, são reacções, atitudes e comportamentos inatos, são reflexos automáticos, primários, geralmente com resultados que mais tarde viram arrependimento, quantas vezes sem solução.

 


 Atitudes impulsivas e irreflectidas normalmente só nos ajudam em casos de perigo iminente, fora isso comportamentos impensados tornam-se mais destrutivos e prejudiciais do que podemos imaginar. Ele há gente que à mínima faz a trouxa p’ra zarpar.

 

 A prática do diálogo, em especial o cultivo nobre da retórica são os argumentos ou as armas que devemos utilizar numa qualquer conversação, pois alimentam uma troca de impressões sadia, elevada, e sobretudo baseada na racionalidade que a todos nós, e sempre, deve animar.

 

Constatei ao longo dos anos, ao longo do tempo que sobre a retórica cai um estigma injusto, fruto da ignorância de muitos, do preconceito errado de outros tantos, em especial de quem não usa a cabeça, de quem não está habituado a cultivar pensamentos e juízos de valor bem questionados antes de volverem palavra de ordem.

 




Disparar a primeira ideia que nos vem à cabeça pode ser um tiro nos pés, ou um tiro que acaba saindo pela culatra, de qualquer maneira será sempre o precipitado atirador a sofrer as mais pesadas penas pela sua atribulada e impulsiva atitude.

 

Bem sei que é meu costume esticar a corda, demasiadas vezes até partir, no entanto nunca permito que caia no esquecimento o espaço livre para o diálogo e para a retórica, retórica que mais não é que a arte de bem falar, ou a capacidade de persuadir o interlocutor, e persuadir ou convencer não significa enganar, manipular ou ludibriar.

 

A retórica é a prática de um discurso claro, bem estruturado, convincente, já que pretende sobretudo convencer, influenciar, mas dentro do espírito grego clássico que somente entendia a retórica ligada à “logos” ou lógica (verdade e simplicidade) ao “phatos” ou ligação à emoção, ao discursar emotivo, vivo, e ao “ethos”, que ligava ou comprometia o orador, o falante, ligando-se ao seu carácter, à sua personalidade, que dessa forma beneficiava ou não de autoridade moral, á qual “pintava” de ou com características que o creditavam, que à “priori” lhe atribuíam credibilidade. O contrário que vulgo encontramos num fala-barato.

 

“O gesto é tudo” não anda desligado da oratória, da retórica, pois se falarmos com clareza e objectividade, a nossa postura, a linguagem gestual, não devem nem podem contradizer tudo quanto afirmamos. 


P’lo menos foi de um modo coerente que antes de se ir ela espalhou por toda a casa flores, dezenas de flores se podem ver adossadas às paredes em vasos pendentes e sobre a mesa da varanda, alegres e alegradas com a Primavera, com os dias de sol, a calmaria e paz, como numa tela.

 

Passados anos, encontraremos sobre idêntica mesa, esquecidos ou descansando, os pincéis dela, as cores, as alegrias e os motivos, uns exuberantes, outros esquivos, uns ditando o rumo, outros traçando o destino e, agora que chega a hora, a hora do sol no vértice, sucumbiriam de tristeza essas flores alegres que alimento célere antes que percam o viço, a alegria, o sorriso, como eu perdi o meu num Outono velho, triste, que desejava esquecer e não esqueço.

 

Como nunca esqueço o pequeno regador na varanda, sempre cheio, sempre presto a não deixar morrer as flores, para que floresçam, e vivam e alegrem a vida dos passantes, dos caminhantes e visitantes ou meros observadores que com tanto desvelo as mimam para que vivam, para que ditem um futuro vivaço como a cor das suas pétalas, rosadas, esbranquiçadas, esverdeadas, para que se ergam em pé, erectas sobre os caules e confiantes caminhem no presente e no futuro, radiosas, quais anjos celestes e preste preste ordenem de novo o mundo, o futuro, o presente, o dia, o devir, esse devir em que, lembrando o mestre, o nada é tudo e tudo se transforma numa mudança contínua, na transmutação dos seres, na passagem da sua imanente inconstância para a transformação e afirmação continuas das suas existências.

 


Havemos e devíamos plantar mais flores e regar mais vezes esses vasos que nunca esqueço e acabei agora mesmo de regar e, já que estou com as mãos na massa, vou guardar numa caixa os pincéis, as cores, as telas dispersas antes que este sol matreiro a tudo roube a cor como o destino me roubou a esperança.