domingo, 30 de setembro de 2012

127 - EVOLUÇÃO…..........................




Claro que não sou bipolar, mas durante os primeiros tempos de vida acreditei piamente que o era pois toda a gente o gritava. Só mais tarde me dei conta de um feitio que oscilava entre o do pacato avô Bernardo e da hiperactiva avó Glória.

Os ademanes e outros motivos que engalanavam a farda de meu avô, tais como os botões amarelos do dólman e as dragonas douradas,  terão seduzido primeiro, e conquistado depois, o coração da avó Glórinha.

Telegrafista, Bernardo chegou a ser o homem mais importante do concelho de Paços de Brandão, onde montaram loja e casaram, ele chefe e funcionário único do posto do telégrafo, mister de onde lhe advinha a tranquilidade cultivada, habituado que estava a esperar horas pelo torna mensagens à volta do mundo.

Mais distanciado de Glória era inimaginável pensá-lo, galega, alta,  forte, e a quem os irmãos apelidavam, brincando, de “grafonola” ambulante, sendo que o mais novo, Francisco, regressado gazeado de terras de França, quando a ouvia falar como quem não se cala nem disso faz intenção, deitava as mãos à cabeça, disparava “machine gun, machine gun, machine gun” desaparecendo da vista, às vezes por dois ou três dias. Num desses dias afogou-se no Douro, mas nem assim minha avó se calou…

Meu avô primava saber as noticias do país e do mundo, que primeiro mastigava para depois vomitar numa fitinha cheia de pontinhos e traços que com um prego afixava à porta do barraco. Nessa altura alcandorara-se a telegrafista da estação dos comboios (acumulando mais um tachinho) e, para que desse conta dos dois recados, armaram-lhe uma barraca encostada à estação, para onde os fios do telégrafo civil também foram transmutados.

Às tantas aprendeu mesmo a trabalhar em simultâneo com as duas mãos, conta-se que avisava Montevideu que o comboio saído de Stª Apolónia iria chegar com duas horas de atraso, ou a estação de Porto Campanhã de que o vapor de Caracas com destino a um cruzeiro pela Europa, o famoso “Admiral”, abandonara debaixo de festa o porto de Buenos Aires e se atrasaria um dia.

Ter nas mãos as agulhas do mundo moldou-lhe a placidez, que contrapunha dia a dia à permanente agitação de Glória. Completavam-se. Completaram-se.

Eu perdia-me brincando entre as carruagens estacionadas na estação e a ferrugem do chão. Cheirava a ferroviário e a alfarroba, entre cujos fardos, subindo ou descendo, vivia as aventuras de “Thierry La Fronde” o Robin dos bosques francês que via na Tv a preto e branco, (canal único e onde aparecia por vezes um senhor bem posto que era sempre muito aplaudido), Tv que para visionarmos nos obrigava a uma despesa mínima, pois o salão era repartido pela junta de freguesia, para bailaricos, e a taberna do senhor Raul, que me cobrava uma gasosa que eu estendia até às vinte e três horas, hora a que fechava por força dos cívicos e do normativo .

O resto dos filmes, que geralmente ficavam por ver, acabava-os eu na manhã seguinte, fugindo dos comboios e galgando os fardos de alfarroba da menina Marianita, ou de aparas de cortiça do senhor Cascalho, que tinha um D. Elvira com a buzina roufenha e, mais tarde, haveria de comprar por catálogo, vindo da Checoslováquia, um lustroso Skoda, chegado com defeito ou mania grave, não sabia parar.

Cansado de brincar agarrava-me a uma fatia de broa molhada barrada com açúcar mascavado e entretinha-me cariando os dentes…

Antes do advento da Tv divertia-me espiando minha tia Francisca, irmã de minha mãe, que vivia connosco, e que tomada de amores por um bacharel, passava as horas namorando-o ao telefone, contorcendo-se para que eu a não ouvisse nem visse de caras, presa a um fio alongado até Coimbra.

Aos sábados vinha o bacharel até cá, contorciam-se os dois entre as ombreiras da porta de entrada, no meio de risinhos e beliscões, que eu bem os via, bastava para tanto que os meus pais se aconchegassem de ouvidos colados à telefonia, rezando uma novela Venezuelana, que os deixava em pranto até ao dia seguinte, pois terminava comummente a meio de uma desgraça ou de um mistério por esclarecer.

Meu pai era guarda-fios e, com uma equipa, estendia linhas telefónicas por toda a margem norte do Douro, minha mãe costureira no “Theatro Municipal”, que acumulava com limpezas na “Rádio Voz Popular”, de cujas novelas era devota.

Na senda de meu avô e de meu pai eu trabalho na Telecom e monto antenas por todo o norte do país. “I Connect People”, ligo as pessoas. Sem fios, meu avô Bernardo havia de orgulhar-se de mim, ao invés de ponto traço ponto eu desbravo caminho à voz à escrita, e à imagem, pelo espectro infinito das rádio frequências ou das fibras ópticas. Modernices.

Casei-me em terceiras núpcias com uma loura de Vila Real, autoritária e versada em leis, temos dois rebentos lindos, ele louro como a mãe, ela morena como eu.

O rapaz estuda informática, dizem que é um emprego com futuro.

Ela passa os dias debruçada sobre o computador namorando a Net, é agitada, como a mãe e a trisavó Glória, e até fala com os aviões !

Ele tal e qual o trisavô Bernardo, calmo, plácido, meditativo.

Eu só há pouco desvendei o significado dos termos bipolar e hiperactivo.

Frequentei as “Novas Oportunidades” sabiam ?

Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
xau

bjssssssssssssssssssssssssssssssss

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