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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

133 - O MEU 25 DE NOVEMBRO ...............................


  
Escassos meses após a eclosão do 25 de Abril tinha já fortemente inoculado, como devem calcular, o vírus da liberdade que a todos (?) contagiou, e mesmo que assim não tivesse sido decerto não teria resistido muito mais tempo ao contágio.

O golpe das Caldas, poucos dias antes, dera-me para bons presságios, o livro “Portugal e o Futuro”, do general Spínola, ainda que lido à pressa, só confirmara as minhas impressões e agoiros, as conversas de sindicato, a tertúlia da época apesar da situação condicionada em que se vivia, tinham feito germinar em mim alguma sensibilidade política, e as leituras do Jornal do Comércio e do Jornal do Funchal, menos corroídos pelo lápis da censura, permitiam-me elaborar sobre a situação que se vivia um mosaico mais próximo da realidade. Como muitos jovens de então habituara-me a ler nas entrelinhas dos jornais, lia muito, nada escapava, revistas e livros permitidos, pois os proibidos, esses, eram ávidamente procurados, trocados, emprestados, lidos, digeridos, comentados e secretamente publicitados.

Melhor teriam feito Salazar e Caetano se tivessem pura e simplesmente esquecido o “índex”, a proibição de determinados autores e obras só as tornava mais apetecidas, veja-se o contraste com os dias e em especial com os jovens de hoje, que com toda a liberdade disponível, a que poderão somar todo o tempo do mundo, pura e simplesmente não pegam em leitura nenhuma, de modo que não obstante as condições de liberdade de que desfrutam, são no aspecto político, de longe muito mais ignorantes que os da minha geração. (As estatísticas o confirmam, eu somente me limito a lembra-lo).

Apesar da minha oposição à guerra colonial que se travava nas três frentes de África, que poderia, a exemplo de muitos amigos meus, ter-me tornado parte da comunidade portuguesa em França, ou na Holanda, eram os “Fuzileiros” a força que consciente ou inconscientemente alimentava os meus sonhos de jovem, daí que com expressa autorização paterna tivesse ingressado na Marinha, onde assentei como voluntário mal tinha acabado de fazer os meus dezoito anos.

Marinha significava Lisboa, aventura, viagens, mundo, e por aqueles dias a capital era um verdadeiro caldeirão borbulhante, um autêntico vulcão de movimentações políticas, pelo que os meses que se seguiram ao 25 de Abril foram de intensa actividade, manifestações, comícios, golpes e contra golpes, tendo eu passado por tudo isto enquanto militar, e participado mesmo em algumas acções como o 28 de Setembro, o 11 de Março, e por centenas de " manif’s " a que perdi o conto, dezenas de reuniões de soldados e marinheiros, e digerido em passo de corrida toda a cartilha da esquerda à extrema-esquerda.

Uma vez consegui mesmo mobilizar quatro ou cinco autocarros pejados de fuzileiros, que se deslocaram a Évora, para apoiar não sei que manifestação de operários e camponeses alentejanos, certamente vez única em que a esta cidade foram dados a ver de uma vez só tantos “filhos da escola”, ou da “Briosa”. Diga-se em abono da verdade que no café Arcada não coubemos todos à uma, pelo que tivemos que aguardar vez, em fila, como já era hábito fazermos nos refeitórios das unidades e das bases de onde viéramos. Nunca tantas gaivotas tinham sido vistas em terra, ainda por cima tão longe do mar.

A injustiça para com o Chile e Salvador Allende estava viva no espírito de todos, pelo que havia que evitar em Portugal, idênticas manobras, o que significava que ao menor alarme aí estavam os soldados e marinheiros, filhos do povo, disponíveis, armados e gritando; “a reacção não passará”, “soldados unidos vencerão”, “o povo unido jamais será vencido”, e tantas outras palavras de ordem que fizeram escola e ficarão para sempre gravadas na memória de tantos de nós.

Nem sei como tantas dessas manifestações e tantos dos controlos de pessoas e viaturas não redundaram em mais mortes, foi puro milagre, já que o mínimo incidente era suficiente para gritar; reaccionário ! E atirar a matar, pois as armas, essas, na época andavam quase sempre connosco, à bandoleira. Mas o 25 de Novembro só o entendi passadas mais de duas décadas, o que não obstou que tivesse nesse dia, generosamente, disponibilizado a minha pessoa, e a minha vida, para lutar pela revolução que nos tragava.

Eu, e tantos outros como eu, creio sinceramente não termos percebido na altura qual o lado correcto a defender. Confiava-se nas chefias, pronto, chefias essas que manobravam nos bastidores os cordelinhos da política, que a dominavam, ocupavam, que ditavam o percurso do poder, sempre ou mais que nunca ondulando como as bandeirinhas, que mudavam com a mesma facilidade com que o vento muda de sentido, e que dispunham de nós, a seu bel-prazer, quais peões num tabuleiro de xadrez. Só mais tarde percebi o verdadeiro significado da expressão “carne para canhão”, e muito mais tarde ainda entendi porque não recrutam homens já feitos e maduros, antes jovens, tão generosos quão ignorantes da verdadeira razão por que procurarão a honra, serão patriotas ou darão as próprias vidas por causas quantas vezes a léguas dos seus princípios.

Pelo que, animado de tão justos propósitos, eu e mais cerca de cem camaradas de armas oriundos de diversos aquartelamentos e companhias, passámos o dia fatal na “Casa do Marinheiro”, ali para a Rua do Arsenal, armados até aos dentes, tudo acompanhando pela rádio e Tv, e pelas comunicações vindas do nosso comando, nervosos, fumantes, expectantes, na perspectiva de entrarmos em acção, em combate, e só noite dentro, por ordens sensatas do comandante e Almirante Rosa Coutinho, mais conhecido por “Almirante Vermelho”, desmobilizámos e regressámos aos quartéis.

Pergunto-me muitas vezes a mim mesmo que teria sido de mim e dos meus companheiros, se a sensatez desse Almirante não tivesse prevalecido ? Há mesmo quem afirme ter sido medo do confronto, já que na realidade era o poder que estava em causa, o governo da nação, a viragem de rumo, a continuidade ou a morte da revolução e o encarreirar nos trilhos da democracia.

Quantos de nós teríamos tombado ?  Quantos camaradas teriam morrido ?
Porquê ? Que democracia interrogo-me agora.
Por que causa ignorada ?

Sim, porque no reboliço dessa época, saber se a nossa causa era a justa, era tão fácil como hoje desvendar a chave do totoloto, estava-se com um lado ou com outro, como calhava estar-se no passeio esquerdo ou direito de uma qualquer rua.

Por sorte ou por mero acaso uns venceram, mas, tendo vivido a febre por dentro, ainda hoje acredito que só por casualidade tal aconteceu, só por isso.


Ou por medo...  

P.S. – Texto já anteriormente publicado no jornal Diário do Sul,  em Novembro de 2000 - Évora



segunda-feira, 5 de novembro de 2012

130 - MARINHANDO EM TERRA SECA …..............


Depois do esfuziante cumprimento sentou-se só e calmamente naquela mesa que ali vedes. Sorumbático frente ao café que arrefecia, hirto que nem uma estátua, mirei-o então de alto a baixo não sem alguma acrimónia.

Os mesmos olhos acutilantes e vivaços. A mesma cara abolachada, o nariz adunco denunciando provável sangue judeu, a mesma boca sempre sorridente, trocista, zombeteira.

Somente o cabelo, todo branco, nele apelava ao respeito pela idade, de resto nem um pé de galinha nos cantos dos olhos, nem uma comissura na boca, nem uma ruga, ninguém nos diria praticamente da mesma idade, nós, que brincáramos juntos.

Há muito que o não via, talvez desde os nossos “ dix-huit “.

Ele fugira do mau estudante que era e do pai, que o quisera obrigar a pastorear vacas e alma de uma pequena empresa familiar, leitaria e queijaria  …

 coisa que decerto nem lhe preencheria os sonhos nem estaria nos seus horizontes.

E o café arrefeceu à mesma velocidade e têmpera que a vida lhe correria no cérebro. Ali quedado, ali parado, ali sozinho.

Estive décadas sem novas dele, somente há um ano ou pouco mais reatáramos.

Fizera-se no fim da fuga marinheiro e, nesse mar calcorreara calçadas e subira degrau a degrau uma escada que não se abre a todos nem a qualquer um.

Soube-o uma vez em Bissau a bordo do NRP Cmt. João Belo. Mas depois de um mês inteirinho no mato, ao chegar apenas duas garrafas de visqui e um cartão de visita: Do 2º sargento artilheiro Carvalho Araújo, com um abraço. 

Bebi-as nessa noite com a preta que me lavava a roupa, e por ela soube que o Carvalho se guindara a cabo, assentara âncora como sargento, e se preparava, coisa inédita, a ingressar na Escola de Oficiais. Para um mau estudante não estava nada mal, e o 25 de Abril, soube-o mais tarde, abrira aos sargentos as portas da Academia Naval, até aí exclusivas de uma casta de classe superior, diziam-se.

Apesar das limitações da época, da falta de internet, somente inventada  muitas décadas depois, as pretas da base e de Bissau eram tão eficientes quanto hoje o é o Gmail, a informação circulava veloz em circuitos privilegiados e tudo se sabia, fosse na província fosse na metrópole.

Mais das vezes o Carvalho nem forçara nada, limitara-se a aceitar convites dos diversos comandos onde estava para frequentar a especialidade, a Escola de Sargentos, a Academia Naval. Cumprindo ordens superiores arrastara-se enganando o tempo que lhe sobrava e cujo desfastio havia que alimentar.

Como artilheiro, artilheiro-mor, oficial artilheiro e Capitão-tenente, correu este mundo e o outro. Em cada porto uma namorada, em cada banco uma conta. Contou-me ele, não invento. Bom vencimento, bons subsídios, majorados se embarcado, mais majorados ainda se em porto estranja. Cama mesa e roupa lavada. Ganhava mais que gastava, aliás nem tempo tinha, infelizmente, onde gastar a soldada.

Há uns anitos perdera-se de amores por uma lisboeta, e andar embarcado começara a doer-lhe. Uma mulher em cada porto é frase feita e bonita. Conhecia realmente muitas mulheres, mas na verdade dera-se conta de que conhecer mesmo não conhecia verdadeiramente nenhuma.

As universidades portuguesas reservam, por lei, percentagens para alunos dos PALOP, mas também para militares, que aliás desfrutam nelas de outras incomparáveis vantagens.

Uma vez mais o comando solicitava aos homens que avançassem preenchendo as vagas de lei. Carvalho, desejoso de se fixar em Lisboa, deu um passo em frente. Ganhou a inscrição e mais uma promessa de promoção.

Segredara-me que tanto privilégio começara a aborrecê-lo, mas, havia que aguentar, em nome da nação.

Assim foi que por desenfado, passados anos se licenciou em Geografia, coisa mais indicada para um marinheiro dos sete mares nem havia, atirou-me irónico.

O namoro com a dita e alfacinha senhora foi correndo ao ritmo da licenciatura, melhor esta que aquele e, no fim, da licenciatura, não do namoro, nova imposição do comando, nova inscrição, desta vez um mestrado em SIG, Sistema de Informação Geográfica, (Geographic Information System), e, antes que desse pela maré estava arvorado em Capitão-de-fragata.

Foi só então que se quedou pensando nos dias alvoroçados entre a monarquia e a 1ª República, no “foge cão que te fazem barão ! fugir para onde ? se me fazem visconde ? “.

Tantos galões assustaram a senhora D. Mónica que, não acreditando nas boas intenções de tão prendado marujo, antes crendo ser mais um entre tantos por todo o mundo, lhe calçou uns patins, que é como quem diz o colocou à vela e ao largo.

Assim o meu amigo Carvalho Araújo se viu oficial artilheiro de armas tão tecnológicamente avançadas que delas somente ouviu falar, sabendo-as sem paralelo com os exemplares museológicos que equipam as fragatas em que navegou.

Pensou, pensou, e se bem o pensou melhor o fez, antes que o promovessem a Capitão-de-mar-e-guerra e o prendessem ao ministério e a estratégias e tácticas navais, cousa a que o alto oficialato adora brincar, ele que sempre fora homem de espaços largos, quer nos oceanos quer atrás das vacas, deu de frosques.

Num ápice se inteirou da reforma e rumou a cinquenta nós e levado por ventos favoráveis, à terra que o viu nascer.

Decididamente não estava preparado para a reforma. Nem para o país ou a província, muito menos para a aldeia que Évora é.

Net’s, telemóveis e hotmail’s não lhe encurtam nem aproximaram os amigos. Depois de meia dúzia de chamadas ou mensagens, olá como vais então isso como tá a correr etc. e tal, a realidade impôs-se.

Está a milhas, terrestres ou marítimas dos amigos mais chegados, em contrapartida a solidão cai-lhe em cima sem contemplação e com o peso de um iceberg…

Foi ao banco, sacou umas massas de uma das contas adquiriu uma quinta em crise e investiu em bovinos, holandeses, raça leiteira de primeira, quase cem cabeças.

Agora, chova ou faça sol é vê-lo todos os dias desbobinando memórias e pastoreando as vacas…


Ninguém diga desta água não beberei…