Mostrar mensagens com a etiqueta fuzileiros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta fuzileiros. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 20 de julho de 2016

364 - EXÉRCITOS, GUERRAS, INSTRUMENTOS...


A queda no Montijo de uma antiguidade ainda antes de se erguer nos ares, e um golpe de estado atabalhoado, que foi numa noite meticulosamente investigado, combatido e desmontado, levaram-me a entreter-me com este assunto, o do poder e dos exércitos que o servem, estendendo voluntária e benevolentemente a minha paciência e o meu altruísmo para com o Paulo e o Bruno, o primeiro um jovem adulto que me pareceu pleno de bom senso, cordato, comedido, com boas bases e que decerto muito aprenderá no futuro, o segundo um adulto jovem, meu ex-aluno, que acha nada mais ter a aprender por já saber tudo e que acabou de matar o pai (o pai Édipo, não vá ele acusar-me de o estar a denegrir), portanto caminhando a passos largos para a emancipação. Quanto ao Paulinho, não fora meu aluno mas praticamente andei com ele ao colo, daí a intimidade que uso para com ele, espero não me leve a mal por isso.

Ambos fazem carreira no exército, o primeiro suou para tirar formação superior e está maduro para aprender o que é a vida, o segundo suponho que não teria encontrado saídas profissionais e aproveitou o facto de ser bom paraquedista (neste momento é dos melhores do mundo na sua classe), para se atrelar à boleia de um grupo (militar) de representação das forças armadas e que levam o seu garbo e prestígio daqui até além-fronteiras. Tal como o fazem os “Asas de Portugal” ou os “Red Arrows” ingleses, da RAF, e os “Thunderbirds” americanos da USAF. Nestes jogos dos militares por vezes é até induzida e acicatada a concorrência e rivalidade entre as diversas forças de uma mesma nação, paraquedistas, comandos e fuzileiros, num despique táctico para consumo popular e que desperta simpatias, vocações, e facilita a mobilização dos mancebos para esses corpos de “elite” especiais. Por outro lado os tempos modernos exigiram ou impuseram a necessidade de amenizar a carga psicológica negativa dos exércitos, corpos vocacionados para a acção violenta cujo lado negro há que disfarçar, enquanto em simultâneo se atiça nos jovens o desejo de participação e mobilização no grupo, coisas que a psicologia explica, e o grupo é um monstro ávido de carne para canhão. As forças armadas são um consumidor por excelência de juventudes, ingenuidades, complexos, perturbações, taras e vidas. 


A talho de foice direi que só a IGG, primeira grande guerra, levou a eito duas gerações de mancebos tendo deixado a GB, e a França, quase sem futuro, assunto que levou os respectivos parlamentos a ponderar a hipótese de levar a tribunal e à pena capital os generais responsáveis pela chacina, emendo, pela condução da guerra, contudo, todavia mas, porém, dado que pessoalmente nenhum deles matara ninguém, nunca matam, quem o faz são os oficiais de patente inferior, e os sargentos e praças, pelo que já devem estar a adivinhar o resultado de tal ofensa à classe superior. Sim, pois, ficou tudo em águas de bacalhau, a classe superior eram eles, mas vale a pena debruçarmo-nos detalhadamente sobre esse assunto do ponto de vista histórico. O assunto é somente tratado em livros de história muito especializados e particulares. Toda a informação sobre o caso foi apagada de arquivos, bibliotecas etc. Este caso contrasta fortemente com a publicidade dedicada aos julgamentos de Nuremberga após 1945. Na GB, e em França, este escândalo das chefias militares durante a IGG e que após 1918 levantou acesa celeuma foi completamente abafado.

Enquanto uns abafam as coisas outros fazem justiça na hora, cada um actua como mais lhe convém, a verdade é que mais cedo ou mais tarde todos os países ou nações acabam deixando-se envolver em derivas fundamentalistas, como o pode ser até a insignificante "higiene e limpeza" (para a qual criámos uma policia peculiar, a ASAE), tudo reflexos insípidos do politicamente correcto, reflexos da idolatria das leis, que espelham e tomam vida própria, pairando sobre a própria realidade, e que caiem, caímos, caindo-se no excesso dos formalismos legais, culminando no culto da fatuidade, do homem vazio, da vacuidade, conduzindo os países, as sociedades e as civilizações à decadência e deliquescência.

Esta decadência, a história no-lo tem mostrado e demonstrado, leva a que as nações mais fortes, e também com menos escrúpulos, estejam sempre prontas a devorar as mais fracas e a espezinhar os valores que se oponham à sua ascensão ou hegemonia, ao seu êxito, ao seu crescimento, para o que se borrifam na sabedoria, veja-se na UE a supremacia que a Alemanha a todo o custo não se cansa de tentar adquirir e ao qual nós portugueses somos sobremaneira sensíveis.   

Amemos ou não, admiremos ou não os homens fortes, ou os tiranos da nossa história recente e até da mais antiga, não é isso que está em causa, mas sim a verificação de factos objectivos, da verdade, ora a verdade diz-nos que foram ou são precisamente eles, esses tiranos ou homens fortes quem baliza, constrói, conduz, faz, determina ou direcciona essa teia complexa que é a história. Sem eles não haveria impérios, sociedades, civilizações, não existiriam tendências, movimentos, influencias, ideologias, ideais, utopias. 

Alguns, senão a maioria, ou todos, gravaram o nome na história com sangue, seu e dos demais, devido à força, aos excessos, a exageros, à torpeza e bestialidade, de qualquer modo em virtude do seu mérito, mérito de líderes, mérito de condutores, mérito de conquistadores. Deixo-vos uma lista deles, sem especial simpatia por nenhum em particular, estamos, recordo-vos, a relembrar factos objectivos, comprovados, verdadeiros. E a lista, incompleta e aleatória começa por Gengis Kan, Alexandre, César Augusto, Napoleão, Nelson, Estaline, Salazar, Hitler, Churchill, Franco, Pinochet, Cabral, o Gama, Shaka Zulu… Enfim, puxem vocês pela imaginação que a cerveja está a perder o gás. 
        
E aqui chegados será hora de repensar o como, como é que esses homens manobraram, como conseguiram, como foi que fizeram ? Naturalmente através do poder, com recurso às vantagens que o uso do poder confere, com recurso à força, ao seu uso exagerado, abusando dos parâmetros internacionais estabelecidos, se é que os havia ou se já os havia. De qualquer modo existe sempre uma linha invisível esticada, ou traçada pela moral, pela ética, pelo respeito que os demais nos devem merecer. É aqui que a história entra em acção e quer Heródoto quer Homero nos dão conta da organização do poder nas antigas cidades estado gregas, o aparecimento da força organizada, o aparecimento dos primeiros exércitos de Atenas e Esparta, dos ritos e rigores espartanos, os exemplos de organização, abnegação e superação, “ A Retirada dos Dez Mil” uma verdadeira epopeia contada por Xenofonte, ou “A Batalha Das Termópilas” em que os gregos liderados pelo rei Leónidas, de Esparta enfrentaram o exército persa cinquenta vezes superior e demonstraram uma coragem excepcional. São apenas dois exemplos impossíveis de esquecer de entre milhares deles que a história nos legou.

Admiremos pois o nascer da vontade, o nascer da organização, o nascer da força, do poder, pois assim nasceram os exércitos como instrumento desse poder, dessa força, dessa vontade, um longo braço, uma lança mais comprida, uma espada de lâmina mais afiada, uma ferramenta, o exército como instrumento ao serviço do poder. Por todo o mundo existem testemunhos, arqueológicos ou não, como o exército de terracota, na china, de uma época cerca de 200 anos AC, dos de Cortez e Pizarro no México, cerca do ano 1500, de Napoleão na Europa e que perdeu em Moscovo a campanha da Rússia. Apesar da desigualdade e variedade entre todos estes exércitos não existem entre eles diferenças substanciais, a noção subjacente às suas géneses, a formação desses exércitos, do grego, mais defensivo que ofensivo ou expansivo, muitas vezes punitivo, ao romano que tinha uma função bem diferente e obedecia a uma estratégia bem delineada, o que nem acontecera com Alexandre o Grande, outro conquistador, outro fazedor de impérios. Roma planeava, Alexandre avançava e conquistava pensa-se que talvez e um pouco aleatoriamente, é verdade que tinha um objectivo final cuja estratégia contudo parece nunca ter obedecido a um qualquer plano. Alexandre não dispunha de Tv, nem de fibra óptica ou canais por cabo, entretinha-se e alimentava o seu ego conquistando, avançando, pisando, demolindo.

 Ora onde eu quero chegar é à conclusão de que os exércitos, longe do que os meus amigos Paulo Figueira e Bruno Batista pensam, não são reservas de honor ou viveiros de abnegação, são cilindros de amassar, triturar, torturar, e, ao contrário dos exércitos (em sentido figurado) do AMI ou dos Médicos Sem Fronteiras, avançam destruindo, cortando, decapitando, chacinando, matando. Naturalmente abro uma excepção para o “Exército de Salvação” claro. Devo aqui fazer notar que ao mesmo exército podem em tempos diferentes corresponder diversas facetas, assim, por exemplo, o movimento de libertação MPLA transformou-se após a independência num exército ao serviço de um grupo, uma classe, e hoje não liberta, antes domina as populações. Este exemplo é válido para milhentas situações. O exército russo libertou o povo do jugo czarista para se transformar no Exército Vermelho, que libertou a Europa do jugo nazi, para voltar a dominar (e não a libertar) para lá da cortina de ferro, com os exemplos negros que a história aponta da invasão da Hungria (1956) e da Checoslováquia (1968). Quantas e quantas vezes movimentos e exércitos de libertação viraram exércitos de ocupação e de subjugação das populações… Neste item um parêntesis para o exército colonial português que, de dominação se transformou em exército de libertação em 25 de Abril de 1974, como classificá-lo agora deixo ao cuidado de cada um pois a mim cheira-me a comida, a lateiros, a oportunistas e classistas que o povo já esmifrado com impostos alimenta sem proveito. Todos sabem que sou defensor da neutralidade, ao menos não faremos figuras como a que fizemos na India portuguesa em 1961…
Ah e a abnegação ?! A abnegação, a honra, isso são particularidades ou peculiaridades que de modo singular podem acometer qualquer um em qualquer momento e em quaisquer lugares, não são de modo nenhum atributos exclusivos dos exércitos ou dos militares, embora não negue que o convívio nas matanças, a camaradagem como vocês diriam, forje amizades sólidas e profundas. A abnegação, os actos heróicos, quantas vezes não viram eles de sentido, Nasser, Saddam Hussein, Kadhafi, para citar somente estes, há décadas avançaram na frente de exércitos libertadores, veja-se onde depois essa libertação foi desaguar ou descambar… O mesmo se pode dizer do Exército Bolivariano de Libertação, que Hugo Chávez enfrentou e Nicolau Maduro está prestes a provocar dando azo a um banho de sangue… Estava a esquecer o exército internacionalista e proletário cubano, o tal que foi para Angola ajudar o MPLA mas que nunca faria o mesmo pela FNLA ou pela UNITA, exército que foi acusado de tudo e de mais alguma coisa, como se os contrários não fossem iguais ou piores… Curioso é constatar como todos eles se auto apelidam ou intitulam de “libertadores” ou “populares” quando na verdade se limitam a cumprir a função para que foram criados, defender uma classe, uma casta, uma etnia, uma elite… Quanto ao internacionalismo cubano, não se arreliem, tem forças que o equilibram, da Alemanha à Suécia há sempre gente disponível a apoiar com milhões alguma veleidade que os ocupe, uma fundação, um país, um filantropo, um banqueiro … Contra os contras, a favor dos contras, contra os afegãos, a favor dos afegãos, contra os palestinianos, a favor dos palestinianos, contra o islão, a favor do islão, contra os turcos, a favor dos turcos, haverá sempre gente que matará a fome com o pré da tropa, que não discutirá ordens, que julgará estar lá como reserva moral da nação, que acreditará fazer parte de um grupo de homens abnegados, íntegros, honrados, patriotas, já em gaiato eu via isso nos filmes a preto e branco que metiam a Ku Klux Klan ao barulho contra um xerife sem estrela…

Os exércitos não são, como vedes, mais que tenebrosas máquinas de poder, veja-se o exemplo do uso que Pinochet dele fez, ou Estaline, para não me alongar em exemplos em que a história é fértil. E os valentes soldados ? Os soldados, até se aproximarem dos postos mais elevados nunca passarão de simples mandaretes, paquetes, marçanos bem pagos, ferramentas, instrumentos a mando de outrem, claro que a estratégia, ou antes a táctica está em fazer pensar a esses subordinados que são a reserva moral da nação, que são os patriotas dispostos a morrer pela pátria, que são o exemplo de cidadania, de integridade, quando no fundo não passam dos criados de quarto das classes possidentes, há sempre uma classe no poder, o poder nunca anda em roda livre, veja-se o que se passou há bem pouco tempo com o exército e os militares turcos, carne para canhão nas mãos de um louco oportunista…

Nem todos se podem chamar Napoleão, ou César, ou Nelson, ou Hitler…. Alguém tem que ir a correr fazer os recados que lhe mandarem….



segunda-feira, 26 de novembro de 2012

133 - O MEU 25 DE NOVEMBRO ...............................


  
Escassos meses após a eclosão do 25 de Abril tinha já fortemente inoculado, como devem calcular, o vírus da liberdade que a todos (?) contagiou, e mesmo que assim não tivesse sido decerto não teria resistido muito mais tempo ao contágio.

O golpe das Caldas, poucos dias antes, dera-me para bons presságios, o livro “Portugal e o Futuro”, do general Spínola, ainda que lido à pressa, só confirmara as minhas impressões e agoiros, as conversas de sindicato, a tertúlia da época apesar da situação condicionada em que se vivia, tinham feito germinar em mim alguma sensibilidade política, e as leituras do Jornal do Comércio e do Jornal do Funchal, menos corroídos pelo lápis da censura, permitiam-me elaborar sobre a situação que se vivia um mosaico mais próximo da realidade. Como muitos jovens de então habituara-me a ler nas entrelinhas dos jornais, lia muito, nada escapava, revistas e livros permitidos, pois os proibidos, esses, eram ávidamente procurados, trocados, emprestados, lidos, digeridos, comentados e secretamente publicitados.

Melhor teriam feito Salazar e Caetano se tivessem pura e simplesmente esquecido o “índex”, a proibição de determinados autores e obras só as tornava mais apetecidas, veja-se o contraste com os dias e em especial com os jovens de hoje, que com toda a liberdade disponível, a que poderão somar todo o tempo do mundo, pura e simplesmente não pegam em leitura nenhuma, de modo que não obstante as condições de liberdade de que desfrutam, são no aspecto político, de longe muito mais ignorantes que os da minha geração. (As estatísticas o confirmam, eu somente me limito a lembra-lo).

Apesar da minha oposição à guerra colonial que se travava nas três frentes de África, que poderia, a exemplo de muitos amigos meus, ter-me tornado parte da comunidade portuguesa em França, ou na Holanda, eram os “Fuzileiros” a força que consciente ou inconscientemente alimentava os meus sonhos de jovem, daí que com expressa autorização paterna tivesse ingressado na Marinha, onde assentei como voluntário mal tinha acabado de fazer os meus dezoito anos.

Marinha significava Lisboa, aventura, viagens, mundo, e por aqueles dias a capital era um verdadeiro caldeirão borbulhante, um autêntico vulcão de movimentações políticas, pelo que os meses que se seguiram ao 25 de Abril foram de intensa actividade, manifestações, comícios, golpes e contra golpes, tendo eu passado por tudo isto enquanto militar, e participado mesmo em algumas acções como o 28 de Setembro, o 11 de Março, e por centenas de " manif’s " a que perdi o conto, dezenas de reuniões de soldados e marinheiros, e digerido em passo de corrida toda a cartilha da esquerda à extrema-esquerda.

Uma vez consegui mesmo mobilizar quatro ou cinco autocarros pejados de fuzileiros, que se deslocaram a Évora, para apoiar não sei que manifestação de operários e camponeses alentejanos, certamente vez única em que a esta cidade foram dados a ver de uma vez só tantos “filhos da escola”, ou da “Briosa”. Diga-se em abono da verdade que no café Arcada não coubemos todos à uma, pelo que tivemos que aguardar vez, em fila, como já era hábito fazermos nos refeitórios das unidades e das bases de onde viéramos. Nunca tantas gaivotas tinham sido vistas em terra, ainda por cima tão longe do mar.

A injustiça para com o Chile e Salvador Allende estava viva no espírito de todos, pelo que havia que evitar em Portugal, idênticas manobras, o que significava que ao menor alarme aí estavam os soldados e marinheiros, filhos do povo, disponíveis, armados e gritando; “a reacção não passará”, “soldados unidos vencerão”, “o povo unido jamais será vencido”, e tantas outras palavras de ordem que fizeram escola e ficarão para sempre gravadas na memória de tantos de nós.

Nem sei como tantas dessas manifestações e tantos dos controlos de pessoas e viaturas não redundaram em mais mortes, foi puro milagre, já que o mínimo incidente era suficiente para gritar; reaccionário ! E atirar a matar, pois as armas, essas, na época andavam quase sempre connosco, à bandoleira. Mas o 25 de Novembro só o entendi passadas mais de duas décadas, o que não obstou que tivesse nesse dia, generosamente, disponibilizado a minha pessoa, e a minha vida, para lutar pela revolução que nos tragava.

Eu, e tantos outros como eu, creio sinceramente não termos percebido na altura qual o lado correcto a defender. Confiava-se nas chefias, pronto, chefias essas que manobravam nos bastidores os cordelinhos da política, que a dominavam, ocupavam, que ditavam o percurso do poder, sempre ou mais que nunca ondulando como as bandeirinhas, que mudavam com a mesma facilidade com que o vento muda de sentido, e que dispunham de nós, a seu bel-prazer, quais peões num tabuleiro de xadrez. Só mais tarde percebi o verdadeiro significado da expressão “carne para canhão”, e muito mais tarde ainda entendi porque não recrutam homens já feitos e maduros, antes jovens, tão generosos quão ignorantes da verdadeira razão por que procurarão a honra, serão patriotas ou darão as próprias vidas por causas quantas vezes a léguas dos seus princípios.

Pelo que, animado de tão justos propósitos, eu e mais cerca de cem camaradas de armas oriundos de diversos aquartelamentos e companhias, passámos o dia fatal na “Casa do Marinheiro”, ali para a Rua do Arsenal, armados até aos dentes, tudo acompanhando pela rádio e Tv, e pelas comunicações vindas do nosso comando, nervosos, fumantes, expectantes, na perspectiva de entrarmos em acção, em combate, e só noite dentro, por ordens sensatas do comandante e Almirante Rosa Coutinho, mais conhecido por “Almirante Vermelho”, desmobilizámos e regressámos aos quartéis.

Pergunto-me muitas vezes a mim mesmo que teria sido de mim e dos meus companheiros, se a sensatez desse Almirante não tivesse prevalecido ? Há mesmo quem afirme ter sido medo do confronto, já que na realidade era o poder que estava em causa, o governo da nação, a viragem de rumo, a continuidade ou a morte da revolução e o encarreirar nos trilhos da democracia.

Quantos de nós teríamos tombado ?  Quantos camaradas teriam morrido ?
Porquê ? Que democracia interrogo-me agora.
Por que causa ignorada ?

Sim, porque no reboliço dessa época, saber se a nossa causa era a justa, era tão fácil como hoje desvendar a chave do totoloto, estava-se com um lado ou com outro, como calhava estar-se no passeio esquerdo ou direito de uma qualquer rua.

Por sorte ou por mero acaso uns venceram, mas, tendo vivido a febre por dentro, ainda hoje acredito que só por casualidade tal aconteceu, só por isso.


Ou por medo...  

P.S. – Texto já anteriormente publicado no jornal Diário do Sul,  em Novembro de 2000 - Évora